segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Modernidade e Eternidade e Tradicionalistas sem Tradição - Palestra de Aleksandr Dugin para o Encontro Nacional Evoliano de Curitiba

Por Aleksandr Dugin 

Palestra ministrada em 8 de setembro de 2012 em Curitiba, por ocasião do IIIº Encontro Nacional Evoliano. 

Senhoras e senhores! 

Quero agradecer ao grupo de Curitiba que organizou esta conferência tão interessante com palestras tão ricas. Muito obrigado pelo convite de falar aqui sobre a Tradição. Me desculpo por meu português terrível e tão imperfeito. 



O Tradicionalismo e a Sociologia – O Moderno e o Eterno 

A primeira parte está dedicada ao tradicionalismo e à sociologia, e também à importância de Platão. 

O tradicionalismo insiste sobre o dualismo que existe entre dois mundos: o mundo da Tradição e o mundo moderno. Este dualismo corresponde a duas categorias sociológicas: pré-modernidade e modernidade. Este paralelismo entre o tradicionalismo e a sociologia é muito importante e é necessário desenvolver esta afinidade no futuro. 

Em Paris, no ano de 2011 eu realizei uma palestra sob o título: “René Guénon como sociólogo”. René Guénon em sua obra “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” usava o símbolo tradicional e sagrado do Ovo do Mundo. Na visão de Guénon o mundo pré-moderno corresponde ao Ovo do Mundo aberto por cima e fechado por baixo. Os raios espirituais entram no mundo e assim as coisas cósmicas e materiais recebem as qualidades sagradas. 

À sociedade moderna corresponde o Ovo do Mundo fechado por cima e por baixo. É a civilização materialista, ateia, consumista. Isto é, a visão do mundo científica, mecânica e atomista. À sociedade pós-moderna corresponde o Ovo do Mundo aberto por baixo e fechado por cima. É a civilização demoníaca pós-humana e pós-social. A realidade em que vivemos. Mas deixamos agora momentaneamente a pós-modernidade, apesar do grande interesse com o qual poderíamos desenvolver essa correspondência. 

A diferença entre o tradicionalismo e a sociologia consiste no fato de que a sociologia parte da modernidade e julga a Tradição do ponto de vista da modernidade. Os tradicionalistas fazem o contrário: eles veem a modernidade do ponto de vista da Tradição. A modernidade põe toda a realidade no tempo, na história. A Tradição considera as coisas na luz da eternidade. Por isso os sociólogos pensam diacronicamente a pré-modernidade como algo passado. Os tradicionalistas consideram a modernidade como um aspecto da eternidade, ou seja, como algo eterno. 

Isso, portanto, não é algo tão fácil de compreender. Sendo totalmente efêmera a ilusão, o mundo moderno como o mundo da perversão radical também de uma maneira paradoxal pertence à eternidade. 

Os tradicionalistas são vizinhos dos estruturalistas. A Tradição e a modernidade podem ambas ser vistas como estruturas. 

Caso importante: o sociólogo Louis Dumont falou sobre dois tipos de sociedade – a sociedade holista e a sociedade individualista. A modernidade é essencialmente individualista. Segundo ele, Marx também era em parte individualista, compartilhando com os liberais o valor do homem individual. 

É claro e evidente que a Tradição pode subsistir no mundo moderno – por inércia. Como a modernidade pode existir no mundo tradicional? 

Guénon falava sobre Atlântida o continente antigo desaparecido e fazia a alusão de que o mundo moderno, como grande paródia, é a continuação de certa Tradição decadente e pervertida muito antiga. A serpente aparece já no paraíso na primeira era da história da humanidade. 

O neoplatônico Proclo em seu comentário ao diálogo “Crítias” de Platão, onde se encontra a questão de Atlântida, descrevia a guerra entre os gregos pré-históricos e o povo de Atlântida como a guerra paradigmática entre duas ordens do ser: um perfeito e o outro degradado. 

É muito interessante que Proclo disse que os gregos eram ligados à terra e os atlantes ao mar. Os gregos estavam ao lados de Deuses olímpicos e o povo de Atlântida ao lado de Titãs. A geopolítica marítima dos Titãs contra a geopolítica terrestre dos Deuses. 

Proclo é um geopolítico da antiguidade. É importante que ambos mundos – grego e atlante – são pensados por Proclo como algo sincrônico. 

A segunda maneira de ver este sincronismo é com duas tradições filosóficas. 

