quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ideologia do Neocapitalismo Americano

por Ernesto Milà



Até aqui temos revisado os componentes do campo neoconservador. Identificamos os mitos fundacionais da nação americana (sua concepção de ser o "povo eleito da modernidade"), as linhas estratégicas fundamentais do expansionismo norteamericano (a Doutrina Monroe e a noção do Destino Manifesto), o núcleo central do neoconservadorismo (o grupo straussiano e seus dois think-tanks, o PNAC, o AIE) presente na administração e, como este núcleo de "filósofos" atua sobre a opinião pública através do grupo de "gentios" presentes nos movimentos religiosos fundamentalistas cuja trajetória seguimos. Porém este é somente um setor da América moderna: o neoconservador. Resta o setor democrata.

É aqui onde encontramos a outro personagem, tão inquietante, no mínimo, quanto Leo Strauss e sua coorte: Ayn Rand.

Ayn Rand: do satanismo às multinacionais. Sandor LaVey, fundador da Igreja de Satã, considerou Ayn Rand como sua principal fonte de inspiração. Vladimir Putin reconheceu que na cabeceira de sua mesa se encontra "A Revolta de Atlas", um dos romances mais famosos de Ayn Rand. Alan Greenspan, "senhor do crescimento econômico", o homem mais poderoso da economia estadounidense, foi amigo seu e compartilhou de todas as suas ideias...como milhões de leitores.

Quando três pessoas tão diferentes como LaVey, Greenspan ou Putin leram essa autora desconhecida na Espanha, isso implica que estamos diante de um pensador influente. De fato ela já foi considerada como a filósofa do capitalismo. Diferentemente de Leo Strauss, a Ayn Rand não interessa outra coisa além do fato econômico. É aí onde o "homem superior" pode demonstrar sua valia em termos objetivamente mensuráveis. Em seu romance "A Revolta de Atlas", escreve: "O que constitui o monumento ao triunfo do espírito humano sobre a matéria?...As choças roídas por insetos nas margens do Ganges ou a silhueta dos arranhacéus de Nova Iorque sobre o Atlântico?". Porém, assim como para Strauss, para Ayn Rand existe um "homem superior", o empresário, quer dizer, aquele que arrisca e vence com seu esforço; escreve: "O homem racional não quer 'o não conquistado', o homem racional diz NÃO ao sacrifício e SIM ao esforço pessoal de si mesmo". O empresário, graças a seu triunfo, obtém a maior das recompensas: "Não há valor mais alto que a própria estima", havia escrito. Lhe resulta impossível e injustificável negar a cobiça do benefício ("Aqueles que negam o incentivo capitalista querem como recompensa o nada"). A ausência de benefício supõe para ela o afundamento de qualquer forma de civilização e de qualquer ética que valha a pena assumir: "O culto ao zero - símbolo da impotência - busca eliminar da raça humana o herói, o pensador, o inventor, o produtor, o persistente, o puro. Para os apóstolos do zero é como se sentir fosse humano e pensar não. Como se fracassar fosse humano e não triunfar, como se fosse humano a corrupção, mas não a virtude".

Os filhos de Homer Simpson vão a uma escola de Springfield que leva o nome de "Ayn Rand"... Hoje ninguém duvida nos EUA que se trata da pensadora mais influente dos últimos 30 anos. Sua influência se trasladou aos países nórdicos e é relativamente conhecida na Alemanha e na Inglaterra. Na Espanha, os livros traduzidos de Ayn Rand passaram desapercebidos.

Uma Judia de São Petersburgo

Em 2 de fevereiro de 1905, quando fervia a primeira revolução russa, nasceu Alissa Rosembaum, filha de um matrimônio de judeus burgueses de São Petersburgo. Ao cumprir 21 anos, após concluir seus estudos de filosofia, obteve permissão para viajar aos EUA com a desculpa de visitar uns parentes. Jamais voltou.

Poucos meses depois apareceu em Hollywood. Cecil B. DeMille lhe ofereceu trabalho como extra em um de seus primeiros filmes. Mais tarde aceitou contratá-la como roteirista. Foi então quando adotou o pseudônimo "Ayn Rand".

