sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Europa até Vladivostok

por Jean Thiriart


História e Geopolítica

A história conhece cidades-estado: Tebas, Esparta, Atenas, depois Veneza, Florença, Milão, Gênova.

Hoje ela conhece estados territoriais: França, Espanha, Inglaterra, Rússia.

Finalmente ela descobre estados continentais, tais como os Estados Unidos da América, a atual China e a União Soviética de outrora. (1)

A Europa atual passa por uma fase de transformações.

Ela tem que proceder da mais ou menos estável fase de estados territoriais à fase do estado continental.

Para a maioria do povo, essa transição é atrapalhada por inércia mental, sem mencionar preguiça de pensamento.

Ainda que não fosse maior que um pedaço de fio, Esparta possuía uma forte vitalidade, de um ponto de vista história, sendo fundamentalmente vital em seu aspecto militar. Suas dimensões e recursos eram suficientes para conter um exército capaz de ganhar respeito de todos os seus vizinhos.

Aqui nós abordamos o problema básico da vitalidade dos estados. A cidade-estado histórica foi substituída pelo estado territorial. O Império Romano substituiu Atenas, Esparta, Tebas. E sem muito esforço. (2)

Hoje a vitalidade histórica do estado depende de sua vitalidade militar, que por sua vez depende de sua vitalidade econômica; que nos leva à seguinte alternativa.

Primeira hipótese: estados territoriais são compelidos a se tornarem satélites de estados continentais. França, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra não representam mais que uma ficção de estados independentes. Já há muito, desde 1945, todos esses países se tornaram satélites dos Estados Unidos da América.

Segunda hipótese: esses estados territoriais são transformados em um único estado continental - Europa.

A falha histórica de um estado continental: a URSS

A pesarosa desintegração da URSS é explicada, em particular, pela compreensão teórica insuficiente do estado por Marx, Engels, Lênin, e de certa forma Stálin. Já em 1984 meu discípulo e colaborador, José Cuadrado Costa, com base nas obras de Ortega y Gasset e nas minhas, publicou um ensaio brilhante e profético sob o título "Inadequação e Obsolescência da Teoria Marxista-Leninista da Nacionalidade". (3)

No que concerne a compreensão da essência do estado, os jacobinos eram obviamente muito mais avançados que os marxistas. Nessa área, Marx permaneceu limitado à era romântica da Revolução de 1848. Já ao fim do século XVIII Sieyes escreveu sobre o modo de obter um estado-nação "homogêneo". O estado-nação é um fruto de vontade política.

Outro exemplo de tolice marxista, derivada do romantismo oitocentista, é a idéia da desintegração do estado. É difícil pensar em uma besteira maior. Este é um velho sonho anarquista. (4)

Assim Lênin preservou a existência formal das repúblicas. Eu propositalmente escrevo a palavra como plural.

Devido à aplicação do princípio de centralismo dentro do partido comunista e à personalidade peculiar de Stálin, essa ficção ou comédia durou até 1990. O enfraquecimento do Partido resultou na desintegração da URSS em linhas derivadas do período 1917-1922.

Ficção se tornou realidade.

Em 1917, os jacobinos russos criaram a República dos Conselhos (eu chamo sua atenção para o singular). Lênin concordou com essa ficção da União das Repúblicas Soviéticas (eu chamo sua atenção para o plural) e a tolerou. De 1946 a 1949, no ápice de seu poder, Stálin também preservou essa aparência de Estados "Independentes", se estendendo da Polônia à Bulgária. Mais uma imprudência teórica.

O estado político enquanto oposto ao estado étnico

No dicionário francês "Le Petit Larousse" está escrito que as condições de uniformidade para uma etnia são sua língua e sua cultura.

Para o propósito dessa análise, eu darei minha própria interpretação estendida desse conceito, tendo dito que a unidade do estado étnico tem suas raízes na unidade de raça, religião, língua, símbolos comuns, memórias comuns, frustrações ou medos comuns.

O conceito do estado político (como um sistema aberto, expansivo) é efetivamente oposto ao conceito do estado étnico (como um sistema fechado, fixo). O estado político é a expressão da vontade de homens livres para ter um futuro comum. 

O estado político, ou mais precisamente o estado-nação político - do qual eu sou considerado o teórico moderno, após Ortega y Gasset (5) - permite aos indivíduos preservar sua individualidade pessoal (perdoe esse pleonasmo bárbaro) dentro da estrutura da sociedade.

Menos de dois meses atrás (6) eu afirmei minha opinião sobre a importância dos conceitos de Imperium e Dominium. Desde 1964 eu jamais parei de desenvolver este conceito de origens romanas.

