sábado, 12 de janeiro de 2013

Aleksandr Dugin - Os Cavaleiros Templários do Proletariado

por Aleksandr Dugin


Todos participam em nossa política russa: engenheiros, intelectuais, burocratas, sem-teto, esquizofrênicos, mulheres, espiões, e muitos outros tipos. Pode ser dito com certeza que não há representantes somente de uma classe - os trabalhadores. Tomando a demagogia marxista na fé, os furiosos partidocratas da perestroika, por alguma razão, inculcaram um dogma na consciência das massas: os trabalhadores foram a classe hegemônica durante todo o período soviético, e agora eles deviam ser arrancados da política, esquecidos, marginalizados. E a sociedade ocidental, a qual muitos políticos russos estão tentando dolorosamente copiar, lidou com sucesso com a classe trabalhadora removendo-a da arena política. Quando a dominação do capital se tornou total e o capitalismo se transformou de sua fase industrial em uma sociedade informacional, pós-industrial, o grupo base do Trabalhador, o Produtor, o Criador de toda a realidade objetiva da existência humana foi completamente apagado diante de telas brilhantes de computador e da luz enganosa da propaganda.

Os trabalhadores desapareceram de nossa vida. Desapareceram das vistas, se transformaram em algo mais. O trabalho do trabalhador na época do gerenciamento e do know-how perdeu seu valor.

Pessoas sujas, oleosas, ásperas vestidas em uniformes com ferramentas feitas de ferro tosco foram dissolvidas na inexistência social. Mas isso não é nada além de uma ilusão ótica, uma miragem social habilidosamente fabricada. Nos fazem acreditar que tudo ao nosso redor evoluiu diretamente do dinheiro e seu poder ilimitado, foi manufaturado por máquinas "espertas" controladas por tecnocratas onipotentes de colarinho branco.

Não é nada assim. Como sempre, nas profundezas das fábricas centenas de milhares de organismos vivos se entretém, transfigurando matéria bruta em formas sensíveis. Como antes, nas profundezas da terra, idealistas com picaretas lutam com ossos densos da substância inercial, violando o conforto passivo e mórbido das rochas pedregosas. Sangue negro de veias subterrâneas jorra nas faces de cirurgiões dos poços de petróleo. Gigantes de ombros quadrados com faces de tijolo rolam aço fervente.

Na realidade, o Trabalhador não foi pra lugar algum. Ele simplesmente retornou ao subterrâneo. Traído pelo socialismo soviético degenerado, esmagado pelo laço estrangulador do pérfido capital, cuja dominação hoje não é formal e externa, mas absoluta e interna, ele olha taciturnamente para a odiosa realidade, sendo avidamente construída ao seu redor por charlatães de todos os tipos, raças e classes. Transformado de escravo de um funcionário de partido em escravo de um "novo russo", o Trabalhador é humilhado e sobrepujado como antes, mais do que antes.  Levado ao negro subterrâneo do socium, envenenado pelos substitutos eletrônicos de emoções e pseudoerotismos onipresentes, ele luta em uma jaula estreita, movendo, com a energia de sua agonia, uma máquina terrível com fachada de computador, que desmontaria como uma pirâmide de areia se não fosse por ele.

O mundo limpo de "novos mestres" empurra o Titã e um estado embrionário, atirando-lhe pedaços. "Aqui está seu meio litro de vodka Kremlyovskaya!"

Mas é realmente possível que todas as expectativas místicas conectadas à emancipação do Trabalho hajam sido desgraçadamente atropeladas, devoradas pelo verme gordo do experimento soviético? Pode realmente ser que as suspeitas da coincidência de sujeito e objeto no Trabalhador, que estão abalando os fundamentos do ser, se mostraram ser somente tolas metáforas moralizantes, ocultando por trás delas a prosaica vontade de poder da próxima gangue de funcionários gananciosos e ávidos por poder?

