sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Natureza da Política

por Francis Parker Yockey



I - Primeiro, o que é política? Isto é, a política enquanto fato. A política é uma atividade em relação ao poder.

A política é um domínio particular - o domínio do poder. Assim, ela não é moralidade, não é estética, não é economia. A política é um modo de pensar, assim como o são essas outras. Cada uma dessas formas de pensamento isola parte da totalidade do mundo e o reivindica para si. A moralidade distingue entre bem e mal, a estética entre belo e feio, a economia entre útil e inútil (em sua fase posterior, puramente comercial, estes são idênticos a lucrativo e não-lucrativo). O modo como a política divide o mundo é em amigo e inimigo. Essas expressam para ela o maior grau possível de conexão, e o maior grau possível de separação.

O pensamento político é tão separado dessas outras formas de pensamento quanto elas são umas das outras. Ela pode existir sem elas, e elas sem ela. O inimigo pode ser bom, ele pode ser belo, ele pode ser economicamente útil, negociar com ele pode ser lucrativo - mas se sua atividade de poder converge sobre a minha, ele é meu inimigo. Ele é aquele com o qual conflitos existenciais são possíveis. Mas estética, economia, moralidade não estão preocupadas com existência, mas apenas com normas de atividade e pensamento dentro de uma existência garantida.

Ainda que enquanto uma questão de fato psicológico, o inimigo é facilmente representado como feio, injurioso, e maligno, não obstante isso é subsidiário à política, e não destrói a independência do pensamento e atividade políticas. A disjunção política, preocupada como ela é com a existência, é a mais profunda de todas as disjunções e assim, tem uma tendência a buscar por todo tipo de persuasão, compulsão, e justificação de modo a guiar sua atividade para a frente. A medida em que isso ocorre está em proporção direta com a pureza do pensamento político nos líderes. Quanto mais suas perspectivas contenham moral, economia ou outras modalidades de pensamento, mais eles farão uso de propaganda em paralelo a essas linhas para fazer progredir seus objetivos políticos. Pode até ocorrer que eles não estejam conscientes de que sua atividade é política. Há toda indicação de que Cromwell se considerava como um religionista e não como político. Uma variação foi fornecida pelo jornal francês que insuflava o espírito de guerra de seus leitores em 1870 com a expectativa de que os poilus trariam carregamentos de mulheres loiras de volta da Prússia.

Por outro lado, a propaganda japonesa para a população nativa durante a Segunda Guerra Mundial, acentuava quase inteiramente a natureza existencial, ou seja, puramente política do conflito. O outro pode ser feio, mal e injurioso e ainda assim não ser um inimigo; ou ele pode ser bom, belo, e útil, e ainda assim ser um inimigo.

Amigo e inimigo são realidades concretas. Eles não são figurativos. Eles não se misturam com elementos morais, estéticos ou econômicos. Eles não descrevem uma relação privada de antipatia. A antipatia não é parte necessária da disjunção política de amigo e inimigo. O ódio é um fenômeno privado. Se os políticos inoculam suas populações com ódio contra o inimigo, é apenas para lhes dar um interesse pessoal no conflito público que eles de outra forma não teriam. Entre organismos suprapessoais não há ódio, ainda que possa haver conflitos existenciais. A disjunção amor-ódio não é política e não se cruza em qualquer ponto com a disjunção política de amigo-inimigo. Aliança não significa amor, mais do que guerra significa ódio. Pensar claramente no reino da política demanda desde o início um forte poder de dissociação de ideias.

A visão de mundo do liberalismo, aqui como sempre completamente emancipada da realidade, enunciou que o conceito de inimigo descrevia ou um competidor econômico, ou um oponente ideológico. Mas na economia não há inimigos, mas apenas competidores; em um mundo que era puramente moralizado (ou seja, um no qual somente existem contrastes morais) não poderia haver inimigos, mas apenas oponentes ideológicos. O liberalismo, fortalecido pela singular e longa paz de 1871 a 1914, pronunciou a política como sendo atavística, e o agrupamento de amigo-inimigo como sendo retrógrado. Isso, é claro, pertence à política - um ramo da filosofia. Naquele reino não se pode fazer declarações errôneas; nenhum acúmulo de fatos pode provar que uma teoria está errada, pois aqui elas são supremas, a História não é o árbitro em questões de perspectiva política, a Razão decide tudo, e todos decidem por si mesmos o que é razoável. Isso concerne, porém, única e exclusivamente a fatos, e a única objeção feita contra essa perspectiva aqui em última análise é que ela não é factual.