A um amigo político que me chamou "valão" (não era o bastante para mim!), eu escrevi, como usual, que eu não sou nem valão, nem flamengo, nem alemão, ou belga, e nem mesmo europeu. Eu sou eu. A pessoa de Jean Thiriart - esta é Jean Thiriart, eu lhe escrevi. Eu não gosto de modo algum de aparecer junto a outras pessoas em qualquer arquivo, no qual esteja escrito que eles "me lembram".

Eu quero preservar constantemente minha ironia socrática. Um defensor do totalitarismo quando o assunto é o Imperium, eu me torno um anarquista na esfera do Dominium.

Marx e Engels não sabiam absolutamente nada sobre essa dicotomia fundamental entre Imperium e Dominium; é por isso que eles escreveram "A Ideologia Alemã", dirigida contra Max Stirner. A visão stirniana de Imperium (livre escolha federativa, o direito de secessão, e daí em diante) será sempre utópica e inaplicável. Ao contrário, sua visão de liberdade interna, da esfera de Dominium, sempre será interessante. Eu sou bolchevique, jacobino, prussiano, stalinista, onde quer que o discurso seja sobre o Imperium e sua disciplina civil, mas meu gosto e interesses intelectuais relativos a minha vida privada, minha vida dentro da estrutura do Dominium, elas se inclinam a Ulisses, o campião em imitar os cínicos, a Diógenes, que em resposta à pergunta: "Você pode ver algum homem bom na Grécia?" - respondeu, "Em lugar algum; mas eu vejo uns bons rapazes nos lacedemônios..."

É sabido que Diógenes e os outros cínicos admiravam o sistema espartano porque os espartanos eram partidários da disciplina e da austeridade e inimigos do luxo e da preguiça.

Assim, como Diágoras, eu sou contra religião. Na esfera privada, é claro!

Certamente, eu sou famoso como o mensageiro da Europa unida de Dublin a Vladivostok. (7)

Mas essa Europa unida, que eu escrevo e invoco, está conectada à esfera do Imperium. E em minha opinião tal Imperium tem que ser poderoso, dinâmico, impiedoso - de modo a ser efetivo.

Quanto a personalidade, ela está conectada à categoria de Dominium.

Minha personalidade cultural me proíbe de escolher entre categorias. Ela é única, como único é meu código genético.

Biologicamente, cada pessoa é a corporificação de um código único. Ele é um. No campo da cultura - música, arquitetura, literatura, pintura, etc. - eu reivindico para mim o status de individualista inabalável.

No estado político não pode haver "minorias", já que estas lidam apenas com individualidades, enquanto coletivamente lida com o Imperium.

Esses laços representam limitações, o que eu já mencionei antes.

Infortúnios recentes: federalismo, confederalismo

Tão logo quanto no conceito de construção do estado o conceito gêmeo de "Imperium-Dominium" é introduzido, tais soluções perversas, como federalismo ou mesmo pior que isso, confederalismo, perdem qualquer sentido e utilidade.

Eu não posso deixar de citar aqui um autor americano, o qual eu conheço apenas por uma única citação sua - mas uma citação tão relevante:

"Qualquer grupo de pessoas, independentemente de seu número e similaridade recíproca, e qualquer seja o grau de sua firmeza em avaliar sua opinião - qualquer grupo acaba se dividindo em grupos menores aderindo a variantes diferentes da mesma opinião; nesses subgrupos por sua vez emergem sub-subgrupos, e daí em diante, até o limite final de tal divisão - o indivíduo singular".

Essas palavras são atribuídas a Adam Ostwald, autor de um livro chamado "Sociedade Humana".

Os anarquistas do século XIX e muitos outros, incluindo Proudhon, persistiam no erro grosseiro de acreditar que conflitos e tensões dentro de grupos grandes poderiam quase desaparecer, encontrando para si uma solução em grupos pequenos.

Essa é a harmonia social do século XIX - a harmonia do grupo pequeno, oposta ao horror da dominação intolerável do grupo grande.

Mesmo Lênin inventou um sem-sentido histórico na moldura do conceito absurdo do "grupo pequeno sempre bem sucedido e harmonioso" - o que depois o forçou a escrever sobre o desaparecimento do estado, e também a querê-lo e prevê-lo.

Europa até Vladivostok: O Tamanho Mínimo

O estado-nação, querendo ser independente, é compelido a ter meios militares adequados.

Possuir estes meios depende da demografia, da autarquia de matérias-primas, e do poder industrial do estado.

Entre Islândia e Vladivostok nós podemos unir 800 milhões de pessoas (ao menos para mantar o equilíbrio com os 1,2 bilhões de chineses) e ainda encontrar no solo siberiano tudo que é necessário apra satisfazer necessidades estratégicas e energéticas.

