segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Política da Guerra Nuclear

por John Morgan




Introdução

O mês passado marcou o 50º aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos. Isso mereceu um pouco mais do que uma menção de passagem na mídia, apesar do fato de ter sido o momento mais dramático e icônico do meio século de Guerra Fria, um conflito que teve mais participações do que qualquer outro na história e que continua a assombrar o nosso cenário político atual.

Não quero escrever apenas outra retrospectiva histórica sobre o caso, uma vez que muitos outros já fizeram isso, mas acredito que o mundo multifacetado e complexo da política nuclear ainda hoje é  relevante, e é vital para a compreensão da realidade geopolítica com a qual temos de lidar, como ativistas políticos de vários tipos, para um futuro concebível. Embora os temores de uma guerra nuclear tenham recuado, como os debates atuais sobre o Irã, Paquistão, Coréia do Norte e Israel mostram, a política nuclear continua a ser uma parte da definição do cenário político.

A guerra nuclear exerceu um estranho fascínio sobre mim desde que eu tinha 10 anos de idade, em 1983, quando eu mal tinha idade suficiente para começar a entender que o mundo em que eu vivia, um resultado da Guerra Fria que tinha acabado de ser reaquecida pelo Presidente Reagan, estava passando por uma crise existencial. Reagan chamava a União Soviética de "império do mal", os soviéticos derrubaram um avião coreano que transportava passageiros americanos, e a OTAN se engajou em um exercício massivo para simular um ataque nuclear contra a URSS que quase desencadeou em coisa real. [1] A sensação de apocalipse iminente pairava pesadamente no ar. O meu entendimento disso foi reforçado pelo dramático documentário gráfico sobre a guerra nuclear “The Day After”, que foi televisionado em novembro, assim como o equivalente britânico, melhor e muito mais assustador, Threads, [2] que foi ao ar no ano seguinte. Lembro-me que comecei a conferir os livros da biblioteca pública sobre o tema das armas nucleares e seus efeitos, que estavam entre os primeiros livros adultos que li. Eu não conseguia entender tudo neles, claro, mas eu compreendia o suficiente para perceber que a sensação de medo não era apenas uma invenção da minha imaginação: era uma realidade terrível, realidade bastante provável que ameaçava irromper a qualquer momento. Eu continuei conferindo mais e mais livros sobre o tema até que minha mãe me obrigou a parar, preocupada com o efeito que isso tinha sobre a minha mentalidade jovem.

Felizmente, eu comecei a ter outros interesses, mas nunca consegui exorcizar o demônio nuclear da minha mente. Sonhos de um mundo despedaçado em uma guerra nuclear ainda continuam a perturbar meu sono de vez em quando. Em alguns aspectos, a realidade das armas nucleares parece uma coisa quase fantástica demais para ser real, assim como quando aprendemos pela primeira vez sobre dinossauros, quando crianças. Durante os anos 90, no entanto, com o fim da Guerra Fria, eu esqueci bastante isso, como a maioria das pessoas, pensando que o perigo havia passado. Mas a partir de alguns anos atrás, eu decidi averiguar para ver o que estava acontecendo hoje. O que eu encontrei não era tranquilizador. A ameaça nuclear realmente não diminuiu; ela foi apenas adaptada e tomou novas formas. E eu acho que é algo que os leitores contra-correntes precisam levar em conta.

Vou tomar como base para as minhas ruminações um livro interessante, embora falho,  escrito pelo jornalista Ron Rosenbaum, que foi publicado no ano passado, melodramaticamente intitulado “Como o Fim Começa: O Caminho para uma Terceira Guerra Mundial Nuclear”. [3] Rosenbaum, como pode-se adivinhar a partir do nome, é um judeu – mais especificamente, um judeu secular, americano que já teve uma longa carreira como jornalista e ensaísta. Os leitores contracorrentes talvez se recordem do seu livro “Explicando Hitler”, de 1998, que era um eforço diferente, embora pouco original, para explicar “o homem mais malvado da história”, baseando-se em especulação psicológica e similares. Rosenbaum falhou em encontrar uma explicação satisfatória, no entanto, uma vez que o Hitler imaginado por pessoas como ele é um sobre-humano, quase uma figura sobrenatural, de tão grande que é o “mal” que projetam sobre ele. Mas esse é, talvez, um assunto para outro ensaio. Eu uso o livro de Rosenbaum aqui porque é um levantamento introdutório útil, e também porque sua identidade judaica, a qual ele traz assumidamente ao escrever livro, revela muito sobre as atitudes Sionistas e neoconservadoras em relação à política nuclear, lições que faríamos bem em prestar atenção. Mas em geral, eu acho que é importante fornecer aos leitores contracorrentes uma visão geral da situação nuclear hoje em dia, por razões que eu espero se tornarem aparentes.

O Divisor de Águas Nuclear: A Crise dos Mísseis Cubanos

Eu deveria escrever alguns parágrafos sobre a Crise dos Mísseis Cubanos em si, uma vez que para muitos americanos, inclusive eu, foi ensinada uma versão muito incompleta e distorcida do que realmente aconteceu (o livro de Rosenbaum não abrange a Crise, além de algumas coisas à parte). A narrativa convencional é de que os soviéticos e seu capanga, Castro, ansiosos para encontrar uma maneira de espancar os Estados Unidos, diabolicamente e sem qualquer provocação começaram a pôr mísseis em Cuba com a intenção de fundir-nos em pedacinhos. Os bravos homens da CIA descobriram a trama apenas em cima da hora, antes que os mísseis fossem operacionalizados, e Kennedy disse aos comunistas para colocarem um fim a essa tolice. Kennedy ficou de igual para igual com Khrushchev, ameaçando atacar Cuba, a fim de impedir que os mísseis fossem ativados, mesmo que isso significasse uma guerra mundial entre as superpotências. Khrushchev, assustado por essa demonstração de determinação americana, trouxe seus navios correndo para casa, pressagiando a vitória total da democracia que levou mais de 30 anos para se concretizar.

A realidade era muito diferente, e somente nos últimos anos certos documentos vêm sendo desclassificados e revelações de ambos os lados veicularam a verdadeira história. O fato é que os dirigentes soviéticos não viram a sua instalação de mísseis em Cuba como um ato agressivo, mas sim como uma forma de preservar o equilíbrio de poder, já que os EUA tinham colocado mísseis nucleares na Itália e Turquia, que ficavam mais ou menos a uma mesma distância da União Soviética como Cuba é de nós. Khrushchev foi pego de surpresa quando os americanos reagiram tão fortemente como fizeram. Além disso, a ideia de que Khrushchev “pestanejou” era uma falácia inventada para aplacar a opinião pública americana. Kennedy realizou negociações clandestinas secretas com Khrushchev durante a crise, prometendo que a América nunca invadiria Cuba e que os mísseis americanos na Itália e na Turquia seriam removidos silenciosamente, em 1963, em troca da retirada de Khrushchev de Cuba. Ambos os lados honraram os seus compromissos, e a paz foi mantida – pelo menos até a próxima crise (que foi a Guerra do Yom Kippur em 1973).

A única parte exata da sabedoria popular americana sobre a Crise é que esse foi o momento em que as superpotências chegaram mais perto de uma guerra nuclear do que qualquer outro momento durante a Guerra Fria. Na verdade, a guerra estava ainda mais perto do que se pensava na época. A CIA estava errada quando disse que os mísseis cubanos ainda não tinham sido ativados quando eles foram descobertos. De fato, várias centenas de armas estratégicas e táticas já eram operacionais, e tinham sido colocadas sob o comando de Fidel Castro. Em anos mais recentes, Castro deixou claro que certamente teria usado-as em face de um ataque americano. Armas táticas foram mobilizadas para destruir a base americana na Baía de Guantánamo, assim como qualquer força de invasão, e as ogivas estratégicas teriam sido disparadas sobre os Estados Unidos continental. E em um ponto, como o comboio naval soviético se aproximou do bloqueio americano ao redor da ilha, um capitão do submarino russo ordenou que seu navio disparasse um torpedo nuclear contra os navios americanos, e só foi impedido de fazê-lo pelo comandante do comboio.

