quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sobre o Princípio de Escassez

por Fernando Fuenzalida Vollmar



1 - A discussão econômica sobre o princípio de escassez repousa sobre uma mais antiga discussão, de caráter filosófico, acerca da realidade última da matéria e da natureza e do caráter de suas potencialidades. Desde há pelo menos dois milênios, no espaço civilizatório do Ocidente, essa classe de discussões filosóficas seguem encontrando-se demarcados dentro dos contextos e dos termos originalmente estabelecidos pelas reflexões da filosofia grega da era pré-socrática e pela síntese aristotélica dessas discussões, nos séculos que vão entre o VIII e o IV a.C. Desde então o pensamento ocidental mantém a tendência recorrente de buscar um novo apoio nessas mesmas fontes cada vez que os paradigmas de sua teologia ou de suas ciências entram em estado crítico. O momento contemporâneo não constitui uma exceção e isso determina a relevância de um retorno às definições originárias no que respeita a esse problema.

2 - A filosofia grega clássica, mais além dos desacordos particulares entre os partidários pré-socráticos de uma natureza originária única ou monistas e os de uma natureza múltipla ou pluralista concordam em aceitar a hipótese de uma Matéria Prima universal indiferenciada e carente de qualidades em sentido próprio - incluída a da quantidade - cuja única definição na linguagem racional seria a de ser potência ou dinamicidade, potencialidade ou possibilidade eterna, passiva, indeterminada, indiferente, omnivalente, ilimitada e infinita: a Hylé (originariamente qualidade emaranhada de um bosque inculto). As idéias desenvolvidas em torno da hylé encontraram sua síntese mais estável na filosofia de Aristóteles (fundamentalmente em sua Metafísica, sua Física e seu tratado sobre a Geração e a Corrupção). A influência dessa síntese se deixou sentir sucessivamente no pensamento escolástico medieval, no de pensadores como Francis Bacon e Isaac Newton na fundação da ciência moderna, no da escola francesa de sociologia desde Henri de Saint Simon e Auguste Comte até Emile Durkheim e - na Grã-Bretanha - Herbert Spencer e no da escola econômica substantivista de Karl Polanyi em tempos mais recentes entre outros.

3 - Frente a este princípio se reconhece um princípio complementar que é o da Forma ou Eidos (imagem, aparência), princípio ativo ou energético por cuja operação se determina e diferencia a indeterminação e indiferenciação da matéria e sua potencialidade se traduz em ato (para alguns filósofos a forma é idência à alma, para outros à lei natural, para outros à condição de existência do ente). Por sobre matéria e forma se constitui o telos, objetivo, fim, cumprimento, realização ou ato puro o qual os filósofos identificaram ao longo da história com a Divindade. E assim como a forma intervém como fator de mediação entre telos e matéria, entre a forma e a matéria emerge a mediação da eficiência ou Hyfu. Aristóteles deriva dessa sucessão de mediações sua doutrina da pluricausalidade dos fenômenos baseada na combinação de quatro causas: final, formal, eficiente e material.

4 - Como originada na união indissolúvel e eterna entre matéria e forma, entre potencialidade dinâmica e energia formal se reconhece nestes pensadores o princípio da Natureza ou Físis (o que borta), que emerge da potencialidade infinita da matéria e sua expansão como tempo e como espaço desdobrando de forma qualificada e diferenciada essa potencialidade. Desde os tempos da mais remota mitologia desse desdobramento se entende como de caráter orgânico e não mecânico (imagem mítica do universo como uma árvore, um homem ou animal gigante nascidos de uma semente-potência e dotados de uma matéria-corpo e de uma forma-vida-alma compartilhados por todos seus filhos). Para Aristóteles se entende como dotado de uma tripla fase: geração, alteração e corrupção (génesis, metabolé e phthora), ciclo-expansiva, análoga À que vai da semente ao fruto e sua semente e que conduz a uma expansão multiplicativa de caráter infinito. Deriva a Lei de Lavoisier: nada se cria, nem se destrói, tudo se transforma. O liberal Herbert Spencer no século XIX retomou a idéia e a reformulou em sua teoria da evolução social (Princípios Primeiros e Princípios da Sociologia). É seu melhor expositor contemporâneo. A natureza aparece necessariamente desde essa perspectiva como uma fonte inesgotável dos recursos e das formas. Uma mãe generosa que os gregos personificaram como a Diana de Éfeso, mãe dos mil peitos.

