sábado, 5 de janeiro de 2013

A Lógica da Geofinança e seu Atuar sobre a América Românica

por Francisco de la Torre Freire




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Entre os vários aspectos sedutores que apresenta o fenômeno da globalização, o mais significativo e promovido é o desígnio para configurar uma nova ordem, a qual se caracterizará pela ausência de divisões: nem Oriente nem Ocidente, nem Norte nem Sul, nem ricos nem pobres, etc. Religiões, culturas, histórias e geografias de todos os povos serão uniformizadas pelo abraço integracionista do mercado mundial, já que graças a este, desaparecerão progressivamente todos os erros e desigualdades do passado e nos conduzirá a um fim harmonioso da história.

À primeira vista pareceria que a globalização é o cumprimento dos mais caros desejos da Ilustração, como por exemplo, a república mercantilista universal preconizada por Adam Smith ou o governo burguês universal de Kant. O escocês fundador da economia moderna via no mercado o palanque para levantar sua união cosmopolita, enquanto que para o filósofo alemão, aquela se lograria unicamente quando a religião racional (baseada nos princípios da Aufklärung) se imponha integramente sobre a fé eclesiástica e se converta no fundamento de um estado mundial, o qual será o encarregado de garantir a paz entre as nações. Quando se chegue a concretizar tal aspiração, se poderá dizer com razão que "o reino de Deus chegou para nós".[2]

Certo é que a maioria dos projetos unificadores modernos se contextualizavam dentro da existência de espaços jurídicos concretos, como são os Estados-Nações, daí que a interconexão íntima entre território e soberania privilegiava, ao momento se propor algum tipo de integração ou acordo entre Estados, o acudir aos conceitos expostos pela geopolítica e pela geoeconomia. A geofinança é todo o contrário, parte da lógica global de mercado, onde não existem fronteiras, nem moedas, nem indústrias ou produtos nacionais, e suas operações basicamente se realizam nas redes informáticas e de comunicações internacionais, totalmente distanciadas da economia real.

É a princípios dos anos oitenta quando é apregoado o conceito de globalização e se apresenta - entre outras coisas - a inviabilidade dos Estados frente à reconfiguração da ordem mundial que havia acontecido. A tensão ideológica gerada pela dialética bipolar própria da guerra fria, ocultou as mudanças que vinham se gerando a nível mundial e, não obstante, mais que de mudanças o que se tratava verdadeiramente era de crises ou fissuras, quer dizer, inusitados desequilíbrios globais latentes que afloraram mediante conflitos religiosos, culturais, políticos e econômicos, impossíveis de serem descritos com os conceitos usuais da modernidade.

Os centros ideológicos da talassocracia norteamericana, condutores dessa estrutura de crise com ramificações operativas em escala global, haviam logrado estabelecer o processo de readaptação político-planetário sob o imperativo da tecnologia e da eletrônica, batizada como a era tecnotrônica e vislumbrada e impulsionada por Brzezinski.[3] Esse desenho explica, em termos breves, que a unificação do mundo se acelerou sob o efeito da expansão das redes de informação e comunicação, o que alterou os costumes, a estrutura social, os valores e o enfoque global da sociedade e dos Estados; sendo o eixo dessa transformação mundial os EUA, devido a que é a única potência que começou a pensar em termos globais...[4]

O desmembramento do Império soviético em termos geopolíticos - segundo Dugin - a vitória do Mar sobre a Terra e em sua projeção no campo da economia, o triunfo do Capital sobre o Trabalho, o que implica que essa disciplina social tome analogamente uma contextura muito mais fluida e naturalmente outorgue a primazia a seu aspecto mais autônomo e difuso, que é o das finanças e esta se converta no novo eixo por onde se integrarão as atividades sócio-econômicas mundiais; em outras palavras, a subordinação de toda estrutura e agir político-econômico aos entes privados que conformam a Alta Finança e que produziu uma peculiar combinação de novas formas de integração global com uma intensificada polarização social dentro de e entre as nações chamada globalização da pobreza (Chossudovsky), que se refere a como essa polarização vai de mãos dadas com o crescente domínio do capital sobre o trabalho no âmbito mundial.

Não esqueçamos que a globalização se instaura no mundo recorrendo aos postulados da geoeconomia mas não aos da geopolítica, já que é por intermédio do discurso utilitário do mercado e impulsionado pelas grandes transnacionais que tal ideia chega a se consolidar. Não tem nada de raro que o primeiro efeito real -  e talvez o único que logrou a globalização em sua plenitude - é o desaparecimento das barreiras que impediam o livre fluxo dos movimentos financeiros internacionais.

