sexta-feira, 10 de maio de 2013

Oswald Mosley - O Significado do Anel de Wagner

por Sir Oswald Mosley



Wagner e Shaw - Uma Síntese

O homem de ação no reino da arte é uma criatura indefesa. Se ele possuir mesmo que o início da sensibilidade que é tão essencial para a grande ação quanto para a grande arte, ele é irresistivelmente atraído para o mundo luminoso, mas dentro dele ele é um intruso ingênuo, indefeso e, de fato, patético. Ainda assim sua posição possui no mínimo a compensação de que não se espera que ele fale coisas que façam sentido, e certamente também que ele defensa suas opiniões estranhas e desinformadas inteligivelmente e de modo eficaz. Ele possui a licença do inocente tão garantidamente quanto o artista na política.

Há algum alívio nessa situação; após as duras lutas de espada na política realista onde um deslize significa a morte dialética, é agradável brincar com leves floretes em um exercício onde podemos nos fazer de tolos sem nem um arranhão. E a virada do ano é uma pausa no caminho entre dois festivais de Bayreuth, onde vivemos um pouco do temperamento das grandes sagas e refletimos sobre as possibilidades humanas.

Essa é a época de reler Shaw. Como ele era brilhante, e que visão ele possuía, que grande criatura em mente e caráter. Quanto eu gostaria de que em juventude eu tivesse então a inteligência de lhe fazer todas as perguntas que eu gostaria de fazer agora; com que trágica frequência nós sentimos isso por velhos homens que conhecíamos e amávamos quando éramos jovens. Acima de tudo, eu gostaria de lhe perguntar em relação ao Götterdämmerung se, de fato, ele havia sido um acréscimo redundante e irrelevante ao Anel, previamente concebido e por muito tempo executado como uma grande ópera, descuidadamente, quase desastradamente anexada a um épico supremo da mente e espírito humanos: ou se Wagner estava vendo novamente uma visão longínqua, mais longe ainda do que Shaw poderia ver; assim como no Parsifal ele viu para além das críticas do sofrido Nietzsche a algo muito próximo de sua terceira metamorfose - o estado desconhecido para além do Super-Homem - enquanto Nietzsche sentia apenas uma solidão intolerável na aparente apostasia do único outro mortal que podia sentir o ser além do homem.

É, certamente, possível superestimar a razão em oposição à faculdade puramente intuitiva em um grande artista. O próprio Wagner escreveu a Roeckel em 23 de agosto de 1856:

"Pode um artista esperar que o que ele sentiu intuitivamente deveria ser percebido por outros, vendo que ele próprio na presença de sua obra, se ela for arte verdadeira, sente que ele é confrontado por um enigma, sobre o qual ele, também, pode ter ilusões tanto quanto qualquer outro poderia?"

Shaw escreveu, quando se defendia de uma acusação de presunção ao interpretar Wagner de uma maneira diferente de algumas de suas opiniões expressas:

"Quase meio século se passou desde que a tetralogia foi escrita e nesse tempo o propósito de muitos atos semi-instintivos de gênio se tornaram mais claros ao homem comum do que eles eram para seus atores".

Ele poderia aqui ter interpolado sua referência a si mesmo e a Shakespeare em outro contexto, onde ele explicou que ele poderia ver mais longe, não porque ele era maior que Shakespeare mas porque eles estava de pé sobre seus ombros - um tributo encantador da posteridade aos grandes predecessores que, sempre, contém uma profunda verdade. Assim, quando Shaw disputa com Wagner seu próprio significado, me pode ser permitido disputar com Shaw alguns aspectos de sua interpretação.

O espaço aqui não permite uma recapitulação de todo seu tema, mas apenas daquela parte de sua tese que é essencial para esse argumento. Nessa questão nenhum leitor deveria tomar Shaw de segunda mão; ele deveria, ele mesmo, não apenas desfrutar do brilhantismo da exposição, mas seguir em cada movimento um dos maiores voos desse intelecto extraordinário, que só é equiparado em extensão e poder por seu Mestre. É, também, alegremente, muito livre daquela estranha palhaçada com a qual uma natureza supersensível se protege do rios de palhaços pelo estranho processo de ser o primeiro a rir. Ainda que muitas das piadas sejam interessantes, elas sempre sacodem um pouco qualquer leitor que seja absorvido nas profundezas reais do pensamento de Shaw, que são às vezes quase inteiramente escondidos pela máscara da comédia; ainda que ele fosse na verdade irlandês, os alemães poderiam achar, nesse sentido, que ele era "inglês, demasiado inglês".