Isso não pode ser. A lamentável queda do Sovdep e seus profanos líderes é somente uma pausa, uma síncope no terrível despertar do Titã. O proletariado ainda não cumpriu sua missão histórica. Ele ainda não deu sua última palavra. Ele ainda não fez a Revolução.

Hoje é a época dos parasitas. Velhos, novos, nossos e estrangeiros. Pessoas usando e se apropriando daquilo que eles não criaram. Centristas vendendo radicais, chefes de empresas - e seus subordinados, os governantes - as riquezas de um grande país, a mídia de massa a consciência. Na disputa - guinchos e baforadas, tiros vindos pelas costas e mentiras gélidas.

Das profundezas do ser, o trabalhador russo contemporâneo soturnamente observa essa azáfama. Esquisito e concreto, tenaz como uma máquina, e lento como um pensador. Ele não crê e jamais crerá na demagogia social dos "rosas". Eles de novo? Não, chega. Para os "capitalistas", o ajuste de contas também será rápido. Somente o poderio denso e apaixonadamente melancólico do nacionalismo ascendente pode tocar esse povo sólido e temperado. Mas quando há palavreado sobre uma "dinastia reinante", "restauração de privilégios da nobreza", gonfalões, cossacos, ou "empresariado nacional", os patriotas encaram indiferença sorumbática: "Máscaras". Cada manhã, com o nascer do sol (ninguém a não ser essas pessoas tem pensado no sol por um longo tempo) eles rastejam de suas jaulas de apartamento de esposas gordas e estúpidas e bebês ranhosos, e se movem em passo ritmado para dentro do útero concreto da Produção. De modo que - labutando sem inspiração - persistentemente, ritmicamente, travam de modo ininterrupto uma batalha cósmica com a matéria, tão inflexível, crua, dura, tão venenosa. Trabalhadores sorumbáticos sabem - o demônio maligno da substância fez da frágil e delicada Vida, a Donzela do Sol, sua refém. É a forma roubada por uma bruta usurpação da matéria. Ela só pode ser salva pelo ato heróico, uma guerra obstinada, horripilante, impiedosa contra o gelo basilar da realidade.

Por muitos séculos e eras, os Titãs tem travado uma luta contra a entropia do Universo. O proletariado. A Fraternidade Proletária. A Ordem Proletária.

Após engolir Dionísio, depois de longas eras, eles ficaram saturados com sua carne. É por isso que eles consideram com tamanha reverência a santa intoxicação do Baco ressuscitado.

Em algum lugar acima deles, inconscientes do drama subterrâneo, ingênuos ou desonestos "aristocratas", intelectuais, comerciantes cinicamente usam os frutos da sangrenta batalha. Eles não confrontam a Matéria, livres dela pelo sacrifício voluntário dos Cavaleiros Templários do Proletariado. Eles engolem e dessacralizam troféus obtidos pelos vikings subterrâneos em um terrível poço com escuridão das maiores profundezas.

Mas a letargia não durará muito. Os trabalhadores estão reunindo determinação intelectual e espírito. Ninguém pode garantir longevidade para a escória delirante da política russa contemporânea. É claro, os olhos do proletariado estão fixos na Terra, sua eterna rival, eterna inimiga.

Mas mais cedo ou mais tarde ele olhará para cima e...dará seu último golpe. Com um pé-de-cabra contra a torpe órbita mortal do computador, contra a brilhosa janela de um banco, contra a face distorcida de um supervisor.

O proletário Despertará. Se Rebelará. Matará. Nem a polícia nem os falsos partidos socialistas serão capazes de segurá-lo.

Sua missão na história não está acabada. O Demiurgo ainda respira. A Alma do Mundo ainda geme. Suas lágrimas erguem um uivo sombrio à consciência escura do Criador. É um chamado. É o apito de uma fábrica. É o soar das Trombetas Angélicas.

Eles - artífices do Tártaro - novamente anseiam por sua Revolução Proletária.

Revolução Real.

Revolução Final.

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