Do lado americano, temendo que Washington fosse um dos primeiros alvos destruídos em uma guerra total, os militares contornaram a autoridade supostamente sacrossanta do presidente sobre as nossas forças nucleares e comando delegou comando a muitos oficiais de baixa patente, garantindo que a morte do presidente e seus sucessores não parasse a resposta de retaliação americana (o que significa que um oficial menos estável obcecado com a idéia de “aniquilar os comunistas” teoricamente poderia ter lançado um ataque nuclear por conta própria, sem qualquer autoridade superior, à la Dr. Strangelove).

Mesmo os homens da "vanguarda", por assim dizer, prepararam-se para o pior. Então, assim como atualmente, as salas de controle dos primeiros Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs) exigiam que os dois homens da tripulação girassem suas chaves de lançamento simultâneamente para disparar os mísseis sob seu comando. A razão para isso é que se um tripulante que enlouquecesse, não poderia lançar sem o consentimento do colega (esperançosamente mais são). O que incomodava os missilheiros iniciais, como são chamados, era que um deles poderia de repente ficar com medo quando a ordem de lançar fosse recebida, angustiado com a ideia de aniquilar potencialmente milhões de russos, leste europeus ou chineses por vingança pelas decisões de seus políticos, para não mencionar a retaliação inevitável que seria levada para solo americano, e se recusassem a girar a chave. Os missilheiros chegaram a uma solução: atirar no seu companheiro hesitante com uma arma, amarrar uma extremidade de um longo pedaço de corda em uma colher e a outra extremidade na chave do seu parceiro, e girar as duas por conta própria. (Aparentemente, isso foi mantido como um truque secreto dos missilheiros por muitos anos, apesar de que os controles da ICBM atual foram supostamente redesenhados para tornar isso impossível.)

Em suma, durante esses dias de outono fatídicos, o mundo preparou-se para trazer um apocalipse feito pelo homem do tipo que tinha um precedente único nas passagens mais sombrias das Escrituras Sagradas. Provavelmente, não é correto dizer que a III Guerra Mundial em outubro de 1962 teria sido o “fim do mundo”, mas certamente teria sido o fim das civilizações norte-americana, europeia, russa e chinesa (China fazia parte dos planos americanos da guerra nuclear na época), como nós conhecemo-nas, e também teria causado muitas mortes e destruição em todo o resto do mundo.

Ironicamente, embora raramente seja enquadrada desta forma em textos históricos, a coisa toda realmente acabou sendo muito barulho por nada, já que até o final da década de 1960, os dois lados tinham construído milhares de bases aéreas, navais e terrestres de ICBM que eram, e são, mantidos em alerta constante, e podem atingir suas metas em 30 minutos ou menos. Como resultado, a necessidade de manutenção das bases de mísseis em estreita proximidade do território inimigo tornou-se obsoleto dentro de poucos anos da Crise, e ambos os lados foram capazes de ameaçar o outro com impunidade. Estava também muito longe do único momento em que as duas potências chegaram à beira da guerra. No entanto, poucos historiadores questionariam que esse foi o momento em que a Guerra Fria chegou mais perto de ficar quente do que em qualquer outro momento.

Política Nuclear Hoje: Mantendo o Velho Jogo Vivo

Em termos de fornecer uma visão geral sobre o tema da política e moralidade nuclear envolvendo os Estados tradicionais nucleares (os EUA, Rússia, Reino Unido, França e China), o livro de Rosenbaum é uma boa introdução ao assunto. Ele não apresenta nada que não possa ser estudado com mais profundidade em outro livro, mas ele o faz de uma maneira divertida e fácil de ler. Seu estilo é mais jornalístico do que acadêmico (um hábito que pode se tornar irritante, como vou descrever mais tarde), muitas vezes apresentando coisas em termos de anedotas pessoais e com apartes editoriais. Ele discute algumas das lições importantes a serem aprendidas com a experiência da Guerra Fria, onde apresenta uma ampla evidência de que o fato que o mundo fez isso através de quatro décadas de Destruição Mútua Assegurada teve tanto a ver com sorte, quanto com a prevalência da sanidade entre os diversos líderes políticos.

Rosenbaum em seguida, leva-nos até as duas décadas seguidas desde então. Esses capítulos do livro servem para corrigir a impressão na consciência popular de que o fim da Guerra Fria significou o fim da ameaça nuclear. Embora não se possa negar que o colapso da União Soviética reduziu muito o risco de conflito, o fato é que pouco mudou no impasse desde 1980. Tanto a Federação Russa quanto os Estados Unidos mantêm arsenais de milhares de armas nucleares com base em silos, submarinos e bombardeiros que são mantidos em constante alerta, prontos para lançarem a qualquer momento, e capazes de atingir qualquer ponto do globo. Certamente, há muito menos deles hoje em dia do que havia há 25 anos atrás, mas cada país mantêm o suficiente para devastar completamente o outro, se a situação apertar. (De acordo com os relatórios de 2011, as duas nações mantêm cerca de 2.000 armas em alerta a qualquer momento, e cada uma tem alguns milhares armazenadas que podem ser rapidamente reativadas. Rosenbaum corretamente aponta que os números reais podem ser até maiores.) É é também um facto que ambos continuam se prepararando ativamente para a possibilidade de uma guerra contra o outro, como através de patrulhas aéreas, que procuram detectar buracos nas defesas do outro lado do ar. E poucos acreditam que os sistemas de defesa antimísseis que os governos de Bush e Obama trabalharam para estabelecer nas imediações da Rússia são puramente destinados para a defesa contra “Estados párias”, como Irã ou Coreia do Norte.

Rosenbaum descreve uma conversa que teve com o coronel aposentado da Força Aérea dos EUA, Sam Gardiner, sobre a invasão da Geórgia pela Rússia em agosto de 2008. Gardiner chama a atenção para o fato de que, em uma coletiva para a imprensa durante a crise, a Casa Branca mencionou que os russos haviam movido alguns de seus mísseis SS-26 Iskander para a zona de combate. O SS-26 é um míssil de curto alcance, que pode ser armado tanto com as ogivas convencionais, quanto com as nucleares. Certamente, não tinham a intenção de serem usados sobre as forças georgianas, que já estavam muito ultrapassados ​​pelos russos. É mais provável, diz Gardiner, que estivessem destinados a enviar uma advertência para os Estados Unidos não intervir. Os EUA não tinham como saber se os mísseis estavam com ogivas nucleares ou não, mas essa incerteza forçou o Pentágono para um novo cálculo estratégico. Gardiner estava incerto se existe ou não planos atuais dos Estados Unidos para auxiliar os georgianos, mas em qualquer caso, a presença dos mísseis elevou as apostas, e teve, provavelmente, a intenção de ser um impedimento.

Falando da SS-26, Rosenbaum chama a atenção para o fato de que a Rússia anunciou que iria estar posicionando alguns deles dentro do alcance da Polônia, aonde o sistema de defesa antimísseis da era Bush estava para ser instalado, dentro das horas de inauguração da posse do presidente Obama . Obama acabou cancelando o plano de Bush. Se isso foi feito como uma resposta direta às ameaças russas, não podemos saber, mas parece uma possibilidade tentadora. (Claro, Obama já substituiu o plano de Bush com um sistema de defesa antimísseis de sua autoria, que os russos não acham menos ameaçador.)

Moral da história? O velho jogo de provocação nuclear está vivo e muito bem.

Isso pode parecer um simples golpe de sabre, nesse ponto da história, mas o fato de que os últimos 20 anos têm sido relativamente pacífico entre as duas nações não significa que será sempre assim. Se o “colapso”, econômico ou não, que muitas vezes é previsto que realmente aconteça, é uma certeza de que as nações do mundo utilizarão todos os métodos à sua disposição para tentar dominar o que resta dos recursos globais, e reafirmar a sua capacidade minguante de projetar poder militar. Armas nucleares ainda são uma forma barata e eficaz – muito mais do que as armas convencionais – de intimidar um adversário. Há, portanto, pouca dúvida em minha mente de que se uma verdadeira crise global ocorresse, as armas nucleares retornariam para um papel ainda mais proeminente na diplomacia e guerra. Velhas rivalidades reacenderiam, e novas poderiam incendiar-se. Desta vez, no entanto, a luta não será sobre a ideologia, mas sobre energia, alimentos, água e outros recursos – em outras palavras, sobrevivência. O desespero que essa situação vai gerar, fará com que o uso atual de tais armas, em vez de simples ameaça, seja uma possibilidade distinta.

