sábado, 7 de julho de 2012

O Império Do Fim - Uma Breve Introdução a Jean Parvulesco



Jean Parvulesco não é um nome exatamente familiar no Ocidente. Todos os seus livros continuam sem tradução do francês, em grande parte, devido ao complexo e idiossincrático estilo de prosa que eles contêm. Parvulesco é um mistério vivo da literatura europeia. Místico, poeta, romancista, crítico literário, conhecedor de intrigas políticas, revolucionário, amigo e confidente de muitas celebridades europeias da última metade do Século XX (de Ezra Pound e Julius Evola, à Raymond Abellio e Arno Breker), sua verdadeira personalidade continua um mistério. Um romeno que escapou para o Ocidente nos anos de 1940, ele se tornou um dos mais brilhantes estilistas franceses da prosa e poesia contemporânea. Mas não importa o quão diferentes fossem seus trabalhos, de estrofes tântricas e complexos romances ocultos, à biografias de amigos eminentes (em paticular “Sol Vermelho de Raymond Abellio”), o seu verdadeiro chamado era – “visionário”, contemplador direto e inspirado das esferas espirituais, aberto ao escolhido por trás da aparência sombria e trivial do mundo profano contemporâneio.

Ao mesmo tempo, Parvulesco nada tem em comum com os representantes vulgares do “neo-misticismo” contemporâneo e todas as suas falsas ramificações. A visão de Parvulesco é sombria e trágica: ele não tem absolutamente nenhuma ilusão à respeito da natureza diabólica e infernal do mundo contemporâneo (neste sentido, ele é mais provavelmente um tradicionalista). Ele é completamente alheio ao otimismo infantil dos teosóficos e ocultistas, e da “visão” pseudo-mística da Nova Era. Mas diferentemente de muitos tradicionalistas de temperamento “acadêmico”, ele não se limita à proclamação cética sobre a “crise do mundo moderno” e à condenação vazia e marginal da civilização materialista do final do Kali Yuga.

Os textos de Jean Parvulesco estão cheios do Sagrado, que fala diretamente através de uma estranha revelação, quase profética e parecida com sonhos, “uma visitação”, vazando pelas esferas superiores através das energias escuras que são a norma na psiquê coletiva atual. Parvulesco é um verdadeiro visionário, ideologicamente preparado e suficientemente profundo para não aceitar os primeiros fantasmas da realidade sutíl ao se deparar com “mensageiros da luz”, mas ao mesmo tempo, forçando ao limite sua intuição, de forma perigosa e arriscada para uma “viagem interior”, ao “centro do Lado Negro” da alma moderna, sem medo de ir além das normais fixadas pelos dogmas racionais (daqui se originam os paradoxos de vários níveis que enchem os livros de Parvulesco).

A mensagem de Parvulesco pode ser definida dessa maneira: “O Sagrado desapareceu da realidade cotidiana do mundo moderno, e é completamente óbvio que nós vivemos no “Fim dos Tempos”, mas o Sagrado não desapareceu (já que não pode desaparecer teoricamente, pois é eterno), foi transferido para uma projeção noturna, invisível que agora está pronta para descer ao cosmos físico humano, num terrível e apocalíptico momento do apogeu da história, num ponto em que o mundo que esqueceu de sua natureza espiritual e a renegou, será  forçado a econtrá-la em um lampejo brutal da Revelação.” Enquanto isso não acontecer, e a humanidade pacificamente dormir em suas ilusões sombrias e materialistas, apenas s escolhidos, visionários membros de uma irmandade secreta, a Ordem Apocalíptica, se mantêm acordados, secretamente preparando caminhos para a vinda da Última Hora, o “Reino Celestial”, o Grande Império do Fim.