Que me seja permitido assumir uma familiaridade com a obra de Shaw, e lembrar apenas os temas que afetam essa discussão. Shaw viu em O Anel uma interpretação mística da civilização moderna. Em sua opinião "Os anões, gigantes, e Deuses são dramatizações das principais ordens de homens: a saber, as pessoas instintivas, predatórias, lascivas e gananciosas; as pessoas pacientes, labutadoras, estúpidas, respeitosas e adoradoras do dinheiro; e as pessoas intelectuais, morais, talentosas que erguem e administram Estados e igrejas. A história nos mostra apenas uma ordem mais elevada que a mais alta dessas: nomeadamente, a ordem dos heróis". A única ordem de heróis que havia então aparecido era a daquela geração Siegmund de revolucionários corajosos porém ineficazes, que os Deuses do sistema existente haviam sido capazes, ainda que com alguma apreensão à época e alguns efeitos desastrosos, destruir. O caráter da geração Siegfried de heróis - a ordem de heróis que subsequentemente surgiria por um período - criou alguma discordância, ou incompreensão, entre Wagner e Shaw; este é nosso tema.

Uma chave essencial para o enigma é uma compreensão adequada do caráter de Brünhilde na tese de Shaw: Ele acredita que ela seja o "instinto descobridor da verdade na religião"; ela é o "pensamento interior e a vontade da Divindade, a inspiração da vida elevada ao superior que é seu elemento divino, e só se torna separado dela quando seu recurso ao reinado e ao poder temporal o tornou falso para si mesmo". Brünhilde é para o supremo deus Wotan, que representa a mais alta ordem de homens, sua verdadeira vontade, seu eu verdadeiro: Ele fala para ela como para si mesmo. Ela é aquela "alma na Divindade" que "cuida somente de fazer dos mais elevados melhores e dos melhores mais elevados", mas quando a Divindade estabeleceu sua dominação sobre o mundo por uma poderosa igreja, comandando obediência de sua formidável organização estatal, através de seu aliado, a lei, e quando a Divindade ela mesma se torna uma prisioneira dessas regulações, convenções, costumes, inibições, (que a igreja, no sentido de Shaw, representa) a "muito cara alma da Divindade" não pode cuidar de nada além da "confusão e destruição da ordem existente" até que ela passe "completamente para longe da Divindade, e renasça como a alma do herói". Estes parecem ser os principais temas da grande alegoria de Wagner como vistos pelos olhos de Bernard Shaw, cujos dotes extraordinários em sua plenitude, tanto de razão como de intuição, devem ainda ser reconhecidos.



Quando consideramos as propriedades do anel, o símbolo de poder que o anão Alberich forjou a partir do ouro roubado do Reno, nós nos aproximamos do ponto central do argumento. É claro que mesmo aos olhos de Shaw o anel não simplesmente denota poder através do dinheiro; isso é estranho, porque a percepção das potencialidades maiores do anel deveria ter induzido nele alguma reconsideração em sua desconsideração sumária do Götterdämmerung, como veremos depois. É verdade, de certo, que o anel nas mãos do anão usurário Alberich era simplesmente o poder do dinheiro, porque o dinheiro era tudo que ele era capaz de compreender. No máximo, o único outro uso do anel para ele era o poder sobre seus semelhantes - seu irmão artesão Mime e os nibelungos em geral - por uma satisfação da vontade de poder no estreito sentido adleriano do desejo de dominar. No mínimo, essa é a vontade de poder do homem que encontra um deleite cruel em usar o chicote e impor obediência, sem propósito a não ser a realização das mais baixas necessidades de luxúria, luxo e do prazer mais mundano, a opressão. Mas o anel, como todo poder em mãos mais delicadas, poderia servir para propósitos bem diferentes; ele poderia se tornar o instrumento da vontade pela mais alta realização a mais sublime e bela criação. Wotan sentia como "seu máximo dever tomar o poder dessas mãos malignas e usá-lo no interesse da divindade".

