sexta-feira, 29 de março de 2013

Hong Kyung-Ji & Paul Shepard - O Juche como Ideologia de Terceira Posição

por Hong Kyung-Ji e Paul Shepard



O Juche é a ideologia estatal da RDPC - a República Democrática Popular da Coréia. Ele é usualmente traduzido como "Auto-Confiança", ou "o Espírito de Autossuficiência", mas pode ser traduzido literalmente como "corpo principal". A Idéia Juche sustenta que a tarefa mais importante da construção socialista é "moldar o Povo". Kim Il Sung - seu principal autor - descreve o significado do Juche como "O Homem é o mestre de tudo e decide tudo".

A Idéia Juche está enraizada na noção perene de que somente a humanidade possui consciência e criatividade - algo expressado pelos coreanos no conceito singular de "Chajusong". Os outros conceitos da Idéia Juche podem ser resumidos pelos seguintes pontos:

1 - A política deve refletir a vontade e as aspirações das massas e empregá-las plenamente na revolução e na construção.

2 - Métodos de revolução e construção devem ser adequados à situação do país.

3 - A tarefa mais importante da revolução e construção é moldar o povo ideologicamente como comunistas e mobilizá-los para a ação construtiva.

Enquanto a República Democrática Popular da Coréia é muitas vezes chamada de "o último Estado comunista", por muitos comentaristas políticos ocidentais, há na realidade, muita ignorância no que concerne a posição do Juche em questões políticas. Enquanto de fato, o Grande Líder General Kim Il Sung começou seu treinamento político como marxista, ele compreendeu o marxismo como método de mobilizar as massas contra o imperialismo. Posteriormente, em particular, após o racha sino-soviético, a RDPC se alinhou com a China. Isso não deveria surpreender, já que chineses e coreanos partilhavam de condições sociais similares à época.

Há, porém, algumas diferenças. O General Kim Il Sung se opôs à Revolução Cultural na China acreditando que ela havia ido longe demais. De fato, uma interpretação do Juche é "colocar as coisas coreanas na frente", significando que a cultura coreana deve ser sustentada e o imperialismo cultural resistido, já que somente o povo de uma nação pode determinar qual será a idéia revolucionária para aquela nação. O Querido Líder Kim Jong Il rejeitou a idéia marxista de que "o proletariado do mundo não possui pátria", e rascunhou na margem: "Eu sou um comunista, eu sou coreano. Eu não vejo contradição".

Apesar da sua ênfase na especificidade do Juche para o contexto histórico-geográfico distinto da RDPC, o Estado norte-coreano não obstante vê seu grande experimento social como aliado a outras nações em desenvolvimento e terceiro-mundistas "oprimidas" lutando para construir o socialismo "a seu jeito". Em um de seus ensaios, chamado "Sobre a Preservação do Caráter Juche e do Caráter Nacional da Revolução e da Construção", o Grande líder Kim Il Sung disse:

"Manter o caráter Juche da revolução e da construção significa que as massas populares moldam o destino de seu país e nação e seu próprio destino independentemente e criativamente ao serem mestres de seu destino. Sustentar o caráter nacional significa preservar e desenvolver as boas qualidades da nação e expressá-las em todas as esferas da vida social".

Para dizer de modo diferente, Kim Il Sung compreendeu que o povo de uma nação é seu principal recurso. Manter o caráter europeu da Europa, por exemplo, não estaria fora de linha com os ideais do Juche. Para esse fim, portanto, a Coréia Juche apoiou revoluções nacionais e populistas, e construiu relações com os líderes dos países em desenvolvimento, como Nasser do Egito, o Coronel Muammar Gadaffi da Líbia, e o Imã Ruhollah Khomeini no Irã, vendo todas essas forças como a expressão genuína da vontade revolucionária popular. Apesar disso, eles insistiam na exclusividade mútua de suas instituições políticas e na soberania absoluta das nações individuais. A RDPC tem sido descrita como um "Estado fortaleza".