5 - Na visão aristotélica, o homem - parte orgânica ele mesmo da natureza - aparece como o agente eficaz, mediador do telos e da forma perante a potência da natureza na qual se oculta a infinitude do possível. Sua relação com ela se entende como um diálogo - uma dialética - na qual não se manda na natureza, senão obedecendo a ela (Bacon, parte II do Novum Organum aforismo CXXIX). O objetivo desse diálogo é o desocultamento mútuo. E desse surgem como irmãos gêmeos a ciência ou episteme e a técnica ou techné (habilidade do artesão), as quais se mostram como inseparáveis. O objetivo de tal desocultar - sustenta Bacon ao fundamentar a ciência experimental no aforismo LXXXI de seus Aforismos sobre a Interpretação da Natureza e o Reino do Homem - é prover ao homem novos recursos para solucionar problemas práticos e concretos da vida humana. De uma parte se trata de desocultar as potencialidades e leis da gênese e da mudança na natureza e no homem - o que se define como interpretar (aforismo XXVI) - Francis Bacon sustentará que "a interpretação é a obra natural e verdadeira da mente enquanto se conecta com as coisas" (aforismo CXXX da parte II do NO). Da outra se trata de realizar as potencialidades descobertas. O próprio Francis Bacon nos confirmará nessa fundamentação sua da ciência experimental moderna, a identidade de origem da ciência e da técnica (NO aforisma CXXIV da parte II: "Verdade e utilidade são as coisas em si mesmas") assim como a abundância inesgotável da natureza em matéria de possibilidades e recursos que podem ser postos à luz pela inteligência e pela habilidade do homem no manejo desse diálogo (NO, parte II, aforismas CIX ao CXV).

6 - Desde essa perspectiva clássica a eficiência do atuar humano descansa em dois pressupostos de ordem metafísica. O primeiro é o da inesgotabilidade dos recursos potenciais ocultos na natureza. Este é um presuposto que descansa em um prévio. A natureza é potencialidade infinita por si mesma, a qual se desdobra eternamente sem que existam limites possíveis a sua criatividade nem a sua capacidade de autorregeneração e multiplicação. O segundo, é que o homem é um agente eficaz da manifestação de tais possibilidades e abundâncias infinitas pela condição de se constituir em um agente dialogante - de organismo vital a organismo vital - que se conforme à lei racional ou Nomos que vincula a ambos e não em uma força dominante que violando esse Nomos que os une opere pela força.

7 - A eficiência epistêmica e técnica do homem frente à natureza própria e universal se mostra de tal forma como uma poiesis (de poieo: fazer brotar ou florescer a erva, suscitar, pôr em descoberto) que os clássicos, na origem pré-filosófica do penser percebem como uma poiesis universal que encontra seu modelo nos campos da agricultura e da pecuária (Hesíodo) ou das artes (Pitágoras). Sua apresentação mais arcaica se remete aos mitos finlandeses da criação nos quais Väinämöinen faz nascer o mundo cantando suas rapsódias ao som do kántele, ou nos mitos gregos de Orfeu e do Apolo Hiperbóreo nos quais a obra do artista se manifesta como uma pré-techné que faz emergir a mansidão ou a harmonia. Desde esse ponto de vista, um corolário inevitável dos dois princípios antes mencionados: nessa relação do homem com a natureza não se implica a noção moderna de progresso enquanto acumulação exponencial de logros, senão a recorrência orgânica de um ciclo semente-fruto-semente no qual a terra frutifica de modo infinito e em que a visível e tangível manifestação da abundância oculta responde de maneira inesgotável ao cuidado humano. O homem técnico aparece aqui não como um mecânico senão como um cultivador (Hesíodo), um pastor (Heidegger) ou um artista (Pitágoras). A consequência dessa dupla relação dialética e orgânica do homem com a potencialidade infinita da natureza deveria se manifestar pois em uma evolução orgânica contínua na qual o desvelamento sucessivo de recursos novos antes nem ao menos suspeitos responderia a um diálogo harmonioso entre a ciência e a técnica de um lado e a natureza desde o outro. Um diálogo conduzido pela metafísica do homem com o telos universal que a natureza e ele compartilham. Se isso fosse assim a terra estaria por definição em condições de sustentar um número infinito de habitantes enquanto sua associação com os humanos se traduziria não em uma imposição da natureza pela técnica senão em uma adaptação contínua da técnica às condições que a natureza põe em função do telos compartilhado. Independentemente do número de homens não haveria nem poderia haver escassez, nem esgotamento de recursos. Nesses termos que parecem ter entendido originariamente a noção de evolução e de progresso não somente Francis Bacon senão seus discípulos distantes Henri de Saint Simon, Auguste Comte, Stuart Mill, Emile Durkheim, Herbert Spencer e em geral todos os pensadores da escola estrutural organicista que promoveram no século XIX o mito do progresso.