Jean Parvulesco vê em si mesmo não uma figura literária, mas o arauto do Império Invisível (seu último livro é chamado “Estrela de um Império Invisível), locutor do Parlamento oculto, consistindo na elite planetária dos “despertos”. Sua personalidade se duplica, triplica, quadriplica nos personagens de seus romances, entre os quais o próprio autor possui um lugar, junto de seus sósias, dublês ocultos, personalidades históricas reais, sombras de outros-mundos, cascas do “crepúsculo externo”, “demônios nominais”, agentes secretos de serviçoes especiais ocultos. Parvulesco abre um mundo paralelo inteiro, não apenas decorações de palco de fantasias individuais ou reminiscências. Seus textos estão repletos de realidade assustadora: seu estranho humor (frequentemente bastante negro), por vezes toca reíquias sagradas das religiões, dogmas e cânones, despertando a misteriosa essência interna, cheia de espiritualidade que devasta a reverência fetichista. Seguindo prescrições tântricas, Parvulesco vivifica a linguagem, a faz operativa. Por isso seus textos são um pouco mais do que literatura. São encantos mágicos e escandalosas denûncias, são provocadores de eventos e prenúncios de seus significados; são a imersão no Oceano do Interiorr, túneis subterrâneos do Escondido, rumo ao amedrontador império daquilo que existe em cada um de nós. Por isso Parvulesco pode ser tão aterrorizante quanto qualquer verdadeiro gênio: ele atenta e ciêntificamente nos estuda desde dentro, por vezes indo além do limite conhecido. O anatomista visionário.

No começo era conspiração

Parvulesco afirma clara e paradoxalmente ao mesmo tempo, que a realidade possui uma natureza fundamentalmente dualista. Todos os trabalhos de Parvulesco podem ser resumidos como uma tentativa de entender a Dualidade e os processos necessários para resolver todas as polaridades e resultar na “Europa do Fim”:

“Esta única pergunta libertadora: quando o tempo chegar (e ele já está aqui), as nações européias irão encontrar, nos seus mais profundos seres, a realidade flamejante da “nação anterior à todas as nações”, e o legado transcendente da “nação Indo-Européia” das nossas origens anteriores? (Le Spirale Prophetique).

Agentes secretos do Ser e da Não-Existência aparecem em todas as principais esferas de controle do mundo moderno, ditando o rumo de todos os processos da civilização. A história resulta da supra-imposição de um polo da Dualidade, enquanto os vetores energéticos de duas redes ocultas, formam a malha da atual história concreta. Generais e terroristas, espiões e poetas, presidentes e ocultistas, Padres da Igreja e hereges, mafiosos e ascetas, maçons e naturalistas, prostitutas e santos divinos, artistas de bordel e ativistas de movimentos operários, arqueólogos e falsificadores – todos eles são apenas atores obedientes de um drama conspirológico saturado – e quem sabe qual identificação social abiga um alto Iniciado? Frequentemente um mafioso ou um mendigo acontecem de ser os curadores de um presidente ou do Papa, e um líder militar ou um banqueiro acabam agindo como fantoches de uma poeta de bordel, que por trás de sua grotesca e fantástica personalidade, esconde-se um frio guru e arquiteto da história política bruta.

Contra os Demônios e a Democracia

 “Estrela de um Império Invisível” é o último grande romance de Parvulesco. Nele, os tópicos de livros anteriores  se entrelaçam. O trabalho retrara a metahistória transcendente, da qual o nosso autor é um cronista, se aproximando de sua resolução final. Aqui um resumo: Por todo o planeta, especialmente na França e em Portugal (e também no Peru e no México) – todos pontos da “acupuntura mágica oculta” do Ocidente -, agentes da não-existência constroem pirâmides negras, objetos físicos e supra-físicos, designados para suportar a penetração de energias demoníacas, hordas de Gogues e Magogues. Este projeto apocalíptico possui um nome seceto, o “Projeto Aquarius”, já que, de acordo com o simbolismo astrológico, a Era de Aquarius, que traz consigo não felicidade e harmonia (como os “agentes da Não-Existência” estão tentando convencer as pessoas), mas a desintegração, a podridão, o caos e a morte, “dissolução nas águas inferiores”, está prestes a ocorrer.