Uma das principais consequências do domínio da geofinança é a aceleração e aprofundamento das lógicas mercantis mediante a busca permanente do benefício imediato e que se canalizam facilmente pela capacidade para realizar transações monetárias em tempo real graças a um macrosistema tecnofinanceiro, que se caracteriza por ser uma rede mundial computadorizada, um espaço abstrato, virtual, sem controle e desconectado das habituais relações internacionais.

E é através dessa espécie de buraco negro tecnotrônico, que engole todas as riquezas das nações, pelo que a geofinança logrou conquistar a proeminência no mundo e fazer manifesta a carga dissolvente que leva em si. Para conseguir essa desorbitada concentração de poder, intensificou o processo de desterritorialização dos mercados e cooperou, conjuntamente com outros processos, para a desagregação dos Estados-Nações e seus laços comunitários existentes no interior desses.

Tanta é a energia dissolvente concentrada pela geofinança, que os principais teóricos do ciberespaço ou da cibereconomia chegaram ao ponto extremo de propor que no futuro tudo o criado pelo ser humano deve convergir nesses espaços virtuais; quer dizer, vemos concomitantemente com o auge dos fluxos financeiros, o surgimento da fantasias tenebrosas sobre um anunciado desaparecimento do típico capitalismo industrial e o nascimento de uma era pós-industrial baseada na informática, na desmaterialização da produção e da riqueza.[5] Estamos frente a um imperativo categórico geotecnofinanceiro e em nome do qual: se anuncia o deslocamento geral da organização econômica mundial em relação ao território sobre o qual se assenta a soberania nacional.[6]

Nos parece interessante trazer à colação que essa análise das repercussões da globalização sobre a noção geográfica e espacial moderna coincide com o verdadeiro choque de civilizações, diagnosticado desde a perspectiva tradicional por Evola quando disse: A oposição entre as civilizações modernas e as tradicionais se pode expressar no que segue: as civilizações modernas são devoradoras do espaço, as tradicionais foram devoradoras do tempo.[7] E, obviamente, quanto mais nos aproximamos ao final do ciclo, as tendências dissolventes despertadas pela civilização moderna vão se reforçando.

Nessa nova paisagem global caracterizada pela desterritorialização, se adverte que as conotações geopolíticas eurocêntricas que definiam o mundo entre nações metropolitanas e nações periféricas vão desaparecendo, devido à presença de uma maior interconexão entre os setores dominantes de ambas zonas e a crescente marginalização de suas maiorias subordinadas respectivas, especialmente em aumento nos países "centrais" por razão das ondas migratórias. Se passou de uma coesão desde um espaço geográfico a uma concentração em um espaço social, que não é um território, senão um espaço de poder que oculta suas fontes de domínio altamente centralizadas, de onde emergem essas pseudo-elites e a ação fragmentária ou centrífuga que exercem sobre as maiorias. Nem os "ricos" podem ser agora identificados exclusivamente com as nações do norte, nem os "pobres" com o mundo subdesenvolvido, e tudo isso, graças a que a geofinança impulsionou a independência dos capitais em relação ao Estado e logrou sua cristalização em nódulos de poder financeiro e político apátridas, menos visíveis, porém mais condensados.

Retomando as previsões de Brzezinski realizadas há mais de três décadas, os poderes fáticos mundiais sempre estiveram conscientes que seu reordenamento do planeta implica um modo de integração fragmentário, polarizante e excludente. Ao articular centros poderosos com periferias subordinadas com o propósito de construir igualdades potenciais globais, porém sem uma mudança na lógica capitalista, em realidade o que fazem é estimular o aprofundamento das estruturas assimétricas indicadas e geradas pelas próprias contradições inerentes ao sistema ideológico imperante: O paradoxo de nossa época consiste em que a humanidade está passando simultaneamente, por um processo de maior unificação e de maior fragmentação. Este é o principal acicate da mudança contemporânea. O tempo e o espaço estão tão comprimidos que a política global se encaminha para formas mais vastas e entrelaçadas de cooperação, assim como para a dissolução das lealdades institucionais e ideológicas consagradas.[8]