8 - Como um dos mais importantes derivados dessa visão do homem, da natureza e suas relações mútuas, se propõe no século XVII o pensamento de John Locke, fundamentador do liberalismo clássico, no que concrne a propriedade e a riqueza e suas reflexões em relação ao dinheiro e ao capital (An Essay concerning the true original state and end of civil government, 1690, Cap V). A riqueza é, segundo este, a disposição do que a natureza outorga para a própria subsistência. A base da riqueza é a terra que é um bem comum assim como o que esta produz por si mesma. Propriedade é o produto da ação da pessoa - que por natureza é proprietária de si mesma - sobre o produzido da natureza e isso porque o trabalho lhe agrega algo que é seu mesmo. Assim a propriedade é o produto da conjunção entre o produto da natureza e do trabalho. A terra pode ser apropriável somente na medida em que é melhorada pelo que o faz. O limite da apropriação está na capacidade de uso. Mais além disso ela é ilícita. É o trabalho o que estabelece as diferenças de valor. O valor deriva da utilidade para a vida. A fonte da utilidade é a duração do bem. Ao desaparecer essa duração a perde e fica somente a função acumulativa. O desperdício do acumulado e não usado para a vida é um delito contra a propriedade. Isso estabelece o limite justo da acumulação. O dinheiro é um bem simbólico de alta durabilidade cujo objeto é o intercâmbio de bens consumíveis. Ao servir, não obstante, para a acumulação, se converte também em um objeto dessa e se converte em um instrumento gerador de escassez artificial. Ainda hoje - sustenta - haveria recursos para manter muito mais gente, se a invenção do dinheiro e o consenso de lhe atribuir valor não tivesse estabelecido as grandes posses e o direito a elas pelo desejo de possuir mais que o necessário. As observações de Locke reproduzem, por antecipado, as dos que se opõem hoje às políticas de redução de natalidade com o argumento de que a causa do problema não está nem em um excesso demográfico, nem em u mesgotamento real dos recursos do planeta, senão em uma má orientação de nossos sistemas políticos, econômicos e tecnológicos.

9 - O problema da tecnologia, dos recursos e da organização humana para sua administração, definia a tecnologia como "a organização racional da técnica para poder dominar e manipular a fisis em conformidade a suas próprias leis" (Niekisch, Ernst: 1955) foi discutido insistentemente ao longo do século XX por alguns dos mais importantes filósofos do período: Gehlen, Arnold: Die Seele im technischen Zeitalter, 1957; Heidegger, Martin: Von Wesen und Begriff der "Physis", 1939; Zeit des Weltbildes 1938; Nietzsche: Der europäische Nihilismus 1940; Über "Die Linie", 1955; Die Technik und die Kehre, 1962. Jünger, Ernst: Der arbeiter; herrschaft und gestalt, 1932; Die totale Mobilmachung., 1934; An der Zeitmauer., 1959; Der Weltstaat ; Organismus und Organisation., 1960; Werke.,1960; Philemon und Baucis, 1975. Aladins Problem, 1983. Jünger, Friesdrich Georg: Die Perfektion der Technik, 1968. Niekisch, Ernst: La Técnica Devoradora de Hombres, 1995. Spengler, Oswald: Der Mensch und die Technik,1930. Schmitt, Carl: Der Nomos der Erde im Volkerrecht des jus publicum Europaeum, 1950. Apesar das inevitáveis diferenças implicadas em distintas posições de escola, a maior parte das críticas recaem sobre um ou todos dos seguintes pressupostos incorporados à idéia vigente de progresso: a inevitabilidade da acumulação exponencial do saber técnico, sua unidirecionalidade e sua bondade intrínseca. O núcleo comum na argumentação radica na inversão da relação hierárquica que articula telos, forma, eficácia e potencialidade ou, alternativamente, Deus, Razão, Homem e Natureza e a manifestação dessa inversão como inversão na relação hierárquica da ciência e da técnica. Essas inversões aparecem como diretamente vinculadas às que haviam sido criticadas já por Nietzsche no século XIX e que na discussão contemporânea definem o trânsito da pós-modernidade em marcha como o de uma "linha do nada" ou irrupção do niilismo no universo de valores.

