quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mobilização Total

por Ernst Jünger



1 - Vai contra a tendência do espírito heróico buscar a imagem da guerra em uma fonte que pode ser determinada pela ação humana. Ainda assim, as transformações multitudinárias e desfarces que a forma pura [Gestalt] da guerra suporta entre as vicissitudes do tempo e espaço humanos oferece a esse espírito um interessante espetáculo para as vistas.

Esse espetáculo nos lembra vulcões que, ainda que estejam em operação em regiões bastante diferentes, constantemente expelem o mesmo fogo terreno. Ter participado em uma guerra significa algo similar: ter estado na proximidade de tal montanha expelidora de fogo; mas há uma grande diferença entre Hekla na Islândia e o Vesúvio no Golfo de Nápoles. Pode-se dizer que a diferença nas paisagens desaparece quanto mais nos aproximamos da luminosa mandíbula da cratera; também no ponto em que a paixão autêntica irrompe - acima de tudo, na nua e imediata luta pela vida e pela morte - se torna uma questão de importância secundária em que século, por que idéias, e com que armas a batalha está sendo travada. Mas este não é o tema de nosso ensaio.

Ao invés, nós tentaremos reunir um número de fatos que distinguem a última guerra - nossa guerra, o maior e mais influente evento de nossa era de outras guerras cuja história nos foi transmitida.

2 - Talvez nós possamos melhor identificar a natureza especial dessa grande catástrofe pela asserção de que nela, o gênio da guerra foi penetrado pelo espírito do progresso. Este não foi o caso apenas para a luta entre diferentes países; foi também verdade para a guerra civil que reuniu uma rica segunda colheita em muitos deles. Esses dois fenômenos, guerra mundial e revolução mundial, estão muito mais interligados do que à primeira vista se poderia perceber. Eles são dois lados de um evento de significância cósmica, cuja irrupção e origens são interdependentes em numerosos sentidos.

É provável que muitas descobertas incomuns aguardem nosso pensamento relativo à realidade oculta por trás do conceito de "progresso" - um conceito ambíguo que brilha em muitas cores. Indubitavelmente a maneira pela qual estamos inclinados esses dias a zombar dele é barata demais. Certamente, nós poderíamos citar cada pensador oitocentista verdadeiramente significativo em apoio a nossa aversão; ainda assim, a despeito de todo nosso nojo pelo tédio e uniformidade das formas vitais na questão, a suspeita emerge de que sua fonte é da maior significância. Finalmente, mesmo o processo de digestão depende dos poderes de uma maravilhosa e inexplicável Vida. Certamente, pode ser hoje demonstrado convincentemente que o progresso é, de fato, não realmente progresso. Mas mais importante do que essa convicção, talvez, é a questão de se a significância real do conceito não é de um tipo mais misterioso e diferente: um que usa a aparentemente manifesta máscara da razão como um lugar fantástico para se esconder.

É precisamente a certeza com a qual movimentos progressivos produzem resultados que contradizem suas tendências mais inatas o que sugere que aqui, como por toda a vida, o que prevalece não são tanto essas tendências mais outras impulsões mais ocultas. O "Espírito" ["Geist"] muitas vezes tem sido justificadamente revelado no desprezo pelas marionetes do progresso; mas os tênues fios que produzem seus movimentos são invisíveis.

Se nós quisermos aprender algo sobre a estrutura de merionetes, não há guia mais agradável do que o romance de Flaubert Bouvard et Pécuchet. Mas se nós quisermos considerar as possibilidades desse movimento mais secreto - um movimento sempre mais fácil de sentir do que de provar - tanto Pascal como Hamann oferecem uma abundância de passagens reveladoras.

"Enquanto isso, nossas fantasias, ilusões, fallaciae opticae, e falácias permanecem sob o reino de Deus". Nós encontramos afirmações desse tipo frequentemente em Hamann; elas refletem uma sensibilidade que busca incorporar os labores da química no reino da alquimia. Deixemos de lado a questão de que reino do espírito governo a ilusão ótica do progresso: esse estudo não é uma demonologia, mas é dirigido aos leitores do século XX. Não obstante, uma coisa é certa: apenas um poder de origem cúltico, apenas uma crença, poderia conceber algo tão audacioso quanto estender a perspectiva da utilidade [Zweckmdssigkeit] ao infinito.

E quem, então, duvidaria de que o progresso é a grande igreja popular do século XIX - a única que desfruta de autoridade real e fé acrítica?

3 - Com uma guerra eclodindo em tal atmosfera, a relação de cada pretendente individual ao progresso estava fadada a desempenhar um papel decisivo. E precisamente aí reside o fator autêntico, moral, de nossa era: mesmo os exércitos mais fortes, equipados com as mais modernas armas de aniquilação da era industrial, não são páreo para suas emanações belas e imponderáveis; pois esta era pode até mesmo recrutar suas tropas a partir do campo inimigo.