Em 1929 contraiu matrimônio com o ator Frank O'Connor. Seu matrimônio durou os próximos 50 anos. Em 1934 - data em que apareceu "Os que vivemos" - começava já a ser conhecida como escritora. O romance resultou um fracasso, porém o caráter anticomunista do livro lhe deu certo relevo. A consagração veio com "O Manancial" (1943). O diretor King Vidor o converteu em um filme protagonizado por Patrícia Neal e Gary Cooper que encarnava o típico herói americano redefinido por Ayn Rand, individualista e obstinado, que resiste a alterar seus princípios.

Em 1957 publicaria seu romance mais ambicioso, "A Revolta de Atlas". A partir desse momento julgou que já havia dito tudo o que tinha para dizer como romancista; de agora em diante não escreveria mais que ensaios filosóficos que contribuiriam para definir o objetivismo.

No último terço do século XX sua fama foi crescendo nos meios intelectuais estadounidenses. Faleceu em Nova Iorque em 6 de março de 1982.

A Revolta de Atlas

"A Revolta de Atlas" representou um ponto de inflexão em sua carreira. Certamente o êxito já lhe era conhecido quando publicou essa estranha obra, porém seu argumento conseguiu seduzir à intelligentsia liberal americana.

O livro profetiza a decadência dos EUA devido ao intervencionismo estatal. O país fica dividido em duas classes: a dos saqueadores e a dos não-saqueadores. A classe política e dirigente está formada pelos primeiros que pensam que qualquer atividade deve estar regulada e submetida a uma forte imposição fiscal. Os segundos são os homens empreendedores, os dirigentes políticos, religiosos e sindicais, os capitais de empresa e os intelectuais que pensam que a solução está justamente no contrário. Desses últimos, e mais em concreto, dos patrões, surge um movimento que protesta que se realize uma greve de empresários acompanhada de sabotagens e desaparecimentos. O líder do movimento é "John Galt", ao mesmo tempo filósofo e cientista.

Galt, escondido nas Montanhas Rochosas, dita ordens, sugere iniciativas e move os fios. Com ele se refugiam os principais empresários. Durante o tempo que dura a greve e o desaparecimento dos empresários, o sistema americano afunda sob o peso do intervencionismo estatal. O romance termina quando a patronal decide abandonar seu refúgio das Montanhas Rochosas de Colorado e regressar a Wall Street e aos centros de decisão; marcham encabeçados pelo dólar, símbolo que Galt escolheu como símbolo de sua rebelião particular.

Rand queria chamar seu romance simplesmente "A Greve"; o título de "A Revolta de Atlas" foi sugerido por seu marido. Se equipara o empresário ao titã mítico que carrega em suas costas os destinos do mundo. Quando apareceu a obra em 1956, chamou a atenção a ousadia da proposta. Até esse momento, nem mesmo nos EUA, ninguém se havia atrevido a realizar uma exposição na qual os empresários eram os bons, o Estado o malvado, e as massas nem mesmo contavam. 

Para Ayn Rand, o fato de que uma greve afunda no caos aos EUA é o sinal de que esse país não pode viver sem sua classe empresarial, que a política deve se subordinar às necessidades da economia empresarial e, finalmente, que é preciso voltar ao espírito dos primeiros colonos que se sublevaram contra a Inglaterra no século XVIII: lutaram contra o intervencionismo estatal e em defesa de seus direitos individuais. O que propõe Rand é voltar à origem da tradição americana, somente que o "herói" não é o granjeiro que se subleva contra os ingleses, senão o patrão que luta contra o intervencionismo estatal e cujo esforço cria riqueza.

Em pouco tempo se esgotaram quatro milhões de exemplares da obra. A partir desse momento somente escreveria ensaios que aprofundariam nas linhas apontadas nesse romance, como "A Virtude do Egoísmo" que pode ser considerado um dos manifestos da corrente filosófica inaugurada por Rand, o objetivismo.

Os Fundamentos Filosóficos do Capitalismo

Da mesma forma que Zbigniew Bzezinsky e seu livro A Era Tecnotrônica constituíram o manifesto fundacional da Comissão Trilateral que abriu a era da globalização, a obra de Ayn Rand constituiu o suporte moral da intelligentsia neocapitalista mundial.