Na verdade, sendo a manifestação da ordem estabelecida ele está disposto a fazer uso de métodos bem dúbios para pôr o poder nas mãos certas e mantê-lo nelas. Ele não está disposto nem mesmo a desistir do anel em troca de Freya, a deusa da beleza e da felicidade, cuja presença é essencial para a própria existência dos deuses. Os outros deuses não podem persuadi-lo de que Freya vale a pena, "já que para o supremo deus o amor não é o supremo bem, mas apenas o deleite universal que move todas as coisas vivas a labutar com vida renovada. A própria vida, com suas maravilhas concretizadas e infinitas potencialidades é a única força que a divindade pode adorar". É somente "quando Erda, a primeira mãe da vida, se ergue de seu local de repouso no coração da terra, e o alerta para que abandone o anel" que ele obedece. A razão para seu alerta é mais clara no texto do que na interpretação de Shaw, o que é estranho; por uma vez sua lucidez quase suspeito o abandona. De modo geral parece a partir do texto que ela alerta Wotan que ele "ruminará em cuidados e medos" se ele mantiver o anel que é poder; e, no que concerne esses cuidados, de qualquer forma, ela estava indubitavelmente correta! "Se então o cuidado me atormentará, a ti devo capturar, tudo deves dizer-me!" responde Wotan. Mas Erda se evade e desaparece no abismo onde os outros deuses o impedem de seguir. Assim Wotan se livra desse cuidado escuro e desconhecido e se volta para o mundo do deleite provado e conhecido. "A mim Freya! Tu deves ser liberta. Comprada com o ouro, traga-nos nossa juventude novamente! Vós gigantes, tomai agora vosso anel".

A velha ordem, o mais alto tipo de homem que a sociedade havia até então desenvolvido, falha perante a decisão suprema. Ele não sacrificará a beleza da vida para viver com o cuidado que é a única dádiva pessoal do instrumento de destino. Ele põe a alegria acima da missão. Se Shaw tivesse estudado essa passagem com um pouco mais de profundidade, ele poderia ter poupado sua censura do Götterdämmerung.

A grande questão que resta é se mesmo o herói é capaz dessa grande decisão. Foi nesse ponto que Wotan falhou - mesmo o supremo deus representando o mais elevado tipo de homem existente quando ele se deparou com a terrível condição ligada à posse do anel. Aquele que comandasse o poder do anel deveria renunciar ao amor. O anão Alberich havia sido movido pela recusa do amor a renunciar essa mais intensa felicidade humana como nenhum outro homem havia sido capaz de fazer; assim ele foi capaz de se apossar do ouro que as donzelas do Reno e todos os outros acreditavam estar a salvo, porque nenhum homem poderia se levar a essa renúncia final. Era mais difícil para o supremo deus, o mais supremamente dotado entre os homens, renunciar ao amor, porque todo amor e beleza eram seus, do que para o anão que o amor havia rejeitado. Assim o mais elevado falhou onde o mais baixo foi bem sucedido.

Shaw percebe em outro contexto que Wotan "não podia se forçar a abandonar o amor", mas ele não parece em sua análise da quarta cena de Das Rheingold ter compreendido o verdadeiro potencial do deus voltar as costas sob os alertas de Erda, para longe dos cuidados de uma missão suprema rumo à escolha mais fácil e sempre atrativa do deleite protraído. Mas é nesse momento, tanto no texto como na interpretação de Shaw, que o deus primeiro percebe sua própria inadequação: ele sabe como a velha ordem falhou, mas Shaw atribui isso mais a uma variedade de razões individualmente válidas do que à falha no teste supremo de escolha entre alegria e destino. Agora ocorre ao deus pela primeira vez, conforme ele adentra Valhalla, o pensamento de que a velha ordem deve ser superada; a força vital deve ascender novamente do deus ao herói, "à criatura em quem o pensamento inefetivo terá se tornado vontade e vida efetivas". Shaw poderia aqui ter citado um dos motivos mais profundos e vibrantes de Nietzsche. "Seinen Willen will nun der Geist, seine Welt gewinnt sich der Weltverlorene". O mundo aguardava o momento heróico, que combina mente e vontade.