O herói de “A Estrela de um Império Invisível”, Tony d’Antremont, retrata o começo da “Era de Aquario” da seguinte maneira: “Eu vejo, juntamente com Lovecraft, a modelação de enormes massas lamacentas, se movendo em intermináveis ondas, pisando sobre as últimas estruturas cristalinas das elites espirituais; eu estou olhando, na impotência extática do meu despertar alucinante, para a cintilante espuma negra, a espuma de desintegração negra, o terror do fedor democrático e dos assustadores orgãos destes cadáveres convulsivos, em que – na maquiagem das vadias sujas com um sorriso enganador, na sorriso de praias californianas dos anti-fascistas europeus, nos sorrisos de putas manequim em vitrines oscilantes (como eu definiria) – estão preparando a nossa derrota final, nos levando para um destino que eles mesmos não conhecem, ou, mais precisamente, conhecem muito bem, e, no caminho até lá, sugam prazerosamente a nossa medula óssea;  este é o manto alucinante de chumbo dos Direitos Humanos, esta descarga fecal vomitante do Inferno, embora falando assim, eu insulte o Inferno.”

Os servos de “Aquarius”, abrindo caminho no mundo humano para “couraças” negras do crepúsculo contemporâneo, estão tentando apresentar o seu advento antinatural como uma benção, uma salvação, como o limite da evolução, escondendo a sua verdadeira natureza, Vomitto Negro (Vômito Negro), por debaixo de palavrinha pegajosas, políticas e espirituais, New Age e da Nova Ordem Mundial.

Mas contra Aquarius, no qual a totalidade terrível do potencial “metagalático” de redes de Não-Existência, encontrando sua encarnação final na “Nova Ordem Mundial” se concentra, lutam os representantes de uma ordem ocidental secreta, Atlantis Magna. Um papel especial nos rituais dessa ordem é cumprido pela Mulher, conhecida sob o nome místico Licorne Mordore, ou “o unicórnio marrom-avermelhado”. Na realidade física ela leva o nome de  Jane Darlington. Mas a verdadeira persona dessa mulher, vai principalmente além dos limites da individualidade. Mais corretamente, ela representa em si mesmo alguma função sacra, devidida entre todas as mulheres da ordem, em quem as relações pessoais e diárias entre si, refletem uma hierarquia ontológica d ser em si (uma corresponde ao espírito, outra à alma e uma terceira à carne). Os Homens da Ordem, incluindo o personagem principal, Tony d’Antremont, também dificilmente são indivíduos num sentido estrito: mortes e adultério, a descrição que enche o romance, ilustra a essência especialmente funcional dos personagens principais; a morte ritual de um deles apenas intensifica as atividades conspiratórias de outro, e suas esposas, no processo de cometer o adultério, descobrem que, em essência, ela continuam leais a um único e mesmo ser. Então, Atlantis Magna tece suas teias continentais para lutar contra a conspiração de Aquarius: esta teia é finalizada um um nível transcendente superior, uma realização ritual tântrica de Ocorrência escatológica, conectada com a aparência do arquétipo do Consolador e da Esposa. Apenas neste nível é possível derrotar os construtores das “pirâmides negras”. A preparação e a organização do misterioso ritual do “círculo vermelho”, compõe a parte principal da trama. Os membros da Atlantis Magna, no caminho para este procedimento, fazem viajens simbólicas, analisam textos místicos, trabalham para achar as verdadeiras causas de transformações políticas,  pesquisam estranhos aspectos da história de algumas antigas famílias europeias, decifram idéias esotéricas (que vazam nos tablóides), toleram relações românticas e eróticas, experienciam tentativas de assassinato, caem vítimas de sequestros e torturas, mas a totalidade do corpo concreto desse cativamente, quase policial romance, é, em realidade,  uma leitura ininterrupta e uma calrificação da realidade visionária interconectada dos Eventos Finais da História, o aparecimento do Grande Império Eurasiano do Fim, Regnum Sacrum ou Imperium Sacrum, reflexos que podem ser vistos em todos em todos os aspectos do mundo moderno.