Desde princípios do século até 1973, a elite da alta finança mundial havia tido o pensamento da Sociedade Fabiana como o núcleo ideológico de sua interpretação da realidade. Em realidade, a Sociedade Fabiana, fundada na Inglaterra pouco antes da Primeira Guerra Mundial, constituía um apêndice do Partido Trabalhista na Inglaterra e do Partido Democrata nos EUA. Havia logrado impregnar às elites capitalistas através de seus centros de ensino, em particular da London Economic School e das Universidades Fabianas dos EUA.

A doutrina fabiana era gradualista e altruísta. Tal como o matrimônio Web, H.G. Wells, Bernard Shaw e outros destacados membros desse grupo de poder teorizaram, era preciso melhorar as condições das classes proletárias nas quais adivinhavam o núcleo central de consumidores do futuro. Não em vão "proletário" deriva de "prole"; os proletários seriam pois, os que tem maior descendência e até eles tinha necessariamente que tender o capitalismo em um momento em que os problemas de mecanização e produção em cadeia se haviam resolvido.

Os dois eixos do "socialismo" fabiano consistiam em chegar a um regime de bem-estar para as massas trabalhadoras através de um processo gradual de conquistas sociais que tenderia a transformar o proletário em burguês. Para isso era preciso que o processo fosse liderado pelos detentores do capital - os únicos que podiam dar coerência e viabilidade a um processo desse tipo - e que estes tivessem a capacidade de impor suas decisões aos detentores do poder político.



Esse processo se realizou por etapas. Inicialmente os dirigentes fabianos de ambos os lados do oceano criaram associações nas quais magnatas dos grandes consórcios industriais e bancários, os intelectuais orgânicos a seu serviço e os políticos comprometidos com eles, formaram grupos de pressão: assim surgiram o Instituto Inglês de Estudos Internacionais, o Conselho de Relações Exteriores, o Clube de Bilderberg e, finalmente, a Comissão Trilateral.

Porém quando Brzezinski cria a Trilateral resulta evidente que o socialismo fabiano já não responde às necessidades do capitalismo de sua época. Se os fabianos haviam sustentado uma espécie de cínico despotismo ilustrado - "tudo para o povo, porém sem o povo" - o que se achava em falta era, não tanto um projeto global, como uma norma moral para uso e desfrute da intelligentsia neocapitalista; algo assim como um embasamento ético que tranquilizasse as consciências e desse sentido à vida dos magnatas do capital. E ali estava Ayn Rand para oferecê-lo.

Havia algo que jogava a favor de Rand. Em diferença ao socialismo fabiano que compartilhavam as elites financeiras liberais inglesas e estadounidenses, Rand, longe de questionar finalmente o sistema capitalista - como faziam os fabianos, os quais acreditavam que através da melhora do sistema capitalista se chegaria a um regime mais justo e a algo que, apenas sem se dar conta, seria diferente do capitalismo - considerava que o capitalismo era a melhor, senão a úncia forma racional e "objetiva" de guiar os destinos da economia e das comunidades humanas. "O merecido pertence ao universo egoísta e comercial do proveito mútuo", havia escrito, não precisamente para censurá-lo senão para identificar o valor central de seu sistema: a necessidade do egoísmo.

"A recompensa para o indivíduo, segundo o objetivismo, é nessa vida e na terra e é minha própria felicidade. A recompensa dos místicos do espírito será outorgada mais além da tumba". Assim como Strauss, para Ayn Rand resulta impossível conceber a figura de Deus, porém em diferença dele, não admite nem ao menos que a religião possa ser benéfica para o "ser superior" em sua necessidade de controlar as massas; é impiedosa em sua crítica à religião; havia dito: "Para a religião: o que o homem conhece não existe e o que existe o homem não pode conhecer". Os ideais do místico são os contrários aos do "egoísta": "Os místicos se comprazem com o sofrimento, com a pobreza, com a submissão e com o terror porque eles necessitam da derrota da realidade racional. Seu ideal é a morte". "A ideia de Deus é a ideia de um grande burocrata do Universo". Inclusive as relações entre pessoas são para Ayn Rand uma questão de calculadora: "Não pode existir amor sem causa, amor é avaliar".

