sexta-feira, 8 de março de 2013

O Gênio de Chávez

por Fidel Castro



O Presidente Chávez apresentou seu relatório anual ao Parlamento Venezuelano sobre atividades realizadas em 2011 e seu programa para 2012.

Após cumprir com afinco as formalidades requeridas por essa importante atividade, ele abordou as autoridades estatais oficiais, membros do parlamento de todos os partidos, e apoiadores e membros da oposição que vieram à Assembléia para participar no ato mais solene do país.

Como de costume, o líder bolivariano foi gracioso e respeitoso para com todos os presentes. Quando alguém pediu o palanque para fazer um esclarecimento, ele concedeu assim que possível. Quando uma dos membros do parlamento, que havia saudado calorosamente Chávez como o fizeram outros membros da oposição, pediu para falar, em um grande gesto político Chávez interrompeu sua apresentação e concedeu-lhe o palanque.

O que me surpreendeu foi a severidade extrema do rechaço, lançado contra o presidente com palavras que realmente colocaram à prova o cavalheirismo e sangue frio de Chávez. As afirmações da congressista foram indubitavelmente um insulto, ainda que não tenha sido essa sua intenção. Ele foi tão somente capaz de responder calmamente à ofensiva palavra "ladrão" que ela havia usado para julgar a conduta do presidente em termos das leis e medidas adotadas.

Após verificar o termo exato que foi utilizado, Chávez respondeu ao desafio individual para debate com uma frase elegante e sedada, "Uma águia não caça moscas", e sem acrescentar outra palavra ele calmamente procedeu com esse relatório. Isso representou uma insuperável demonstração de agilidade mental e auto-controle.

Outra mulher, de origens humildes inquestionáveis, expressou seu assombro com palavras comoventes sobre o que ela havia acabado de testemunhar e a maioria esmagadora irrompeu em aplausos. Julgado pelo volume, os aplausos pareciam vir de todos os amigos de Chávez e de muitos de seus adversários também. O relatório de Chávez durou mais de nove horas sem que as pessoas perdessem o interesse. Talvez por causa desse incidente, suas palavras foram ouvidas por um imenso número de pessoas.

Muitas vezes eu tenho dado longos discursos sobre tópicos difíceis, sempre buscando tornar compreensíveis as idéias que eu estava transmitindo. E eu estava realmente incapaz de explicar como aquele soldado de origens humildes era capaz de manter sua mente tão ágil e seu talento incomparável para ministrar tal apresentação sem perder a voz ou a força. Para mim a política é uma batalha de idéias decisiva e extensiva. 

Publicidade é o trabalho de publicitários, que talvez conheçam as técnicas para conseguir ouvintes, espectadores e leitores para fazer o que lhes dizem para fazer. Se essa ciência, ou arte, ou o que seja é empregada para o bem de seres humanos, eles merecem algum respeito; o mesmo respeito que merecem as pessoas que ensinam como pensar. A Venezuela hoje é o palco de uma grande batalha. Inimigos internos e externos da revolução prefere o caos - como Chávez disse - ao desenvolvimento justo, organizado e pacífico do país.

Estando acostumado a analisar os eventos que ocorreram há mais de um século, e a observar, com grandes bases para julgamento, a história atribulada de nosso tempo e o comportamento humano, se aprende a prever o desenvolvimento futuro de eventos.

Promover uma ampla Revolução na Venezuela não era tarefa fácil. A Venezuela é um país pleno de gloriosa história, mas extraordinariamente rico em recursos que são de vital importância para as potências imperialistas que tem, e continuam a mapear diretrizes no mundo. Líderes políticos como do tipo de Romulo Betancourt e Carlos Andres Perez carecem até das mínimas qualidades pessoais para realizar essa tarefa.

Ademais, Betancourt foi excessivamente vaidoso e hipócrita. Ele teve muitas oportunidades para aprender sobre a situação na Venezuela. Enquanto jovem ele foi membro do Politburo do Partido Comunista da Costa Rica. Ele possuía uma forte compreensão da história latinoamericana e do papel do imperialismo, de taxas de pobreza, e do saque impiedoso de recursos naturais na América do Sul.