10 - Resultará de utilidade, a esse respeito, sintetizar algumas das principais dessas críticas seguindo a linha de seu raciocínio: a técnica moderna não é um saber sobre a natureza senão somente um manejo ou manipulação com o objeto do domínio sobre a natureza e em geral mediante o instrumento. O homem moderno está acostumado a ver objetos e não existências. Obriga a aparecer as coisas de uma determinada forma que ela impõe em virtude de sua própria lei instrumental. É abortamento ou provocação. Fazer abortar produtos que a técnica arrebata à natureza de seu movimento natural. À técnica moderna somente interessa que os elementos de sua ordem de atuação se submetam à ordem de eficácia e utilidade decidida unilateralmente por ela mesma. Dessa forma é um modo de interpretação do mundo decidido de antemão e que não somente determina os meios de transporte, a distribuição de alimentos ou a indústria do ócio, senão toda a atitude do homem em suas possibilidades; isto é, embala previamente suas capacidades de equipamento. Invertida a figura originária de vínculo instrumental orgânico com a natureza pela qual a ciência e a técnica develam os recursos até então escondidos à consciência humana porém ao mesmo tempo que o faz se reorienta a si mesma e à ciência em direção a um mais satisfatório acoplamento no serviço simultâneo do bem-estar humano e da ordem natural, a técnica é agora mais bem uma cosmovisão que sintetiza a essência metafísica da modernidade e da pós-modernidade. Está instalada de tal modo em nosso mundo que nenhuma das formas de vida desse se livra dela. Se obrita a todo o existente a figurar no domínio que de antemão a estrutura de dispositivos predispôs. O homem, a vida, a política, a economia, a natureza, a ciência, todos os âmbitos do real foram já predispostos de tal forma. O homem se torna escravo da técnica. A política se torna prolongação do sistema e o sistema se destrói. A um determinado estágio do desenvolvimento técnico corresponde sempre uma forma particular de estrutura econômica, sustenta Niekisch desde uma posição marxista. Porém - faz notar - o domínio adquirido pela tecnologia em nosso tempo introduz rigidezes insalváveis que impedem essa mudança de estrutura.

11 - Arnold Gehlen, criador da moderna Antropologia Filosófica, se expressa na mesma ordem de idéias. Na Era da Técnica - sustenta - a técnica se erige no centro de si mesma e inverte a escala de prioridades na relação entre homem e mundo. A técnica se converte no critério único de avaliação do conhecimento científico ou da satisfação econômica. Deixa de ser um meio e se converte em potência retora que o subordina ao cálculo mecânico ignorando as dimensões biológicas e espirituais do homem. Se trata de uma inversão de valores na qual as sociedades renunciam a se outorgar uma função diretiva subordinando a ordem institucional aos subsistemas econômico-racionais de modo que todo o vivo, incluindo o conjunto social fica submetido ao cálculo técnico. O conjunto das relações sócio-culturais tende a desagregar-se e ser substituído pela mera eficácia técnica. Isso busca se legitimar nas filosofias da modernidade e da pós-modernidade. Como solução para este problema, Niekisch propõe um movimento de retorno da estrutura utilitário-quantitativa para a qualitativa-solidária, da localização antinatural da técnic para a posição natural. Gehlen, de sua parte, nos propõe um retorno desde o mecânico ao orgânico em uma pós-ilustração. Características: a técnica deveria retorna a sua condição originária de instrumento, submetido a valores orientados à adaptação entre homem e meio e ao serviço do humano. Isso implicaria, por necessidade o abandono das premissas ideológicas de onipotência da razão calculante. Uma verdadeira revolução dop ensamento e dos valores em que acabou sustentando-se a sociedade contemporânea. Niekisch não vê outra solução que a revolução marxista: "O ódio que América e Europa dispensam à Rússia é o protesto do espírito técnico-individualsita que choca contra as barreiras de autodefesa orgânica que lhe impedem completar seu labor de destruição biológica. O mundo ocidental em sua irresponsabilidade individualista se sentem afrontado e provocado pela existência de um povo que se impôs através da severa disciplina da responsabilidade", escreveu não muito antes da queda do muro de Berlim. Gehlem propõe aprofundar a revolução até o plano metafísico. Carl Schmitt é, entre todos eles, o que se mostra mais otimista na conjuntura desse fim de século: "O novo nomos de nosso planeta cresce irresistivelmente. Muitos não veem aí mais que morte e destruição. Alguns creem viver no fim do mundo. Em realidade, o que estamos vivendo é o fim de uma relação tornada já antiga. O velho nomos entra em decadência e com ele todo um sistema de medidas, de conceitos e hábitos adquiridos. Porém o que vem não tem porque ser pura desmedida, nem um nada inimigo de todo nomos. Podem emergir justas medidas e podem tomar forma proporções razoáveis, inclusive em meio ao combate cruel entre as antigas e as novas forças. Também aqui existem deuses que governam. Grande é sua magnitude". O homem - pensa - voltará a ser a medida de todas as coisas.

