terça-feira, 10 de julho de 2012

Niilismo e Sentido da Vida em Nietzsche

por Julius Evola



Entre os muitos livros escritos sobre Nietzsche, aquele de Robert Reininger, traduzido aqui, merece ser indicado, por duas razões.

A primeira razão é que no âmago de seu livro estão as soluções para os problemas do sentido de existência que Nietzsche tentou dar no sofrimento de seu pensamento, de sua própria existência. O autor afirma corretamente que este problema, e o problema bastante ligado da linha de orientação a ser escolhida para a própria existência, isto é, da ética, são centrais para Nietzsche, já que várias posições teóricas que ele adota, que diferem bastante umas das outras, possuem apenas um caráter subordinado. Elas servem, por assim dizer, experimentalmente; uma vez adotadas, experimentadas, e testadas em relação a esse problema, elas foram progressivamente deixadas para trás - como demonstrado por Reininger - em contínuas "superações", de uma maneira reminiscente a de "uma chama que se move para frente sem deixar nada para trás".

O segundo ponto de interessa, no exame do pensamento nietzscheano a partir do ângulo particular escolhido por Reininger, é a importância dada ao "valor situacional" possuído por uma problemática que não deixou de ser tópica. Reininger diz corretamente que a figura de Nietzsche também possui o valor de um símbolo; sua pessoa encarna também uma causa; "É pela causa do homem moderno que se luta aqui: o homem não mais possui raízes no mundo sagrado da tradição, oscilando entre os picos de civilização e os abismos de barbarismo, buscando por si mesmo; tentando, isto é, criar um senso satisfatóri ode propósito para uma existência completamente abandonada a si mesma". O problema assume forma como o do homem na época do niilismo, do "grau zero de todos os valores", da era na qual "Deus está morto", todos os suportes externos desaparecem, e o "deserto cresce".

Nietzsche havia previsto o "niilismo europeu", e o considerou como a conclusão fatal do pensamento moderno, tendo contribuído para sua finalização, por meio de sua crítica de todos os valores, ideais e ídolos. O ponto fundamental porém é que, para Nietzsche, este não é o ponto final, mas sim algo a ser deixado para trás, uma vez que haja servido a uma função especial e positiva. De fato, Nietzsche considerou a si mesmo como o "primeiro perfeito niilista da Europa, que, porém, mesmo agora já viveu a totalidade do niilismo, até seu fim, deixando-o para trás, fora de si mesmo". A problemática de Nietzsche é portanto aquela da era pós-niilista. Ela aborda o homem que, tendo passado sem medo sobre um abismo, sente que não deve voltar atrás. (Portanto, observamos de passagem, aqueles que, com base em algumas oscilações nas posições de Nietzsche, sempre tão saturadas de um poder emocional intenso e incansável, tem fantasiado sobre uma possível conversão religiosa, ou falando diretamente, cristã, tem estado no caminho completamente equivocado). A função positiva do niilismo reside no teste perigoso da liberação completa do indivíduo; se ele não quiser cair, ele tem que encontrar, em si mesmo apenas, um ponto firme, e se fazer capaz de uma afirmação absoluta. Portanto, o niilismo é "instrumentalizado", à serviço da ascensão de um tipo superior e de uma nova moralidade. Por meio de sua destrutividade espiritual, ele cria uma situação de desafio. E é precisamente aqui que, por meio do duro conflito, um sentido absoluto de existência é buscado e encontrado, e, para além do homem, o "super-homem" é trazido à existência.

Valerá a pena olhar de modo mais aproximado para esta posição, porque a situação suposta, com a lucidez de um visionário, por Nietzsche, não é efetivamente diferente daquela da era atual, dado que a profunda crise existencial, que a caracteriza, ainda não foi superada.

Como Reininger demonstra, o ponto de máximo perigo é ultrapassado com sucesso apenas se a lei que o homem superior intacto estabelece para si mesmo assume o mesmo caráter de incondicionalidade que era derivado previamente de algo externo e transcendente - ainda que se possua liberdade e o "além do bem e do mal" como sua base, e seja expressada não mais como um "tu deves", mas como um "eu quero". Nessa conexão, Reininger não está errado em notar a analogia aparentemente paradoxal entre a ética de Nietzsche aquela de Kant: ambas são "moralidades absolutas". Ademais, o próprio Nietzsche afirmou claramente que ele havia simplesmente desmascarado as realidades decadentes, falsas, enganosas, "demasiado humanas" que se ocultavam por trás de toda moralidade comum de modo a abrir caminho para uma moralidade superior, e opor essa "grande moralidade" à "pequena moralidade" do rebanho, das mentes ansiosas, dependentes de bengalas e fantasmas. Portanto, o "imoralismo" exibido e proclamado por Nietzsche tão frequentemente e com tanto gosto é meramente dirigido a "escandalizar o burguês".

