quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Rebatizando a Nova Direita?

por Jan Olof Bengtsson



A "quarta teoria política", Aleksandr Dugin explica em seu novo livro com esse título, é um projeto colaborativo envolvendo também o líder intelectual francês da nouvelle droite, Alain de Benoist, com o qual Dugin aparentemente restabeleceu sua relação outrora próxima. Os dois pensadores parecem ter se encontrado por um período prolongado em Moscou para discutir o conceito, e em conexão com isso, Dugin também publicou uma tradução russa de uma coletânea de ensaios de De Benoist, cujo título em inglês é Contra o Liberalismo: Rumo à Quarta Teoria Política - um título que se poderia dizer ser simplesmente uma indicação mais precisa do conteúdo do próprio livro do Dugin.

Isso indica que aquilo com o que temos que lidar aqui é uma tentativa da parte de Dugin e de De Benoist de lançar o conceito da quarta teoria política como a designação mais adequada de suas posições políticas e filosóficas partilhadas. Mas isso por sua vez levanta a questão de se tudo isso é simplesmente uma questão de rebatizar a Nova Direita. Se este for o caso há, para começar, duas coisas que devem ser ditas.

Primeiro, há a vantagem óbvia de que a quarta teoria política é por diversas razões uma designação melhor do que a nova direita. De Benoist e os outros neo-direitistas sempre reclamaram sobre a designação, na medida em que ela foi usada pela primeira vez pela mídia francesa e de maneira nenhuma indicava as ambições do GRECE de rejeitar e transcender a distinção esquerda-direita. Ainda que fosse claro que eles muitas vezes realmente tentava fazer isso, as objeções eram às vezes difíceis de compreender em vistas do fato de que De Benoist era e, eu acredito, permanece mais conhecido por seu livro Vu de Droite - Anthologie critique des idées contemporaines (1977), premiado pela Academia Francesa com seu Grand Prix de l'Essai, e seu pensamento parecia incorporar ou se sobrepor mais obviamente com várias correntes no que sempre foi corretamente classificado como pensamento direitista, e não esquerdista. Ele também parece ter finalmente aceitado o termo Nova Direita.

Ainda assim, a categorização de seu agrupamento intelectual como simplesmente pertencendo à direita é insuficiente e parcialmente equivocado em vistas da totalidade distinta de sua posição filosófica e interpretação da história. Essas estão muito proximamente associadas com o conservadorismo nas formas em que elas existiram historicamente na Europa, e é, eu creio uma percepção correta de De Benoist e seu grupo que aqueles conservadorismos são não só insuficientes em vários sentidos no presente, mas se demonstraram assim no passado também. A quarta teoria política é um termo muito melhor, que, ainda que puramente formal e abstrato, faz mais jus ao ambicioso projeto do GRECE e comunica melhor sua verdadeira natureza.

Em um nível geral, deve ser dito que tanto o termo conservadorismo e o termo direita são inadequados filosoficamente e historicamente. Na medida em que o termo direita alguma vez já foi associado com a Assembléia Nacional Francesa durante a revolução, há, no mínimo, algo de desproporcional mesmo em um uso evoliano do termo "a verdadeira direita" para a posição "tradicionalista" integral e descompromissada como ele a concebe.

Agora, alguns vão provavelmente pensar que na medida em que no discurso superficial e propagandístico da esquerda (incluindo o liberalismo), a terceira teoria política como descrita por Dugin e, eu suponho, De Benoist, nomeadamente o fascismo em sentido amplo - e, deve ser dito, um tanto imprecisamente - é quase sempre simplisticamente associado com a direita, descrito como um "extremismo de direita", servindo aos interesses da direita em uma nova situação histórica, etc., De Benoist considera o uso do termo quarta teoria política como particularmente adequado para servir à necessidade de marcar e assinalar as diferenças entre essa teoria e a terceira, a qual tem sido deliberadamente obscurecida e minimizada por oponentes ideológicos. Mas nessa conexão, deve-se talvez ter em mente que suas objeções ao fascismo são tais que em substância estão na verdade associadas com a direita europeia histórica e não uma nova direita, de modo que contrariamente às outras partes da quarta teoria política onde há alguma concordância substancial com a esquerda (socialista), nesse sentido particular a necessidade de repudiar o termo direita ao menos não pareceria ser de grande importância. Desnecessário dizer, isso não implica que De Benoist partilha de todas as objeções da direita histórica ao fascismo.

