domingo, 1 de julho de 2012

Marcos Ghio - Introdução ao Imperialismo Pagão de Julius Evola

Por Marcos Ghio


A obra que apresentamos a seguir é um dos primeiros escritos de Julius Evola, correspondente a sua etapa juvenil, quando apenas contava com 30 anos de idade, em 1928, e no momento no qual se encontrava transitando pela última trama de sua experiência mágica e iniciática através do Grupo de Ur.

Mas além disso, o Imperialismo Pagão tem uma significativa importância na trajetória do pensamento de nosso autor, pois representa sua primeira tentativa séria de acessar um grupo mais vasto que em vez lia as muito especializadas monografias elaboradas por tal grupo. E ele estará motivado por um acontecimento significativo na sociedade de seu tempo, o que trataremos brevemente de expor. No momento a Itália se encontrava transitando desde há nove anos pela experiência fascista, movimento que pretendia representar uma mudança radical com respeito ao sistema político próprio da modernidade, quer dizer, o regime partidocrático até esse momento vigente e herdeiro dos ideais do Ressurgimento e de sua antecedente, a Revolução Francesa, a qual, em linhas gerais, apresentava nesse momento caráteres muito semelhantes aos que com tanto dramatismo vivemos em nossos dias. Frente à ineptidão e corrupção reinante entre a classe política que levava o país em direção a uma incessante decadência e desintegração, o fascismo representava um movimento de reação que apelava às reservas morais e espirituais existentes na nação italiana tentando, no plano político e cultural, assumir uma atitude de oposição às principais ideologias nas que se dividia a modernidade: o capitalismo liberal e o socialismo marxistas. Mas o fascismo, segundo Evola, se é que queria ter realmente êxito, devia aprofundar ainda mais em seu rechaço do sistema vigente, chegando até as últimas consequências da modernidade ao atacar seu fundamento quase-religioso acerca de cuja pureza justamente ambas ideologias gêmeas disputavam entre si sua representação: o dogma da democracia. E ante ele não era suficiente negar algumas das consequências desta, tais como o parlamentarismo ou o clientelismo, senão que tinha-se de ir até a raiz última de tal crença, sustentando princípios que foram realmente alternativos e que invadiram na instância decisiva que a determinava, pois do contrário, se a crítica não chegava até o final, se terminava favorecendo a continuidade do sistema e com o tempo ia significar o fracasso de tal movimento, o qual foi lamentavelmente o que aconteceria mais tarde.

Em sua crítica ao regime democrático, um grande mérito de Mussolini havia sido o de ter reivindicado um princípio essencial incerto na tradição italiana, que era a idéia do Imperio e de Roma como centro espiritual do mesmo, doador de sentido e ordem à todo o Ocidente durante uma vasta etapa de sua história. Mas ainda tal idéia, se não era levada até o final de seu significado, quer dizer, até o conceito que da mesma primara na antiguidade, se corria o perigo de convertê-la em uma mera consequência última de um valor também moderno que é um nacionalismo irredentista e extremo, o que, se bem buscava fundar um império, o fazia tão somente em função de satisfazer necessidades econômicas baseadas em um mero aumento do poder material. Nos encontraríamos então com a idéia moderna do imperialismo, o que não representa outra coisa que uma extensão da economia, querendo demonstrar com isto ademais o outro irrebatível dogma moderno de que os homens em última instância somente se mobilizam na vida em função de satisfazer desejos materiais e que por isso a política e o império não seriam nada além da consequência ou “superestrutura” de tal disciplina. Sem embargo, assim como não é certo que o econômico é o essencial no homem e o que em última instância determina todas suas atividades, e ainda reconhecendo que atualmente a economia foi convertida no destino das pessoas, não o é consequentemente a idéia de que sempre foi assim em todos os tempos, em especial naqueles em que foi a classe burguesa a gestora da história. Justamente a idéia romana de império representa uma corroboração do aqui manifestado, ela era a expressão de um princípio espiritual e sacro, de caráter metafísico, voltado à esfera política, sendo a economia pelo contrário para a mesma uma disciplina auxiliar e meramente subsidiária. O romano buscava o império, mais que para poder vender seus produtos e comercializar melhor, mais que para enriquecer, tal como acontece com os atuais “imperialismos”, para plasmar na existência uma idéia de justiça e de sacralidade; e era dentro de tal contexto místico como Roma que se erguia a si mesma como o centro espiritual do universo, no qual os distintos povos da terra encontravam uma ordem superior a sua mera imediatez e a seus desejos materiais, consistentes em um equilíbrio doador de sentido último a suas ações. Assim como a alma é o centro ordenador de um corpo evitando por sua ação que suas partes se desintegrem em uma luta incessante entre si e em um fluxo espontâneo em direção ao nada, o Império é essa mesma ordem superior no seio dos povos e partes diferentes em que se compõe uma civilização, ou ainda a humanidade em seu conjunto, de ascender à idéia última de Império universal.

