sábado, 17 de novembro de 2012

A Ordem Crioula

por Alberto Buela



A primeira questão que apresenta tão árduo tema é responder à pergunta, desde onde vamos falar da ordem crioula? E respondemos, desde a tradição nacional argentina e hispanoamericana.

a) E essa tradição tem uma origem fática, de fato, nos setenta e dois garanhões que traz Pedro de Mendoza a Buenos Aires em 1536, onde os poucos que ficara, alguns morreram e outros foram comidos durante essa terrível fome portenha de cinco anos que durou a aventura de Mendoza. Ordenado o despovoamento da primeira Buenos Aires por Irala e desobedecendo suas ordens de degola foram largados em campo e se reproduziram livremente durante quarenta anos, chegando à cifra estimada de setecentos mil.

De modo tal que a base fática, o fato bruto e concreto da ordem crioula é a cultura do cavalo e tudo aquilo que o rodeia.

b) A tradição política da ordem crioula a encontramos primeiro em Juan de Garay, homem exemplar como poucos, mais americano que espanhol pois chegou a América aos treze anos, fundou Buenos Aires e co-fundou Santa Cruz de la Sierra junto a Ñuflo de Chávez e governou Asunción del Paraguay, logo em Hernandarias, depois no letrado do século XVII Juan Solórzano Pereira, governador de Huancavelica, nossos próceres e governadores crioulos do período da Independência como San Martín e Güemes, logo Rosas, e já no século XX Roque Sáenz Peña, algo em Irigoyen e finalmente Perón, com suas luzes e sombras. (Esses governos de corte crioulo e nacional se reproduzem em maior ou menor medida em toda Nossa América. Não é aqui o lugar para enumerá-los).

c) A tradição cultural da ordem crioula se funda no poema épico por excelência da ecúmene hispanoamericana: o Martín Fierro, que tem um antecedente ilustre na primeira parte do Facundo, como primeiro estudo sociológico descritivo da realidade argentina a meados do século XIX, e tem seus consequentes em trabalhos como A Tradição Nacional de Joaquín V. González, que incorpora a cultura montanhesa. Em Torno ao Crioulismo de Ernesto Quesada, que se completa com O Payador de Lugones, série de conferências no teatro Odeón as quais assiste o então presidente Roque Sáenz Peña e seu ministro do interior Indalecio Gómez.

Vista a voo de pássaro a tradição nacional em suas três dimensões: fática, política e cultural, cabe agora se perguntar, o que é uma tradição e uma tradição nacional?

A tradição deve se entender não como a passagem de coisas de uma geração a outra, de pais a filhos ou de avós a netos. Não. A tradição é somente e exclusivamente, a transmissão das coisas valiosas de uma geração a outra. Quer dizer, aquelas coisas que tem inseridas um valor que por isso se passam a denominar bens. Assim, um bem é uma coisa que leva inserido um valor. Isso é o que constitui o núcleo de uma tradição: a transmissão de valores encarnados nas coisas e não simplesmente a "declamação dos valores" ao modo livresco e pedagógico.

Quanto ao nacional, conceito que vem de nação e cuja raiz é o verbo latino nasco que significa nascer, é um projeto político-cultural que um povo determinado busca se dar na história do mundo. O nacional significa primeiro o lugar onde se nasce, é algo vinculado à terra, daí provém o termo nação, que nessa primeira aproximação se limita ao país, que vem de paisagem, lugar onde habitam os paisanos, quer indicar o genius loci que nos rodeia ao cair à existência nesse mundo cada um de nós. Porém não acaba aí a ideia de nação e nacional senão que se estende àquilo que pretendemos ser e fazer os paisanos como povo na história do mundo.



De modo tal que a tradição nacional reclama para existir, alternativamente, esses dois elementos: país e projeto, história e futuro.

Apresentadas assim as coisas podemos entrar agora no tema dessa meditação, o da ordem crioula.

Essa foi a ordem que se deu faticamente com a cultura do cavalo, que se deu politicamente com os governos que privilegiaram e defenderam o nosso e que se deu culturalmente quando pensamos com cabeça própria.

Antes que nada devemos nos prevenir e afirmar que, o Don Segundo e toda sua comercialização arequera, (o gaúcho visto com os olhos do filho do patrão, Doll dixit), o Santos Vega, lenda mitômana para professores de literatura, o Fausto formado por palavras gaúchas e conceitos vazios (crioulada de gringo fanfarrão, que anda gineteando a égua de sua jardineira, Lugones dixit) e o folclorismo de gaúchos de tenda que nada tem a ver com o crioulo. Tudo isso é um remendo, uma cópia ruim.

A ordem crioula implica a existência de uma cosmovisão, quer dizer, uma visão totalizadora, hoje se diz holística, do homem, do mundo e seus problemas expressada no estilo de nossos homens de campo ou do homem da cidade que sente o campo.