De modo a esclarecer essa situação, introduzamos aqui o conceito de mobilização total: há muito passaram os tempos em que era suficiente enviar cem mil súditos alistados sob uma liderança confiável à batalha - como descobrimos, digamos, no Cândido de Voltaire; e quando, se Sua Majestade perdesse uma batalha, o primeiro dever do súdito era permanecer quieto. Não obstante, mesmo na segunda metade do século XIX, gabientes conservadores podiam ainda preparar, travar e vencer guerras em relação às quais os representantes do povo eram indiferentes ou mesmo contrários. Certamente, isso pressupunha uma relação próxima entre coroa e exército; uma relação que havia apenas passado por uma mudança superficial pelo novo sistema de conscrição universal e que ainda pertencia essencialmente ao mundo patriarcal. Ele era também baseado em um cálculo fixo de armamentos e custos, o que fazia com que a guerra parecesse um gasto excepcional, mas de modo algum ilimitado, de forças disponíveis e suprimentos. Nesse sentido, mesmo a mobilização geral possuía o caráter de medida parcial.

Essas restrições não apenas refletiam o grau limitado de meios, mas também uma específica razão de estado. O monarca possui um instinto natural alertando-o a não ultrapassar os limites do poder dinástico. A erosão de seu tesouro parece menos objetável do que créditos aprovados por uma assembléia; e para o momento decisivo de batalha, ele preferiria reservar seus guardas do que uma quota de voluntários. Nós encontramos esse instinto ainda sadio na Prússia mesmo a fins do século XIX. Um exemplo entre muitos é a luta amarga por uma conscrição de três anos: enquanto um breve período de serviço é característico de um exército voluntário, quando o poder dinástico está em jogo, tropas testadas e provadas são mais confiáveis. Frequentemente, nós até mesmo nos deparamos - o que pelos padrões atuais é quase impensável - com uma renúncia do progresso e de qualquer equipagem acabada do exército; mas tais escrúpulos também possuem suas razões. Daí oculta em cada melhoria de armas de fogo - especialmente o aumento do alcance - está um ataque indireto contra as condições da monarquia absoluta. Cada melhoria tal promove o tiro contra alvos indivíduais, enquanto a salva encarna a força do comando fixo. O entusiasmo era ainda desagradável para Guilherme I. Ele emerge de uma fonte que, como o saco de vento de Éolo, oculta não apenas tempestades de aplausos. A verdadeira pedra-de-toque da autoridade não é a medida do júbilo que ela recebe, mas as guerras que foram perdidas.

A mobilização parcial, assim, corresponde à essência da monarquia. Esta ultrapassa seus limites na medida em que é forçada a fazer das formas abstratas do espírito, do dinheiro, do "povo" - em resumo, as forças da ascendente democracia nacional - uma parte da preparação da guerra. Olhando para o passado nós podemos dizer que a renúncia completa de uma tal participação era impossível. A maneira na qual ela foi incorporada na vida política representa a real essência do estadismo do século XIX. Essas circunstâncias particulares explicam a máxima de Bismarck de que a política é a "arte do possível".

Nós podemos agora perseguir o processo pelo qual a crescente conversão da vida em energia, o cada vez mais flutuante conteúdo de todos os laços em deferência à mobilidade, dá um caráter cada vez mais radical ao ato da mobilização - que em muitos estados era o direito exclusivo da coroa, não necessitando de qualquer contra-assinatura. Os eventos que causam isso são numerosos: com a dissolução dos estamentos e a limitação dos privilégios da nobreza, o conceito de uma casta guerreira também desaparece; a defesa armada do estado não é mais exclusivamente dever e prerrogativa do soldado profissional, mas a responsabilidade de todos que podem protar armas. Similarmente, por causa do enorme aumento em gastos, é impossível cobrir os custos de travar uma guerra com base em um orçamento fixo de guerra; ao invés uma expansão de todo crédito possível, até mesmo uma taxação do último centavo  guardado, é necessário para manter a máquina em movimento. Da mesma maneira, a imagem da guerra como combate armado se funde na imagem ampliada de um gigantesco processo de trabalho (Arbeitsprozesses). Em adição aos exércitos que se encontram nos campos de batalha, se originam os exércitos modernos do comércio e do transporte, da alimentação, da manufatura de armamentos, o exército do trabalho em geral. Isso faz da Guerra Mundial um evento histórico superior em significância à Revolução Francesa. De modo a distribuir as energias de tal proporção, ajeitar o braço da espada não é mais o bastante; pois esta é uma mobilização [Rustung] que demanda a expansão até a mais profunda medula, ao melhor nervo da vida. Sua realização é a tarefa da mobilização total: um ato que, como se através de um único apanhar do painel de controle, expressa o suprimento de poder extensivamente dividido e densamente disposto da vida moderna em direção à grande corrente de energia marcial.