Eu afirmo que, sob o ponto de vista econômico, a Sibéria é a província do império europeu mais necessária para sua viabilidade.

Uma grande união da altamente industrializada e tecnologicamente avançada Europa Ocidental com a Europa Siberiana, dispondo de reservas de commodities quase inexauríveis, permitirá a criação de um poderoso império republicano, com o qual ninguém deixará de entrar em acordo.

Limitações impostas pelo império europeu

Esse estado é uma unidade. Ele não quer conhecer e não sofrerá a divisão horizontal (autonomias regionais), ou a divisão vertical (classes sociais). (8)

Seu princípio central forma uma cidadania uniforme: em qualquer lugar do império europeu, o cidadão possui o direito de eleger, ser eleito e trabalhar. Ele pode de modo absoluto mudar sua residência e seu emprego. Sua qualificação profissional é reconhecida por toda a Europa: o doutor que recebeu seu diploma em Madri, sem qualquer limitações pode praticar em São Petersburgo.

Qualquer corporativismo regionl é excluído.

Separação de qualquer porção de território é excluída por virtude do princípio central.

Nós faremos uso novamente do princípio jacobino: "A República é unitária e indivisível". Não é recomendável repetir o erro leninista do "direito de auto-determinação".

A "região" ou o antigo estado nacional entra nela para sempre. A unidade desse estado é irreversível e consolidada pela lei constitucional.

Ao contrário, esse Império pode se expandir, não por "conquistas", mas pela anexação daqueles que quiserem se unir.

O exército é popular e integrado. Uma casta militar não pode desfrutar de qualquer monopólio ou privilégios sob a excusa do profissionalismo. Esse exército será completamente subordinado à autoridade política.

Dentro dos primeiros 25-50 anos de existência, esse exército integrado receberá atenção especial de modo que os recrutas de diferentes regiões do Império sirvam juntos.

Não é necessário supor a existência de regimentos croatas ou divisões francesas ou exércitos alemães ou russos.

Há uma única moeda. Possuir moeda estrangeira ou usá-la como meio de pagamento é punível.

Não é humilhante, vergonhoso, que hoje seja possível ir à Rússia possuindo apenas dólares americanos?

É humilhante de fato tanto para os turistas da Europa Ocidental, como para os russos.

É um símbolo de nossa decadência comum: os europeus ocidentais colonizados desde 1945, os europeus orientais balcanizados e colonizados desde 1990. Seria mais correto pagar o hotel Moscou em ECUs europeus, ao invés de em dólares estrangeiros. O inglês deveria ser a língua comum. (9)

Eu não escrevi "americano". Aí consiste minha escolha pragmática, inevitável. O conceito de uma legislação uniforme é um dos princípios fundamentais desse Império. Leis civis, leis criminais, leis trabalhistas e leis comerciais são uniformes. Interpretação e aplicação da lei são idênticas em todo lugar.

Dominium e suas limitações

Cada um conhece o ditado de que a liberdade de uma pessoa termina onde a de outra começa.

Em um artigo anterior eu indiquei, entre as áreas gerais do Imperium, aquelas nas quais a República unitária "...jamais recua...". Quanto ao Dominium, ele assume uma liberdade de escolha ilimitada, dispondo de todas as liberdades pessoais que não causem dano ao Imperium.

Essas liberdades são garantidas dentro da moldura da vida privada.

Em velhos sistemas políticos e regimes, sentimentos, emoções, medos da vida privada inevitavelmente tentarão penetrar - com frequência excessiva - na vida política.

O Imperium deve permanecer uma área elaborada, estruturada e dirigida pelo neocórtex apenas.

De modo a compreender o comportamento de uma pessoa, é necessário estudar os mecanismos do cérebro. (10)

Eu repetirei aqui minha piada favorita sobre eu mesmo: "...eu não tenho alma. Eu tenho um cérebro. Na verdade, como qualquer outro indivíduo, eu tenho três cérebros, nomeadamente:

- o córtex originário, o mais antigo (a velha pele do cérebro), que nos permite caminhar, escalar, rastejar ou bater com o taco de baseball;

- o cérebro "intermediário" (meso-córtex), contendo todo meu "software" emocional "programado", necessário para a sobrevivência. Sergey Chakhotin, estudioso de Pavloc, há muito tempo descreveu essas paixões e emoções.

A sobrevivência do indivíduo é promovida pelos impulsos para lutar e para a nutrição; a preservação de uma espécie - por inclinação sexual e parental (associativa).

E finalmente o mais moderno de nossos três "programas de manutenção" é o neo-córtex, esse magnífico instrumento do ser humano. E ferramente insuficientemente utilizada.