Rosenbaum cita o cientista político de Harvard, Graham Allison, que aparentemente tem pensando de forma smiliar, a partir de um artigo de 2010 na Foreign Affairs: “A ordem nuclear mundial hoje em dia pode ser tão frágil quanto a ordem financeira global foi há dois anos atrás. . . e o colapso da ordem nuclear global. . . e as consequências [do colapso] fariam o terrorismo nuclear e a guerra nuclear tão iminentes que os estadistas prudentes deveriam fazer o possível para impedir isso.”

E isso é para ainda não mencionar o espectro sempre presente de uma guerra em erupção por causa de um erro, um acidente ou até mesmo as ações maliciosas de um líder político ou militar que perdeu a cabeça, como no clássico filme Dr. Strangelove. Rosenbaum relata uma série de acidentes que quase ocorreram de arrepiar os cabelos em ambos os lados da Cortina de Ferro em sua discussão sobre a Guerra Fria, durante a qual falsas indicações de um ataque em andamento quase levou a um contra-ataque acidental. Em cada caso, a guerra foi evitada apenas como resultado de um indivíduo oficial superando os procedimentos prescritos em favor do seu próprio julgamento. E alguns dos entrevistados por Rosenbaum que têm servido com armas nucleares, atestam que a sabedoria popular sobre as nossas armas – de que apenas o presidente tem a capacidade de autorizar a sua utilização – foi e continua sendo uma ficção destinada a acalmar os temores do público, bem como dos próprios militares.

Como Rosenbaum descreve no livro, há muitos políticos e analistas que têm chegado à conclusão (geralmente só depois que suas carreiras políticas se encerram, ele observa) de que o melhor plano de ação seria abolir as armas nucleares por completo. Isso é muitas vezes referido como "Global Zero", ou o sonho da eliminação universal das armas nucleares em todos os países. O problema é que nenhum estado voluntariamente desistirá de todas as suas armas, já que não se pode contar com o fato de que todo mundo vai seguir o exemplo. (Até o momento, a África do Sul é o único país a ter desmantelado o seu arsenal voluntariamente, o que foi feito no início de 1990, pouco antes da ascensão de Nelson Mandela, por razões óbvias.) Segundo alguns especialistas na área citados no livro mencionado, a única maneira que poderia se tornar ainda remotamente prática seria se algum organismo internacional estivesse surgindo, independente de quaisquer lealdades nacionais, imbuído de poder político e militar suficiente para impor sua vontade sobre todas as nações, e equipado com a liberdade para entrar em qualquer estado escolhido, a qualquer momento, a fim de assegurar que todos estejam obedecendo à proscrição. Ainda mais fantasticamente, tal instituição só poderia vir a existir se todas as nações do mundo o permitissem, entregando voluntariamente a sua soberania. Tal organização é certamente coisa fictícia (e se assemelha a algumas das fantasias utópicas de HG Wells, tais como a “Ditadura do Ar”, que consiste em guias fascistas comprometidos a abolir a guerra, em seu romance de ficção científica de 1933 A Forma das Coisas Por Vir).

Um plano de ação mais realista seria se as potências nucleares do mundo  levassem suas armas para fora do estado de alerta. Esta é também a solução que o próprio Rosenbaum preconiza. A melhor maneira de fazer isso seria armazenar ogivas nucleares separadas de seus lançadores. Em uma crise, elas poderiam ser recolocadas e voltarem para suas posições de lançamento, mas esse processo levaria várias horas, e seria detectado por qualquer nação com capacidade de monitoramento via satélite. A vantagem é que isso daria aos governos envolvidos tempo para negociar com o lado oposto antes de quaisquer armas serem realmente utilizadas. É claro, isso só funcionaria se todas as nações que atualmente mantêm forças nucleares em alerta constante implementassem este plano. E, claro, até mesmo isso não acabaria com a possibilidade de uma guerra nuclear, mas pelo menos removeria a ameaça de uma guerra acidental. Concordo com Rosenbaum de que esta é a atitude mais sensata, sendo muito menos utópico naturalmente do que a ideia de um observatório supra-nacional, mas os planejadores estratégicos recusam tal noção, agarrando-se à ideia de que um “ataque relâmpago”, que acabaria com seu arsenal antes de qualquer coisa, continua a ser uma ameaça real. Sendo assim, qualquer baixa significativa na nossa postura atual é pouco provável que venha a ocorrer no futuro imediato.



As Bombas Sionistas e Islâmicas

O foco principal de Como o Fim Começa: O Caminho para uma Terceira Guerra Mundial Nuclear, de Ron Rosenbaum, é Israel. Essa é a parte mais interessante e bizarra do livro. Os pontos fracos do estilo editorial de Rosenbaum tornam-se aparentes quando ele perde a calma sempre que a questão da suposta ameaça nuclear contra Israel vem à tona. Embora eu discorde de quase tudo que Rosenbaum diz sobre o assunto, concordo com ele em um ponto: na realidade geopolítica atual, Israel é certamente o estopim nuclear do mundo.

O livro começa com a discussão sobre um incidente curioso que ocorreu em 6 de setembro de 2007, quando foi noticiado que os bombardeiros israelenses, sem aviso, haviam atingido um alvo dentro da Síria. Dizia-se que o alvo tinha algo a ver com “armas de destruição em massa”, mas o que fez disso estranho é que nem Israel, nem a Síria estavam dispostos a reconhecer mais tarde que algo acontecera. Então, alguns dias depois, uma nova peça foi adicionada ao quebra-cabeça quando a Coréia do Norte emitiu um protesto formal contra a invasão.

O aspecto mais perturbador da história veio um mês depois, no entanto, quando o jornal britânico The Spectator publicou um artigo [4] no qual uma “fonte ministerial britânica muito antiga" foi citada como dizendo que haveria um “pânico em massa” se o mundo soubesse o quão perto nós tínhamos chegado da Terceira Guerra Mundial naquele dia. Não entraram em detalhes, mas Rosenbaum especula que o que pode ter acontecido é que os russos, os quais têm sido parceiros estratégicos da Síria, poderiam ter feito algum tipo de ameaça à Israel em resposta ao ataque, o que levou Israel a chamar amigos na Casa Branca, e por sua vez conduziu algumas palavras acaloradas entre Washington e Moscou.

Rosenbaum abrange muito esse incidente. Eu mesmo estou incerto do quão terrível a situação realmente foi naquele dia. O fato de que a história veio de uma única fonte anônima é um fator prejudicial. Além disso, eu realmente não posso imaginar que tanto Bush quanto Putin teriam sido imprudentes o suficiente para arriscar uma guerra sobre um programa de ADM Sírio – isso não parece ser uma aposta que vale a pena para ambos os lados. Por outro lado, dois dos momentos em que os EUA ea URSS quase chegaram à guerra de fato eram um resultado de ameaças nucleares feitas sobre a questão de Israel, em 1967 e novamente em 1973. E Rosenbaum observa que, de acordo com um periódico militar intitulado AirForces Monthly, o dia 06 de setembro de 2007, também passou a ser o dia em que ocorreu a maior incursão russa no espaço aéreo controlado pela OTAN nos últimos anos, envolvendo oito bombardeiros russos Tu-95 (com capacidade nuclear) no Mar de Barents, que foram interceptados por vinte caças da OTAN  que voavam cerca de 25 pés do avião russo – uma manobra altamente incomum e provocante. É certo que é uma grande coincidência. Então, talvez não seja tão absurda como eu gostaria de acreditar. Se esse é realmente o caso, então, a próxima Crise dos Mísseis de Cuba pode muito bem vir como resultado de um impasse no Oriente Médio.