É digno de contrastar essa perspectiva com o enunciado por Guénon, que alertou com maior antecipação e profundidade, sobre as vãs tentativas do ocidente moderno para impor uma ordem no mundo inteiro: a consequência aparentemente paradoxal é que o mundo está tanto menos "unificado", no verdadeiro sentido da palavra, quanto mais uniformizado se torna. Nada há de estranho nisso, já que o sentido profundo que segue tal progressão é o de uma "separatividade" crescente; vemos aqui aparecer o caráter "paradoxal" que tão costumeiramente se encontra no que é especificamente moderno.[9]

O fundamental é perceber que por trás de todos os esquemas atuais conduzidos pelo Establishment, predomina sempre um ânimo escuro, sem rosto, dissolvente e, nos atreveríamos a dizer preternatural, similar a essa fumaça de Satanás de montiniana memória, muito em acordo com as influências que canalizam os representantes desse nomadismo desviado denunciado por Guénon.[10]

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Assim como a geopolítica tem seus pais fundadores e promotores, a geofinança pode se vangloriar de que quem propôs sua base epistemológica é um dos maiores expoentes da chamada economia política clássica: David Ricardo.

Proveniente de uma família de judeus holandeses, assentados na Inglaterra, ainda quando abjurou de sua religião em uma idade bastante tenra. Seguindo a tradição de seu pai, foi corretor de bolsa e isso lhe permitiu acumular uma grande fortuna em pouco tempo, o que lhe deu prestígio e até chegou a se converter em membro do Parlamento.

Seu principal aporte conceitual para o desenvolvimento das finanças internacionais é o ter cindido a economia em dois setores: o denominado setor real ou produtivo e o setor financeiro ou monetário. Isso compreende a separação da moeda da economia e de ter autonomizado a economia produtiva de seus correspondentes fluxos monetários; por isso a noção da neutralidade da moeda é uma herança que conservamos até agora.

A economia política clássica não se interroga sobre a natureza dos fenômenos monetários. Para suprir essa falência, concebeu uma série de postulados chamados em seu conjunto, a teoria do valor, que é um esforço permanente para elaborar uma economia pura que anule à moeda da lógica do intercâmbio, convertendo-a em uma mercadoria a mais. Segundo essa crença, o valor pré-existe à moeda porque a economia real se compõe de indivíduos que tem utilidades (ou lucros) predeterminados; os interesses privados são coordenados pelos preços de equilíbrio reais do mercado; a moeda é neutra e não pode alterá-los. No âmbito internacional, com livre movimento de capitais, as finanças privadas regulam os intercâmbios; este sistema ideal só é perturbado por incidentes de liquidez devidos à falta de confiança. Sem embargo, este esquema não reflete a realidade: a moeda só pode ser neutra em uma economia de intercâmbio puro, quer dizer sem produção.

Curiosamente, o próprio Marx não rompeu de todo com essa concepção do valor, ainda que todos os seus questionamentos da economia clássica tendam a essa ruptura: Por uma vez, não importava que o ouro mesmo tivesse valor porque incorpore trabalho, como sustentavam os socialistas, ou porque seja útil e escasso, como afirmava a doutrina ortodoxa. A guerra entre o céu e o inferno passava por alto a questão monetária, unindo milagrosamente capitalistas e socialistas. Ali onde Ricardo e Marx eram um só, o século XIX não duvidou.[11]

A geofinança introduziu uma classe de dinheiro que carece de relação com a comunidade, sem função social e o criou como um fim em si mesmo, sem importar seu destino ou o interesse geral. Ela enfatizou que a função do dinheiro é eminentemente produtiva e, o mais significativo, que seu aspecto qualitativo está em relação com o vínculo social, como símbolo de pertença a uma comunidade, como um capital de ordem superior (Spann).

Por que capital de ordem superior? Porque desde uma ótica orgânica, o dinheiro é a parte medular do mercado, uma força formadora que configura e integra à totalidade das economias e realiza uma íntima conexão plena de sentido com o Todo; portanto, é um elemento central mais que particular, em outros termos, tem uma substância mais política que econômica, já que é uma norma aceita por toda a sociedade subordinada diretamente à ideia de soberania. E essa condição política é a que dá ao dinheiro nacional sua capacidade - segundo Adam Müller - para expressar ou determinar a coesão e o poderio de uma nação, enquanto que o dinheiro internacional ou cosmopolita: ...forma um todo único com o comércio mundial, destrói os vínculos que devem unir indissoluvelmente a cada indivíduo com seu estado nacional.[12]

Tal concepção do dinheiro rasgou todo o ordenamento encaminhado para um desenvolvimento progressivo e independente das nações, porque normalmente a finança deve servir de suporte ao setor produtivo (e não ao revés, como é o que está passando) e assim procurar a expansão da riqueza real. Então o dinheiro, ao desempenhar um papel fundamental na economia, por ser um instrumento de coesão social e capaz de impedir a geração de violência e da dissolução da sociedade, é transformado pelo sistema monetário internacional em um instrumento de desintegração e de enfrentamento com a economia real.