Ao início da Guerra Mundial, o intelecto humano ainda não havia antecipado uma mobilização dessas proporções. Ainda assim, seus sinais estavam manifestos em instâncias isoladas - por exemplo, o grande emprego de voluntários e reservistas no início da guerra, a proibição de exportações, as regulações de censura, as mudanças nas taxas cambiais. No curso da guerra esse processo se intensificou: como exemplos, nós podemos citar o gerenciamento planificado de matéria-prima e suprimentos, a transposição de condições industriais [Arbeitsverhiltnisses] para circunstâncias militares, o dever de guarda civil, o armamento de navios mercantis, a extensão inesperada da autoridade do estado-maior, o "programa Hindenbug", a luta de Ludendorff pela fusão entre comando político e militar.

Não obstante, apesar do espetáculo, tão grandioso quanto atemorizante, das últimas "guerras de exaustão" ["Materialschlachten"], nas quais o talento humano para a organização celebra seu triunfo sanfrento, suas possibilidades mais plenas ainda não foram alcançadas. Mesmo limitando nosso escopo ao lado técnico do processo, isso só pode ocorrer quando a imagem de operações marciais é prescrita para condições de paz. Nós assim vemos que no período do pós-guerra, muitos países tecem novos métodos de armamento segundo o padrão da mobilização total.

Nesse sentido, nós podemos introduzir exemplos tais como a limitação crescente da "liberdade individual", um privilégio que, com certeza, sempre foi questionável. Tal ataque toma lugar na Rússia e na Itália e então aqui na Alemanha; seus objetivos é negar a existência de qualquer coisa que não seja uma função do estado. Nós podemos prever um tempo em que todos os países com aspirações globais devam tomar parte desse processo, de modo a sustentar a liberação de novas formas de poder. A avaliação da França da balança de poder da perspectiva da energie potentielle pertence a esse contexto, como o faz o modelo que a América já ofereceu - já em tempo de paz - para cooperação entre indústria e exército. A literatura de guerra alemã levantou questões que tocam na própria essência do armamento, forçando o público geral a fazer juízos sobre questões de guerra (ainda que um tanto tardiamente e em realidade antecipando o futuro). Pela primeira vez, o "plano quinquenal" russo apresentou ao mundo uma tentativa de canalizar as energias coletivas de um grande império em uma única corrente. Vendo como teoria econômica dá um giro de 180º é aqui instrutivo. A "economia planificada", como um dos resultados finais da democracia, cresce para além de si mesma em um desdobramento geral do poder. Nós podemos observar essa mudança em muitos eventos de nossa era. A grande irrupção das massas portanto alcança um ponto de cristalização.

Ainda assim, não apenas ataque mas também a defesa demanda esforços extraordinários, e aqui as compulsões do mundo talvez se tornam ainda mais claras. Assim como cada vida já porta as sementes da própria morte, também a emergência das grandes massas contém em si uma democracia de morte. A era do tiro bem dado já está para trás. Dando a ordem do bombardeio noturno, o líder de esquadrão não mais vê uma diferença entre combatentes e civis, e a nuvem de gás mortífero paira como um poder elemental sobre tudo que vive. Mas a possibilidade de tal ameaça não é baseada nem em uma mobilização parcial ou geral, mas sim em uma mobilização total. Ela se estende à criança no berço, que é ameaçada como todos os outros - e até mais.

Nós poderíamos citar muitos exemplos tais. É suficiente simplesmente considerar nossa vida diária, com sua inexorabilidade e disciplina impiedosa, sua fumaça, seus distritos luminosos, a física e a metafísica de seu comércio, seus motores, aviões, e cidades florescentes. Com um horror com toque de prazer, nós sentimos que aqui, nem um único átomo deixa de estar em movimento - que nós estamos profundamente inscritos nesse processo furioso. A Mobilização Total é muito menos consumada do que se consuma ela própria; na guerra e na paz, ela expressa a reivindicação secreta e inexorável à qual nossa vida na era das massas e das máquinas nos sujeita. Sucede assim que cada vida individual se torna, cada vez mais claramente, a vida de um trabalhador; e que, seguindo as guerras dos cavaleiros, reis, e cidadãos, nós temos agora guerras de trabalhadores. O primeiro grande conflito do século XX nos brindou com um pressentimento tanto de sua estrutura racional como de sua impiedade.