A antiga pele do cérebro já possui 200 milhões de anos. O neo-córtex se formou apenas há 1 milhão de anos.

A doutrina (ou tese) dos três tipos de cérebro, "sobrepostos uns contra os outros", ou sobre um cérebro tríplice, como escrita pelo tradutor francês Roland Guyon, foi proposta pelo psicólogo americano Paul D. MacLean. Ela foi então tornada popular por Arthur Koestler.

Na "Psicologia Social" de Otto Klineberg há uma longa discussão sobre a questão do comportamento emocional da pessoa.

Dois séculos antes das obras científicas de Paul D. MacLean aparecerem, Sieyes antecipou a tese moderna sobre a superposição dos três cérebros.

Bastide, em sua dissertação de 328 páginas, menciona o manuscrito de Sieyes "Sobre o cérebro e o instinto".

Muito antes de mim, Sieyes ficou surpreso e irritado por conta de pseudo-demonstrações em linguagem política.

Se eu também impor essa digressão sobre o leitor, é apenas para mostrar que uma grande parte dos discursos amargos e agressivos emerge de nosso cérebro médio superemocional.

Um bom estudo do discurso político é possível somente conhecendo o mecanismo de funcionamento do cérebro humano.

Nesse caso é fácil detectar a razão da introversão, ou o ódio por algo. Isso se torna um simples problema clínico explicado pela fisiologia cerebral.

Por muitos anos eu tive que lidar com "escritores" descrevendo a política como um reflexo do comportamento "meso-cortical" (paixão, emoção, impulso, frustração, medo, repulsão), enquanto eu com todas as minhas forças tento descrever uma República "neo-cortical"...sic!

Um dos meus críticos disse que eu sou um "frio monstro racional".

Eu concordo com ele, e eu prefiro essa condição à de "monstro báquico irracional", tão amada por velhacos pós-nietzscheanos.

Eu persistentemente recomendo ao leitor educado, que seja interessado em política, a se familiarizar com as obras de Paul D. MacLean.

O absurdo de discursos políticos pseudo-racionais pretendendo serem persuasivos (o advogado persuade, o cientista prova), é claramente evidente a partir dessa citação de Marc Jeannerod:

"...o caráter indireto das relações entre o sujeito e o mundo externo. O sujeito cria para si mesmo sua própria representação desse mundo, e essa representação guia sua ação. Nessa perspectiva, a ação não é a resposta para qualquer situação externa, como a consequência ou produto daquela particular representação".

Qualquer vanilóquio primitivo sobre "ethnos" é muito simplesmente explicado através desse conceito de "representação" (fictícia) de uma realidade rejeitada (produção da realidade). Rejeito da realidade, necessidade de devaneio.

Para a pessoa que recebeu uma educação científica rígida, a política e sua lingiagem representam absurdos óbvios.

As pessoas lançam sobre as faces umas das outras invenções e ficções de hostilidade pessoal, se recusando a aceitar aquelas situações...

Mas nós devemos retornar aos três tipos de cérebro de MacLean.

Quando consideramos as órbitas de satélites, a trajetória de sondas espaciais, a durabilidade do aço, as correções óticas introduzidas em construir uma fotolente, nós usamos apenas nosso neo-córtex.

Durante uma rusga entre motoristas, que acaba em uma briga, nós usamos os mecanismos reativos (arqueo-corticais) e emocionais (meso-corticais) e nos comportamos como mamíferos e répteis.

Na briga entre motoristas, impulsos agressivos assumem o controle, gradualmente suprimindo a função reguladora do neo-córtex. A inclinação sexual, às vezes intolerável, nos forçará a desejar a filha menor de idade do vizinho.

A mesma pessoa sempre funciona com a ajuda desse "programa" duplo: os programas de impulsos-paixões-sentimentos-emoções, e o programa do pensamento absolutamente racional.

Essa digressão era necessária como uma transição para a questão do governo de pessoas.

A religião se refere à área do Dominium.

É um tipo de atividade privada, que não deve ter qualquer possibilidade de exercer influência sobre a vida pública (com o consequente risco de ver como "islamistas" desafiaram a autoridade na Iugoslávia). É ridículo supor que a religião deveria interferir com uma vida política razoável, no Imperium. Apenas por se ignorar este princípio, matanças tolas e cruéis ocorreram no Líbano, na Palestina, na Armênia, na Iugoslávia e na Moldávia.

Aqueles que misturam religião com política são os atuais "aprendizes de feiticeiros". É criminoso aquele que criou essa condição de relações tensas, mas, sob o ponto de vista histórico, também criminoso é aquele que desviou os olhos do fato de que paixões religiosas podem ser usadas em um contexto político.