Inimigo, então, não significa competidor. Nem significa oponente em geral. Menos ainda descreve uma pessoa que se odeia por sentimentos de antipatia pessoal. O latim possuía duas palavras: hostis para o inimigo público, inimicus para um inimigo privado. Nossas línguas ocidentais infelizmente não fazem essa importante distinção. O grego, porém, de fato a possuía, e ainda fazia uma distinção profunda entre dois tipos de guerras: aquelas contra outros gregos, e aquelas contra os alógenos em relação à cultura, os bárbaros. As primeiras eram agons e apenas as segundas eram guerras verdadeiras. Um agon era originalmente uma disputa por um prêmio nos jogos públicos, e o oponente era o "antagonista". Essa distinção possui valor para nós porque em comparação com guerras nessa era, as guerras intraeuropeias dos últimos 800 anos foram agonais. Na medida em que a política nacionalista assumiu ascendência dentro da cultura clássica, com a Guerra do Peloponeso, a distinção saiu do uso grego. As guerras dos séculos XVII e XVIII na Europa Ocidental foram na natureza de disputas por prêmios - o prêmio sendo uma faixa de território, um trono, um título. Os participantes eram dinastias, não povos. A ideia de destruir a dinastia oponente não estava presente, e apenas em caso excepcional havia a possibilidade de tal coisa acontecer. O inimigo no sentido político significa, assim, inimigo público. Ele é ilimitado, e é assim distinguido da inimizade privada. A distinção público-privado só pode surgir onde há uma unidade suprapessoal presente. Quando há, ela determina quem é amigo e inimigo, e assim nenhuma pessoa privada pode fazer tal determinação. Ele pode odiar aqueles que se opõem a ele ou que o desagradam, ou que competem com ele, mas ele não os pode tratar como inimigos no sentido ilimitado.

A falta de duas palavras para distinguir inimigo público e privado também contribuiu para confusão na interpretação da famosa passagem bíblica (Mateus 5:44; Lucas 6:27) "Amai seus inimigos". As versões em grego e em latim usam as palavras referentes a um inimigo privado. E é a isso, de fato, que a passagem se refere. É obviamente uma adjuração para colocar de lado o ódio e a malícia, mas não há necessidade alguma de que se odeio o inimigo público. O ódio não está contido no pensamento político. Qualquer ódio trabalhado contra o inimigo público é apolítico, e sempre demonstra alguma fraqueza na situação política interna. Essa passagem bíblica não recomenda ninguém a amar o inimigo público, e durante as guerras contra sarracenos e turcos nenhum Papa, santo ou filósofo assim a interpretou. Ela certamente não aconselha a traição por amor ao inimigo público.

II - Cada agrupamento não-político de qualquer tipo, legal, social, religioso, econômico ou outro se torna finalmente político se ele cria uma oposição profunda o bastante para colocar homens uns contra os outros como inimigos. O Estado enquanto unidade política exclui por sua natureza oposições desses tipo. Se, porém, uma disjunção ocorre na população de um Estado que é tão profunda e forte que ela a divide em amigos e inimigos, isso mostra que o Estado, ao menos temporariamente, não existe na verdade. Ele não é mais uma unidade política, já que todas as decisões políticas não estão mais concentradas nele. Todos os Estados quaisquer sejam mantém um monopólio de decisão política. Esse é um outro jeito de dizer que eles mantém a paz interna. Se algum grupo ou ideia se torna tão forte que ela pode criar um agrupamento amigo-inimigo, ele é uma unidade política; e se forças são geradas que o Estado não pode gerenciar pacificamente, ele desapareceu, ao menos temporariamente. Se o Estado tem que recorrer à força, isso em si mesmo mostra que há duas unidades políticas, em outras palavras, dois Estados ao invés do que originalmente havia ali.