Portanto, se quisermos apreender os aspectos positivos e essenciais da solução de Nietzsche, nós não devemos nos deixar desviar por todas aquelas descrições dela, quase sempre ditadas por um "animus" controverso, no qual apenas o individualismo e uma glorificação da "Vida" como pura imanência parecem proeminentes. Em verdade, o individualismo de Nietzsche é associado com uma estrita disciplina interior, quase com um ascetismo viril, ao invés de religiosamente auto-mortificante. Reininger não é o único autor a ter percebido que, nesse sentido, a afirmação da vida de Nietzsche possui mais características em comum com a "negação" dela de Schopenhauer, do que com uma identificação passiva e gananciosa dela. Não apenas a "vontade-de-vida" é transformada em "vontade-de-poder", mas também, um princípio soberano é sempre postulado que se distancia dos instintos, e que despreza, não apenas o hedonismo, mas também o eudemonismo (a doutrina que busca a felicidade ao invés do mero prazer). E mesmo quando o "dionisianismo" é exaltado, quando é revindicado um direito "para além do bem e do mal", quando a abertura para toda experiência "pagã" interessante é defendida, rejeitando como covardia toda inibição das paixões e impulsos das profundezas, essa dimensão superior é sempre pressuposta. É o pré-requisito essencial para aquele que é capaz de permanecer de pé e criar valores em meio ao "deserto que cresce", já que ele garante que esse deserto não assume controle sobre ele.

Por essa mesma razão, não se deve cometer o erro de ver a glorificação nietzscheana da "Vida" como mero naturalismo. Se, como foi dito, a posição de Nietzsche envolve uma afirmação absoluta, para além do puro ser instintivo, é óbvio que, no conceito de "Vida", mesmo que se queira mantê-lo como central, algo que a transcende é implicitamente introduzido, ou, se você preferir, que, na "Vida", exaltada contra cada incompreendidade "Pós-Vida", deve-se admitir não apenas a própria coisa, mas também um poder que transccende e o domina. Infelizmente, Nietzsche não encontrou seu próprio caminho para a percepção da "transcendência" que se operava nele, para seu reconhecimento e incorporação dela em seu ideal, e essa talvez seja uma causa de sua tragédia e colapso final.



Uma vez que este equívoco duplo frequente, envolvendo o individualismo por um lado, e o conceito de "Vida" por outro, é removido, nós pensamos que pode ser interessante ressaltar, brevemente, a distância que separa a orientação nietzscheana essencial da atmosfera de anarquismo que se prolifera nesses dias em muitas das correntes que fluem entre as estruturas rachadas de um mundo profanado e de uma absurda sociedade "contestada". Na verdade, esse anarquismo, seja individualista ou coletivista, se reduz a uma revolta confusa, irracional e desprovida de centro. A intolerância indiscriminada por todas as disciplinas e laços, ditada somente pelos impulsos da parte instintiva e natural do indivíduo, que não quer reconhecer qualquer coisa para além de si mesmo, é muito claramente a característica predominante nesses movimentos, para além das várias razões ou pretextos dados pelo "sistema" ou pelas estruturas do mundo de tempos recentes. Assim, é tão significativo quanto natural que, nesses movimentos hodiernos, Nietzsche seja absolutamente ignorado, ainda que ele tenha sido o primeiro e maior dos rebeldes. O fato é que, no material humano, não há nada que corresponda ao pensamento de Nietzsche; as verdadeiras afinidades eletivas - plebéias - dessas movimentos são reveladas em suas frequentes colusões com o marxismo e seus subprodutos, em sua fórmula de pacifismo histérico e "integracionismo" absurdo, e em sua consequente colusão com o "terceiro mundo" e as mais baixas profundezas da sociedade e da raça, enquanto que o limite constituído por intelectuais semi-letrados aparece em uma ampliação confusa no valor atribuído a pensadores medíocres tais como Marcuse, que se contenta com suas posições mais ou menos legítimas de rejeição (que não são de importância central para uma verdadeira revolta), não percebendo a vacuidade e a extrema trivialidade utópico-idílica da alternativa que ele propõe, presseguindo como ele faz a partir de uma sociologia aberrante massivamente dependente de Freud. Nietzsche não pertence de modo algum a esse mundo, como é instintivamente aparente. Por causa de seu caráter aristocrático e exclusivista, seu alto nível de engajamento, e sua estatura interior que ele implica, o caminho nietzscheano seria objeto de rejeição específica por todos esses movimentos de "protesto", que bem pode ser definidos em termos de uma "revolução do vácuo", se sua relação exata com a mais séria problemática de uma era niilista de dissolução foi até mesmo percebida.