Permanecia a questão sobre se o herói seria grande o suficiente. O jovem Wagner respondeu "sim" em Siegfried, e o velho Wagner respondeu "não" em Götterdämmerung: acho que é esse o ponto que Shaw deixou passar; (talvez possamos ver agora mais longe que Shaw, já que estamos de pé em seus ombros). Mas esse pessimismo do velho e sábio Wagner não precisa ser a palavra final: um homem com um senso tão profundo do ser orgânico da natureza e do destino jamais pensaria em termos de palavras finais. Após Siegmund ter falhado, veio Siegfried que foi bem sucedido por um tempo; então deve vir a terceira grande onda. Mas esse triunfo, esse feito supremo, o dom sagrado da criação, ainda, e sempre, demanda o mesmo preço, impõe a condição férrea da última renúncia; todo amor menor deve passar para que o amor maior possa ser realizado. Assim o homem atinge a apoteose platônica, de uma bela forma a todas as belas formas.

É nesse ponto que devemos passar além de Shaw que vê no Götterdämmerung, como Nietzsche viu no Parsifal, a traição do herói, o homem superior que ultrapassa a humanidade presente; ambos acreditavam nele, por razões bem diversas, como sendo não apenas desejável como essencial. Porém, seria a visão de Wagner uma abnegação da concepção superior, uma reversão à coisa que havia sido superada, ou uma nova e necessária superação do superior, que ainda era inadequado ao propósito supremo? No Zaratustra, após o leão que representa o super-homem, vem a criança que combina tanto a vontade de realização como a vontade de beleza, "ein aus sich rollendes Rad, eine erste Bewegung, ein heiliges Ja-sagen". Se este, de fato, era o sonho de Wagner, Nietzsche não poderia reclamar, e Shaw não o faria; porém nenhum dos dois percebeu isso.



Mas primeiro vejamos porque Shaw pensou que Siegfried era o fim natural, lógico e perfeito do grande épico; uma concepção que, em sua opinião, tornava o Götterdämmerung uma mera grande ópera, um reparo irrelevante independentemente do quão inspirada fosse a música, uma reversão banal a um drama trivial de amor humano. Siegfried era para Shaw a idéia suprema, para além da qual ele não podia enxergar; e, exceto por seu momento místico na terceira metamorfose que ele admitiu não compreender, o mesmo é verdadeiro em relação a Nietzsche.

Siegfried é o herói revolucionário das sagas nórdicas; Siegfried, também, é helenismo: a união sonhada por Goethe entre os movimentos clássico e romântico tornada realidade. Encontrá-lo é, de fato, um momento de arrebatamento para naturezas sensíveis que vivem sob a civilização contemporânea: não apenas elas dizem, "verweile doch du bist so schön", mas a bela memória daquele momento, em um mundo tão aquém dela, os aprisiona para sempre. É inconcebível, um pensamento amargo demais, que, quando ele finalmente chega, mesmo Siegfried falha. Quão grande deve ser o esforço de mente, vontade e espírito para perceber que deve até mesmo haver um além Siegried. É o gênio eterno de Wagner somente que vê a necessidade final e sente a beleza final na terra encantada da sombra e da luz que se misturam, onde a arte na música e na poesia prevê o pensamento.

Para Shaw, o Siegfried triunfante - cavalgando através das chamas da convenção e da inibição, após a derrubada da velha ordem, rumo a seu casamento com a verdade divina para a conquista de um novo mundo revolucionário - era o sonho que devia se tornar realidade, após a amarga falha daquele movimento de homens que ele conheceu tão bem, a geração de Siegmund, para quem os deuses haviam dado apenas uma dádiva, a arte de viver sem felicidade. Era cedo demais para saber e, certamente, cedo demais para encarar a necessidade daquele último esforço, que nós agora conhecemos e encaramos; há algo além mesmo do próprio Siegfried, e esse algo deve vir.