Isso suscita a questão da significância da política interna. Dentro de um Estado, nós falamos em política social, política judiciária, política religiosa, política partidária e similarmente. Obviamente elas representam outro significado da palavra, já que elas não contém a possibilidade de uma disjunção entre amigo e inimigo. Elas ocorrem dentro de uma unidade pacificada. Elas somente podem ser chamadas "secundárias". A essência do Estado é que dentro de seu reino ele exclui a possibilidade de um agrupamento amigo-inimigo. Assim conflitos ocorrendo dentro de um Estado são por sua própria natureza limitados, enquanto o conflito verdadeiramente político é ilimitado. Cada um desses conflitos internos limitados obviamente pode se tornar o foco de uma disjunção política real, se a ideia que se opõe ao Estado for forte o suficiente, e os líderes do Estado tiverem perdido sua segurança. Se isso ocorre - novamente, o Estado deixou de existir. Um organismo ou segue sua própria lei, ou ele se torna doente. Essa é a lógica orgânica e ela governa a todos os organismos, planta, animal, homem, cultura. Ou eles são eles próprios, ou eles adoecem e morrem. Não é para eles a perspectiva racional e lógica que diz que qualquer coisa que possa ser escrita de modo cogente em um sistema pode então ser impingido a um organismo. O pensamento racional é meramente uma das criações multifacetadas da vida orgânica, e ele não pode, sendo subsidiário, incluir a totalidade em sua contemplação. Ele é limitado e só pode funcionar de uma certa maneira, e com materiais que estão adaptados a tal tipo de tratamento. O organismo é a totalidade, porém, e ele não entrega seus segredos a um método que ele desenvolve a partir de sua própria habilidade adaptativa de lidar com problemas inorgânicos que ele tem que superar.

A política secundária pode muitas vezes distorcer a política primária. Por exemplo, a política feminina de ciúme pequeno e ódio pessoal que foi efetiva na corte de Luís XV foi instrumental em devotar muito da energia política francesa ao conflito menos importante contra Frederico, e pouca energia política francesa ao conflito mais importante contra a Inglaterra no Canadá e na Índia e nos mares. Frederico o Grande não era amado por Pompadour, e a França pagou com um império para incomodá-lo. Quando a hostilidade privada exerce tamanho efeito sobre o púbico é apropriado falar em distorção política, e de tal política como uma política distorcida. Quando um organismo consulta ou está sob controle de qualquer força externa a sua própria lei de desenvolvimento, sua vida é distorcida. A relação entre uma inimizade privada e uma política pública a qual ela está circunstanciada a distorcer é a mesma que há entre o microestadismo europeu e a civilização ocidental. O jogo coletivamente suicida da política nacionalista distorceu todo o destino do Ocidente após 1900 para a vantagem de forças extra-europeias.

III - A natureza concreta da política é demonstrada por certos fatos linguísticos que aparecem em todas as línguas ocidentais. Invariavelmente os conceitos, ideias, e vocabulário de um grupo político, são polêmicos, propagandísticos. Isso é verdadeiro ao longo de toda história superior. As palavras Estado, classe, Rei, sociedade - possuem todas elas seu conteúdo polêmico e possuem um significado inteiramente diferente para os partidários do que possuem para seus oponentes. Ditadura, governo das leis, proletariado, burguesia - essas palavras não possuem sentido além do sentido polêmico, e não se sabe o que elas pretendem transmitir a não ser que se saiba quem as está usando e contra quem. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, liberdade e democracia foram usados como termos para descrever todos os membros da coalização contra a Europa, com um desprezo total pela semântica. A palavra "ditadura" foi usada pela coalizão extra-europeia para descrever não somente a Europa, mas qualquer país que se recusasse a se unir à coalizão.