A primeira é a filosofia de Platão, o platonismo. O platonismo é uma filosofia essencialmente vertical. O platonismo está construído ao redor do eixo vertical. Por cima estão as Ideias. Por baixo estão as coisas, os fenômenos. O mundo platônico é o mundo hierárquico, verticalmente organizado. 

Outra filosofia é o atomismo de Demócrito, Epicuro, Lucrécio. Essa filosofia é democrática, começa por baixo, pelas partículas materiais. É o mundo atomístico. Não conhece as Ideias, as luzes platônicas. Não conhece a hierarquia. Vai contra a verticalidade. 

Demócrito era pré-socrático. Pode ser compreendido como representante da contra-iniciação no mundo da Tradição. Demócrito é o representante da modernidade no mundo pré-moderno. 

Existe a lenda de que Platão em sua Academia ateava fogo aos escritos de Demócrito. Os platônicos consideravam o atomismo como “o mundo ao contrário”, o mundo impossível, o mundo contrário à ordem natural das coisas. 

No Islão o atomismo é a doutrina dos asharitas e do teólogo agressivamente anti-sufi, anti-esotérico Ibn Taymiyyah, pai do wahabismo e do salafismo atuais. 

Também: a tradição islâmica é pré-moderna. Uma vez mais: vemos na sociedade tradicional algo “moderno”. Depois de chegar à modernidade o atomismo começou a ser a única ortodoxia científica. A modernidade está construída sobre o atomismo de Demócrito. É o paradigma científico da modernidade. Após Galileu, Newton, Gassendi, o atomismo é o dogma. 

A filosofia platônica é depois marginalizada. É muito significativo que Karl Popper criticava agressivamente Platão, chamando o platonismo de “o maior inimigo da sociedade aberta liberal”. 

Então nós podemos identificar o tradicionalismo e o platonismo. 

A modernidade e a Tradição podem ser compreendidas como dois paradigmas. Os progressistas insistem sobre o fato de que a Tradição pertence ao passado. Compreendidas como paradigmas tudo muda: é possível desde este momento representar a modernidade e a Tradição como a opção de escolher. 

Por que isso é tão importante? 

A modernidade estruturalmente compreendida não é mais destino, algo objetivo e inevitável, mas a questão de escolher livremente. Assim nós podemos escolher sermos modernos – atomistas, materialistas, liberais democráticos. Mas podemos escolher não sermos modernos. E podemos ser platônicos, e estar ao lado da eternidade. A eternidade platonicamente compreendida não é passado. A eternidade é eterna. E, portanto, ela é presente. 

A única coisa que resta é voltar-se para a eternidade. Como nos versos de Arthur Rimbaud: 

Elle est retrouvée. Quoi? Eternité. 
C’est la mer allée avec le soleil. 

Ela é reencontrada. O que? A eternidade. 
É o mar indo de encontro ao sol. 



A Figura do Sujeito Radical e o Tradicionalista sem Tradição 

Existe o conceito de Gottesnacht, “a noite de Deus”. É a Idade de Ferro, o mundo moderno. 

A Tradição saiu. A modernidade chegou. O mundo organizado está substituído pelo mundo caótico. O sagrado desapareceu. A iniciação também. O homem está no vazio. 

Este é um ponto de partida dos tradicionalistas. Eles negam o mundo moderno. Eles buscam a Tradição. O tradicionalista desperta na noite de Deus (Gottesnacht). 

Hölderlin perguntou – “Por que poetas em tempos obscuros?” 

É importante este “por que”. 

Os platônicos pensavam que nos tempos de ouro nascem as almas de ouro – aristocráticos, daí vem o ideal de kalakogathia. Nos tempos de ferro nascem as almas péssimas, ínfimas, sem valor. Isso é importante: as almas péssimas não percebem que estão na Gottesnacht, na noite de Deus. Para eles a noite não é a noite. Eles não sabem mais o que é a luz. 

Os poetas possuem a dor. Os outros não a possuem. Assim, os tradicionalistas, por possuírem a dor, eles negam o mundo moderno. 

A questão se apresenta: pra que tradicionalistas nos tempos escuros? 

Podemos construir uma hipótese: a alma de ouro nasceu no tempo de ferro. Isso explica a dor, o trágico, o sofrimento. Isso explica por que há dor e sofrimento. 

Mas por que ela nasceu? Foi por erro cósmico? Ou outra coisa? E ainda mais importante pra que? 