Para tornar isso mais claro, é necessário explorar ainda mais os termos nos quais a ética de Nietzsche tem tentado se definir.

Se nos confinássemos rigorosamente ao princípio da afirmação pura de uma "Vida livre", é claro que qualquer posição avaliativa seria absurda. Não haveria fundação a partir da qual avaliar, e defender, por exemplo, as formas de uma vida plena e ascendente, desdobrando uma "vontade-de-poder", como contra aquelas da direção oposta, "decadente", e em particular aqueles que, segundo Nietzsche, solaparam civilizações "sadias" e "superiores" por meio de sua moralidade. Elas, afinal, também são "vida", e "para além do bem e do mal", parte de seu fluir, sua criação e destruição, e seria absurdo assumir uma posição, que porém Nietzsche continuamente e veementemente faz, evidentemente com referência a um fator superior.

Se esse fator, ao qual a ética de Nietzsche deve sua marca específica, é buscado, ele aparece condicionado por sua individualidade. O princípio, em primeira instância, é  a afirmação da própria natureza. Essa se torna a única norma, o "imperativo categórico" autônomo: ser si próprio, se tornar si próprio. A concepção "realista" peculiar à última fase do pensamento de Nietzsche pode então agir como fundamento teórico, e, não tivesse ocorrido o trágico obscurecimento de sua mente, ela muito provavelmente teria se desenvolvido em uma eliminação dos aspectos biológicos e "naturalísticos" crus que continuam a arranhá-lo (um defeito de Reininger é o de se apegar em excesso a esses aspectos). Em essência, essa é uma visão de um mundo despido de tudo meramente humano, "idealístico", irreal, e finalístico que foi banhado nele - mas, entender os sentimentos de Nietzsche em relação a isso, o que ele escreveu entre os picos das montanhas, sobre a purea das "forças livres ainda não manchadas pelo espírito", é sugestivo. Como após uma catarse, apenas o "real" ("natureza") permanece, na forma única do "ser" e do "poder".

Considerado esse background, que, de certa forma, confirma os temas niilistas, o indivíduo pode apenas encontrar apoio e raiz naquilo que ele é em sua própria natureza profunda, em seu "ser", sua identidade imutável. Fidelidade a esse ser, afirmação dele, é portanto o que dá conteúdo à moralidade nietzscheana, como sua orientação geral, por assim dizer. É a primeira terra seca, na qual, porém, Nietzsche não se detém, já que, aqui, basicamente, a mesma indeterminação que encontramos em relação a "Vida" aparece novamente. Sob o signo do puro "ser si próprio", deve-se ser capaz de assumir, de querer, de afirmar absolutamente o que se é, mesmo quando, em sua própria natureza, não há nada que corresponde ao ideal positivo do "super-homem" anunciado por nosso filósofo, quando a própria vida e o próprio destino expressam corrupção, perversidade, declínio, ignomínia. É por isso que, ao apegar-se ao princípio supracitado, o único valor ético restante seria o da "autenticidade". Finalmente, teria que ser dito que aquele que, sendo "inferior" por natureza, é ele próprio, possui a coragem de ser absolutamente si próprio, seria superior àquele que gostaria de desenvolver uma "superioridade" que não é enraizada em seu ser autêntico.