4 - Nós tocamos nos aspectos técnicos da Mobilização Total; sua perfeição pdoe ser traçada desde as primeiras conscrições do governo da Convenção durante a Revolução Francesa e a reorganização do exército por Scharnhorst ao dinâmico programa de armamentos dos últimos anos da Guerra Mundial - em que estados se transformaram em fábricas gigantes, produzindo exércitos na linha de montagem que eles enviavam ao campo de batalha de noite e de dia, em que uma igualmente mecânica bocarra sangrenta assumiu o papel de consumidor. A monotonia de tal espetáculo - evocando o labor preciso de uma turbina alimenada por sangue - é de fato dolorosa para o temperamento heroíco; ainda assim, não pode haver dúvidas quanto a seu significado simbólico. Aqui uma necessidade severa se revela: o selo duro de uma era em um meio marcial.

Em qualquer evento, o lado técnico da Mobilização Total não é decisivo. Sua base - como a de toda tecnologia - é mais profunda. Nós a abordaremos aqui como a prontidão para a mobilização. Tal prontidão estava presente em todos os lugares: a Guerra Mundial foi uma das guerras mais populares conhecidas à história. Isso se deu porque ela ocorreu em uma era que excluía a priori todas as guerras, exceto as populares. Também, à parte peguenas guerras de colonialismo e saque, as nações envolvidas haviam desfrutado de um período de paz relativamente longo. Ao início de nossa investigação, porém, nós prometemos enfaticamente não focar nas camadas elementares da natureza humana que se misturam com paixões selvagens e nobres que descansam nela, tornando-a sempre aberta ao grito de guerra. Ao invés, nós iremos agora tentar desenrolar os múltiplos sinais anunciando e acompanhando este conflito particular.

Quando quer que confrontemos esforços de tais proporções, possuindo a qualidade especial de "inutilidade" ["Zwecklosigkeit"] - digamos a construção de pujantes construções como pirâmides e catedrais, ou guerras que põe em jogo as fontes últimas da vida - explicações econômicas, não importa o quão iluminadoras, não são suficientes. Essa é a razão pela qual a escola do materialismo histórico somente pode tocar a superfície do processo. Para explicar esforços desse tipo, nós devemos ao invés focar nossas primeiras suspeitas em fenômenos de uma variedade cúltica.

Ao definirmos o progresso como a igreja popular oitocentista, nós já sugerimos a fonte do eficaz apelo da última guerra para as grandes massas, cuja participação era tão indispensável. Apenas este apelo vale para o aspecto decisivo de sua Mobilização Total: o aspecto com a força de fé. Se esquivar da guerra foi cada vez menos possível em proporção com o grau de sua convicção - assim em proporção com a pureza com a qual as palavras ressonantes que as moviam à ação possuíam conteúdo progressivo. Claro, estas palavras não raro possuíam uma coloração dura e sinistra; sua efetividade não pode ser duvidada. Elas se assemelham aos farrapos coloridos que atiçam a presa da caçada em direção à mira do rifle.

Mesmo um olhar superficial, geograficamente separando os lados beligerantes em vencedores e vencidos, deve reconhecer a vantagem das nações "progressistas". Essa vantagem parece evocar um processo determinista como a teoria darwinista da sobrevivência dos mais "aptos". Sua qualidade determinista é particularmente aparente na inabilidade de países vitoriosos como Rússia e Itália em evitar uma destruição completa de seus sistemas políticos. Nessa luz, a guerra parece uma pedra-de-toque certeira, baseando seus juízos de valor em leis intrínsecas rigorosas: como um terremoto testando as bases de cada cada construção.

Por outro lado, os inesperados poderes de resistência do sistema progressita, mesmo em uma situação de grande fraqueza física, são notáveis. Daí, em meio à supressão daquele extremamente perigoso motom de 1917 pelo exército francês, um segundo e moral "milagre do Marne" se desdobra, mais sintomático para essa guerra do que fatores puramente militares. Similarmente, nos EUA com sua constituição democrática, a mobilização poderia ser executada com um rigor que seria impossível na Prússia, em que o direito a voto era baseado na classe. E quem pode duvidar que a América, o país carente de "castelos dilapidados, colunas basalticas e contos de cavaleiros, fantasmas e bandoleiros", emergiu como vencedor óbvio dessa guerra? Seu curso já estava decidido não pelo grau em que um estado era um "estado militar", mas pelo grau em que era capaz de Mobilização Total.

A Alemanha, porém, estava destinada a perder a guerra, mesmo que ela tivesse vencido a batalha do Marne e a guerra submarina. Pois apesar de todos os cuidados com os quais ela efetivou a mobilização parcial, grandes áreas de sua força escaparam à Mobilização Total; pela mesma razão, correspondendo à natureza interior de seu armamento, ela era certamente capaz de obter, sustentar, e acima de tudo explorar um sucesso parcial - mas nunca um sucesso total. Atribuir tal sucesso a nossas armas demandaria preparar para outra Cannae, uma não menos significativa do que aquela a que Schlieffen devotou a obra de sua vida.