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Devido a suas estreitas conexões com todos os governos e a grande capacidade de organização e informação, a Alta Finança pôde articular uma rede de influência supranacional desde poucos séculos, pela qual logrou ditar em grande medida os alinhamentos a seguir em política e economia na maioria dos países do mundo. Principalmente nesse então seus interesses estavam abocados a chegar a uma paz entre as nações, não porque entre suas inclinações esteja o pacifismo[13], senão que qualquer guerra entre as grandes potências desestabilizaria os fundamentos monetários do sistema vigente.

Este poderoso instrumento social oculto[14] conseguiu para fins do século XIX fazer visível a tendência ou o objetivo final do capitalismo: a financiarização da economia. É a época dourada do Padrão Ouro, e os interesses da banca internacional - que tinha seu centro de operações no Banco da Inglaterra - confluíam nesse então com os do Império Britânico, pelo que foi o escolhido para predicar a Boa Nova da religião monetária encarnada no metal áureo e expandir as bem-aventuranças a todos os que lhe rendessem adoração.

Desde princípios da primeira guerra mundial e até meados dos anos trinta - lapso no qual o Padrão Ouro empreendeu sua última etapa - não só economistas, sociólogos ou políticos analisaram as crises, desordens e manipulações do sistema monetário internacional, senão também poetas, filósofos, teólogos, etc., que com maior sensibilidade intuíram para onde estava se dirigindo o mundo e manifestaram que por trás do sistema capitalista se estava consolidando uma civilização sem alma, contranatural, mercantilizada: a consagração da usurocracia (Pound).

A Igreja Católica por meio da Encíclica Quadragesimo Anno (1930) denuncia que o mundo sofre uma ditadura econômica que se alimenta do esforço produtivo e criativo das nações, para benefício do funesto e detestável internacionalismo do capital.[15]

Desde uma ótica diferente e décadas antes, o fundador da autocracia bolchevique, Vladimir Lênin, preconizou análise similar sobre a situação mundial, devido a que esta etapa inerente ao capitalismo toma seu auge quando a Alta Finança compreende que a maximização dos lucros já não estava unicamente na financiação de guerras, no investimento produtivo ou no intercâmbio comercial, senão prioritariamente na concessão de créditos para os governos: assim pois, o século XX assinala o ponto de virada do velho capitalismo para o novo, da dominação do capital em geral à dominação do capital financeiro.[16]

Parafraseando Lênin, o geopolítico russo Aleksandr Dugin conclui que é a financirização, a etapa suprema do desenvolvimento do capitalismo,[17] quer dizer, a reversão ontológica completa do conceito de economia, ao dar a primazia ao aspecto especulativo financeiro em detrimento da economia real e, ademais, pela translação das decisões políticas e econômicas dos povos à elite financeira mundial.

Isso é o decisivo na história mundial, que as elites mundiais capitalistas captaram que com uma visão parasitária da economia logram não só maiores benefícios senão que agora controlam - através da entrega de empréstimos - o comportamento dos países que caem sob sua influência.[18] Essa é a razão da recomendação de políticas monetárias restritivas por parte dos organismos internacionais de crédito, porque dessa maneira os governos se veem impelidos a financiar os déficit somente com crédito internacional proporcionados pela banca cosmopolita, para logo passarem a ser controlados e vigiados tanto por estes organismos como pelas qualificadoras de risco ou bancos de investimento, que trabalham em uníssono com a alta finança internacional.

Este sistema usurocrático impôs ao mundo sua visão economicista da vida, ao introduzir o liberalismo nas almas dos povos e, graças a essa ideologia totalitária, de uniformização planetária, espalha seu discurso autojustificador da modernidade utilitarista apesar do evidente dano de séculos sobre a riqueza e a identidade dos povos, a dignidade das pessoas e a saúde do meio ambiente; nos deixando como única perspectiva a aceitação de que o globo terrestre está conformado somente por mercados, enquanto que os estados, as nações, as religiões e culturas são coisas do passado e enteléquias que freiam o progresso da humanidade.