 Adendo

Três idéias originadas no pensamento grego estiveram presentes no pensamento científico e tecnológico do Ocidente até fins do século XIX para logo irem se desvanecendo pouco a pouco.

1 . A unidade da natureza e da vida
2.  A renovabilidade infinita dos recursos naturais
3.  O domínio de um telos sobre o processo da natureza e da vida em seu conjunto
4.  A relação dialética ou dialogante entre natureza e homem

1 - No que concerne à primeira, esta se mantém vigente todavia como pano-de-fundo para as primeiras idéias de progresso. No século XIX segue sendo explícita no positivismo orgânico de Henri de Saint simon, no de Auguste Comte e no de seus seguidores desde Emile Durkheim a Herbert Spencer. E também em Karl Marx. Persiste parcialmente nas Ciências Sociais francesas e birtânicas ainda que está já em vias de desaparecimento. Desaparece gradualmente junto com estes últimos esforços enciclopedistas para abrir passagem a um divórcio cada vez mais acentuado entre a visão do homem e a visão do mundo natural. O natural e o humano representavam até então dois aspectos de uma realidade unitária. Com esse desaparecimento se faz visível pela primeira vez no mundo moderno a idéia de uma separação entre as Humanidades, as Artes e as Ciências e se inicia o gradual declínio da presença das humanidades no curríclo escola e universitário. Ao mesmo tempo se abre a porta para a superespecialização e compartimentalização das linguagens especializadas e das disciplinas, tão lamentada por Werner Heisenberg, Niels Bohr e pelo Prêmio Nobel Ylia Prigogine em seu livro já clássico A Nova Aliança. Tentativas de retornar a essa visão unitária foram realizados mais recentemente pela Teoria Geral de Sistemas de von Bartalanffy por Gregory Bateson e seus seguidores. A crítica ao paradigma iniciada por Thomas Kuhn diz respeito também a este problema.

2 - No que concerne a segunda, essa domina até o século XVIII apoiada nos textos científicos dos gregos e sustentada pela química tradicional. Sua última polêmica esteve centrada na questão da renovabilidade dos recursos minerais. O que se encontrava no pano-de-fundo era a idéia clássica de que o mineral é uma substância viva que se gera e regenera de modo contínuo nas profundezas da terra e que se encontra submetida a um processo de geração, alteração, maturação e corrupção análogo ao dos seres vivos. A tese sustentada pelos químicos clássicos foi que os minerais na sequência do chumbo ao ouro representavam somente fases de maturação em um mineral vivente e único que se reproduz de modo contínuo e infinito enquanto estão no veio. De conformidade com isso se dava por garantido que os veios esgotados se regeneravam desde que se os deixasse descansar pelo tempo suficiente. A tabela periódica dos elementos, ao aparecer, foi vista desde essa perspectiva como uma mera tabela evolutiva de minerais que, por amadurecimento se transmutavam de maneira natural em veio. A vitória da nova química na polêmica, até fins do século XVIII e início do XX trouxe consigo uma nova classificação do mundo natural entre seus aspectos mortos ou inertes e não regeneráveis e os viventes regenerais por si mesmos ou com auxílio humano. Com ela, a idéia da não renovabilidade de certo tipo de recursos começa seu domínio.