Mas antes de prosseguir com este argumento, consideremos alguns pontos díspares, na esperança de mostrar ainda mais o elo entre progresso e Mobilização Total.



5 - Um fato é claramente esclarecedor para aqueles que buscam compreender a palavra progresso em seu timbre espalhafatoso: em uma era que executou publicamente, sob horríveis torturas, um Ravaillac ou mesmo um Damiens como filhos do inferno, o assassinato da realeza prejudicaria uma camada social mais poderosa - mais uma crença profundamente entalhada - do que no século que seguiu à execução de Luís XVI. Sucede que na hierarquia do progresso, o príncipe pertence a uma espécie não especialmente favorecida.

Imaginemos, por um momento, a situação grotesca na qual um grande executivo de publicidade teve que preparar a propaganda para uma guerra moderna. Com duas possibilidades disponíveis para inflamar a primeira onda de excitação - nomeadamente, o assassinato de Sarajevo ou a violação da neutralidade belga - não pode haver dúvidas sobre qual prometeria o maior impacto. A causa superficial da Guerra Mundial - não importa quão adventícia possa parecer - é habitada por um sentido simbólico: no caso dos culpados e da vítima de Sarajevo, o herdeiro da coroa Habsburga, princípios nacionais e dinásticos colidiram - o moderno "direito à auto-determinação nacional" com o princípio da legitimidade esmeradamente restaurado no Congresso de Viena pelo estadismo do velho estilo.

Agora certamente, ser extemporâneo no sentido correto - por em movimento um efeito poderoso em um espírito que deseja preservar um legado - é digno de louvor. Mas isso demanda fé. É claro, porém, que a ideologia das Potências Centrais não era nem oportuna, nem inoportuna, resultando em nada além de uma mistura de falso romantismo e liberalismo inadequado. Daí o observador não poderia deixar de notar uma predileção por ornamentos obsoletos, por um estilo romântico tardio, por óperas wagnerianas em particular. Palavras evocando a fidelidade dos nibelungos, esperanças depositadas no sucesso do chamado do Islã à guerra santa, são exemplos. Obviamente, questões técnicas e questões de governo estiveram envolvidas aqui - a mobilização de substância, mas não da substância mesma. Mas o relacionamento inadequado das classes governantes tanto com as massas como com forças mais profundas se revelou precisamente em tolices desse tipo.

Daí a famosa e intencionalmente brilhante referência a um "pedaço de papel" sofre de ter sido proferida com atraso de 150 anos - e então desde princípios que poderiam ter sido adequados para o romantismo prussiano, mas que em seu âmabo não eram prussianos. Frederico o Grande poderia ter falado assim, zombando de pergaminhos mofados e amarelados à maneira de um despotismo esclarecido. Mas Bethmann-Hollweg deve ter sabido que em nossos tempos um pedaço de papel, digamos um com uma constituição escrita nele, possui um sentido similar ao de uma hóstia consagrada para a Igreja Católica - e que rasgar tratados certamente é adequado para o absolutismo, mas a força do liberalismo se encontra em sua exegese. Estude a troca de notas que precede a entrada da América na guerra e você vai se deparar com um princípio da "liberdade dos mares"; isso oferece um bom exemplo da medida em que, em tal era, os próprios interesses recebem o status de postulado humanitário - de uma questão com implicações universais para a humanidade. A social-democracia alemã, um dos baluartes do progresso alemão, compreendeu o aspecto dialético de sua missão quando ela equiparou o sentido da guerra com a destruição do regime anti-progressista do czar.

Mas o que isso significa em comparação com as possibilidades para mobilizar as massas à disposição do Ocidente? Quem negaria que a "zivilisation" está mais profundamente ligada ao progresso do que a "Kultur"; que sua linguagem é falada nas grandes cidades, e que ela possui meios e conceitos sob seu comando em relação aos quais a Kultur é ou hostil ou indiferente? A Kultur não pode ser usada para propaganda. Uma abordagem que tente explorá-la desse modo está ela própria apartada dela - bem como achamos que a oferta das cabeças dos grandes espíritos alemães em milhões de selos de papel é inútil, ou mesmo triste.

Não tempos, porém, vontade de reclamar do inevitável. Nós queremos apenas estabelecer que a Alemanha foi incapaz de assumir convincentemente o espírito da época, independentemente de sua natureza. A Alemanha também foi incapaz de propor, para si mesma ou para o mundo, um princípio válido superior ao do espírito. Ao invés, nós a encontramos buscando - às vezes em esferas romântico-idealistas, às vezes em esferas racional-materialistas - por aqueles sinais e imagens que o indivíduo em luta almeja afixar a seus padrões. Mas a validade subjacente a essas esferas pertence parcialmente ao passado e parcialmente ao milieu estranho ao gênio alemão; não é suficiente garantir máxima devoção ao avanço de homens e máquinas - algo que uma temível batalha contra o mundo demanda.