Porém onde Ayn Rand se mostra mais distanciada das religiões é no desprezo habitual com que essas consideram o indivíduo: "Deus e as religiões em geral, perdoam, sentem piedade e misericórdia, porém jamais admiram o indivíduo. A causa? Consideram o indivíduo como um ente carente de valores".

O egoísmo conduz diretamente à necessidade de que o capitalismo não perdesse de vista os valores que lhe deram origem: o individualismo, a livre iniciativa, a vontade de uns poucos de se imporem à maioria e a guiá-la, a abstinência por parte do Estado de qualquer intervencionismo e uma mescla de egoísmo e altruísmo que constituem o pólo ético da norma moral proposta por Ayn Rand. De fato, tudo deriva do individualismo, primeira ramificação do egoísmo: "Cada homem constitui um fim em si mesmo, existe por si mesmo e a consecução de sua própria felicidade constitui seu mais alto propósito moral".

Assim como os fabianos do primeiro terço do século, os partidários de Ayn Rand se organizaram em círculos, escolas e institutos com um propósito missionário, educativo e militante. Espalhados, sobre tudo pelo mundo anglo-saxão, em apenas duas décadas substituíram o pensamento fabiano na educação das elites neocapitalistas. O fato de que Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal e o presidente russo Vladimir Putin, reconheçam publicamente seu tributo com Ayn Rand é suficientemente significativo do impacto que tem seu pensamento.

Objetivismo - Egoísmo - Satanismo

Ayn Rand chamou sua filosofia de "objetivismo"; disse dela que era uma norma de conduta para "viver na terra". O nome deriva da intenção da autora de ver a realidade tal qual é sem prismas deformadores ou apriorismos. Para Massimo Introvigne, diretor do CESNUR, entidade italiana que estuda as novas religiões "o objetivismo é uma filosofia política radicalmente individualista que faz apologia do capitalismo e do homem egoísta que, em lugar de se sacrificar pelos outros, afirma - contra todos os obstáculos que constituem o estatismo, o moralismo e as religiões - sua absoluta liberdade e que, obrando assim, termina por construir uma sociedade melhor e mais livre para todos".

Rand se define como ateia, considera à religião como uma "forma primitiva de filosofia" e propõe substituí-la por um "culto do homem" como meio para "elevar ao mais alto nível das emoções humanas resgatando-as do barro do misticismo e dirigi-las de novo até seu objeto próprio: o homem mesmo". Rand propunha, assim como os positivistas de inícios do século, constituir um "culto ao homem".

Rand é perfeitamente consciente de que o egoísmo em si mesmo pode desequilibrar completamente à sociedade e precisa de uma contrapartida capaz de equilibrá-lo. Encontra esse contrapeso no altruísmo: "O altruísmo considera o indivíduo como alimento para um canibal..."

Tudo isso enlaça perfeitamente com os princípios da Igreja de Satã e de Sandor LaVey em particular. As Nove Afirmações Satânicas que formam a declaração de princípios da Igreja de Satã estão diretamente extraídos da Revolta de Atlas, tal como demonstrou George C. Smith, hoje membro do Templo de Seth (uma cisão da Igreja de Satã). A diferença entre Rand e LaVey estriba em que enquanto este crê que é possível chegar a estabelecer o "culto ao homem" mediante o ocultismo e a magia, Rand propõe fazê-lo mediante a economia e a ciência.

Em uma de suas obras "canônicas", a Bíblia Satânica, LaVey propõe uma visão do mundo que deve tudo a Rand e em menor medida a Nietzsche: LaVey exalta o egoísmo e o capitalismo, o orgulho do forte sobre as necessidades do débil, a abolição das religiões, as morais e a hipocrisia. E Satã? Para LaVey, Satã não é senão o símbolo do "culto ao homem", em absoluto um personagem real (em diferença de Michel Aquino e o Templo de Seth que o consideram um ente pessoal).