Similarmente, a palavra "fascista" foi usada puramente como termo de abuso, sem qualquer base descritiva, tanto quanto a palavra "democracia" era uma palavra de elogio, mas não de descrição. Na imprensa americana, por exemplo, tanto durante a guerra de 1914, como a de 1939, a Rússia foi sempre descrita como uma "democracia". A Casa de Romanov e o regime bolchevique eram igualmente democráticos. Isso era necessário para preservar a imagem homogênea dessas guerras que a imprensa havia pintado para seus leitores: a guerra era uma da democracia contra a ditadura; a Europa era uma ditadura, logo, qualquer coisa lutando contra a Europa era uma democracia. Do mesmo jeito, Maquiavel descreveu qualquer Estado que não era uma monarquia como uma república, uma definição polêmica que permaneceu até hoje. Para Jack Cade a palavra "nobreza" era um termo de danação, para aqueles que reprimiram sua rebelião, ela significava tudo de bom. Em um tratado legal, o guerreiro de classe Karl Renner descrevia o aluguel pago pelo inquilino ao proprietário como um "tributo". Do mesmo jeito, Ortega y Gasset chama a ressurgência da autoridade estatal, das ideias de ordem, hierarquia e disciplina, de revolta das massas. E para um verdadeiro guerreiro de classe, qualquer marinha é socialmente valiosa, mas um oficial é um "parasita".

Durante o período em que o liberalismo governo na civilização ocidental, e o Estado foi reduzido, teoricamente, ao papel de "vigia noturno", a própria palavra "política" mudou seu sentido fundamental. De descrever as atividades de poder do Estado, ela agora descrevia os esforços de indivíduos privados e suas organizações em garantir posições no governo como meio de vida, em outras palavras a política veio a significar política partidária. Leitores em 2050 terão dificuldade em entender essas relações, pois a era dos partidos estarão tão esquecidas então quanto a Guerra do Ópio hoje.

Todos os organismos estatais estavam distorcidos, adoecidos, em crise, e essa introspecção foi um grande sintoma disso. Supostamente a política interna era primária.

Se a política interna era efetivamente primária, isso deve ter significado que agrupamentos amigo-inimigo poderiam surgir em uma questão política interna. Se isso aconteceu, no caso extremo a guerra civil seria um resultado, mas a não ser que uma guerra civil ocorresse, a política interna era ainda na verdade secundária, limitada, privada, e não pública. A própria contenção de que a política interna era primária era polêmica: o que se queria dizer é que ela deveria ser. Os liberais e guerreiros de classe, então assim como agora, falavam de seus desejos e esperanças como fatos, quase-fatos ou fatos potenciais. O único resultado de se focar energia em problemas internos foi enfraquecer o Estado, em suas relações com outros Estados. A lei de cada organismo permite apenas duas alternativas: ou o organismo deve ser verdadeiro consigo mesmo, ou ele convalesce e morre. A natureza, a essência do Estado é paz interna e conflito externo. Se a paz interna é perturbada ou rompida, a luta externa é prejudicada.

Os modos de pensamento orgânico e inorgânico não se cruzam: a lógica ordinária escolar, a lógica de textos filosóficos, nos dizem que não há razão pela qual Estado, política e guerra precisam existir. Não há razão lógica pela qual a humanidade não poderia ser organizada como uma sociedade, ou como uma iniciativa puramente econômica, ou como um vasto clube literário. Mas os organismos superiores dos Estados, e os organismos mais elevados, as Altas Culturas, não pedem permissão aos lógicos para existirem - a própria existência desse tipo de racionalista, o homem emancipado da realidade, é a penas um sintoma de uma crise na Alta cultura, e quanto a crise passa, os racionalistas passam com ela. O fato de que os racionalistas não estão em contato com as forças invisíveis e orgânicas da História é demonstrado por suas previsões de eventos. Antes de 1914, eles universalmente afirmavam que uma guerra europeia geral era impossível. Dois tipos diferentes de racionalistas deram suas duas razões diferentes. Os guerreiros de classe da Internacional, disseram que o socialismo internacional tornaria impossível mobilizar "os trabalhadores" de um país contra "os trabalhadores" em qualquer outro país. O outro tipo - também com seu centro de gravidade na economia, já que racionalismo e materialismo estão indissoluvelmente ligados - disse que nenhuma guerra geral era possível porque a mobilização causaria tamanho deslocamento da vida econômica dos países que uma catástrofe ocorreria em poucas semanas.

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