Nessa luz nós devemos lutar ainda mais para reconhecer como nossa substância elemental, a força profunda, primordial do Vol, permanece intocado por tal busca. Com admiração, nós vemos como a juventude alemã, no início dessa cruzada de razão à qual as nações do mundo são chamadas sob o feitiço de um dogma tão óbvio e transparente, ergue o grito de guerra: luminosa, enfeitiçada, faminta pela morte de um modo virtualmente único em nossa história.

Se a um desses jovens tivesse sido perguntado seu motivo para entrar em campo, a resposta, certamente, teria sido menos clara. Dificilmente ele teria falado da luta contra o barbarismo e contra a reação ou pela civilização, a libertação da Bélgica ou a liberdade dos mares; mas talvez ele teria oferecido a resposta, "pela Alemanha" - aquela frase, com a qual os regimentos voluntários partiram para o ataque.

E porém, esse fogo abrasador, queimando por uma enigmática e invisível Alemanha, foi suficiente para um esforço que deixou nações tremendo até a medula. E se ela tivesse possuído direção, consciência, e forma [Gestalt]?

6 - Como um modo de pensamento organizacional, a Mobilização Total é meramente uma intimação daquela mobilização superior que a era está descarregando sobre nós. Característico desse tipo tardio de mobilização é uma legalidade interior, à qual as leis humanas devem corresponder para que sejam efetivas.

Nada ilustra essa reivindicação melhor do que o fato de que durante a guerra forças podem emergir que são dirigidas contra a própria guerra. Não obstante, essas forças estão mais fortemente relacionadas aos poderes em operação na guerra do que poderia parecer. A Mobilização Total altera sua esfera de operações, mas não seu sentido, quando ela começa a mover, ao invés de exércitos de guerra, as massas em uma guerra civil. O conflito agora invade esferas que estão fora dos limites para os comandos da mobilização militar. É como se as forças que não puderam ser manobradas para a guerra agora demandassem seu papel no conflito sangrento. Daí quanto mais unificada e profunda a capacidade da guerra para convocar, desde o início, todas as forças possíveis para sua causa, mais certa e mais imperturbável será seu curso.

Nós temos visto que na Alemanha, o espírito do progresso só pôde ser mobilizado incompletamente. Para pegar apenas um entre milhares de exemplos, o caso de Barbusse mostra que na França, por exemplo, a situação era muito mais propícia. Em realidade um oponente declarado da guerra, Barbusse podia apenas permanecer fiel a suas idéias ao prontamente afirmar esta: em sua mente, ela refletia uma luta de progresso, civilização, humanidade, e mesmo paz, contra um princípio oposto a todos estes fatores. "A guerra deve ser morta no estômago da Alemanha".

Não importa quão complicada essa dialética pareça, seu resultado é inexorável. Uma pessoa com a menos aparente inclinação para conflito militar ainda se encontra incapaz de recusar o rifle oferecido pelo estado, já que a possibilidade de uma alternativa não se encontra presente em sua consciência. Observemos enquanto ele tortura seu cérebro, montando guarda na desolação de trincheiras sem fim, abandonando as trincheiras tão bem quanto qualquer um quando chega a hora, de modo a avançar através da horrível cortina de fogo da guerra de exaustão. Mas o que, na verdade, é impressionante sobre isso? Barbusse é um guerreiro como qualquer outro: um guerreiro pela humanidade, capaz de deixar de lado o fogo de metralhadora e os ataques de gás, e mesmo a guilhotina, tão pouco quanto a igreja cristão é capaz de abandonar sua espada terrena. De certo, de modo a alcançar tal grau de mobilização, um Barbusse necessitaria viver na França.

Os Barbusses alemães se viram em uma posição mais difícil. Apenas intelectos isolados partiram cedo para território neutro, decidindo travar sabotagem aberta contra o esforço de guerra. A grande maioria tentou cooperar com a disposição militar. Nós já mencionamos o caso da social-democracia alemã. Desconsideremos o fato de que , apesar de seu dogma internacionalista, as fileiras do movimento estavam repletas de trabalhadores alemães, e assim podiam ser dirigidas ao heroísmo. Não - em sua própria ideologia, ela se inclinou em direção a uma revisão que depois levou à acusação de "a traição do marxismo". Nós podemos ter uma idéia dos detalhes do preocedimento nos discursos realizados durante esse período crítico por Ludwig Frank, o líder social-democrata e deputado do Reichstag, que, como voluntário de quarenta anos, caiu alvejado na cabeça em Noissoncourt em setembro de 1914. "Nós camaradas apátridas ainda sabemos que, mesmo como filhos adotivos, nós somos filhos da Alemanha, e que nós devemos lutar por nossa pátria contra a reação. Se uma guerra irromper, os soldados social-democratas cumprirão conscientemente seu dever". (29 de agosto de 1914). Essa passagem extremamente informativa contém resumida as formas da guerra e da revolução que o destino guarda em prontidão.