Ao nível politico da conspiração, os heróis do romance também agem aggressiva e decididamente. Resistência espiritual ao “New Age”, neo-espiritualismo,  para os representantes dos quais (de Alice Bailey até Chardin e Sai Baba), Tony d’Antremont oferece o estabelecimento do projeto de uma “super-prisão oculta”  para a resistência política da “Nova Ordem Mundial”, americanismo e liberalismo, o que força os agentes do Ser a tecer redes de conspiração planetária com a participação de todas as forças políticas opostas ao mundialismo. Grupos subterrâneos, social-revolucionários e membros de outros grupos que já não mais existem, descendentes de famílias aristocráticas que sentem ascos pela “democracia”, desejando secretamente por um fim da época liberal, membros da máfia italiana, Gaullistas e admiradores de Franco, revolucionários do Terceiro Mundo, shamãs da América e da Ásia, líderes comunistas, banqueios alemãos – todos se tornam participantes no projeto geopolítico direcionado para recriar o Império Eurasiano final. Intrigas diplomáticas, viajens ao exterior, conversas confidenciais e a coleta de dados compõe o aspecto político da conspiração dos “agentes do Ser”, e como um enlace especial do sujeito do romance, supra-imposto por conversações ocultas e longos monólogos esotéricos dos personagens.

O romance de Parvulesco não segue a lógica tradicional de um conto terminado.

É significativo que ele termina com uma meia palavra na página 533. Toda a trama precedente vê o leitor se fechar no desenrrolar escatológico da guerra oculta, mas... É aqui que o mundo literário acaba e a verdadeira realidade toma seu lugar. A maioria dos personagens no romance são figuras históricas, algumas que já morreram, outras ainda vivas. Ivros e textos citados neste conto realmente existem. Muitos episódios e lendas recontadas também não foram inventadas (apesar de várias serem ficção). Detalhe significativo: a maioria dos nomes citados são colocados com datas de nascimento e morte. Depois de ler “A Estrela de u Império Invisível”, uma questão surge naturalmente: O que nós acabamos de ler? Um romance? Uma ficção? Uma fantasia? Literatura surreal? Ou talvez um tratado esotérico?

Ou a revelação real do sentido escondido  da história contemporânea, visto da posição da plenitude metafísica no volume todo, para o outro lado das alucinações, no qual, em efeito, consiste de assunções corriqueiras e banais, que não explicam nada e estão tão longe da verdade como se imagina?

O próprio jean Parvulescu descreve seu romance: “um romance de iniciação muito secreto e perigoso, onde o Amor Absoluto oferece sua arma final ao Poder Absoluto, e estabelece a base oculta para o futuro Grande Império Eurasiano do Fim, que significará o Reino Celestial, Regnum Sanctum”. Nada mais e nem menos.

Os agentes do Continente interno estão despertos. Já aparece no céu da noite da nossa repugnante civilização, uma Estrela mágica, anunciando a transformação do Interno em Externo, que se aproxima. Esta é a Estrela de um Império Invisível, o Império de Jean Parvulesco...


 “Soldados já perderam em uma guerra que se torna mais total que nunca, mais oculta que nunca, nós carregamos nos limites desse mundo as armas espirituais e os mais enigmáticos destinos da honrarias militares do além. Nas fileiras, tanto visíveis quanto invisíveis, da Ordem Negra  da qual pertencemos, aqueles que foram atingidos pela morte, marcham lado a lado com aqueles que ainda estão de pé” (La Conspiracion de Noces Polaires).

Autor desconhecido. Fonte

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