Tal como foi, o incidente sírio encapsulou muitos dos elementos complexos que fatoraram na política de proliferação nuclear pós-Guerra Fria. Rosenbaum dedica um capítulo inteiro do livro a uma explicação extensa sobre o assunto, focando em uma coletiva da CIA sobre isso, em abril de 2008. Segundo eles, os EUA haviam reunido provas nos meses anteriores ao ataque de que a Síria estava trabalhando em um reator nuclear que também poderia ser usado para a fabricação de combustível nuclear enriquecido, o componente mais importante na construção de uma arma nuclear, e passou a informação para os israelenses. O envolvimento norte-coreano ocorreu porque eles estavam fornecendo combustível para o reator, que havia sido enviado para a Síria, poucas horas antes do ataque. A incursão foi lançada naquele momento, de acordo com a CIA, porque o combustível tinha sido entregue, mas ainda não havia sido carregado no reator. Síria e Israel decidiram abster-se de reconhecer publicamente o ataque para evitar uma situação em que a Síria se sentiria obrigada a retaliar, o que por sua vez levaria a um novo ciclo de violência ao longo de uma fronteira que foi mantida pacificada por mais de 30 anos – um efeito que ambas nações ansiavam prevenir. Curiosamente, a CIA negou que os EUA tivessem qualquer envolvimento além de proporcionar a inteligência. No entanto, no verão de 2008, foi revelado que os israelenses abordaram a Casa Branca, em meados de 2007, pedindo permissão para lançar o ataque, o qual foi rejeitado. Como Rosenbaum aponta, tais negações são geralmente interpretadas como sendo uma tácita luz verde, já que eles proporcionam aos EUA negações notáveis.

Portanto, temos aqui todos os elementos de um drama que vem se repetindo incessantemente desde 1981, quando um ataque aéreo israelense destruiu o reator nuclear de Saddam Hussein em Osirak: um “Estado pária” no Oriente Médio, que desenvolvia um programa de energia nuclear. O "Primeiro Mundo" inteiro tornou-se aliado de Israel, condenando-o, dizendo que o país em questão não pode ser confiável com armas nucleares (enquanto  muitos deles nutrem arsenais próprios que chegam a ser centenas ou até milhares). Em seguida, os EUA e Israel trabalharam juntos, dissimuladamente, ou não tão dissimuladamente como no Iraque, para desarmar a nação em questão a qualquer custo. Assim como um drama, está ficando chato, mas é provável que se repita mais e mais vezes, como está se repetindo agora com o Irã, até que um dos inimigos de Israel finalmente adquira um impedimento verossímel, como os soviéticos fizeram com os EUA nos primeiros anos da Guerra Fria.

O que torna a situação diferente da Guerra Fria, em primeiro lugar, é que o lócus de toda essa agitação, Israel, nunca admitiu ter quaisquer armas nucleares próprias, apesar de que evidências consideráveis ​​foram acumuladas ao longo dos anos provando o contrário; em segundo lugar, nenhuma das nações que está em conflito tem uma arma nuclear. (Pode-se argumentar que o Paquistão é uma exceção, sendo o único país islâmico com um arsenal nuclear. Até mesmo apelidou orgulhosamente seu arsenal de  “Bomba Islâmica”. Há rumores de que Israel tentou destruir o programa nuclear do Paquistão em 1980, mas foi em vão , seja por razões políticas ou táticas. Independentemente disso, o Paquistão não tem interesse em comprar briga com Israel, desde que continue focado em sua rivalidade com a Índia, que não mostra sinais de cumplicidade. Pelo que sei, enquanto as relações são legais, nem Israel nem o Paquistão já se ameaçaram. Além disso, do ponto de vista da Europa e dos Estados Unidos, nenhum país muçulmano tem a capacidade tecnológica para transferir um dispositivo nuclear para seus territórios, mesmo que tal nação muçulmana tivesse sucesso em desenvolvê-lo. Então por que o diálogo sobre a ameaça nuclear do mundo muçulmano sempre tem um tom histérico?

Rosenbaum não aborda o assunto com essa pergunta em mente, pois, segundo ele, a paranóia é completamente justificável. Como ele escreve no livro, “Eu não acho que seja apropriado fingir ser imparcial sobre o assunto, considerando a minha ascendência judaica e de ter passado 10 anos da minha vida examinando as origens do Holocausto de Hitler.” E ele certamente não finge. Ele se descreve como “um judeu secular, liberal, não religioso, não-sionista, Americano, com nenhum membro da família imediata assassinado no Holocausto.” Seu tom é consistente com aquele dos “intervencionistas liberais”, que ganhou destaque na América no rescaldo do 9/11. Terror e Liberalismo de Paul Berman, publicado em 2003, é uma explicação dessa ideologia: estilo de liberalismo dos anos 60 no país, mas que promove agressivamente a democracia e os “direitos humanos” [5] no exterior, inclusive através de guerra preventiva – mais particularmente, claro, contra as nações que estão em oposição a Israel. A lógica é simples: a América é o melhor país do mundo, e Israel é um posto avançado solitário do estilo de democracia americano no Oriente Médio; portanto, qualquer coisa que Israel faz para proteger sua segurança é justificado, e os Estados Unidos deveriam o apoiar cegamente em todos os seus esforços.

Rosenbaum, no entanto, não tem muito a dizer aqui sobre as noções idealistas da divulgada democracia – apenas o público americano em geral necessita de tais justificativas. Sua única preocupação, tal como das autoridades israelenses, é a de manter as armas nucleares fora do alcance dos inimigos de Israel. Na opinião deles, nada se justifica para evitar que isso aconteça. Rosenbaum cita um historiador israelense, Benny Morris, que escreveu: “Mais cedo ou mais tarde [o Irã] terá armas nucleares suficientes para uma ameaça existencial, se os israelenses (ou americanos) não agirem primeiro. E como os israelenses não podem descartar a ideologia do martírio suicida abraçada a nível nacional por parte de alguns líderes iranianos, eles vão agir.” [6]

Eu nunca tive certeza absoluta do por quê de alguns líderes israelenses e americanos neoconservadores acreditarem que, se uma nação islâmica adquire uma arma nuclear, a primeira coisa que vai fazer é soltá-la em Tel Aviv, apesar do fato de que os líderes iranianos sabem sem dúvida que Israel tem a capacidade de explodí-los em pedaços (mais sobre isso depois), ou então que os americanos provavelmente fariam isso por eles (durante sua campanha presidencial de 2008, Hillary Clinton prometeu que os EUA iriam “obliterar totalmente o Irã” em caso de um ataque nuclear contra Israel, o que é provavelmente a visão predominante em Washington). Eu vejo isso como parte da tentativa sionista de convencer o mundo que os muçulmanos são inerentemente instáveis e irresponsáveis, fato que ajuda a conseguir apoio político que garanta o domínio israelense da região, como já testemunhamos na Guerra do Iraque, que foi inicialmente enquadrada como um ato de auto-defesa, para nós e para os israelenses, antes de ser reenquadrada como uma cruzada para espalhar a democracia. Talvez os sionistas realmente acreditem em sua própria retórica.

Pessoalmente, eu não acredito que o povo e o governo do Irã, ou qualquer outra nação, acolhe um complexo de martírio coletivo. Se eles conseguem adquirir armas nucleares, é mais provável que usassem-nas como um impedimento contra os invasores em potencial. De acordo com Rosenbaum, no entanto, o fracasso do mundo foi deixar Hitler ter seu discurso nas décadas de 1920 e 1930, o que levou ao Holocausto, e, portanto, Israel deve obter um passe livre para fazer o que quiser contra seus inimigos por razões que podem ser reais ou imaginadas, e, além disso, devemos sentir obrigação em ajudá-los.

Rosenbaum não cita o resto do ensaio de Benny Morris, mas vale a pena reproduzir um pouco dele aqui:

"[Ahmadinejad] está disposto a arriscar o futuro do Irã, ou até mesmo de todo o Oriente Médio muçulmano em troca da destruição de Israel. Sem dúvida, ele acredita que Alá, de alguma forma, vai proteger o Irã de uma resposta nuclear israelita ou um contra-ataque americano. Ele pode muito bem acreditar que seus mísseis vão pulverizar o Estado judeu, que não será mais capaz de responder. E, com o seu profundo desprezo pelo fraco Ocidente, é improvável que ele leve a sério a ameaça de retaliação nuclear americana. [...] Os líderes israelenses provavelmente rangeriam os dentes e esperariam que de alguma forma as coisas ficassem melhores. Talvez, depois de adquirir a bomba, os iranianos se comportariam “racionalmente”? [...] Mas os iranianos vão lançar seus foguetes. E, como ocorreu com o primeiro Holocausto, a comunidade internacional nada fará. Tudo estará acabado, para Israel, em poucos minutos."