Para aqueles que querem estudar essa dialética em detalhe, as práticas dos jornais e diários durante os anos de guerra oferecem uma abundância de exemplos. Daí Maximilian Harden - o editor do Die Zukunft e talvez o jornalista mais famoso do período guilhermino - começou a ajustar sua atividade pública aos objetivos do comando central. Nós notamos, apenas na medida em que isso é sintomático, que ele sabia como jogar com o radicalismo da guerra tão bem quanto ele jogaria com o da revolução. E assim, simplicissimus, "um órgão que havia dirigido suas armas de sagacidade niilista contra todos os laços sociais, e assim também contra o exército, agora assumiu um tom chauvinista. É claro, ademais, que a qualidade do jornal diminui conforme seu tenor patriótico se eleva - isto é, na medida em que ele abandona o campo de sua força.

Talvez o conflito interio em questão aqui é mais aparente no caso de Rathenau; ele imbui essa figura - para qualquer um lutando para lhe fazer justiça - com a força da tragédia. Em uma medida considerável, Rathenau havia se mobilizado pra guerra, desempenhando um papel em organizar o grande armamento e focando - até mesmo próximo ao colapso alemão - na possibilidade de uma "insurreição em massa". Como é possível que logo após, ele poderia oferecer a conhecida observação de que a história mundial teria perdido seu sentido caso os representantes do Reich tivessem entrado na capital como vencedores através dos Portões de Brandenburgo? Aqui nós vemos muito claramente como o espírito da mobilização pode dominar as capacidades técnicas de um indivíduo, e ainda assim falhar em penetrar em sua essência.

7 - Com nossos últimos combatentes ainda jazendo perante o inimigo, o exército secreto e o estado-maior secreto comandando o progresso alemão saudaram o colapso com exultação. Se assemelhou à exultação de uma batalha vitoriosa. Foi o aliado mais próximo dos exércitos ocidentais a logo cruzar o Reno, seu Cavalo de Tróia. As autoridades governantes reconheceram o novo espírito pelo baixo nível de protesto com o qual eles rapidamente abandonaram seus postos. Entre jogador e oponente, não havia diferença essencial.

Essa também é a razão para que na Alemanha, a transformação política [seguindo o colapso militar] assumiu uma forma relativamente inofensiva. Assim, mesmo durante os dias cruciais da decisão, o ministro social-democrata do Império podia brincar com a idéia de deixar a coroa intacta. E o que isso teria significado, além de manter uma fachada? Por um longo tempo, a construção havia sido tão entulhada de hipotecas "progressistas", que mais nenhuma dúvida era possível quanto à natureza do verdadeiro dono.

Mas há outra razão pela qual a mudança poderia ocorrer menos violentamente na Alemanha do que, digamos, na Rússia - além do fato de que as próprias autoridades prepararam o caminho para ela. Nós temos visto que uma grande porção das "forças progressistas" já haviam estado ocupadas com dirigir a guerra. A energia desperdiçada durante a guerra não era então mais disponível para o conflito interno. Expressando em termos mais pessoais: faz diferença se ex-ministros assumem o leme ou uma aristocracia revolucionária, educada no exílio siberiano.

A Alemanha perdeu a guerra conquistando um lugar mais forte na esfera ocidental - civilização, paz e liberdade no sentido de Barbusse. Mas como poderíamos esperar algo diferente, já que nós havíamos jurado fidelidade a tais valores; por preço algum nós teríamos ousado estender a guerra para além daquele "muro disposto ao redor da Europa". Isso teria demandado idéias diferentes e aliados diferentes, um desvelamento mais profundo dos próprios valores. Um incitamento de substância poderia ter ocorrido com e através do otimismo progressista - como o caso da rússia sugere.

8 - Quando nós contemplamos o mundo que emergiu da catástrofe - que unidade de efeito, que consistência histórica incrivelmente rigorosa! Realmente, se todas as estruturas espirituais e físicas de uma variedade não-civilizacional se estendendo do fim do século XIX até nossa era tivessem sido reunidos em um pequeno lugar e atingidas com todas as armas do mundo - o sucesso não poderia ter sido mais estrondoso.