Ele não poderia ignorar que em um país vastamente rico como a Venezuela, a maioria da população vivia em extrema pobreza. A documentação arquivada é prova irrefutável daquela realidade de vida. Como Chávez explicou muitas vezes, por mais de meio século a Venezuela foi o principal exportador de petróleo do mundo. No início do século XX, navios de guerra europeus e ianques intervieram para apoiar um governo ilegal e tirânico que entregou o país para monopólios estrangeiros. É bem sabido que fundos incalculáveis fluíram da Venezuela para inchar a riqueza de monopólios e da oligarquia venezuelana.

Eu lembro quando eu visitei a Venezuela pela primeira vez - após o triunfo da Revolução, para agradecer pelo apoio e amistosidade prestados a nossa luta - o petróleo valia por volta de dois dólares o barril. Depois quando fui à Venezuela para tomar parte na cerimônia de posse do Chávez, o dia em que ele prestou um juramento sobre a "constituição agonizante" segurada por Calderas, o petróleo valia sete dólares o barril, apesar de 40 anos terem se passado desde minha primeira visita e quase 30 anos desde que o "distinto" Nixon havia cancelado a convertibilidade direta do dólar americano para o ouro e os EUA começaram a comprar o mundo com pedaços de papel.

Por um século, a Venezuela foi uma fornecedora de combustível barato para a economia do império e um exportador de capital para países ricos e desenvolvidos. Por quê essas situações repugnantes dominaram por mais de um século? Oficiais de Forças Armadas latinoamericanas foram para suas escolas privilegiadas nos EUA, onde os campeões olímpicos das democracias lhes ministraram cursos especiais sobre como manter a ordem burguesa e imperialista.

Golpes de estado sempre foram bem vindos se seu objetivo era "defender democracias", salvaguardar e garantir esse sistema repugnante, em aliança com as oligarquias. Se os eleitores sabiam ler e escrever, se tinham casa, emprego, serviços médicos e educação não era importante desde que o direito sagrado à propriedade fosse mantido.

Chávez brilhantemente explicar essa situação. Ninguém sabe tão bem quanto ele o que aconteceu em nossos países.

Ainda pior foi que a natureza sofisticada das armas, a complexa operação e uso de armamentos modernos que demandam anos de aprendizado, o treinamento de especialistas altamente qualificados, e o custo quase proibitivo de tais armas para as frágeis economias do continente criou um mecanismo extremamente forte de subordinação e dependência.

O governo americano, empregando mecanismos que não demandavam consulta prévia com outros governos, estabeleceu diretrizes e políticas para as forças armadas. As técnicas mais sofisticadas de tortura foram transmitidas às assim chamadas agências de segurança para interrogar aqueles que se rebelassem contra o sistema sujo e repugnante de fome e exploração. Apesar de tudo isso, muitos oficiais honestos, cansados de tantas indignidades, bravamente tentaram erradicar essa traição vergonhosa contra a história de nossas lutas de independência.

Na Argentina, o oficial militar Juan Domingo Perón foi capaz de estabelecer uma política independente e favorável ao trabalhador em seu país. Um golpe militar sangrento o derrubou, o expulsou de seu país, e o manteve em exílio de 1955 a 1973. Anos depois, sob a égide dos ianques, eles novamente atacaram o governo, assassinando, torturando e fazendo desaparecer dezenas de milhares de argentinos.

Eles não foram nem mesmo capazes de defender o país durante a guerra colonial que a Inglaterra empreendeu contra a Argentina com o apoio conspiratório dos EUA e do lacaio Augusto Pinochet com sua coorte de oficiais fascistas treinados na Escola das Américas.

Em Santo Domingo, o Coronel Francisco Camaño Deño; no Peru, o General Velazco Alvarado; no Panamá, o General Omar Torrijos; e em outros países capitães e oficiais que deram suas vidas anonimamente foram a antítese do comportamento traidor incorporado por Somoza, Trujillo, Stroessner e as cruéis tiranias no Uruguai, El Salvador e outros países na América Central e do Sul. O pessoal revolucionário militar não expunha teorias elaboradas, nem isso era esperado. Eles não eram acadêmicos educados em ciência política, mas ao invés homens com um senso de honra que amavam seu país.