3 - Até as origens da idéia de progresso e ainda em fins do século XIX se segue considerando tanto o processo natural e humano como o das ciências e das técnicas como conduzidos por um telos ou objetivo universal que não é outro que o da infinita atualização da potência infinita da matéria e da natureza. Em tanto que esse telos se reconhece como sendo comum a natureza e homem se reconhece neste o agente eficaz e consciente do processo. Quer dizer enquanto operador consciente e voluntário de um processo que se definirá como progresso e no qual o desenvolvimento da natureza e o do homem se considerarão inseparáveis. É essa a idéia que se encontra presente de forma explícita na metafísica do socialismo utópico de Fourier e que reaparecerá mutatis mutandi na teoria natural de Marx e Engels. A declinação do telos se iniciou imperceptivelmente na obra de Francis Bacon, no século XVI, quando este privilegiou as relações entre a matéria, a forma e a eficiência como parte da busca de sua arte das transformações. Bacon não negou o telos, senão que o deu por consabido como função da razão e vontade humanas, capazes de reconhecê-lo e realizá-lo na natureza. A negação do telos alcança sua formulação e vitória definitiva no ano de 1970 com o aparecimento do livro de Jacques Monod Le Hasard et lá Necessité. O abandono da visão do telos tem consequências importantes sobre as orientações tecnológica da modernidade tardia e da pós-modernidade. Sua vigência condicionou as operações técnicas a uma identificação do telos implícito na matéria com o objetivo de auxiliar a essa em sua explicitação e realização. Seu desconhecimento decidiu o trânsito das operações técnicas da orientação orgânica à orientação mecânica - aquela que violenta ou força a teleologia - o que, de conformidade com Aristóteles não pode senão dar lugar ao aparecimento de "abortos" ou "monstruosidades".

4 - No que concerne, finalmente, ao diálogo entre natureza e homem este faz sua primeira aparição moderna na filosofia natural de Francis Bacon sob a forma da ênfase que este outorga à experiência ou experimentação como ponto de partida de um movimento dialogante no processo indutivo-dedutivo. Ancorando desse modo a experiência com a teorização Bacon tentou se assegurar de um domínio equilibrado entre as tendências empíricas da psique humana e suas tendências abstratistas. Se assegura com isso que a natureza não apareça nunca sob a forma de abstração e que o emprego das generalizações de caráter formal - lógicas ou matemáticas - não conduza a uma perda de ancoragem no campo de experiência humana enquanto tal. O problema que um dos passos mais importantes em direção à ruptura dessa ancoragem haja estado assinalado pela filosofia crítica de Kant e pela fronteira insalvável que essa termina por fixar entre ambos campos. Mais adiante pensadores como Windelband e Dilthey se encarregaram de reforçar essa fronteira estabelecendo-a entre as chamadas disciplinas idiográficas e as chamadas nomotéticas e contribuindo desse modo ao divórcio entreas Humanidades e as Ciências. O problema chegará a um primeiro plano nos tempos em que Marx e Engels iniciaram sua polêmcia sobre as relações entre Teoria e Praxis. Vinculados com essa questão estão os processo de ultramatematização e abstração que afetam hoje nossas ciências e que invadem inclusive o campo das Humanidades. A natureza, humana ou não, tende a se virtualizar nessa posição de ruptura da ancoragem, reduz sua qualidade a quantidade contável e essa a mera probabilidade. A teorização termina por autonomizar-se moralmente no que concerne as suas consequências práticas. Também vinculados são os modos de objetivação abstrata que dominam hoje o paradigma e que terminam rematando na hipótese de uma natureza que, em sua relação com o homem, é independente da consciência social, moral e cultural deste e de suas formas de organização. Sobre este ponto e em sua Tese sobre Feuerbach, Marx tratou de alcançar uma visão mais equilibrada e próxima da ancoragem baconiana. É evidente que em uma natureza cuja manifestação depende do diálogo com o humano, a escassez e a abundância, o esgotamento e regeneração dos recursos, o equilíbrio ou o desequilíbrio das relações ecológicas se encontrarão sempre em dependência dos sistemas culturais, éticos e sociais das coletividades humanas com as que se dá a interação. A esse respeito também a contribuição de Bateson e sua escola.

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