Os velhos toques do Kremlin agora tocam a Internacional. Em Constantinopla, crianças usam a escrita latina ao invés dos velhos arabescos do Corão. En Nápoles e Palermo, a polícia fascista regula o ritmo da vida sulista como se dirigisse tráfego moderno. Nas terras mais remotas, e mesmo lendárias, casas parlamentares estão sendo cerimonialmente dedicadas. A abstratividade, e daí o horror, de todas as circunstâncias humanas se eleva inexoravelmente. O patriotismo está se diluindo através de um novo nacionalismo, fortemente fundido com elementos de percepção consciente. No fascismo, no bolchevismo, no americanismo, no sionismo, nos movimentos dos povos de cor, o progresso teve avanços que até recentemente teriam parecido impensáveis; ele prossegue seguindo o curso circular de uma dialética artificial de modo a continuar seu movimento em um plano muito simples. Desconsiderando suas mui reduzidas compensações para a liberdade e a sociabilidade, ele está começando a governar nações de modos não muito diferentes daqueles de um regime absoluto. Em muitos casos a máscara humanitária já caiu, substituída por um fetichismo semi-grotesco e semi-bárbaro da máquina, um ingênuo culto da técnica; isso ocorre particularmente onde não há relação direta e produtiva com aquelas energias dinâmicas para cujo curso destrutivo e triunfal a artilharia de longa distância e aviões bombardeiros representam apenas a expressão marcial. Simultaneamente, a estima pela quantidade está aumentando: quantidade de assentimento, quantidade de opinião pública se tornaram o fator decisivo na política. Socialismo e nacionalismo em particular são as duas grandes pedras-de-moinho entre as quais o progresso pulveriza o que resta do velho mundo, e eventualmente a si mesmo. Por um período de mais de cem anos, as massas, cegas pela ilusão ótica da franquia, foram lançadas de um lado para o outro como uma bola pela "direita" e pela "esquerda". Sempre pareceu que um lado oferecia refúgio das reivindicações do outro. Hoje por todo lugar a realidade da identidade de cada lado se torna mais e mais aparente; mesmo o sonho de liberdade está desaparecendo como sob o toque de ferro de uma pinça. Os movimentos das massas uniformemente moldadas, aprisionadas na armadilha montada pelo espírito-do-mundo, compreendem um grande e temível espetáculo. Cada um desses movimentos leva a uma posse mais afiada e impiedosa: formas de compulsão mais fortes que a tortura estão em operação aqui; elas são tão fortes, que seres humanos as saúdam com alegria. Por trás de cada saída, marcada com os símbolos da felicidade, se ocultam a dor e a morte. Feliz é somente aquele que adentra armado nesses espaços.

9 - Hoje, através das rachaduras e retalhos da torre de Babel, nós já podemos ver um mundo glacial; essa vista faz com que os espíritos mais bravos tremam. Antes de muito, a era do progresso parecerá tão curiosa quanto os mistérios de uma dinastia egípcia. Naquela era, porém, o mundo celebrava um daqueles triunfos que imbuíam a vitória, por um momento, com a aura da eternidade. Mais ameaçadores que Aníbal, com punhos poderosos demais, exércitos simbrios haviam derrubados os portões de suas grandes cidades e canais fortificados.

Nas profundezas da cratera, a última guerra possuía um significado que aritmético algum poderia dominar. O voluntário o sentia em sua exultação, a voz do demônio alemão rebentando poderosamente, a exaustão dos velhos valores sentido unidos com um anseio inconsciente por uma nova vida. Quem teria imaginado que estes filhos de uma geração materialista poderiam saudar a morte com tamanho ardor? Desse modo uma vida rica em excesso e ignorante da poupança do pediente se declara. E tanto quanto o resultado efetivo de uma vida reta não é nada senão o ganho do próprio caráter mais profundo, para nós os resultados dessa guerra não podem ser nada senão o ganho de uma Alemanha mais profunda. Isso é confirmado pela agitação ao nosso redor que é a marca da nova raça: uma que não pode se satisfazer por qualquer das idéias desse mundo, nem qualquer imagem do passado. Uma anarquia frutífera reina aqui, que é nascida dos elementos da terra e do fogo, e que oculta em si as sementes de uma nova forma de dominação. Aqui uma nova forma de armamento é revelada, uma que busca forjar suas armas a partir de metais mais puros e mais duros que se provam impérvios a toda resistência.

O alemão conduziu a guerra com uma, para ele, ambição completamente razoável de ser um bom europeu. Como a Europa travou guerra contra a Europa - quem mais além da Europa poderia ser o vencedor? Não obstante, essa Europa, cuja área se estende em proporções planetárias, se tornou extremamente magra, extremamente envernizada: seus ganhos espaciais correspondem a uma perda na força de convicção. Novos poderes emergirão disso.

Bem sob as regiões nas quais a dialética dos objetivos de guerra ainda são significativos, o alemão encontra uma força superior: ele encontra a si mesmo. Dessa maneira, a guerra foi ao mesmo tempo sobre ele: acima de tudo, os meios de sua própria autorrealização. E por essa razão, a nova forma de armamento, na qual nós já por algum tempo estivemos implicados, deve ser uma mobilização do alemão - nada mais.

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