Mas quão longe Siegfried nos levou em relação ao presente. "Eu construí com minha razão um mundo otimista sobre princípios helênicos, acreditando que nada era necessário para a realização de tal mundo além  de que o homem o desejasse. Eu concebi a personalidade de Siegfried", escreveu Wagner, nos dias em que ele não compreendia as limitações da vontade pura, aquela primeira necessidade de todas as ações humanas efetivas, mas não o único dom essencial. Previamente, como Shaw escreveu, "ainda que os homens sentissem todo o encanto da vida em abundância e o abandono a seus impulsos, eles não ousavam, em sua profunda desconfiança de si, concebê-la senão como uma força fazedora do mal - uma que deve levar à ruína universal a não ser que posta em cheque e literalmente mortificada pela auto-renúncia". Wagner e Nietzsche, nessa concepção suprema que realizaram juntos, nos livraram das correntes de séculos, e, nesse sentido, nós devemos nos sentir em relação a ele como Goethe sentia em relação a Lutero. Não é de surpreender que para Shaw, como para Nietzsche, Siegfried era o bastante. Aqui estava o novo homem "não se importando em nada com o ouro", desde cuja fronte olhava a própria natureza superior de Wotan, o olho que lhe custou desposar e manter a ordem estabelecida do velho mundo. Siegfried incorporava os reais desejos de Shaw: "É necessário gerar uma raça de homens nos quais os impulsos doadores de vida predominam. Nós devemos, como Prometeu, nos dispormos a trabalhar, a fazer novos homens ao invés de torturar em vão os antigos". Shaw ainda tinha em si muito da alegre "exultação do anarquista destruindo somente para limpar o terreno para a criação", como ele escreveu do Siegfried cantando enquanto forjava a espada. Mas após limpar o terreno vem a criação, e é a falha de Siegfried sob esse supremo teste que Wagner dramatiza em Götterdämmerung. Essa obra-prima não era uma irrelevância mas a relevância suprema; ela apresenta a questão final.

Esse ensaio se torna o que Shaw denunciou como uma "perversão de inventividade". Ele escreveu "a catástrofe final da saga não pode por qualquer perversão de inventividade ser adaptada ao desenho alegórico perfeitamente claro de Rheingold, Walküre e Siegfried". Bem, vejamos. Nós podemos certamente acompanhar Shaw ao ponto em que Siegfried derrotou Wotan e a velha ordem, passou incólume pelas chamas das regras, regulamentos e inibições do sistema, para despertar a verdade divina na forma de sua noiva destinada Brünhilde, e a desposou com o anel do poder. A revolução ocorreu, o novo mundo é conquistado, o épico está completo. Por que, então, Wagner não para no fim de Siegfried? - pergunta Shaw. E nós bem podemos perguntar, também, por que Wagner considera necessário dar início ao Götterdämmerung e enviar o herói em busca de novas "aventuras que levam a sua queda e à ruína de toda ordem e beleza na terra", a única consolação sendo a mensagem final que Shaw importantemente deixou passar, o retorno da natureza para ainda uma outra renovação após o descanso e paz do esquecimento, o presságio de renascimento no motivo recorrente do destino provando, afirmando e anunciando outra grande irrupção de força vital.