Na prática, o Juche é acompanhado por um intenso nacionalismo que enfatiza a autarquia econômica e um espírito marcial conhecido como Songun. Talvez, mais notável para ocidentais seria a incorporação do próprio conceito tradicional de piedade filial (hyo em coreano). Segundo o pensamento tradicional confucionista, o relacionamento entre líder e sujeito é paralelo ao de um pai e um filho. No Juche, isso é traduzido na teoria da vida sócio-política e liderança revolucionária onde o povo coreano é mantido unido em um relacionamento mútuo seja na vida ou na morte, na tristeza ou na alegria e daí em diante. A devoção apaixonada do povo coreano ao Grande Líder General Kim Il Sung e ao Querido Líder Camarada Kim Jong Il, são as manifestações externas dessas idéias, muitas vezes considerada pelo Ocidente como um "culto de personalidade". O Juche sustenta uma visão neo-hobbesiana da sociedade, propondo que o Líder (atualmente Kim Jong Un) é análogo ao cérebro humano e o Partido é análogo ao sistema nervoso - transmitindo as instruções do cérebro. O Povo, finalmente, serve como carne e osso, pondo em prática essas instruções.

Em um documentário, um jornalista pergunta a seu guia, "qual é sua opinião do Querido Líder; você acha que ele está fazendo um bom trabalho?" O guia responde, "Há algo estranho aqui. Como eu posso saber? Como eu, uma pessoa comum, poderia conhecer a grande e profunda Idéia?"

Na RDPC, a mídia, incluindo cinema, música, e as artes são consideradas como parte da vida política. Para o povo coreano, a mídia é um instrumento para inculcar a ideologia Juche e a continuação da luta revolucionária da nação. A cultura da Coréia Juche está profundamente enraizada na necessidade de pegar o melhor do passado, descartando os elementos capitalistas. Estilos e temas populares na literatura, arte, música e dança são estimados como expressando o espírito verdadeiramente único da nação coreana. Etnógrafos devotam muita energia para restaurar e reintroduzir formas culturais que possuam o espírito proletário ou popular adequado.

Em Pyongyan, a seleção mais ampla de expressões culturais é oferecida, e mensagens revolucionárias são parte da vida quotidiano. "Esquadrões de arte de propaganda" viajam para locais de produção nas províncias para realizar leituras de poesia, peças de um ato, e cantar canções para "parabenizar os trabalhadores por seus sucessos" e "inspirá-los a sucessos ainda maiores através de sua agitação artística". De fato, a mídia da RDPC empreende um tipo de mitopoiesis nunca vista desde o tempo dos Faraós. Por exemplo, segundo fontes oficiais, Kim Il Sung estava sendo levado para o Céu após a morte por um bando de grous quando - em resposta ao pesar dos coreanos em lamentação - foi acordado que ele não seria levado, e que ele permaneceria em sono eterno. É por isso que Kim Il Sung porta o título de Eterno Presidente e ainda é considerado o Chefe de Estado da RDPC. Também, segundo fontes oficiais, uma nova estrela apareceu no céu quando Kim Jong Il nasceu.

O Juche pode até mesmo ser considerado um tipo de Nacional-Socialismo, já que os coreanos são considerados como formando uma comunidade de sangue e possuindo uma história e cultura contíguas - a herança da RDPC é celebrada e seu Estado é associado ao da Coréia antiga semi-mítica. É pensado que a Nação é eterna e que os coreanos sempre falarão coreano. De fato, B.R. Myers afirma em A Raça Mais Pura: Como os Norte-Coreanos se veem que aspectos da ideologia Juche - especificamente a deificação da figura do "Líder" estão mais próximos do que ocidentais considerariam como sendo de "direita". Myers escreve:

"A ideologia dominante da Coréia do Norte [...] pode ser resumida em uma única afirmação: O povo coreano possui um sangue puro demais, e portanto é virtuoso demais, para sobreviver nesse mundo maligno sem um grande líder paternal. [...] Eu dificilmente precisaria apontar que se tal visão-de-mundo racialista fosse ser situada em nosso espectro esquerda-direita convencional, faria mais sentido enquadrá-la na extrema-direita do que na extrema-esquerda".

A importância da personalidade humana e da responsabilidade estão claras aqui. Kim Il Sung e seus seguidores acreditavam firmemente no que se poderia chamar de uma compreensão "heróica" da história. Ao invés de abraçar o materialismo dialético do marxismo, a filosofia do Juche orgulhosamente situa o homem no centro de todo o mundo, ecoando o conceito nietzscheano da Wille zur Macht. Ademais, o papel dos líderes no Juche, de muitas maneiras, se assemelha ao que Evola idealizou. Tudo isso faz do Juche algo muito distante das forças mecânicas cegas de Marx e se assemelha muito mais às noções da Terceira Posição da Europa do século XX, notavelmente do Führerprinzip dos nazistas.

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