No Imperium laico das Repúblicas Unidas da Europa, a liberdade religiosa será permitida (eu preferiria escrever "admitida") dentro da moldura do Dominium, e impiedosamente suprimida à primeira tentativa de interferir na área pertencente ao Imperium. Racistas falsos e vergonhosos cunharam a tese do etno-diferencialismo e das "identidades etno-culturais". Como resultado disso, verdadeiras guerras emergiram na Moldávia, Iugoslávia, no Cáucaso - guerras travadas por criminosos comuns, ou, em nome da precisão, por gângsters.

Além de roubos, prostituição, jogatina e narcotráfico, os criminosos há pelo menos vinte anos tem demonstrado interesse até mesmo pela questão de "minorias oprimidas".

Essas tolices religiosas e etno-diferenciais tem sido devidamente manipuladas primeiro por charlatães, e então por gângsters - essas tolices, sustentadas por desesperados com armas automáticas em mãos, nos lançarão tão baixo que nos transformaremos nas "milhares de tribos de Nova Guiné", caçando cabeças.

Em resumo, eu deverei dizer que o Dominium significa uma liberdade de opinião praticamente sem controle (mesmo a mais idiota), mas o Imperium das repúblicas laicas e unidas jamais, mesmo por um único instante, admitirá a liberdade de "fazer o que se quiser". Desde 1945, a história nos ensina exemplos claros e sangrentos do que não deve ser feito. Do que não se deve permitir que ocorra amanhã.

Quando doente, Moscou chama a ajuda de "velhas mãos".

É simplesmente insano, o que tem se passado na Rússia nos últimos dois anos.

A economia devia ter sido liberalizada passo a passo, de baixo para cima, permanecendo em cada fase por 2-3 anos. (11)

Ao invés disso, em Moscou os piores aventureiros das finanças internacionais foram admitidos. A venda por barganha dos resultados do trabalho de três gerações do povo soviético está aberta.

Tubarões de Wall Street começam a demonstrar interesse excessivo na economia da antiga URSS.

Ela não deve enfraquecer suas bolas políticas, permitindo a separação de seus povos, mesmo se Lênin, em seu analfabetismo político (uma herança do marxismo ascendente de por volta 1848) concedeu (muito hipocritamente e descuidadamente) "o direito de auto-determinação".

A partição política e militar da URSS é e sempre será um erro histórico imperdoável. Um evento fatídico e irreversível.

A força centrífuga destruirá em cinco anos o que as forças centripetas criaram em quatro ou cinco séculos.

Primeiro teria sido recomendável encher as lojas de salsicha e pão, favorecendo a criação de um milhão de pequenas empresas (de 1 a 50 trabalhadores). Simultaneamente era necessário fortalecer a repressão política contra todos aqueles "combatentes" pela separação, independência e autonomia.

Outro exemplo do comportamento suicida dos novos líderes russos foram suas "viagens" a Washington ao invés de concordarem em receber auxílio econômico da Europa Ocidental.

De um ponto de vista histórico e geopolítico, os EUA são o inimigo especial da URSS.

A estratégia dos EUA é separar a Europa e partir a URSS.

Por quatro séculos a Inglaterra conduziu a mesma política contra os reis espanhóis, contra a França e a Alemanha.

Hoje a Inglaterra deixou seu lugar para os EUA. Mas apenas ontem ela incansavelmente objetivava destruir a principal força continental, capaz de unir o continente europeu em uma federação: Os Habsburgos espanhóis, Bonaparte, Guilherme II, Hitler.

A Rússia "solitária" é o futuro "Brasil na neve".

A partição da URSS é irreversível. A "Grande Rússia" não tem mais chances de ser uma grande potência.

Então a "Rússia solitária" é um país sem futuro, assim como a Alemanha desde 1945, e a França desde 1962.

De um ponto de vista histórico a Alemanha perdeu todo e qualquer sentido em 1945. Ainda que ela hoje seja uma grande potência industrial, ela é completamente passiva, absolutamente não-influente na arena internacional. (12)

Sim - 47 anos se passaram, desde que a Alemanha não possui nenhuma política externa. Em si, isso não é tão ruim para a unidade européia.

A histeria nacionalista causou muito mal para a Europa: duas guerras suicidas - em 1914 e 1939.

Se algum sonhador ainda espera que a Rússia se tornará novamente "Grande Rússia", uma potência de primeira linha, que ele saiba desde o início que Washington ainda tem muitas armas sobrando. Washington cinicamente jogou a carta de Bagdá contra Teerã, e então a carta de Riad, e aquela de seus cúmplices em Damasco e Cairo, contra Bagdá.