O original de Roma é que na mesma idéia de sacralidade nunca esteve separada do destino político de tal cidade. Deus não era uma entidade abstrata do “outro mundo”, ao que se havia buscar escapando deste, mas que estava presente em forma viva, aqui e agora, através de pessoas que o expressavam com suas ações e ritos e entre estas se destacava por cima de todas e de maneira eminente o Imperador Romano, o qual era a manifestação vivente mais plena da divindade sobre a Terra.

Mas sem embargo a idéia de Roma através de sua história incluía também outro movimento religioso que se estabeleceu mais tarde em seu seio e que, desde sua mesma sede e distanciando-se de suas origens de seu espírito essencial, se ergueu também como um centro espiritual durante um longo período que abarcou dois mil anos, até nossos dias. O mesmo derrubou o conceito de espírito e de sacralidade, gerou um hiato entre este mundo e o outro mundo e o homem de ser divino que era eminentemente representado como tal pelo imperador e pelos deuses, o converteu em criatura pecadora e miserável à mercê de uma graça fornecida por um Deus onipotente e caprichoso.

Ante tal dicotomia, o fascismo, se queria voltar realmente ao espírito de Roma, devia efetuar em primeiro termo a necessária discriminação entre estas duas tendências antagônicas coexistentes em si mesmo, e logo, em forma decidida, elaborar em todos seus princípios o primeiro espírito original, que era de caráter pagão e não cristão. Porque o grande enigma e significado último de Roma é que desde seu mesmo seio e de maneira tangível se gestaram os dois grandes procesoss antagônicos da história universal: o que assenta seus valores no mundo da tradição, sendo o paganismo uma representação do mesmo e que em vez disso, através do cristianismo, precipitará o rumo moderno no que nos encontramos e que vivemos de forma multiplicada hoje em dia. E esta é pois a idéia central que aparece na obra que aqui apresentamos: o cristianismo não é o oposto à modernidade, mas a causa distante e a origem desta última. O cristianismo representa em seu início a fase acelerada do movimento de desvio da tradição do Ocidente e não sua coroação como em vez disso pretende o guelfismo, o que falsamente tenta considera-lo como a consequência natural do espírito romano.

Foi justamente dentro do contexto de ordenamento das instituições sociais que se havia levantado nesse momento o regime, que Mussolini decidiu resolver um velho conflito existente desde várias décadas no seio da sociedade entre o Estado e a Igreja. Em efeito, desde 1870, culminando, depois da conquista de Roma, o processo unificador da nação italiana, o papa derrotado se havia isolado no palácio do Vaticano considerando-se desde então em condição de prisioneiro e desconhecendo assim os direitos do governo peninsular à soberania sobre a cidade eterna. Mussolini, com a intenção de sanar essa velha ferida e poder assim pacificar seu país, assinou um acordo com a Igreja. Em vez do reconhecimento por parte desta do Estado italiano e de Roma como capital do mesmo, lhe outorgava uma série de concessões históricas, tais como o ensino religioso, a proibição do divórcio e principalmente a assunção do catolicismo como a religião do Estado. Ante esta eventualidade, Evola e o grupo tradicionalista romano que se nucleava a seu redor, percebeu o perigo de uma acentuação da tendência em direção ao aburguesamento por parte do fascismo e consequentemente uma acentuação das influências deletérias que se aninharam em sei seio. Justamente ao ser o cristianismo a origem da modernidade e da democracia, retornar a ele e aceita-lo como fundamento espiritual do Estado ia significar um passo para trás e uma traição aos ideais da revolução que o fascismo pretendia efetuar. Foi assim que surgiu a idéia desta obra, primeiro na forma de um folheto adjunto com uma separata de uma publicação adicta ao regime, “Crítica Fascista”, dirigida por um notório hierarca do mesmo, Giuseppe Bottai, com a intenção de impedir a firma do Concordato com o Vaticano e lograr com sua difusão o impulso em direção à constituição de um fascismo pagão e guibelino, quer dizer, oposto ao guelfismo e consequentemente ao ingresso da Igreja dentro do Estado.