Nem LaVey nem Rand ficaram só na teoria. Desceram ao terreno da prática. A vida e as andanças da Igreja de Satã são suficientemente conhecidas. Barbara Braden, biógrafa de Rand, facilitou dados para entender que essa seguiu por vias parecidas. Seu objetivismo se traduziu em uma "experimentação radical, compreendidos os planos sexual e familiar, através de formas de poligamia e poliandria, no seio do pequeno grupo que dirigia o movimento político e literário que havia criado".

Os discípulos de Ayn Rand formam hoje um pequeno grupo de poder, extremamente influente, do qual Alan Greenspan é o principal expoente e que constituem a alma ideológica dos movimentos que hoje tendem ao poder mundial, o Clube Bilderberg, Comissão Trilateral, CRF...em outras palavras: Rand renovou e atualizou o fundamento doutrinário do "iluminismo".

Conclusão: Ayn Rand, a outra parte do sistema

O que Leo Strauss é entre as elites neoconservadoras, Ayn Rand o é entre as elites neocapitalistas. Geralmente, se tem tendência a pensar que uns e outros respondem aos mesmos estímulos. Não é assim. Os neoconservadores de hoje, eram chamados em fins dos anos 70, "dinheiro novo", enquanto que os liberais costumam se identificar com os grupos neocapitalistas mais selvagens, com as dinastias econômicas estadounidenses, os Rockfeller, os Vandervil, os Morgan, etc, que historicamente, estiveram ligados aos meios "fabianos".

Habitualmente, os seguidores de Ayn Rand se identificam com o pensamento liberal estadounidense e se enquadram no Partido Democrata, como os de Strauss o fazem com as alas extremas do Partido Republicano, uns com o neocapitalismo e outros com o neoconservadorismo.

Em qualquer dos casos, ambas escolas de pensamento se coalharam em núcleos organizativos discretos, informais, e restritos aos quais pertence o essencial das esferas de poder dos EUA. Certamente, hoje a maçonaria estadounidense segue sendo a mais numerosa de todo o mundo. Enquanto em França e Inglaterra, onde a maçonaria havia tido uma situação privilegiada até pouco, as lojas se encontram em franca retração; somente nos EUA gozam de boa saúde...a custo de terem se convertido em meros clubes sem grande importância política, nem muita relevância social. A maçonaria estadounidense jamais voltará a ter a influência social que teve até o último terço do século XX...porém outras organizações "discretas" a substituíram: straussianos, objetivistas...

Os que rechacem qualquer forma de visão conspirativa da história, rechaçarão de plano o papel desempenhado por esses grupos de influência; para eles, somente contam os dados objetivos e as cifras macroeconômicas, quer dizer, o avaliável e quantificável. Porém os dados objetivos, nesse caso, nos dizem também que os grandes personagens que ocupam os cargos mais relevantes da administração Bush pertencem ao círculo straussiano. Vimos também, como o culto à "nobre mentira", explica e justifica os enganos evidentes com os quais a administração Bush desencadeou as guerras de Afeganistão e Iraque. E, finalmente, através de Ayn Rand, pudemos ter acesso às justificativas que os "empresários" dão a seu poder.

Porém, por cima de tudo isso, estão os dados objetivos: a democracia americana, cada vez é menos democracia e mais plutocracia. Não são as massas, senão o poder do dinheiro o que determina as políticas nos EUA. E as formas para chegar à plutocracia são duas: através de Leo Strauss para os conservadores ou através de Ayn Rand para os liberais. Em realidade, ambos respondem à necessidade que tem ambos grupos de dispor de bases teóricas sólidas que justifiquem seu agir.

A história tem também uma dimensão subterrânea. Desconhecê-la implica correr o risco de não compreender os processos históricos. Essa dimensão subterrânea opera a modo de infraestrutura que determina decisivamente o papel e a orientação das superestruturas. Se nos limitamos unicamente a analisar o desenvolvimento das superestruturas, jamais entenderemos as razões últimas que as movem. Daí as balizas que temos seguido em nosso estudo: a ideologia dos Pais Fundadores dos EUA e o papel desempenhado pela maçonaria estadounidense entre a fundação da nação e o último terço do século XX. Vimos logo, como se formaram os grupos fundamentalistas religiosos e como, a partir dos últimos anos 70, alcançaram uma relevância notável. E como, finalmente, nos anos 90, foram reconduzidos pelo núcleo de "filósofos" straussianos que assumiram o papel de motores do neoconservadorismo. Por último, passamos em revista à grande ideóloga do neocapitalismo, Ayn Rand que influenciou no outro setor de poder.