Washington ainda tem muitos punhais guardados com os quais, em caso de necessidade, para finalizar a partição da URSS, e então seguir à partição da própria Rússia.

Se necessário, Washington sem a menor dúvida jogará contra Moscou a carta de Pequim ou a carta mundial islamista (do Paquistão ao Marrocos).

Hoje França, Inglaterra, Alemanha não são mais que a ficção histórica de estados independentes, as paródias deles.

Todos esses chamados "grandes" países não possuem mais políticas externas.

A Guerra do Iraque demonstrou que Washington necessita da França e da Inglaterra apenas como fornecedores de "fuzileiros senegaleses".

NOTAS

1 - De 1981 a 1985 eu publiquei uma série de obras (algumas delas traduzidas ao russo), promovendo a possibilidade teórica de unir a Europa de Leste a Oeste através da repetção de um cenário histórico chamado "macedônio". Desde 338 até a revolta na Galiléia, em Queronéia, Filipe da Macedônia efetivamente realizou a unificação da Grécia. 

Naquelas obras a argumentação prosseguia em direção ao método militar-ideológico adequado para unir a Europa na direção de Vladivostok a Dublin.

O continente chinês foi unificado há 22 séculos por um incrível político - Tsin Shihuanti.

A dinastia Tsin (221-206). Estado centralizado unitário, liderança burocrática; subordinação dos senhores feudais. Construção da Grande Muralha.

Eventos subsequentes compeliram a esquecer o temor do Exército Soviético e o habilidosamente alimentado nojo pelo comunismo. Em 1992, a solução "macedônia" já parecia inadequada em comparação com o período de 1982-1984. Hoje nós deveríamos elaborar um conceito de retomar a totalidade do território soviético através da construção da Grande Europa, formulá-lo e desejar urgentemente sua realização.

O conceito infantil e anti-histórico da "Comunidade de Estados Independentes", proposto pelo ingênuo Gorbachev, não possui a menor chance de sucesso. Era uma criança natimorta. Seu absurdo semântico é óbvio: comunidade de estados independentes (sic)...; igualmente bem seria possível falar sobre casais católicos devotos praticando o amor livre.

2 - Roma era um Estado Político objetivando a expansão de suas fronteiras.

Não eram assim, no plano teórico, as cidades de Esparta, Atenas e Tebas, com seu conceito, fadado à paralisia, da "imanente e eterna cidade-estado". Aproximadamente 2000 anos após, a Prússia também se tornaria um estado político em expansão. Porém tal expansão não implica necessariamente em conquista. Um exemplo teórico e concreto disso. Se durante os anos de 1950-55, em plena Guerra Fria, os EUA nos haviam oferecido a integração política da Europa Ocidental em uma sincera e honesta estrutura "atlântica", nós teríamos sido testemunhas do nascimento da República Atlântica, se estendendo de São Francisco a Veneza, e de Los Angeles a Lübeck.

Eu trago este exemplo teórico para que o leitor possa distinguir um imperialismo escravizador usual de um imperialismo integrador.

Tal óbvia habilidade para expansão também deveria ter a República Européia Uniforme. Todos os meus conceitos geopolíticos postulam a necessidade de preservar um Estado-Nação vital.

Eu usarei a geopolítica com o propósito da criação do conceito e descrição da vitalidade da República.

Ambos são imperialistas bem mal disfarçados.

A diferença entre o teórico e o ideólogo é imensa.

Haushofer apenas racionalizou seu pan-germanismo animal. Seu conceito do bloco "Berlim-Moscou-Tóquio" não é mais que um mascaramento racional de suas ficções pan-germanistas.

Quanto aos EUA, eles remetem ao seu "Destino Manifesto". Isso é geopolítica ideológica, messiânica, nascida de imaginações, por sua vez causadas pela leitura regular de uma literatura paranóica e de saques através do texto bíblico.

Weinberg lista os expressivos títulos de capítulo para essa paranóia histórica: "predestinação geográfica", "missão de regeneração", "destino inevitável", "poder de polícia internacional". Psicólogos e psiquiatras encontrarão aí comida para reflexão e entretenimento.

Meu conceito geopolítico é completamente diferente. Eu diria, que o progresso industrial e tecnológico peculiar aos EUA deve ou pode criar tal situação, quando se administrará razoavelmente o Estado Continental do Alasca à Patagônia.

Ao invés de provocadoramente "passearem" com sua frota nos mares chinês e mediterrâneo.

Teorias geopolíticas ideológicas operam nos termos de subordinação e/ou exploração, enquanto a geopolítica teórica "em seu estado puro" lida com desenvolvimento e construção de estados vitais.