A resposta é, certamente, que isso é simplesmente o que ocorre na vida real, ou tem acontecido até então; e vinte anos depois o mais velho e mais sábio Wagner sabia disso. Ele também sabia, em sua intuição final, que havia vida para além de tudo que ele havia previamente concebido e, também, uma esperança superior. Siegfried falhou pela mesma razão que até os heróis falham; ele era capaz de heroísmo humano mas não de amor divino. Para realizar esse amor superior que é o pré-requisito da realização suprema ele tinha que renunciar aos amores menos da humanidade que sempre tinha sido a condição do anel. Como Alberich, como o próprio Wotan, ele tinha que pagar o preço do anel, a terrível penalidade do poder, fosse para usá-lo para fins nobres ou ignóbeis. Ele foi chamado nesse ponto de vitória e oportunidade suprema a renunciar ao amor. Ele falhou em renunciar à alegria em prol do destino. Isso era mais fácil para o anão ganancioso que as belezas do amor já haviam desprezado; é, sempre, mais fácil para todos os Verneiners, para os negadores da vida da triste tradição puritana que conseguem desistir da vida tão facilmente, porque eles não possuem vida. Era mais difícil para o herói, para o helenismo, com toda a natureza, toda a vida, todo o amor, a luz solar e as flores dos céus dentro de si. É mais fácil para eles renunciar o que eles nunca tiveram; é mais difícil renunciar quando se tem tudo. Porém a grande renúncia era para ser não a negação, mas a suprema afirmação: o herói renunciando até mesmo aos deleites do amor humano em prol da força vital, em dedicação à vitória de formas supremas. Para que ele pudesse realizar o propósito de Erda cujo labor eterno era o "impulso da energia vital do mundo rumo a organizações superiores". Toda vida superior deve servir a este propósito, e Siegfried era essa vida. Ele tinha que renunciar ao inferior de modo a alcançar o superior. Ele tinha que deixar de lado o humano, e mesmo o super-humano, em serviço do eterno; não porque ele carecia de vida mas porque ele a possuía em abundância, não para negar mas para afirmar, não por frustração mas por uma realização superior. Ele foi chamado a este destino superior e falhou - ele era inadequado, ele não era o instrumento final da força vital. Ele havia conquistado a revolução e desposado a verdade divina com o anel do poder; este não era o fim mas apenas a oportunidade para suprema criação. Aqui o deixamos no fim de Siegfried; então vem o Götterdämmerung.



Agora ele parte rumo a "aventuras"; ele desperdiça seu tempo se divertindo, rindo e vivendo, já que é bom rir e viver até o destino sorri com o sorriso que põe fim à gargalhada; bebe e engole a poção; se apaixona por uma mulher e perde mais tempo com frivolidades; volta contra si mesmo, por seus próprios erros, o poder da força vital que está dentro dele; transforma a verdade divina de sua inspiração em uma divindade vingativa, ou, ainda pior, uma mulher ciumenta; e finalmente morre supremamente, percebendo na última visão de seu heroísmo a verdade que ele podia ver novamente, que ele havia falhado porque se rendeu a uma fraqueza que era humana, demasiado humana.

Até o momento de destino quando o anel lhe trouxe, pelo poder, a oportunidade suprema, e a possibilidade de união com a verdade divina, a vida de Siegfried era a preparação correta do artista em ação para a realização final. Cantar com os pássaros na floresta e saborear experiências, "conflitos onde se aprende a interpretar o sentido da natureza", é um treinamento e desenvolvimento melhor para a missão vindoura do que rastejar por algum claustro sombrio onde o homem se ilude naquelas torpes, protetoras e uterinas sombras que ele combate ao invés de servir realmente ao "Geist der stets verneint". A vida é um treinamento melhor que a negação, mas no momento do destino, da realização, todos esses impulsos criativos da vida devem ser fundidos em um único propósito decisivo. Como Schiller teria posto: Bleiben die Blumen dem blühende Lenze scheme das Schöne und flechte dich Kränze... Aber dem männlichen Alter ziemt's, einem ernsteren Gott zu dienen.

O mundo aguardou Siegfried como adulto, mas ele não estava lá: essa é a tragédia do Götterdämmerung. Não era, como pensou Shaw, uma reversão à "panacéia do amor"; Wagner sucumbindo à "panacéia quando sua filosofia se exauriu". Não era "a concepção do amor como realização de nossa vontade de viver e consequentemente nossa reconciliadora com a vida e a morte", algo que tão "completamente satisfazia o desejo por vida que depois dele a vontade de viver deixa de nos incomodar, e estamos finalmente contentes em alcançar a mais elevada felicidade da morte". É verdade que Wagner havia escrito: "Você pode conceber uma ação moral cuja raiz não seja a renúncia?" Ainda assim renúncia, não negar a vida mas realizar a vida, é encontrar uma síntese de vida e amor em um nível mais alto; a vida maior através do amor, o conflito de Shaw entre vida e amor estava aí ultrapassado. O conceito wagneriano de amor era mais próximo ao "Wer immer strebend sich bemüht, den können wir erlösen" de Goethe.