Mas quão longe podem homens honestos - que abominam a injustiça - ir no caminho da revolução? A Venezuela é um exemplo notável do papel prático e teórico que as forças armadas desempenham na luta revolucionária pela independência de nossos povos, como eles desempenharam dois séculos atrás sob a brilhante liderança de Simon Bolívar. Chávez, um oficial militar venezuelano de origens humildes, adentrou na vida política da Venezuela inspirado pelas idéias do Liberador da América.

Sobre Bolívar, uma fonte inexaurível de inspiração, Martí escreveu: "ele venceu sublimes batalhas com soldados descalços e seminus [...] que jamais lutaram tanto, nem lutaram melhor, no mundo pela liberdade... De Bolívar, disse ele, você só pode falar depois de escalar uma montanha para usar como plataforma [...] ou depois de livrar um punhado de povos unidos em um punho...o que ele não fez, permanece ainda por fazer hoje, porque Bolívar ainda tem o que fazer nas Américas".

Mais de meio século depois, o famoso e premiado poeta Pablo Neruda escreveu um poema sobre Bolívar que Chávez frequentemente cita. O verso final diz:

"Yo conocí a Bolívar en una mañana larga,
en Madrid, en la boca del Quinto Regimiento,
Padre, le dije, eres o no eres o quién eres?
Y mirando el Cuartel de la Montaña, dijo:
'Despierto cada cien años cuando despierta el pueblo'."

Mas o líder bolivariano não é limitado a elaborações teóricas. Suas medidas concretas são implementadas sem hesitação. Os países anglófilos caribenhos, que tem que competir com modernos e luxuosos navios cruzeiros pelo direito de receber turistas em seus hotéis, restaurantes e centros recreativos, muitas vezes pertencentes a estrangeiro, mas que ao menos geram emprego, sempre saudarão o petróleo da Venezuela, fornecido por aquele país com facilidades de pagamento especiais, quando o barril alcançava preços que às vezes excediam os 100 dólares.

No minúsculo estado da Nicarágua, a terra de Sandino, o "General dos Homens Livres", a CIA organizou a troca de armas por drogas através de Luis Posada Carriles após ele ter sido resgatado de uma prisão venezuelana. Essa operação resultou em milhares de mortes e mutilações entre aquele povo heróico. A Nicarágua também recebeu o apoio solidário da Venezuela. Esses são exemplos sem precedentes na história desse hemisfério.

O ruinoso Acordo de Livre Comércio que os ianques tentam impôr na América Latina, como fizeram no México, transformaria a América Latina e o Caribe não só na região com a pior distribuição de riqueza do mundo, o que já é. Ele a transformaria em um imenso mercado onde o milho e outros alimentos que são fontes tradicionais de proteína animal e vegetal seriam substituídos por plantações subsidiadas pelos EUA, como já está acontecendo no México. Carros usados e outros bens estão substituindo as manufaturas industriais mexicanas; oportunidades de emprego estão se reduzindo tanto nas cidades como no interior; os comércios de droga e armas estão crescendo, números crescentes de jovens de 14 ou 15 anos de idade estão se transformando em temíveis criminosos.

Nunca antes, ônibus ou outros veículos cheios de gente que até pagavam para ser transportadas através da fronteira em busca de emprego, haviam sido sequestradas e chacinadas. Os números crescem de ano para ano. Mais de dez mil pessoas estão agora perdendo suas vidas a cada ano. É impossível analisar a Revolução Bolivariana sem levar essas realidades em consideração.

As forças armadas, em tais circunstâncias sociais, são forçadas a guerras sem fim. Honduras não é um país industrializado, financeiro ou comercial, ou mesmo um grande produtor de drogas. Porém, algumas de suas cidades batem os recordes de mortes violentas relacionadas a drogas. Lá ao invés está a bandeira de uma importante base das forças estratégicas do Comando do Sul dos EUA.