3 - José Cuadrado Costa “Insuffisance et depassement du concept marxiste-leniniste de nationalite”, October 1984, in “Conscience Europeenne” n.9, Charleroi Belgique. (Conceito de "nacionalidade" em Marx, Engels, Lênin, Stálin, Ortega y Gasset e Jean Thiriart).

4 - É necessário ler criticamente essa obra de Daniel Guerin ("L'Anarchisme", Poche Gallimard). Lá todos os sem-sentido do romantismo oitocentista estão escritos. É difícil encontrar alguém mais ingênuo e mais tolo que Proudhon. Ele descreveu um mundo idílico, o mundo de "federações de federações". Ele não esperava guerras moldavas, croatas e armenas com o propósito da destruição brutal da "Minoria das Minorias". E com apenas uma rajada de uma arma automática!

5 - Jose Ortega-y-Gasset “La Revolte des Masses”, Editions Stock 1961; Jose Ortega-y-Gasset “La vocation de la Jeune Europe”, Revue de la S.S. Universitaire “LA JEUNE EUROPE” Berlin 1942, Cahier 8.

6 -  Jean Thiriart “EUROPE: I’Etat-Nation Politique”, revue “Nationalisme et Republique” n.8, juin 1992 25, Cours Foch 13640, La Roque d’Antheron (France).

7 - Já há mais 1/4 de século eu tenho desenvolvido o conceito de Europa como: (a) estado unitário, (b) de nações europeias. O general DeGaulle queria uma França forte (e unida) e uma Europa impotente (confederada).

A Europa não gostava disso. Assim como Maurras, ele foi pego em um impasse.

Em 1965 o escritor alemão Heinz Kubi me atacou pelos antigos profetas da Grande Alemanha, aos quais eu supostamente pertencia.

Kubi escreve:

"L'Europe: ume nation? (Europa: uma nação?). O paradoxo do terreno político na Europa Ocidental é que as mesmas pessoas que são mais intolerantes em relação aos próprios inimigos (na questão européia: gaullistas-confederalistas e thiriaristas-unionistas) são apoiadores do mesmo conceito de estado. Para De Gaulle era impensável que o estado podia e devia ser algo diferente do estado nacional, como a nação é a única base legítima para a política. O mesmo conceito é dominante entre uma facção da oposição europeia ("Jeune Europe"). Este último quer sair da moldura nacional, mas não pode oferecer qualquer outro tipo de estado, exceto o nacional. Então, eles querem substituir os estados atuais com o estado nacional europeu. Eles sonham a nação europeia, e não é casual, que nessa questão eles concordem com os profetas da "Grande Alemanha" e outros fascistas do passado".

Ver "PROVOKATION EUROPA", Kiepenheuer und Witsch, Koln-Berlin, 1965. French translation: ” Defi à l’Europe “, Seuil, 1967.

 A derrota da "Grande Alemanha" racista eu conheci muito bem, durante a guerra e depois, nos anos de prisão. Eu assumi disso uma útil lição sobre o fato de que o estado racialmente unificado (o de Hitler) não pode se expandir sem guerras constantes. Portanto em uma cela escura eu trabalhei o conceito do estado político (não racial) unido expansionista.

Eu tomei e desenvolvi os conceitos de Sieyes e Ortega y Gasset, o conceito de nação política a ser concluído em um destino superior, um destino europeu.

8 - Em um encontro, em 7 de setembro de 1789, o abade Sieyes claramente e inequivocamente afirmou e repetiu: "Soberana é apenas a Nação. A Nação não possui nem ordens, nem classes, nem grupos. A soberania não pode ser dividida e transmitida". Ver Colette Clavreuil "L'influence de la theorie d'Emmannuel Sieyes sur les origines de la representation en droit public", doctoral dissertations, Université de Paris, 1982; Jean-Denis Bredin "Sieyes, la clé de la Revolution française", Editions de Fallois, Paris 1988; Paul Bastid "Sieyes el sa pensée" re-ed Hachette 1970.

Ninguém poderia formular o conceito do estado unitário melhor do que Sieyes. Quanto a mim, eu transfiro este conceito de república unida e indivisível para minhas reflexões sobre a criação de uma repúblicai mperial de Dublin a Vladivostok. Assim como Sieyes, eu estou cansado de todas essas teorias federativas, fontes de ameaças de guerras civis, fontes de partições territoriais.

9 - Para a pessoa cientificamente educada, todas as nossas linguagens são meios de expressão fracos demais, indistintos, obsolescentes. A linguagem científica é inequívoca, a linguagem literária é sempre ambígua. Por essa razão "escritores" não se expressam tão claramente em sociologia ou política. Ver a obra capital por Louis Rougier "La metaphysique el le langage", Denoel 1973.