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A princípios da Alta Idade Média se dá um grande desenvolvimento no estudo e nas formas para frear a expansão de práticas usurárias em toda a Cristandade. É curioso notar que no marco das leis desse então, sobre as únicas pessoas que se permitia aplicar medidas usurárias era contra os inimigos ou adversários da ordem cristã.[19]

Já em nossos dias, acaso será o problema da dívida externa do Terceiro Mundo uma guerra velada de submetimento através da usura? Ou, em outras palavras, um instrumento geopolítico formidável de domínio mundial para benefício das elites financeiras e industriais transnacionais que conduzem por trás dos bastidores o governo dos Estados Unidos?

Essa é a tese magnificamente exposta pelo Subcomandante Marcos em seu artigo O Neoliberalismo como Quebra-Cabeças[20] no qual explica que sofremos os embates da Quarta Guerra Mundial, totalmente diferente às anteriores, porque essa utiliza instrumentos financeiros para dobrar seus rivais. É uma guerra mais sofisticada e, à simples vista, mais "humanitária" que a dos bombardeios estratégicos, porém de igual ou superior eficácia para destruir nações, religiões, culturas, etnias, etc., pela pinça especulativo-usurária e livremercadista.

Enquanto a Terceira Guerra Mundial foi travada entre o capitalismo e o socialismo com diferentes graus de intensidade em territórios do Terceiro Mundo dispersos e localizados, a Quarta Guerra Mundial implica um conflito entre os centros financeiros metropolitanos e as maiorias do mundo, posto em marcha pelas forças do mercado crescentemente não reguladas e móveis.

Quando se articula essa submissão total da América Românica aos poderes financeiros internacionais? Graças à sobreemissão permanente de dólares por parte do Sistema de Reserva Federal, que levou à posterior derrubada do Acordo de Bretton Woods em 1971, a banca ocidental lança ao mundo seu enorme excedente desses dólares sem respaldo áureo (eurodólares) e os principais países que captam são os do chamado Terceiro Mundo.

É a partir desse fato que a baca internacional toma descaradamente o controle dos fios da economia mundial, aplicando sua lógica características de dar primazia ao capital financeiro, impulsionando a abertura dos mercados financeiros e sua desregulamentação, pelo que se começa a dar uma virada em sua maneira de extrair recursos dos países subdesenvolvidos. É a fase da chegada das ajudas à Iberoamérica por parte dos bancos internacionais.

De acordo à lógica do capital financeiro internacional, estes excedentes monetários gerados pela banca ocidental deviam ser reciclados e colocados em lugares onde rendam interessantes benefícios. Nessas circunstâncias, de repente a rigorosidade para conceder créditos aos países em desenvolvimento desaparece e, de fuma forma direta ou indireta, são obrigados a aceitar tais recursos fictícios em forma de empréstimos ou ajudas, muitos dos quais não eram indispensáveis.

E é com esse processo de endividamento que novamente entramos nas redes do colonialismo financeiro, bastou que os EUA elevassem suas taxas de juros no início dos anos oitenta (Reaganomics)[21] para que a crise aparecesse novamente e se multiplicasse suas obrigações dos países devedores. No início a dívida externa parecia um problema estritamente econômico, porém pouco tempo depois se manifestou que por trás dela se escondia uma estratégia político-financeira para submeter o continente à órbita do dólar, submissão premeditada para erodir gradualmente as moedas dos países que estão diretamente sob sua influência e assim lograr dirigir da melhor maneira suas economias, que nesses tempos de primazia dessa sobre o político, é sinônimo de controle total.

Ao carecerem os governos hispanoamericanos de uma vontade política, lhes foi impossível se organizarem e enfrentarem o problema unidos, o que sim fizeram os credores criando grupos como o Clube de Paris. Entre 1980 e 2004, América Latina e Caribe desembolsaram para os credores a soma de 2.109 bilhões de dólares, equivalente a quase 9 vezes a quantia devida. Por um dólar que se devia em 1980, a América Ibérica reembolsou quase 9, porém ainda deve mais de 3. Segundo o Fundo Monetário Internacional, no final de dezembro de 2004, chegava a 773.000 milhões de dólares, representante 34,4% do Produto Interno Bruto da região.