É possível que a partir de agora tenhamos muito mais claro quais são os motores ideológicos que operam no tabuleiro estadounidense. A rapidez com a qual se desenvolve a história de nossos dias induz a pensar que essas forças não serão estáveis ad infinitum, e que serão substituídas por outros núcleos de poder. Porém não sabemos quando ocorrerá e nem mesmo se ocorrerá. Por outra parte, não se pode desvincular esses centros de poder da crise global que estão vivendo os EUA.

Estamos assistindo ao desmoronamento de um país. O déficit da balança de pagamentos, a desertificação industrial, a pulverização da poupança, a dependência absoluta da economia estadounidense dos investimentos procedentes do exterior, não deixam muito lugar para o otimismo. Socialmente, a integração racial dos afroamericanos fracassou: as duas comunidades seguem sendo hostis e estando separadas...a quarenta anos da promulgação das leis de integração racial, nunca na história dos EUA se esteve tão distante do objetivo. De fato, a situação do século XIX se reconstruiu: os aborígenes da América do Norte, vencidos e dizimados, reapareceram com a imigração mexicana. Esse núcleo mexicano, no mais, conseguiu romper a unidade linguística dos EUA: hoje um mexicano já não precisa falar inglês para se defender e encontrar trabalho em determinadas cidades. A taxa de criminalidade e a delinquência é absolutamente insuportável (mais de dois milhões de presos conformam a maior população carcerária do mundo). Enquanto a suas forças armadas, demonstrou sua incapacidade para conquistar e controlar o terreno dos conflitos: certamente, o poder tecnológico das Forças Armadas Estadounidenses não tem igual, porém tudo se baseia em bombardeios estratégicos, e no absurdo conceito de "guerra sem mortes"... No momento em que cessam os bombardeios e é a infantaria quem tem que tomar o controle dos territórios, se mostram todos os problemas que afetam o exército estadounidense: peso burocrático, rigidez, peso excessivo da logística sobre os núcleos operativos. Tudo isso sem esquecer as taxas de analfabetismo estrutural que nos EUA superam as de qualquer outro país do hemisfério ocidental. Os EUA vivem o dia. Crescidos desde as origens na ideia de que em seu território existem umas fontes inesgotáveis de riqueza, é incapaz de entender o que representa a deterioração do meio ambiente ou a escassez energética.

A sociedade estadounidense é frágil. Cada dia mais frágil. Seu absenteísmo crescente da política, sua simplicidade cultural, o economicismo inerente a sua escala de valores, determinam sua debilidade e sua fragilidade. O pensamento neoconservador de Leo Strauss e o pensamento neocapitalista de Ayn Rand, tentam afrontar uma nova situação histórica na qual fazem falta seres de ferro capazes de guiar à "nação eleita por Deus" (a ambos, estruturalmente ateus...) para manter sua hegemonia mediante o recurso ao tiranismo.

Porém, assim como a URSS se desmontou interiormente, os indicativos começam a alertar sobre a possibilidade de que nossa geração veja também o afundamento do poder americano. Isso já começou. Enfrentar-se com estados profundamento subdesenvolvidos (Afeganistão) ou micropotências de terceira linha (Iraque), assumir o papel de porta-estandarte de uma estranha "luta contra o terrorismo internacional", evidenciam que os EUA, longe de estarem no ápice de seu poder, iniciaram já a pendente da decadência: porque, com ou sem eleições, o Afeganistão dista muito de estar pacificado e, quanto ao Iraque, o país inteiro ferve na insurreição contra o ocupante. E, diante de tudo isso, Bin Laden, goza de boa saúde. Se é possível falar de algo, não é precisamente de êxito.

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