E aqui se tem que fazer uma distinção fundamental entre o gaúcho e o crioulo. Distinção que fizeram Juan Carlos Neyra em um impecável, breve e profundo ensaio. O gaúcho e o gaúcho termo pejorativo que recuperam San Martín e Güemes e é bom que se recorde e se recorde desde agora, desde a Quiaca, implica uma forma de viver que necessariamente se dá no campo, onde o gaúcho mostra todas as suas habilidades campeiras, todas suas pilchas como enssa festa, todas suas destrezas em jogos como o pato, a taba, a sortija e em danças como o triunfo, o gato, a zamba, a cueca, a chacarera ou o chamamé. Onde os silêncios tem seus sons e os trabalhos seus tempos em um amadurecer com as coisas, tão próprio do tempo americano.

E o crioulo então? Crioulo é aquele que interpreta o gaúcho e o crioulo em um modo de sentir, uma aproximação afetiva ao gaúcho. É por isso que o gaúcho é necessariamente crioulo porém um crioulo pode não ser gaúcho. Daí que esses velhos campeiros de antes diziam: Nunca digas que és gaúcho, que os outros digam isso de ti.

Assim, se pode acertadamente escrever: Se gaúcho é uma forma de viver, crioulo é uma forma de sentir.

E essa distinção se vê claramente na estrofe do poema nacional que diz:

Tiene el gaucho que aguantar
Hasta que lo trague el hoyo,
O hasta que venga un criollo
En esta tierra a mandar.

Estrofe que mostra de forma evidente como o gaúcho é quem sofre, quem padece um modo de vida, nesse caso na época posterior a Rosas, de exploração e injustiças, e as esperanças estão postas em um crioulo, aquele que sente o gaúcho, que interpreta cabalmente o gaúcho e que pode chegar a mandar, a governar.

De modo tal que a ordem crioula nasce da interpretação mais acabada daquilo que a Argentina deu ao mundo de mais genuíno: o gaúcho. E que em Nossa América se chamou hueso no Chile, montubio no Equador, cholo no Peru, camba em Santa Cruz, coya em La Paz, gaúcho no Sul do Brasil, borinqueño em Porto Rico, ladino em Guatemala, llanero em Colômbia e Venezuela, charro no México.

Porém avancemos um pouco mais e passemos com nosso aporte do plano descritivo ao plano metafísico-axiológico. O crioulo ao significar antes que nada e acima de tudo uma cosmovisão está indicando a conjunção de dois elementos: valores e vivências. Assim, desde Max Scheler e Nicolai Hartmann sabemos que os valores se captam através de um a priori emocional, se captam por via emotiva ou sentimental, instrumento que, como dissemos, se acessa o gaúcho. Porém o crioulo nos exige ademais vivências, quer dizer, experiências existenciais, não é algo livresco ou estudado (como passa com os pseudo-gaúchos de tenda) senão que há que tê-lo assumido vitalmente.

Nós afirmamos que se bem é indubitável que se produziu paulatinamente com o surgimento da sociedade industrial e de consumo o desaparecimento do crioulo sob a forma do gaúcho, do llanero, do montúbio, do charro, ou do huaso, isso não nos permite, de nenhuma maneira, afirmar o desaparecimento dos valores que alentaram esse tipo de homem. O gaúcho é a forma onde se plasmou de melhor maneira o crioulo, porém o crioulo é o fundo, é o núcleo aglutinado de valores que dá sentido ao gaúcho. Em uma palavra, que desapareça a forma, enquanto que aparência, (hoje os centros tradicionalistas são somente aparência do gaúcho) não nos autoriza a presumir que morreu seu conteúdo; isso é, a alma gaúcha, ou seja, a expressão mais própria do crioulo. Muito pelo contrário, o que se tem que tentar é plasmar sob novas aparências ou embalagens os valores que sustentaram esse arquétipo de homem, como o são: a) o sentido da liberdade, b) o valor da palavra empenhada, c) o sentido de hierarquia e d) a preferência de si mesmo. Não existe nenhum pensador nacional iberoamericano, mais além das posições políticas distintas, que não sustenta estes quatros princípios fundamentais da alma hispanoamericana.

Assim a ordem crioula nasce a partir daí e é expressão política e cultural dessa essência própria e especificamente nossa, isto é, da ecúmene, dessa grande casa que é a América, que como o hóspito nos recebe, nos hospeda a todos (aborígenes, gaúchos e gringos) que desde o inóspito chegamos à América buscando a possibilidade de sermos plenamente homens.

Aqui a primazia não se obtém pela antiguidade, como nos querem fazer crer hoje em dia as vozes publicitadas do indigenismo, aqui a primazia a tem aquele que levou a sua maior perfeição a forma de ser americano e este foi o crioulo como produto desse abraço fenomenal, tanto na luta como no leito, que se produziu a partir de 1492. Onde Europa e América deixaram de ser o que eram e haviam sido até então para ser outra coisa distinta, diferente, nova e não vista nunca antes: E aqui na América surgimos nós, "nem tão espanhol nem tão índio", o mundo crioulo e sua ordem, que chegou a sua plenitude quando coalhou um arquétipo humano que na Argentina foi o gaúcho. E que foi descrito acabadamente por texto pelo Facundo, o Martín Fierro, a Tradição Nacional, o Payador ou Romances de Rio Seco. E que chegou a sua plenitude política quando foi bem interpretado por homens como San Martín, Güemes, Rosas, Sáenz Peña, Yrigoyen e Perón.

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