Para compreender como é possível que se gere uma situação como a descrita, é necessário entender como está organizado o sistema financeiro internacional e como repercute sobre a economia mundial, pelo que recorremos às palavras do Prêmio Nobel de Economia Maurice Allais, que nos esclarece da seguinte maneira: A economia ocidental repousa hoje em dia sobre gigantes pirâmides de dívidas: dívidas domésticas, dívidas de empresas, dívidas de Estados. Essa situação se alimenta e se acelera por ela mesma, o serviço das dívidas está assegurado por novos empréstimos. Isso resulta em uma situação potencialmente instável cuja origem se encontra no mecanismo atual do crédito bancário que se funda na criação de moeda a partir do nada e pelo empréstimo de fundos a longo prazo com empréstimos tomados a curto prazo. Tal mecanismo é fundamentalmente desestabilizador. A monetarização crescente das dívidas, a desregulação monetária, a posta em obra de novos instrumentos financeiros não acarreta outro resultado que: uma instabilidade cada vez maior do sistema bancário no plano nacional e internacional.[22]

Um exemplo do artifício da monetarização podemos encontrar no mecanismo da dívida externa latinoamericana, em sua parte essencial, que se manifesta quando os países afetados tem a necessidade de recorrer novamente aos centros financeiros internacionais para ter acesso a um novo empréstimo para pagar suas dívidas anteriores[23]; isso é o que se definiu como a espiral do colonialismo financeiro, porque o empréstimo original aumenta em um curto tempo em forma exponencial pela ação dos juros sobre os juros (automatismo da dívida) e se torna impagável. O automatismo da dívida faz crescer a parte não paga dos juros endividados de forma exponencial e cria dessa forma um capital fictício cada vez maior. Este capital fictício forma necessariamente parte dos ativos da banca internacional.

Este ato de converter o capital fictício - criado por anatocismo - em ativo utilizável de imediato pela banca internacional, é uma das faces da monetarização. Essa se manifesta no momento em que este falso capital - essa dívida irreal que ainda não é cancelada pelos países endividados - se transforma em uma das principais fontes de emissão de novos meios de pagamentos por parte dos bancos internacionais, quer dizer, sem uma contrapartida real ou efetiva e lhes dá a possibilidade de organizar uma inflação mundial desestabilizadora: Os fluxos financeiros ao interior do Grupo dos Sete ascendem a 420 mil milhões de dólares diários, ou seja ao redor de 34 vezes o montante dos fluxos correspondentes ao comércio internacional. Estes fluxos financeiros correspondem a operações puramente especulativas. São somas enormes ao redor da ordem de dez vezes a renda mundial global por dia.[24]

Isso faz com que o sistema monetário atual seja inseguro, porque sua principal característica é o fluxo de capitais financeiros que destroçaram todo centro ou ponto de referência fixo, anulando ou dissolvendo toda autoridade estatal. A geofinança assentou as bases da preponderância desses capitais, bônus e demais documentos financeiros sem regulação alguma (produtos derivados) - criados pela banca internacional privada em sua maioria - frente ao dinheiro convencional emitido e controlado pelos bancos centrais, traçando uma estratégia de financiamento do déficit de todo o mundo por meio de linhas de crédito expansivas, transformando a economia mundial em uma economia de endividamento internacional.[25]

As imensas massas de moeda especulativa se vem incrementando, por essa razão, os mercados são mais voláteis e imprevisíveis e, as crises financeiras se apresentam com uma frequência marcada. Seus efeitos são catastróficos na economia mundial, a tal ponto que os próprios EUA sofreram vários sacudidas, apesar do dólar ser a moeda chave mundial. Como o dólar vem a ser o ponto de interseção da estratégia geopolítica mundial dos EUA e o mecanismo de sua economia interna, e quando a principal característica dessa última é sua virtualização, é lógico que esse enfraquecimento de sua economia se reflete dia a dia em seus instáveis indicadores macroeconômicos. De todos os modos, é nessa divisa em que se baseia o poder dos mercados financeiros e o usam tal país como pivô para difundir e impor o neoliberalismo a qualquer preço, sendo uma parte das novas armas de dominação com a qual atual sobre as nações do planeta: Ninguém parece inquietar-se realmente com que a utilização internacional do dólar dê aos EUA o benefício da criação de moeda no plano internacional, verdadeiro tributo pago aos mais ricos pelos mais pobres.[26]

Não em vão toda moeda que desempenhou ou desempenha um papel sobressalente na economia mundial, sempre se caracterizou por sua natureza geopolítica. A consolidação da penetração e supremacia dos imperialismos no mundo, foi a aceitação de suas moedas como o eixo referencial da economia internacional, pelo que seus padrões monetários mundiais foram criados para serem a coluna vertebral das potências hegemônicas talassocráticas, tal como passou com o imperialismo britânico e, logo da Segunda Guerra Mundial, com o norteamericano.