Esta passagem somente pode ser descrita como histérico, uma vez que não tem base na realidade. A primeira declaração falsa é que Ahmadinejad iria ordenar um ataque contra Israel. Mesmo se o Irã tivesse armas nucleares, o presidente não tem autoridade para usar a força militar –  esse poder é reservado ao Líder Supremo, atualmente o aiatolá Khamenei, que emitiu uma fatwa em 2005 afirmando que a posse e o uso de armas nucleares é contrária à lei islâmica . (Além disso, o mandado de Ahmadinejad como presidente termina em junho de 2013, e ele é inelegível para concorrer a um terceiro mandato.) É também um fato que o Irã nunca entrou em uma guerra agressiva nos tempos modernos. Então Morris tenta nos convencer de que Ahmadinejad é um louco, um truque barato geralmente usado pelos sionistas.

Então, como se isso não bastasse, ele acusa os EUA de não serem um aliado forte o suficiente de Israel (e seu ensaio foi escrito em 2007, quando Bush ainda era presidente). Como alguém poderia caluniar a boa vontade dos EUA de apoiar suas ameaças, depois de já ter derrubado três governos do Oriente Médio nos últimos anos e trabalhar ativamente contra vários outros, está além de mim. Sempre foi evidente, quando sua retórica sobre a América ser seu melhor aliado é posta de lado, que os sionistas não têm muito respeito pela América ou pelo povo americano, mas sei que eles confiam em nossos subsídios financeiros e armamentistas massivos para continuarem sobrevivendo – mas é raro que eles exponham seus sentimentos de forma evidente. Suponho que Morris espera chocar os americanos fora de sua "letargia" em relação a Israel – e, tragicamente, a maioria dos americanos, depois de décadas de condicionamento, não a verão como o insulto que realmente é, mas sentirão simpatia.

Quanto às últimas sentenças, elas são ainda um outro apelo ao fato de que deveria ser óbvio que os iranianos são naturalmente irracionais e homicidas, e outra reprimenda contra o resto do mundo por não apoiarem cegamente Israel. Tenho a certeza de que muitos americanos ao lerem sua obra apenas balançaram a cabeça para as incríveis injustiças que continuam a ser jogadas sobre os pobres e inocentes israelenses.

Mas Morris ainda não terminou. Ele também escreve:

"O vice-ministro da defesa israelense, Efraim Sneh, sugeriu que o Irã nem sequer deve utiliza a bomba para destruir Israel. A nuclearização do Irã poderá intimidar e deprimir os israelenses, que vão perder as esperanças e gradualmente emigrar, e os potenciais investidores estrangeiros e imigrantes fugirão do estado judaico mortalmente ameaçado. Mas eu tenho a impressão de que Ahmadinejad e seus aliados não têm paciência e buscam a aniquilação de Israel durante suas vidas."

É isso mesmo – mesmo que o Irã construa uma bomba, mas não lance imediatamente um ataque suicida, o resultado final ainda será o mesmo: a destruição de Israel. A moral que devemos concluir dessa história é que ninguém no Oriente Médio pode ser confiável com armas nucleares, mesmo que elas não sejam utilizadas de verdade, além dos próprios israelenses, é claro. (Se a moral israelense é tão baixa que o simples fato do Irã possuir armas nucleares é o suficiente para fazê-los arrumar as malas e partir, então eu diria que eles já estão realizados como nação.)

Sempre que os sionistas e seus defensores querem provar que o Irã tem intenções genocidas contra Israel, eles repetem o mantra de que no “Mundo sem Sionismo”, conferência feita em Outubro de 2005, Ahmadinejad pediu para Israel ser “varrido do mapa”. Isso foi na verdade um erro de tradução perpetrado pela agência de inteligência israelense MEMRI, que existe somente para apresentar traduções altamente imprecisas e tendenciosas das declarações de líderes muçulmanos, que são então usadas para provar que o mundo quer destruí-los. Na verdade, o professor Juan Cole, da Universidade de Michigan, tem argumentado convincentemente dizendo que Ahmadinejad nunca disse isso, já que não existe expressão para “varrido do mapa” em persa. Citando Cole: “[A] citação real, que vem de um discurso antigo de Khomeini, não implica uma ação militar, ou matar alguém. [...]é apenas uma tradução inexata. A frase é praticamente metafísica. Khomeini disse que ‘o regime de ocupação sobre Jerusalém deve desaparecer das páginas do tempo.’ Isso provavelmente é uma referência a uma frase de um poema medieval persa. Não se trata de tanques .” [7]

Rosenbaum não menciona o fato de que há discordância nessas traduções. Ele as aceita pelo seu valor nominal. Simpaticamente, ele cita um jurista israelense, Justus Reid Weiner, que escreveu em 2006, “E ainda não houve nenhum esforço para julgar o incentivo contínuo ao genocídio – a um segundo Holocausto – do povo judeu. Ninguém fora de Israel, e os EUA, sugeriu que alguém da liderança iraniana, ou dos líderes do Hamas, fossem processados sob a lei internacional por incitação ao genocídio. “Aparentemente, Rosenbaum e Weiner sentem que as leis sobre os “discursos de ódio” draconianos que já estão em vigor na Europa Ocidental devem ser aplicadas globalmente, pelo menos em referência aos judeus.

O número de distorções em relação ao programa nuclear do Irã é tão grande, e também tão publicamente disponível, que é incrível para mim que mais pessoas não estejam cientes de que estão sendo enganadas. O Arauto da Ciência Cristã publicou um cronograma, no ano passado, do número de vezes que tem sido afirmado que o Irã está prestes a desenvolver armas nucleares. Os governos dos EUA e da Alemanha têm feito essa reivindicação desde 1984, verifica-se. Israel, e Netanyahu , em particular, têm feito isso desde 1992. De fato, naquela ocasião, ele afirmou que o Irã estava apenas de 3 a 5 anos distante, e que seu programa devia ser “erradicado por uma frente internacional liderada pelos EUA.” [8] Dada as suas declarações durante a recente eleição presidencial, parece que ele ainda não mudou de tom. E Rosenbaum ainda procura nos lembrar em seu livro, “Há poucas pessoas no planeta que sinceramente não acreditam que o Irã está buscando a capacidade de produzir armas nucleares. Os homens tribais da idade da pedra na Papua Nova Guiné, por exemplo, talvez sejam felicitados por desconhecerem essa possibilidade.” Quando a lógica falhar, os apelos emocionais para a suposta obviedade do assunto são o último refúgio de um debatedor que percebe que falhou em argumentar o seu caso.

Ele também não hesita em se engajar na ficção para persuadir o leitor. Ele especula sobre qual seria o resultado de um ataque americano às instalações nucleares iranianas. “O Irã retaliaria, no Golfo Pérsico, atirando em porta-aviões americanos e navios de guerra com mísseis chineses Silkworm, obliterando a navegação no Estreito de Ormuz, destruindo as refinarias de petróleo da  Arábia Saudita e com elas muito das fontes de energia ocidental, e para não mencionar – dependendo, no período de tempo – o envio de um míssil balístico Shehab-3 em direção a Israel, Europa Ocidental, e ao Hemisfério Ocidental como um todo.”  Não sou nenhum especialista no assunto – seu cenário para o Oriente Médio poderia muito bem ser exato, mas o que me chamou a atenção foi sua declaração de que os iranianos poderiam lançar mísseis nem direção aos EUA, considerando que os iranianos não possuem nada semelhante a um Míssil Balístico Intercontinental (ICBM) até o momento. O Shehab-3 que ele especificamente menciona, tem um alcance máximo de 1.200 milhas (e alguns especialistas afirmam que pode ser um exagero) – apenas o suficiente para atingir Israel, mas longe, muito longe da Europa ou da América do Norte. Mas ainda assim, um leitor que não se preocupa em acompanhar isso, de longe acredita que o Irã tem a capacidade de atacar os EUA em seu próprio território, o que simplesmente não é verdade e é improvável que se torne verdade em breve.
A única coisa que realmente irrita Rosenbaum, no entanto, é o fato de que a Estimativa de Inteligência Nacional dos EUA, em 2007, afirmou que o Irã interrompeu seu trabalho sobre armas nucleares em 2003. Segundo ele, isso foi completamente impreciso. Rosenbaum cita alguns membros da comunidade de inteligência que, posteriormente, disseram que isso estava apenas relacionado ao design de ogivas, mas que o empenho do Irã para desenvolver o enriquecimento de combustível nuclear e mísseis de alcance mais longo continuam. Isso é interessante, mas ainda parece difícil imaginar como o Irã realizará seu sonho de supostamente acabar com Israel sem uma ogiva funcional.