A mensagem do Götterdämmerung era que se os heróis estão aquém daquela grande demanda eles falham, e com eles todas as suas conquistas - seu mundo inteiro - passam, enquanto a natureza se prepara para outra renovação da força vital. Porque o herói não é chamado para negar a vida mas para realizá-la, ele precisava de Ganzheit [plenitude]. O artista não deve se mutilar, mas concentrar todos os seus poderes, toda sua completude mental e física adquirida em sua obra suprema quando o tempo vier. Ele deve ser um homem completo, mas sua Ganzheit deve ser aplicada, e não dissipada. Chega um ponto em que a vida deve ser completamente dedicada. O anel do poder foi conquistado, as chamas foram ultrapassadas, a união com a possibilidade infinita da verdade divina alcançada - ainda assim Siegfried buscou "aventuras" ao invés da criação suprema. Assim Siegfried morreu, após lhe ter sido concedida uma última iluminação. A verdade divina nascida do deus entra novamente nas chamas; dessa vez as chamas da pira funeral de Siegfried. O Valhalla da velha ordem perece, também, no holocausto do mundo que o herói não pôde salvar, mesmo depois de ele o ter conquistado. A Natureza, o Reno, se ergue para tomar novamente o anel do dedo do herói morto, desde onde nenhum poder menor poderia arrancá-lo. A paz vem através da natureza; e cura e esquecimento enquanto a força vital prepara outra renovação.

Shaw não consegue ver isso; porém em sua descrição quase derrisória dessa cena ele fornece a prova final: "No poema original, Brünhilde atrasa sua auto-imolação na pira de Siegfried para ler aos coristas reunidos uma homilia sobre a panacéia do amor" mas "isso desaparece na trilha completa do Crepúsculo dos Deuses, que não foi terminada até que ele estava prestes a terminar o Parsifal, vinte anos após a publicação do poema". "Ele cortou a homilia" e "para o tema principal na conclusão ele seleciona uma passagem arrebatadora cantada por Sieglinde no terceiro ato das Valquírias quando Brünhilde a inspira com um senso de seu destino superior como a mãe do herói não nascido". Quid est demonstratum: Götterdämmerung foi escrito para mostrar que o caráter de Siegfried era inadequado para seu destino, e devia falhar; o herói conquistador do fim ainda estava por vir; daí a reversão final para o grande tema na última mensagem da verdade divina aos homens o ciclo completo do Anel.

Somente Wagner viu além - além da visão tanto de Nietzsche quanto de Shaw - a uma nova forma, sombria, ainda obscura, visível apenas em seu contorno, mas ainda assim uma forma superior: a forma misteriosa de Parsifal. Aqui está o início da vontade de poder e da vontade de beleza na união mística que é conquistadora de tudo: vem o homem que chora porque matou um cisne ao invés de exultar por poder matar um dragão, que segura a lança onipotente com a condição de não fazer uso dela. Shaw devia ter entendido que é possível tanto matar dragões como chorar pela morte de cisnes  - na verdade ele o fez, ao menos prefigurativamente. Este era o caráter do homem, que, na prática da história, Shaw mais admirava. Ele até mesmo o introduziu a sua obra por um momento passageiro com a observação dúbia de que se houvesse homens suficientes como ele no mundo "todas as nossas instituições políticas, eclesiásticas e morais desapareceriam para abrir caminho para uma ordem superior".

Na visão de Wagner, o novo ser era visto de modo turvo, muito sobriamente através do véu de um tempo que ainda não havia chegado. Mas nós podemos compreender que esses são homens que estarão prontos para renunciar ao menor de modo a alcançar o maior, que desistirão da alegria para servir ao destino porque alguns são chamados para lutar supremamente para que formas superiores possam vir. Amor maior homem algum possui senão este; que ele renuncia à plenitude da vida presente para servir à vida futura que será a partir de então trazida ao mundo: isto é "amor que ilumina, rindo da morte". Mas para tornar este amor perfeito, ele deve primeiro possuir vida e amor em seu ritmo completo; ele não nega a vida mas, através de sua renúncia final, realiza o propósito criativo da vida. Ele deve ter dentro de si "die ewigen Melodien" e ser "um com todas as coisas superiores". De outro modo a síntese de vida e amor não estaria ali. Ele não seria o herói final, o símbolo daquela geração dos homens superiores que estão prontos para dar tudo para que tudo possa ser conquistado. É isso que os homens devem almejar se tornar; essa, eu creio, é a mensagem do Anel.


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