As vantagens da nova designação são, como eu indiquei, muito mais gerais. A introdução dela, e o consenso em relação a ela entre De Benoist e Dugin são bem vindas. Mas a segunda coisa que deve ser dita inicialmente sobre ela como não passando de um rebatismo da Nova Direita é que isso inevitavelmente levanta de novo a questão dos problemas e limitações da Nova Direita como ela existiu historicamente. Se a quarta teoria política é em substância a Nova Direita, ela não representa qualquer avanço em relação a ela. O termo conotaria e expressaria não só as mesmas forças como as mesmas fraquezas. Eu indiquei brevemente em outro lugar quais eu penso serem essas fraquezas, e não vou desenvolver ou repetir isso aqui, mas espero retornar a isso brevemente. As fraquezas são, desde meu ponto de vista, sérias. Como eu tive que enfatizar, a Nova Direita em aspectos centrais sempre foi um tanto distante de minhas próprias posições, especialmente em relação ao que eu incluo como definindo o conceito de modernidade alternativa (que, eu acrescento, não é o mesmo com o que todos os outros que também possam usá-lo preferem defini-lo). Eu considerei isso lastimável, já que há também várias forças, partes valiosas de um corpo de trabalho que é agora enorme, que eu gostaria de ser capaz de apoiar.

Uma coisa óbvia que se deve perguntar aqui é se a colaboração renovada entre Dugin e De Benoist implica que o primeiro simplesmente aceitou todas as posições da Nova Direita. O fato de que isso é improvável fala contra interpretar a quarta teoria política como simplesmente um novo nome para uma coisa velha. Dugin está muito mais próximo da escola tradicionalista do que De Benoist, e ele relacionou o tradicionalismo à identidade russa de uma maneira que torna difícil ver como ele poderia abandoná-lo. Para mim como parcialmente um lindbomiano, isso é, prima facie, em alguns sentidos uma força no pensamento de Dugin em comparação ao de De Benoist, e significa, na perspectiva da colaboração retomada, pelo menos um potencial para uma modificação e desenvolvimento necessários do legado da Nova Direita. Por outro lado, obviamente não é claro em que medida De Benoist tem estado preparado para se adaptar a Dugin.

Mas que a quarta teoria política não é intencionada como um mero novo nome também é sugerido pela maneira que Dugin a descreve em termos de uma "pergunta corretamente feita" ao invés de como um conjunto de respostas prontas, e nos convida a um diálogo construtivo ao invés de esperar uma resposta para uma teoria já elaborada como resultado final. Para muitos, isso é indubitavelmente promissor, após décadas de consistente alienação da Nova Direita em relação a grandes grupos de importantes apoiadores potenciais por sua insistência em seus elementos mais extravagantes como pontos programáticos essenciais e fundamentais (no sentido em que coisas podem ser para eles essenciais e fundamentais). Assim, eles parecem ter se marginalizado desnecessariamente de um modo que às vezes chegou a beirar a irrelevância sectária.

Por outro lado, pode parecer um pouco improvável esperar que Dugin, conhecido por um número de posições um tanto extremas e problemáticas próprias dele, diferentes das da Nova Direita, será capaz de corrigir e melhorar a Nova Direita nesses sentidos. Mas com o novo nome e pelo menos algumas das novas formulações, eles - ele e De Benoist juntos - agora pelo menos em alguma medida parecem sinalizar uma nova abertura. Pelo menos não é impossível que isso poderia finalmente ofertar a promessa de outra reaproximação, nomeadamente com os tipos de posições e tradições que eu tentei indicar como necessário defender. Isso marcaria uma mudança histórica e decisiva. Nós certamente necessitamos de uma quarta teoria política, mas nós também precisamos que essa teoria vá além da Nova Direita. O novo nome deve significar uma nova filosofia, ou uma filosofia em alguns sentidos diferente da Nova Direita. Eu voltarei à questão da medida em que o livro de Dugin retém como razoáveis as esperanças de um tal desenvolvimento.

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