A intenção principal de tal trabalho será então a de mostrar que do cristianismo haviam emanado todas as heresias modernas, as mesmas que em suas consequências o fascismo pretendia combater. Ao sustentar a igualdade de todas as almas ante Deus e por isso a imortalidade universal de todo ser com forma humana, o cristianismo havia sentado as bases para que se instaura com o tempo o princípio da igualdade a nível político e social e sua consequência será posteriormente a democracia. Em segundo lugar, como uma expressão plebeia de rechaço por todo aqueel que de divino havia na existência, foi a religião que com mais vigor havia instalado o dualismo e o espírito da excisão entre todo o vivente, o que foi extendendo-se paulatinamente a todos os planos. Primeiro começou com um dualismo entre o homem e Deus (vinculados ambos entre si em uma relação entre criatura e Criador), pelo que o divino foi assim mantido em outra esfera e dimensão diferente deste mundo, desprezando-o assim a este, reduzindo o humano a uma dimensão pecaminosa e corrupta, da qual somente seria possível sair mediante a graça omnímoda de um Deus, o que, através da figura do sacerdote, solicita e exige a submissão e a obediência absoluta e cega por parte do homem para outorgar a “salvação”. Desvalorizadas todas as obras humanas, como consequência disso, a nível social se produzirá a dessacralização do Estado, o que, quando não é assimilado à imagem do Anticristo na figura do Imperador, no melhor dos casos se converterá tão somente no dispensador do bem comum ou no auxiliador da Igreja em seu trabalho de salvação das almas e logo, em um vasto processo de descenso que chega até nossos dias, chegaremos à figura do Estado meramente econômico e administrador, governado pelo ministro da economia ou pelos grandes amos das finanças do planeta.

Em segundo lugar, teremos um dualismo entre o homem e a natureza. Desprezada a natureza à mera condição de matéria, expulsados da mesma seus deuses, e ao  ser convertido o mundo em um “vale de lágrimas” originalmente, em um trânsito provisório para a “outra vida”, a eternidade, deixando de ser assim o lugar das teofanias, o âmbito no que se manifesta o espírito, terminará, do mesmo modo que o Imperador substituído pelo ministro da economia, convertendo-se em um território explorável à vontade, mensurável e cotável à valores mercantis, profundamente alheio a nós mesmos, e sobre o qual se poderão produzir as mil e uma depredações tecnológicas de nossa era.

Em consequência, se o fascismo queria verdadeiramente ser uma revolução a sério e adequar-se ao espírito romano, teria uma única solução possível que era a de distanciar-se da subversão cristã, manter-se alheio a tal religião, e tolerá-la simplesmente como poderia fazer com as outras, ainda sem cair por isso no laicismo, mas constituir um princípio de sacralidade intimamente associada ao Estado e à figura arquetípica do Imperador, tal como se trasunta dos princípios do paganismo romano e que fora logo a essência do guibelinismo na Idade Média.

Dito folheto, como era de esperar-se, causou um profundo impacto no ambiente cultural da Itália fascista, gerando duras represálias por parte do Vaticano, tomando desde então a pluma de contestação entre outros o sacerdote Giuseppe Montini, mais tarde papa com o nome de Paulo VI, quem fora fora o principal gestor do Concilio Vaticano II, o que revolucionaria a história da mesma Igreja acentuando, em consonância com os tempos últimos de socialismo e democracia, um retorno pleno às origens judaico-cristãs mais autóctonos que a constituíram. Se recorda entre estes escritos condenatórios a um deles que se titulava “Resposta a Satanás”, o qual nos dá uma mostra do vigor em que se chegou em dito embate.

O escândalo que produziu esta sucessão de ataques, e devido à influência que a Igreja e o guelfismo teriam na sociedade nesse momento,, fez que Evola fosse desautorizado pela revista que publicara seu artículo, o que obrigou então a elaborar uma resposta a partir de um livro que se intitulou justamente Imperialismo Pagão, o que incluía a separata aparecida originalmente na tal publicação, acompanhada das réplicas elaboradas por Evola aos setores guelfo-católicos. A aparição de tal obra foi afogada com um manto de silêncio na sociedade italiana desse tempo e não produziu de modo algum as trocas de orientação que Evola desejava. Sem embargo, é de ressaltar-se aqui que, depois da firma do Concordato, a influência da Igreja na sociedade italiana iria, tal como Evola formulara em sua obra, incrementando-se notoriamente e fomentando por sua vez a tendência ao aburguesamento que ele denunciara, tal como se revelará plenamente logo com a chegada da “Liberação” em 1945 onde esta participaria ativamente do poder influindo decisivamente na política de tal país, inspirando de modo aberto e manifestado o partido que o governara durante as primeiras décadas da pós-guerra até chegar a sua decadência final depois dos escândalos mafiosos de Tangentópolis e do Banco Ambrosiano.