O Espectro do Holocausto 

De acordo com Rosenbaum, a paranóica política nuclear de Israel é justificada pelos temores de um “segundo Holocausto”. Ele diz que esse termo tem sido usado por israelenses pelo menos desde a década de 1960 para expressar sua crença nas intenções genocidas dos seus vizinhos, mesmo que Israel nunca tenha perdido uma guerra contra eles. Rosenbaum diz que ele foi induzido a começar a usar esse termo em seus próprios escritos depois de ler o romance Operação Shylock por Philip Roth, de 1993, em que um dos personagens do romance se queixa que, por se mudarem em massa para Israel, os judeus transformaram Israel em um campo de concentração de sua própria autoria, e que o segundo Holocausto poderia ser alcançado muito facilmente através da utilização de armas nucleares. Rosenbaum afirma que devido o tamanho de Israel, a grande maioria de sua população poderia ser morta por apenas uma ou duas ogivas nucleares de maior rendimento.

Para Rosenbaum, os temores sionistas e israelenses em relação às armas nucleares nas mãos de muçulmanos só podem ser compreendidos dentro do contexto da memória do Holocausto, e da conduta esmagadora para evitar que se repita. [9] Ele certamente não está sozinho nessa; sionistas têm continuamente invocado Hitler e o Holocausto quando se discute sobre quem se opõe a eles. Saddam Hussein foi repetidamente comparado a Hitler entre 1990 e 2003, depois que os americanos e israelenses, que tanto o apoiaram durante a década de 1980 contra o Irã, decidiram colocar o Iraque do outro lado da cerca. Como Hussein se foi, o Irã rapidamente tomou seu lugar. “É 1938, e o Irã é a Alemanha”, Benjamin Netanyahu disse. “E o Irã está correndo para se armar com bombas atômicas.”

Em relação a isso, ao defender a ideia de um segundo Holocausto, Rosenbaum discute brevemente a história de Haj Amin al-Husseini, o ex-Grão-Mufti de Jerusalém, um líder muçulmano palestino que fez transmissões de rádio em Berlim durante a Segunda Guerra Mundial, empenhando-se em motivar os muçulmanos do mundo todo a lutar em nome do Terceiro Reich. Isso se tornou uma alegoria sionista comum nos últimos anos, e vários livros já foram publicados sobre Husseini, alegando que a retórica islâmica atual em relação aos judeus descende diretamente dos esforços da propaganda de Husseini. Este é um estratagema bastante inteligente, uma vez que visa eliminar o atual status dos palestinos como vítimas da repressão e limpeza étnica judaica e colocá-los em pé de igualdade com os próprios Nacional-Socialistas, tornando então os palestinos culpáveis no Holocausto.

Embora seja verdade que alguns muçulmanos (principalmente dos Balcãs) tenham servido nas fileiras da Waffen-SS, é um exagero argumentar que eles tinham alguma coisa a ver com as políticas raciais alemães ou com a operação nos campos. Quanto ao islamismo atual, acho difícil de acreditar que os palestinos (cuja maioria não é islâmica) precisaram reciclar propaganda do anos 40 para aprenderem a odiar os judeus, dado o tratamento que recebemos deles desde 1948. No entanto, isso é o que Rosenbaum e os outros gostariam que acreditássemos. É apenas uma versão mais elaborada do seu velho recurso de acusar qualquer um que critique o poder israelense ou judeu de ser nazista.

Rosenbaum vem escrevendo e falando sobre este assunto por muitos anos antes da publicação deste livro, e ele já havia sido censurado por alguns críticos de Israel por sua insistência em invocar o Holocausto para justificar a atual política israelense. Surpreendentemente, Rosenbaum refere-se a essas pessoas como “negadores do segundo Holocausto “ que estão envolvidos em “inconsequencialismo do Holocausto.” Ele escreve:

"Sob vários aspectos,o inconsequencialismo do Holocausto é pior do que a negação do Holocausto, porque o inconsequencialismo não nega que isso aconteceu; ele reconhece o assassinato em massa, mas acrescenta insulto à injúria, privando essas vidas assassinadas de qualquer possível significado para a vida. Na verdade, o desejo de “banir” não é sequer a negação do segundo Holocausto: é um convite à rasura do primeiro Holocausto, para a eliminação. A Solução Final para a Solução Final: esquecer, erradicar isso para todos os efeitos práticos."

Isso me lembrou do ensaio recente “Lidando com o Holocausto” de Greg Johnson, e sua visão de refutar a relevância contínua do Holocausto na política contemporânea é uma estratégia melhor para aqueles que buscam combater a propaganda sionista, em vez de tentar negar que aconteceu [10].

Do “Segundo Holocausto” a “Opção Sansão”

O problema da associação do que foi, alegadamente, a maior atrocidade da história humana com a política nuclear é que isso inspira uma imensa pretensão de superioridade moral. Tanto que, na verdade, os judeus ainda se sentem justificados em fazer ameaças, não apenas contra seus inimigos, mas até mesmo contra seus próprios aliados. E isso é algo que os leitores do mundo todo fariam bem em entender.

“A própria secundidade do segundo Holocausto carrega consigo uma tentação de abandonar todos os pensamentos de proporcionalidade em retaliação, e punir todo mundo, não para evitar um, mas dois massacres de um povo”, escreve Rosenbaum. E, novamente, ele não está sozinho nessa ideia. Ele está se referindo à Opção Sansão, que há muito tem sido especulada como sendo uma estratégia real nas prateleiras das Forças de Defesa de Israel para ser usada caso Israel escolha empregar a retaliação nuclear em face da derrota total. Ninguém sabe ao certo o que há nela, já que Israel nunca admitiu sua existência. Na verdade, Israel nunca afirmou que tem armas nucleares, mas indícios suficientes foram descobertos ao longo dos anos, alguns dos quais pelos próprios israelenses, então há pouca duvidas de que eles possuem uma. Algumas estimativas supõem que seu arsenal tenha 400 ogivas, o que tornaria Israel uma das maiores potências nucleares do mundo. Eles continuam se omitindo sobre o assunto em termos oficiais, já que admitir faria com que fossem sujeitos a recriminação internacional, e eventuais sanções, nos termos do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Alguns dizem que a Opção Sansão é um mero plano de contingência padrão a ser implementado contra um inimigo que está prestes a ultrapassar a Israel. Outros dizem que é muito mais do que isso. Ele pode incitar um ataque ao mundo não-judaico.

Israel “usaria seus mísseis nucleares para fazer mais do que retaliar contra certos atacantes de Israel; seus mísseis nucleares seriam usados para derrubar os pilares do mundo (atacar Moscou e as capitais europeias, por exemplo), alegando que eles permitem – ou toleram –  o anti-semitismo, tornando ambos holocaustos, o primeiro e o segundo, possíveis”, escreve Rosenbaum.

Você leu corretamente. Na mente de alguns sionistas, a destruição de Israel lhe confere o direito de levar abaixo todo o resto do mundo junto com eles, mesmo que o resto do mundo não tenha nada a ver com a derrota deles.