Se, mais recentemente, alguns existencialistas tem estado contentes em pôr fim a essas posições, eles foram fatalmente deixados para trás por Nietzsche. Quando ele faz de si mesmo o propagador imperioso de uma nova moralidade, ele indica o que procede de uma natureza particular, uma "natureza nobre", projetando o que ele mesmo sentiu que ele era, ou aspirava ser. Nos deparamos, portanto, com uma moralidade de "orgulho" (oposta, como indicado por Reininger, a uma de amor ou medo) e de "distinção"; com uma reafirmação da característica fundamental da qual nós já façamos, aquela de uma personalidade soberana tão distante do "rebanho" quanto da parte meramente natural de si mesmo. O que Nietzsche nos apresenta, de novo e de novo, é o tipo para o qual é natural ser resoluto, auto-confiante, disposto a assumir cada responsabilidade, direto, resistente a tudo que é grosseiro e "demasiado humano", duro, inflexível certamente (e em relação a si mesmo em primeiro lugar), mas também capaz de um jeito espontâneo da "virtude que dá a si mesma", que brota da atitude interior e da superabundância da mente, e não de um sentimentalismo fraco; alguém que não busca se esquivar de nada que possa nos colocar à prova, que permanece intocado pelos aspectos trágicos, escuros e absurdos de sua existência, graças à lei positiva e independente que lhe dita seu ser.

Como é superabundantemente claro, a ética nietzcheana pós-niilista de auto-afirmação pura e fidelidade a si próprio leva diretamente ou indiretamente a um ideal desse tipo. A partir da lei genética de "ser si próprio", é essa lei precisa que portanto se diferencia em Nietzsche, e dá a marca específica a sua moralidade. É nesses termos - como notado por Reininger - que o tipo do "super-homem positivo" deve ser compreendido, não levando seriamente as referências polêmicas sobre certas figuras históricas, ou a famosa "besta loira", deixando de lado a exaltação da força pura e da vontade de poder amorfa (um poder sobre o qual se deve perguntar: o que fazer com ele? - como Zaratustra pergunta a alguém que aspira se libertar de todos os laços: livre, para que?), deixando de lado também o super-homem barroco do estilo d'Annunziano, os resultados fomentados da pomposidade de um suposto Herrenvolk, factualmente distante de qualquer virtude aristocrática, e as fraquezas de um incompreendido racismo biologicista.

Se nós deixarmos de lado as sobras e restos do "Nietzsche menos que óptimo" - o que muitas vezes, infelizmente, despertou a maior ressonância - é nos termos acima descritos que aparece o "super-homem positivo", o homem que permanece de pe´, mesmo, e acima de tudo, em um mundo niilista, devastado, absurdo, sem deuses. O "super-homem" aparece portanto como um ideal individual de elite, não como um estado humano "evolucionário" hipotético, geral, futuro, a ser tornado quase objeto de uma cultura programada, como foi sugerido por outro dos delírios de nosso filósofo, em uma certa fase de seu pensamento.

Como o leitor de seu livro verá, Reininger traz esses conteúdos à luz ao separar o essencial do acessório, través dos contorcionismos do pensamento de Nietzsche, mostrando assim a efetiva contribuição positiva que o "imoralista" Nietzsche deu para a ética. De nossa parte, nós estamos convencidos de que o que Nietzsche tem para oferecer hoje nessa conexão não foi de modo algum desacreditado na luta por um sentido de existência, desde que se evite aquele colapso, aquela "revolução do vácuo", e aquele anarquismo plebeu, inferior, o qual, como foi mencionado, a profunda crise do mundo moderno gerou em tal quantidade. Em realidade, hoje, dada uma discriminação e adaptação adequadas, poucas éticas oferecem tantas idéiasi mportantes para os estudantes da problemática pós-niilista, que rejeitou qualquer caminho à retaguarda, e encara o teste de uma nova e perigosa liberdade. Pode-se até mesmo considerá-la como pedra de toque para a própria natureza, para a própria vocação autêntica.

Será evidente quanto respeito, compreensão, e sentido de medida o autor deste livro trouxe À consideração da pessoa e ao pensamento de Nietzsche. Possuindo uma posição como professor de filosofia na Universidade de Viena, sua exposição é mais próxima a um estudo filosófico do que ao estilo atual de ensaio tópico. Nós reduzimos em nossa edição a dificuldade que o uso de certos termos filosóficos podem constituir para uma certa categoria de leitores, explicando tais termos ou pelo uso de equivalentes.

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