O domínio norteamericano, inspirado em seu messiânico Destino Manifesto tornará realidade essa constante geopolítica de se sentir um "povo em expansão", chamado pela Providência para levar a cabo a perfeição da Humanidade por meio dos valores mercantis, pelo que converteu o mercado em um deus: o monoteísmo do mercado (Garaudy). Porém a divisa chave ou moeda hegemônica não chegou a seu assento somente pelas potencialidades econômico-financeiras da nação a que pertence, senão também por sua capacidade política, militar e estratégica alcançada a nível mundial. É indiscutível o papel preponderante do dólar na economia internacional, porém à parte de sua função de signo monetário mundial, seu traço essencial é ser a condensação ideológica e pseudo-espiritual do império norteamericano, que como nos diz o citado geopolítico russo, a partir da Segunda Guerra Mundial: O dólar adquire uma nova qualidade: se converte em uma unidade geopolítica, uma função estratégica e potencial ideológica do rol dos EUA ao redor do mundo.[27]

Essa função geopolítica do dólar é confirmada mediante a dívida externa latinoamericana, já que essa ultrapassou o âmbito financeiro e atua diretamente sobre o político. Essa dívida se converteu em um operador de transformações políticas ao causar mudanças radicais nas estruturas dos Estados iberoamericanos. Se poderia reconhecer três processos diferentes nela e que interatuam até a presente data, assinalando-se primeiramente o estritamente financeiro e que se refere à transferência de recursos dos países subdesenvolvidos aos centros financeiros internacionais mediante os programas de ajustes macroeconômicos impostos pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial; uma segunda etapa é a entrega de créditos por parte desses mesmos organismos internacionais, dirigidos a projetos que se encarreguem de reformar a estrutura jurídica e institucional do Estado, vale dizer, a transferência das atribuições estatais ao setor privado interno ou externo (privatizações dos setores estratégicos). Desarticulado o Estado, aparece a terceira etapa, que consiste no financiamento para concretizar megaprojetos de exploração intensiva de recursos naturais e mão-de-obra, como por exemplo o Plano Puebla Panamá e o IIRSA. Aqui já se aprecia o controle aberto de recursos estratégicos, como são as fontes de energia, a água, a biodiversidade, etc., que se convertem em zonas chaces para a expansão das corporações estadounidenses e em definitiva, tudo isso será simples e claramente a ocupação e usufruto de nossos territórios.

Por essa razão, enquanto se aceite como divisa chave a moeda da potência hegemônica, enquanto os Estados sejam incapazes de controlar os fluxos que vem e se vão de suas respectivas economias, enquanto a banca privada de cada país atue em função de seus interesses e acorde com os da alta banca internacional, enfim, enquanto não se reformem as diretrizes que inspiram o sistema monetário e financeiro mundial, será impossível reverter a situação de crise e pobreza que agonia à América Românica e a maior parte do planeta. Pensamos decididamente que as espúrias vitórias do Mamôm bíblico nos aproximou ao dilema crucial de criar ou desaparecer como diria o humanista argentino Carlos Disandro, ao descobrir que na usura se encontra sua razão de ser, sua razão de Poder.