Rosenbaum não é o primeiro a tentar racionalizar uma coisa dessas. Ele cita um artigo de opinião infame escrito pelo professor David Perlmutter da Universidade do Estado da Louisiana, em 2002: “O que serviria melhor a um judeu odiador do mundo no reembolso de milhares de anos de massacres, se não um inverno nuclear. Ou então convidar todos aqueles estadistas europeus e ativistas pacifistas para se juntarem a nós nos fornos? Pela primeira vez na história, um povo enfrenta o extermínio, enquanto o mundo gargalha ou desvia o olhar — ao contrário dos armênios, tibetanos, judeus europeus da Segunda Guerra Mundial ou ruandeses —temos o poder de destruir o mundo. A justiça final?”[11]

Na mesma linha, Martin van Creveld, um proeminente historiador militar israelense que viaja nos corredores do governo de Israel, disse em 2003: “Nós possuímos várias centenas de ogivas e mísseis nucleares e podemos lançá-los em alvos em todas as direções, talvez até mesmo em Roma. A maioria das capitais europeias são alvos da nossa força aérea. Deixe-me citar o general Moshe Dayan: ‘Israel deve ser considerado um cachorro louco, demasiado perigoso para se imolar.’ Considero tudo isso sem esperança neste momento. Devemos tentar impedir que as coisas que estão para vir terminem assim, se possível. Nossas forças armadas, no entanto, não são as trigésimas mais fortes no mundo, mas sim a segunda ou terceira. Temos a capacidade de derrubar o mundo com a gente. E eu posso garantir que isso vai acontecer antes que Israel afunde.” [12]

Para mim, isso soa como os delírios de um egomaníaco ou os gritos de uma criança mimada, um mau perdedor com o poder de destruir o mundo em um ataque de despeito suicida. Se for verdade, despe qualquer equivalência moral e superioridade, que Israel reclama com o resto do mundo, incluindo seus inimigos muçulmanos. Pelo tanto que sei, Paquistão, Síria ou o Irã nunca ameaçaram atacar a Rússia, Europa ou Japão em represália por ações tomadas pelos israelenses. Os claramente sionistas realmente não estimam muito os não-judeus. A própria ideia da Opção Sansão implica que eles se vêem como moralmente superiores ao resto da humanidade, que deve ser submetida através do medo e das ameaças. É claro que não temos nenhum meio de saber se essa é ou não uma doutrina verdadeira da IDF. Talvez seja apenas uma tentativa grosseira feita por alguns poucos sionistas frustrados para intimidar o resto do mundo a apoiar suas políticas. Mas o fato de que muitos deles estão discutindo isso abertamente é preocupante. E Israel certamente tem a habilidade técnica para realizar tal ataque se quiser.

Em 2008, a IDF introduziu o ICBM Jericó III em seu arsenal, que é conhecido por ser capaz de carregar ogivas nucleares. Israel afirmou que o míssil tem um alcance que torna possível atingir qualquer lugar em todo o Oriente Médio, assim como grande parte da Europa e da África. Relatórios de inteligência norte-americanos, no entanto, afirmaram que seu alcance real pode ser suficiente para atingir a Ásia, bem como a América do Norte e do Sul, dando-lhes uma capacidade nuclear, no mesmo nível dos EUA e da Rússia.

Além de seus mísseis, Israel atualmente alinha uma frota de quatro submarinos de ataque da classe Dolphin, que foram especialmente concebidos para Israel e pagos pela Alemanha. Mais dois estão em construção. (O governo alemão disse que isso foi feito como compensação para a assistência prestada por empresas alemãs para o programa de armas químicas do Iraque na década de 1980, embora eu não acredite que não haja algum elemento de reparação do Holocausto envolvido.) Como os submarinos são indetectáveis​​ enquanto submersos, isso dá a Israel uma capacidade de ataque em qualquer lugar do mundo, mesmo presumindo que todos seus mísseis superficiais fossem destruídos em um ataque surpresa.

Portanto, mesmo que a Opção Sansão seja uma realidade, os israelenses estão certamente preparados para realizá-la.

Rosenbaum, no entanto, ainda é um liberal americano no coração, e ele deve ter percebido o quanto suas justificativas para a Opção Sansão pareceriam loucura aos olhos de seus leitores não-sionistas. Assim, ele retorna a um assunto que ele tinha levantado no início do livro em relação à Guerra Fria, questionando se a ideia de retaliar contra um inimigo (e provocando a destruição de toda população do inimigo, e não apenas das pessoas responsáveis ​​pela guerra), mesmo que a detenção tenha falhado e que o país já esteja em ruínas, seria moralmente justificável. Isso, afinal, é o essencial, e é a pergunta de qualquer nação que pratica a dissuasão nuclear. Rosenbaum chama de “questão proibida”.

Para examinar a questão no contexto de Israel, Rosenbaum busca Moshe Halbertal, um professor israelense que ensina ética e direito internacional, tanto na Universidade de Nova Iorque quanto na Universidade Hebraica de Jerusalém. Halbertal tem credenciais interessantes, sendo o co-autor do código de ética da Força de Defesa de Israel. Rosenbaum levanta a questão da moralidade de retaliação nuclear israelense para ele. No caso do uso de armas nucleares contra uma nação que está se preparando para usá-las contra Israel, Halbertal diz que sim, é justificada – o que não surpreende.

Ele faz um comentário estranho sobre isso, que se Israel atacar um país, tal como o Irã, para prevenir seu país de um ataque nuclear, ele também teria que visar o arsenal nuclear do Paquistão, no caso do Paquistão decidir vingar seus irmãos muçulmanos. Eu não sei porque Halbertal faz esse salto de lógica, uma vez que o Paquistão nunca declarou qualquer intenção de vir em auxílio de outra nação que ataca Israel, e não tem nenhum interesse aparente em fazê-lo. Mas uma coisa que aprendi nesse livro é que a paranóia sionista não conhece limites.

Mas a conversa toma um rumo interessante quando Rosenbaum pergunta a ele sobre uma detenção numa situação em que Israel já foi destruído – um dilema que pode ser enfrentado pelos oficiais a bordo de submarinos israelenses no mar, depois de receberem a informação de que a guerra foi perdida e que sua nação está em ruínas. Então, deveria ele atirar, sabendo que o destino de Israel já foi selado? Halbertal se refere a essa situação como de “moralidade esotérica.” Segundo ele, Israel deve fazer seus inimigos acreditarem que usaria suas armas nessa situação, mas na realidade, os líderes de Israel e os comandantes devem saber que não deveriam usá-las caso tal cenário de fato sucedesse. Para ele, essa é a única posição moralmente defensável. Isso me lembrou um pouco do conceito de George Orwell de “duplipensar”, onde se detêm duas posições contrárias ao serem verdadeiras ao mesmo tempo. Mas eu realmente não posso ser muito duro com os israelenses, neste caso, já que é um dilema moral que todas as potências nucleares devem enfrentar.

Um adendo interessante para a discussão é quando Rosenbaum começa a se perguntar se ele realmente deveria escrever sobre a conversa no livro, pois ele teme que poderia implantar na mente dos inimigos de Israel a ideia de que Israel não leva a sério seu impedimento . Então ele contatou Halbertal e perguntou se ele deveria escrever sobre isso – e Halbertal, sem surpresa dado o que está escrito no livro, disse que sim.
Acho que é proporcionado um vislumbre de tranquilidade ao perceber que pelo menos alguns sionistas não concordam com a justeza moral da Opção Sansão, mas as decisões em tempo de guerra não são feitas como resultado de profundas conversas filosóficas em escritórios de universidade, mas em curtos períodos de tempo e sob forte pressão. E eu não acredito que missilheiros e sub-comandantes israelenses tomariam caminho certo, especialmente se eles têm treinamento e ordens contrárias..

De qualquer forma, com ou sem a Opção Sansão, Israel certamente conseguiu instalar-se como a peça fundamental de qualquer crise nuclear que é suscetível de acontecer em um futuro próximo. Entretanto, o problema de novas nações ingressarem no “clube nuclear”, nações que podem ou não exercer tanto a coibição quanto as potências nucleares existentes têm feito até hoje, é algo que não está restrito apenas ao Oriente Médio. A Coreia do Norte, depois de tudo, conseguiu escapar do radar dos cães de guarda internacionais. Como Rosenbaum observa corretamente, os Estados Unidos originalmente começaram sua perseguição pela bomba atômica depois que se tornou conhecido, em um empenho liderado por Einstein, que o Terceiro Reich estava trabalhando na mesma coisa. Os EUA esperavam ser os primeiros a construir uma e, assim, antecipar a “bomba nazista.” (A Alemanha, claro, entrou em colapso antes de cada lado desenvolver armas nucleares, assim, o Japão tornou-se o local de uma demonstração que visava tanto a a URSS quanto os japoneses) Esse é o incrível poder das armas nucleares: elas são tão assustadoras que a principal razão pela qual as nações procuram construí-las é evitar que outras nações usem-nas primeiro.