De fato por todo o mundo o inglês já é inevitavelmente a linguagem comum da ciência e da tecnologia. O Instituto Parisiense Pasteur não publica mais nada em francês. Todas as suas obras são publicadas apenas em inglês.

10 - Paul D. MacLean “Les trois cerveaux de l’homme”, Robert Laffont 1990 (French translation); Arthur Koestler “Le cheval dans la locomotive ou le paradoxe humain”, Caiman-Levy 1968; ver Capítulo XVI "Les trois cerveaux". Koestler se dirige aos muitos leitores educados. MacLean escreve para o leitor familiarizado com a neuropsicologia cerebral.

Sergey Chakotin "Le viol des foules par la propaganda politique", Gallimard 1952. Chakotin é discípulo e seguidor de Pavlov. Sua "Violência contra as Massas" é uma obra capital indispensável para aqueles que querem ir mais fundo na questão.

Otto Klineberg “Psychologie Sociale”, Presses Universitaires de France 1967.

Josè M.R. Delgado “Le conditionnement du cerveau et la liberte de L’esprit” Charles Dessart, Bruxelles 1972.
 
Jean-Didier Vincent “Biologie des Passions”, Seuil 1986.

Marc Jeannerod “Le cerveau-machine”, Fayard 1986. Guy Lazorthes “Le cerveau et l’esprit – Complexité et malleabilité “, Flammarion 1982.

11 -  Jean Thiriart e René Dastier (1962-1965) "Principes d'Economie Communautaire", 170pg. Uma obra compreensiva sobre teorias sócio-econômicas de Jean Thiriart. (Socialismo em escala europeia: comunitarianismo). Há também uma breve exposição dessa doutrina em um pequeno volume de 42 páginas: Yannik Sauveur e Luc Michel "Esquisse du Communautarisme" (1987). E por último, o artigo de Jean Thiriart "Esquisse du communautarisem", publicado na revista "La nation européenne", n.l., fevereiro de 1966.

O atual regime russo está realizando a liberalização da economia na direção mais perniciosa. Primeiro eles invocaram a ajuda de tubarões financeiros internacionais, o que era a última coisa a se fazer. E Yeltsin o fez, se provando um leigo, uma pessoa sem qualquer conhecimento seja no campo da economia seja no da história.

Teria sido muito mais correto: (a) liberalizar imediatamente todas as empresas com uma força de trabalho de 1 a 50 pessoas; (b) liberalizar em 2-3 anos empresas com uma força de trabalho de 50 a 500 pessoas. Teria sido necessário ir de baixo para cima, da liberalização imediata das pequenas empresas às de maior importância em 6-8 anos. A livre iniciativa estimula o trabalho. É impossível dizer o mesmo sobre a finança internacional especulativa, que olha apenas para seu próprio benefício imediato. Aqui nós não descreveremos a ampla margem entre capitalismo industrial ("Ford", "Renault", "Citroen") e capitalismo bancário especulativo (FMI). Centenas de páginas de pesquisas econômicas por Dastier e Thiriart (1962-1965) são devotadas a este tema. Consideravelmente simplificador, pode-se dizer que o comunitarismo significa uma economia completamente livre para as empresas com um volume de emprego de até 50 pessoas, economia regulada para aquelas com mais de 500, controlada para aquelas acima de 5.000 e estatal para aquelas com mais do que 50.000. É um sistema de "geometria variável", em um caminho intermediário entre capitalismo industrial e socialismo clássico.

12 - A Alemanha moderna é um gigante econômico, por um lado, e um anão político, por outro. É um país historicamente estripado desde 1945. A Alemanha atual é uma das zonas de exploração da economia cosmopolita baseada em Wall Street.

List brilhantemente demonstrou a diferença entre economia cosmopolita e economia política. Partindo dessa diferença, Thiriart construiu a teoria da economia como poder oposta à economia americana focada no lucro.

Há uma excelente análise das idéias de List pelo autor americano Edward Mead Earl (ver Edward Mead Earl in “Makers of Modern Strategy”, Princeton University 1943). Em 1980, a editora Berger-Levrault publicou essa obra em francês sob o título “Les maitres de la strategie” (Chapitre 6: “Adam Smith, Alexander Hamilton, Friedrich List: les fondements economiques de la puissance militaire”).

List passou muitos anos nos EUA. Ele disse que "riquezas são inúteis sem a unidade e o poder de uma nação". Sobre a qualidade analítica de sua obra Edward Mead Earl escreveu que podia valer a pena incluí-la em uma antologia de estudos geopolíticos.
 
 

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