O que acontece lá, e já está acontecendo em mais de um país latinoamericano, é a imagem dantesca pintada acima, da qual alguns países tem começado a escapar. Entre eles e o primeiro, a Venezuela, não só por possuir recursos naturais consideráveis, mas porque foi resgatado da ganância insaciável das corporações estrangeiras e despertou forças políticas e sociais consideráveis capazes de grandes realizações. A Venezuela hoje é bem diferente daquela que eu visitei há apenas 12 anos, que já havia me impressionado, vendo-a como uma Fênix emergindo novamente das cinzas de sua história.

Mencionando o computador misterioso de Raul Reyes, nas mãos dos EUA e da CIA após o ataque organizado e apoiado por eles em território equatoriano, que matou o substituto de Marulanda bem coo diversos jovens americanos, uma versão tem sido divulgada de que Chávez apoiava a "organização narcoterrorista FARC".

Os verdadeiros terroristas e traficantes de drogas na Colômbia são os paramilitares que forneceram drogas para traficantes americanos para vender no maior mercado de drogas no mundo: os EUA. Eu jamais falei com Marulanda, mas eu falei com honrados escritores e intelectuais que passaram a conhecê-lo bem. Eu discuti seus pensamentos e história. Ele era indubitavelmente um homem corajoso e revolucionário, o que eu não hesito em afirmar. Eu expliquei que não concordava com ele ou suas táticas.

Em minha opinião, dois ou três mil homens teriam sido mais que suficiente para derrotar um exército convencional no território da Colômbia. Seu erro foi formar um exército revolucionário com quase tantos soldados quanto o inimigo. Isso foi extremamente caro. Hoje, a tecnologia modificou muitos aspectos da guerra; as formas de luta também mudam. Na verdade, o choque de forças convencionais entre potências possuidoras de armas nucleares se tornou impossível.

Nós não temos que ter o conhecimento de Albert Einstein, Stephen Hawking e milhares de outros cientistas para compreender isso. É um perigo latente e o resultado é sabido ou deveria ser. Seres pensantes poderiam levar milhões de anos para repovoar o planeta.

Não obstante, eu sustento o dever de lutar, que em si é algo inato no homem, para encontrar soluções que permitirão uma existência mais razoável e digna. Desde que encontrei Chávez, agora como presidente da Venezuela, nos estágios finais da administração Pastrana, eu sempre o vi interessado em promover a paz na Colômbia. Ele facilitou encontros entre o governo colombiano e os revolucionários que ocorreram em Cuba, com base na busca por um verdadeiro acordo de paz e não uma rendição.

Eu não lembro de já ter ouvido Chávez promover qualquer coisa além da paz na Colômbia, nem mencionar Raul Reyes. Nós sempre abordamos outras questões. Ele particularmente aprecia os colombianos, milhões deles vivem na Venezuela e todos se beneficiem das medidas sociais efetivadas pela Revolução, e o povo da Colômbia aprecia isso quase tanto quanto aqueles da Venezuela.

Eu quero expressar minha solidariedade e apreciação ao General Henry Rangel Silva, Chefe do Comando Operacional Estratégico das Forças Armadas, e recém-indicado Ministro de Defesa da República Bolivariana.

Eu tive a honra de encontrá-lo quando ele visitou Chávez em Cuba há uns meses. Eu pude ver nele um homem inteligente, bem intencionado, capaz e ainda assim modesto. Eu ouvi sua fala calma, brava e clara, que inspirava confiança. Ele liderou a organização da mais perfeita parada de uma força militar latinoamericana que eu já vi. Esperemos que isso sirva como encorajamento e exemplo para outros exércitos irmãos. Os ianques não tiveram nada que ver com aquela parada, e não teriam sido capazes de fazer melhor.

É extremamente injusto criticar Chávez pelos recursos investidos nas excelentes armas que foram expostas lá. Eu tenho certeza de que elas jamais serão usadas para atacar um país vizinho. As armas, recursos e conhecimento devem seguir os caminhos da unidade para ver a América, como o Liberador sonhou, como a maior nação do mundo, maior não tanto pela virtude de sua área e riqueza como por sua liberdade e glória.

Tudo nos une mais do que a Europa, ou os próprios EUA, exceto a falta de independência imposta sobre nós por 200 anos.

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