Eu creio que seja outra coisa. Não é um erro. É o destino escatológico, a missão. É importante: o caso puro não é o tradicionalista por inércia, mas o tradicionalista por incapacidade de aceitar o mundo moderno, viver sem Deus, sem sagrado. E essa impossibilidade deve ser sem razão direta ou imanente. Somente neste caso o experimento é puro. 

O caso extremo: o tradicionalista sem Tradição. O homem diferenciado. Pra que o homem diferenciado? Aqui entra a figura do Sujeito Radical. 

O Sujeito Radical é a alma de ouro na Idade de Ferro. Para a alma de ouro é fácil estar no mundo de ouro. Mas é impossível julgar a priori: o homem é bom porque vive em uma sociedade tradicional ou porque sua alma é de ouro? 

É possível dar a resposta somente colocando-se a alma no mundo de ferro. 

Sujeito Radical 

O Sujeito Radical está na noite de Deus (Gottesnacht) para provar radicalmente a qualidade de sua alma. 

É o caso de Julius Evola – acima de tudo nas primeiras e últimas fases. 

É tudo? Pode ser. Ser tradicionalista é o fim per se e para se. Mas existe uma coisa muito importante, decisiva mesmo – ele precisa morrer tradicionalista também, não abandonando nem traindo seus ideais. 

Ainda assim, para que o tradicionalista nos tempos obscuros: para pôr fim ao mundo moderno. 

Este não é o fim último, mas é a consequência lógica. A luta contra a modernidade é ética essencial do Sujeito Radical. Não se pode fazer o contrário. O Sujeito Radical está no centro da noite – entre passado e futuro. Está no presente. Eugene Golovin, o tradicionalista russo, dizia: “lá onde nós estamos, lá está o centro do inferno”. 

É necessário compreender a modernidade e a pós-modernidade não dualmente. O Sujeito Radical é advaitista. Ele está no mundo moderno e quer estar aqui, não além desse mundo. 

O Sujeito Radical não tem medo da modernidade. O Sujeito Radical é o descente – Untergehende. 

A história é decadência, é Untergang, descida. 

Há quatro tipo de homens, segundo Martin Heidegger: 

1) As pessoas simples e ignorantes, que não podem escolher nada. Mudam com o mundo e com a sociedade. 

2) Os conservadores. Eles tem medo da noite de Deus, da decadência. Querem conservar o que existe contra o tempo que devora tudo. 

3) Os progressistas. Eles querem ir na direção da degradação mais e mais rapidamente. São os que são responsáveis pela situação atual. Os liberais, o governo mundial, conjuntamente podem ser chamados de “O Anticristo Coletivo”. 

4) Há também o quarto tipo: os novos filósofos. Eles descem no centro da noite e não tem medo. É onde o perigo é máximo. Heidegger disse sobre eles: esses filósofos se defrontam com o “duro conhecimento do niilismo”, schwere Wissen des Nihilismus. 

O Sujeito Radical vai com o mundo, sem ser desse mundo. É ele próprio a manifestação paradoxal do fim. Eu chamo isso de o “zen eurasista”. 

Obrigado!

Um comentário:

  1. Mas o Verticalismo Platônico é o único tradicionalismo genuíno possível de ser pensado? E o horizontalismo xamânico de tradição eurasiana, ou quiçá o budismo zen?
    A.Dugin fala da necessidade de uma nova abordagem da Tradição, e usa para isto as categorias da ontologia heideggeriana.
    Porém, Heidegger é grande crítico da metafísica ao dizer que este formato de pensamento (que é a base tanto de um platão como de um demócrito) é entificante, ou seja, é um pensamento derivado do "esquecimento do Ser". Logo, acho muito estranho a metafísica platônica (e derivadas) ser louvada como antítese do Gestell científico, pois segundo Heidegger, ambas possuem sua raíz em um erro de percurso efetuado pelo Ocidente (a chamada Vontade de Verdade falada por Nietzsche). Vale lembrar que tanto Nietzsche como Heidegger são pensadores da "imanência" (Zaratustra pedia fidelidade a Terra, indo na via contrária da casta sacerdotal que criara o mundo das idéias). Gostaria de saber como esse novo pensamento Tradicional resolveria estes problemas, estou achando muito interessante a forma com que este pensador usa de certos conceitos, mas preciso de alguns esclarecimentos para que eu possa perceber a coesão desta linha de raciocínio, e buscar entender melhor este pensamento. Estou no aguardo.

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