O problema, entretanto, é como os estados nucleares existentes podem continuar a manter um monopólio sobre armamentos nucleares, insistindo que nenhuma outra nação pode participar do seu clube. A intenção original do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que foi introduzido pela primeira vez em 1970, era que todas as nações finalmente se desarmassem. Na prática, no entanto, tem sido utilizada como um porrete pelas principais potências nucleares contra nações não-nucleares, enquanto elas mesmas apresentam pouca intenção de se desarmarem. Outras nações, portanto, têm pouca motivação para exercer a coibição enquanto este duplo padrão persistir, e enquanto nações não-nucleares estiverem sujeitas aos caprichos do “Primeiro Mundo” – o Iraque foi invadido com base em falsas alegações de possuir armas de destruição em massa, depois de tudo, e o regime de Kadhafi na Líbia foi destruído, apesar do fato de que ele abriu mão voluntariamente do seu programa nuclear em 2003. Essa não é uma boa maneira de persuadir outras nações de que seguir o Tratado de Não Proliferação é uma boa decisão.

Quanto a Rosenbaum, foi interessante ver a frieza que ele demonstrou ao tratar da situação entre a Rússia e os EUA, onde apela por cooperação e compreensão, que foi rapidamente abandonada quando entrou no assunto de Israel. Mas isso é típico do pensamento sionista, no qual as regras que submetem o resto do mundo são consideradas inaplicáveis ​​quando se trata do Estado judeu.

O Futuro: A Moralidade das Armas Nucleares

Eu percebo que há um longo caminho a percorrer antes que a Nova Direita norte americana, ou qualquer um dos grupos similares em todo o mundo ocidental, tenha algo a dizer sobre a política internacional ou nuclear. No entanto, eu acho que é importante para nós estar ciente e começar a pensar sobre este assunto, porque as armas nucleares não vão a lugar algum e poderiam voltar ao cenário político com uma represália num futuro não muito distante. Eventualmente, se formos bem sucedidos, elas terão que ser consideradas tanto como uma arma nas mãos de nossos adversários (por exemplo, em caso de secessão, deveria  o governo dos EUA deixar os rebeldes seguirem seu próprio caminho incólumes?) quanto como algo para o qual devemos direcionar nossas próprias atitudes.

Rosenbaum está certo ao argumentar sobre a “questão proibida”: o uso atual de armas nucleares é moral? Pessoalmente, eu acredito que, não importa o que um sistema de crenças subscreve, a resposta deve ser um não bastante enfático. As armas nucleares não fazem distinção entre combatentes e não-combatentes. Além disso, têm um efeito extremamente destrutivo para o ambiente, que não é limitado a área de destino. Ainda mais importante, na medida em que mais de uma nação possui as armas, sua utilização implica sempre o risco de provocar uma resposta igualmente devastadora do outro lado.

Mesmo além de tais questões morais, entretanto, o que preocupa é se as armas nucleares estão ou não nas mãos de pessoas que afirmam defender valores tradicionais de qualquer tipo (e não me refiro apenas no sentido de Tradicionalismo). A guerra nuclear é a expressão máxima da mentalidade industrial em forma de arma – a morte produzida em massa e destruição em uma escala inimaginável. Elas são o tipo de arma para pessoas preguiçosas e covardes, permitindo que os piores elementos da humanidade para se mantenham seguros em casa, sabendo que seus inimigos podem ser eliminados com o pressionar de um botão, enquanto eles se deleitam na decadência.

Como Mark Dyal nos lembrou em sua recente série de ensaios sobre o vitalismo, a maneira pela qual os membros de uma civilização conduzem suas vidas determina suas qualidades. A ironia de armas nucleares é que, por serem tão horríveis e omnipotentes, elas acabam tornando a guerra, atualmente, uma coisa terrível de se praticar, deixando que as nações resolvam suas diferenças através de políticas econômicas e tratados – atividades passivas. Os homens não têm motivos para treinarem e se endurecerem para a batalha, e ao invés disso, recorrerem a videogames e assistem a esportes na TV como um escape para seu instinto agressivo natural. E já podemos ver o tipo de sociedade que tal modo de vida produz. A guerra deve ser uma competição entre homens bravos e heróicos, e não um processo impessoalizante em que os combatentes nunca sequer olham o inimigo nos olhos, exceto, talvez, em uma tela.

Portanto, eu acho que a eliminação das armas nucleares deve ser uma das principais metas da Nova Direita. Sei que é improvável que seja um objetivo prático de um futuro próximo, mesmo se alcançarmos qualquer poder político, uma vez que os nossos inimigos não são suscetíveis a respeitar nossa altivez, mas acho que isso deve ser colocado no nosso horizonte eventual. Não há lugar para armas nucleares em uma civilização de gente boa e honrada.

Nesse meio tempo, no entanto, nunca devemos esquecer por um momento que todos nós vivemos sob a espada de Dâmocles, que é a bomba.

Notas
[1] Para um olhar fascinante sobre o quão perto o mundo realmente esteve do abismo nuclear em 1983, eu recomendo o documentário bem feito da BBC de 1983: À Beira do Apocalipse, que está disponível no YouTube  (http://www.youtube.com/watch?v=8kTnXqfT1Mk).
[2] Threads continua a ser uma experiência de visual angustiante ainda hoje, e pode ser o maior filme já feito sobre o apocalipse. Também foi carregado no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=_MCbTvoNrAg).
[3] Ron Rosenbaum, Como o Fim Começa: O Caminho para uma Terceira Guerra Mundial Nuclear (Nova Iorque: Simon & Schuster, 2011).
[4] James Forsyth e Douglas David, “Nós chegamos muito perto da Terceira Guerra Mundial naquele dia,” em The Spectator (03 de Outubro de 2007), disponível em www.spectator.co.uk/features/222736/we-came-so-close-to-world-war-three-that-day/.
[5] Essa ideologia foi criticada nas duas publicações recentes de “Nova Direita” da Arktos , Além dos Direitos Humanos por Alain de Benoist (2011) e Lutando pela Essência de Pierre Krebs(2012).
[6] Benny Morris, “O Segundo Holocausto,” em The New York Sun (22 de Janeiro de 2007), disponível em http://www.nysun.com/opinion/second-holocaust/47111/.
[7] Juan Cole, “Hitchens o Hacker; e Hitchens o Orientalista E, ‘Nós Não Queremos Sua Guerra Fedorenta! ’”, em Informed Comment (03 de Maio de 2006), disponível em http://www.juancole.com/2006/05/hitchens-hacker-and-hitchens.html.
[8] Scott Peterson, “Ameaça Nuclear Iminente no Irã? Um Cronograma de Advertências Desde 1979,” O Arauto da Ciência Cristã (08 de Novembro de 2011), disponível em www.csmonitor.com/World/Middle-East/2011/1108/Imminent-Iran-nuclear-threat-A-timeline-of-warnings-since-1979/Israel-paints-Iran-as-Enemy-No.-1-1992.
[9] Está fora do âmbito deste ensaio discutir a exatidão da narrativa convencional sobre o Holocausto. Na medida em que a política nuclear está em causa, o que realmente importa é  que apenas os sionistas e seus partidários fervorosos acreditam nela.
[10] Greg Johnson, “Lidando com o Holocausto,” em O Observador Ocidental (20 de Julho de 2012), disponível em http://www.theoccidentalobserver.net/2012/07/dealing-with-the-holocaust/.
[11] David Perlmutter, “Israel: Pensamentos Obscuros e Desespero Silencioso,” em The Los Angeles Times (07 de Abril de 2002), disponível em http://articles.latimes.com/2002/apr/07/opinion/op-perlmutter.
[12] Citado em David Hirst, “O Jogo da Guerra,” em The Guardian (20 de Setembro de 2003), disponível em http://www.guardian.co.uk/world/2003/sep/21/israelandthepalestinians.bookextracts.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.