***

[1] Es el sintagma creado por el argentino Carlos Disandro para denominar a todas las naciones del continente americano que formaban parte del Imperio romano/hispánico, es decir, por el espacio geopolítico inaugurado por Carlos V y que dio un nuevo sustento vital a tales naciones mediante el último y definitivo trasiego de la historia de las lenguas romances.
[2] Der Sieg des guten Prinzips über das böse und die Gründug des Reiches Gottes auf Erden (Victoria del principio bueno sobre el malo y fundación del reino de Dios sobre la tierra) (1792), citado en: Josef Pieper, El Fin del Tiempo, Editorial Herder, Barcelona 1984, p. 98.  Ratzinger, en su famoso discurso pronunciado en Regensburg, planteó desembozadamente similar articulación mundialista al promover el “encuentro entre Fe y Razón, entre auténtica Ilustración y Religión”; aparte de las graves connotaciones doctrinales, es necesario remarcar las consecuencias geopolíticas del mencionado discurso por su alineamiento descarado con los promotores del choque de civilizaciones, en otras palabras, confirma una vez más que la geopolítica vaticana es uno de los ejes imprescindibles para la configuración del gobierno mundial.
[3] BETWEEN TWO AGES. America’s Role in the Technetronic Era. Viking Press, New York, 1970Utilizo la versión argentina editada en 1979 por la Editorial Paidos: LA ERA TECNOTRONICA.
[4] Ibíd., p. 454
[5] Esta última es designada por Dugin como: The Evaporation of Fundamentals in the “New Economy” http://evrazia.org/modules.php?name=News&file=print&sid=414
[6] Armand Mattelart: La mundialización de la comunicación. Editorial Paidos, Barcelona, 1998, p. 82
[7] El Arco y la Clava, Ediciones Heracles, Buenos Aires, 1999, p. 12
[8] Zbigniew Brzezinski: op. cit., p. 25
[9] Reino de la Cantidad y los Signos de los Tiempos,  Ediciones Paidós, 1997, capítulo VII, “Uniformidad frente a Unidad”, p. 53
[10] La globalización, especialmente en su manifestación financiera, es la viva expresión en lo social de la rotura del equilibrio entre las dos tendencias que rigen la manifestación cósmica: la contractiva y expansiva; directriz que concuerda con lo escrito por el metafísico francés, quién indicó que al desarrollarse la fase final del ciclo, su principal característica será el predominio del segundo miembro de la dualidad: la predisposición hacia la disolución.
[11] Karl Polanyi. La Gran Transformación, Fondo de Cultura Económica, México, 1992, p. 37
[12] Eric Roll, Historia de las Doctrinas Económicas, Fondo de Cultura Económica, México, 1993, p. 224
[13] La principal fuente para acrecentar las grandes fortunas de la Alta Finanza siempre fueron las guerras. Un caso típico es la familia Rothschild, que en las guerras napoleónicas financiaron a los dos bandos. Polanyi afirma que: Casi toda guerra era organizada por los financieros; pero también la paz estaba organizada por ellos” op. cit, p. 29
[14] Karl Polanyi, op. cit., p. 23
[15] Doctrina Social de la Iglesia, Ediciones Paulinas, 1964, p. 128
[16] El imperialismo, Fase Superior del Capitalismo, Edición del centenario de Lenín, Guayaquil, 1970, Íbid., p. 40
[17] Financism, The Supreme Stage Of Development Of Capitalism, 
http://www.evrazia.org/modules.php?name=News&file=article&sid=415
[18] La pax británica se imponía a veces por la ominosa presencia de las cañoneras, pero más frecuentemente prevalecía por el estirón oportuno a un hilo de la red monetaria internacional. Karl Polanyi, op. cit., p. 27
[19] “El Decreto de Graciano (alrededor de 1140), matriz del derecho canónico, retomó la fórmula de san Ambrosio Ubi ius belli, ibis ius usurae (Donde impera el derecho de guerra, impera el derecho de usura)” Jaques Le Goff, La Bolsa y la Vida, Gedisa Editorial, Barcelona,1991, p. 31
[20] Servicio Informativo (Publicación internacional de la Agencia Latinoamericana de información) N°  258 y 259, 1997, p. 10 y ss. La versión en internet: http://www.ezln.org/documentos/1997/199708xx.es.htm
[21] En América Latina, la tasa de interés real pasó de una media de –3,4%, tasa negativa favorable a los endeudados, entre 1970 y 1980, a 19,9% en 1981; a 27,5% en 1982 y a 17,4% en 1983 (Sebastián Edwards)
[22] Maurice Allais, L’Europe, face son avenir: Que fair?  Robert Laffont/Clement Juglar, 1991, pp. 103 y 104
[23] Las que generalmente solo sirven para pagar los intereses en mora, dejando el capital intacto.
[24] Maurice Allais, op. cit., p. 206
[25] “Es el conjunto de procesos asociados al crédito bancario internacional en dólares. Su principal característica es la de crear medios de Pagos internacionales sin relación con la balanza de base de los Estados Unidos. Dentro de la estructura canónica del sistema de Bretton-Woods, el déficit de la balanza de pagos de los Estados Unidos era, efectivamente, la única fuente de creación neta de liquidez internacional para el resto del mundo.”  Michel Aglietta, El fin de las divisas clave. Siglo XXI editores, México, 1987, p. 117
[26] Maurice Allais, Op. cit., p. 226
[27] Alexander Dughin: Geopolitical Aspects of the World Financial System.

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