Sem embargo, um destino muito diferente haveria de ter dita obra cinco anos mais tarde, em 1933, em vésperas do acesso ao poder da Alemanha do Partido Nacionalsocialista de Adolf Hitler. Sempre de acordo com seus princípios tradicionalistas e guibelinos, Evola, em uma tentativa de poder influir no seio da nova reação antidemocrática que se gestava em tal país, resolveu tentar sorte novamente com outra edição do Imperialismo Pagão. Para tal efeito, e a fim de fazê-la acessível ao novo público leitor, tal obra foi totalmente revisada e traduzida ao alemão. Esta vez o êxito foi muito grande chegando até se esgotar. Se pensou, devido ao impacto escrito pelo principal expoente de uma tendência existente no seio do regime fascista, o qual não era assim de modo algum, porque o tradicionalismo evoliano carecia de iinfluência efetiva no regime e a obra, tal como disséramos, havia sifo profundamente ignorada pelos meios locais.

Mas essa nova versão, que é a que nós temos tomado para a tradução ao castelhano, mais além do detalhe anedótico levantado, terá a nosso entender uma grande vantagem sobre a italiana inicial. Aqui, ao não ser mais um tema do concordato o que determina o escrito, se permite evitar uma série de pontos polêmicos e urticantes, produto de um debate fogoso e exasperado, não sempre ajustado a um clima de imparcialidade objetiva. Resulta indubitável a nosso entender que Imperialismo na primeira edição não faz uma justiça adequada com respeito a todas as tendências que habitaram no cristianismo ao longo de sua história milenar. Não está marcada a diferença existente desde suas mesmas origens entre o influxo judaico e o helênico ou clássico, o que aparecerá inclusive nos mesmos evangelistas. Esta distinção em vez disso se aparece na nova versão alemã, através da dicotomia que se estabelece entre o catolicismo e o cristianismo, a qual logo em sua obra mais madura, Rebelión Contra el Mundo Moderno, se instalará de maneira mais líquida e marcante. De acordo com esta dicotomia que é, segundo o que reconhece nosso autor, a mesma que assumira anos antes o autor tradicionalista francês Charles Maurras, o cristianismo representa o lado negativo ao ter sido uma rebelião de escravos, convertendo-se em fator permanente de subversão e caos com respeito aos valores tradicionais clássicos que se manifestaram através do paganismo. Esse primeiro cristianismo apocalíptico considerava a iminência do fim dos tempos e o juízo final e concebia toda a realidade deste mundo como perversão e portanto a Roma pagã, entanto personificação do Império tradicional, quer dizer a obra humana mais elevada, como a grande prostituta da Babilônia. Tal cristianismo teria em comum com o  judaísmo a atitude messiânica de sentir-se eleito entanto depositário de tal profecia em exclusividade. Mas com o tempo, ao comprovar-se no cumprimento da mesma, se foram desenvolvendo com vigor duas tendências antitéticas em seu seio.

Por um lado a de aqueles que continuaram desprezando este mundo e fomentando nele todos os processos subversivos em uma luta inveterada contra o Estado e este foi o judaico-cristianismo ou simplesmente cristianismo, do qual a imagem mais plena foi a que tivemos com o Protestantismo e hoje em dia com o Concilio Vaticano II; e por outro aqueles que, pelo contrário, trataram de reinserirem-se no mundo buscando uma síntese ou sincretismo com o saber pagão, e ele será propriamente o catolicismo. Tal postura se manifestará em dois níveis. Por um lado com  assunção de doutrinas de filósofos pagãos tais como Platão, Aristóteles, ou Plotino, como parte do patrimônio cultural da Igreja, e por outro quando o catolicismo aceita a figura do Imperador e a instituição imperial incluso em uma relação de subordinação e isto acontece na fase do Sacro Império Romano Germânico, o que, de acordo com Evola, representa a última tentativa não consumada no Ocidente por constituir uma ordem universal baseada na Tradição. Sem embargo a Igreja ao longo de sua história nunca logrou liberar-se totalmente do espírito judaico que se aninhou em seu seio. E isto de manifestaria na mesma Idade Média no conflito pelas investiduras, na luta entre guelfos e guibelinos. O guelfismo, entanto continuidade história do judaico-cristianismo, foi a tendência em direção à depreciação do Estado, ao que o desconheceu funções espirituais, exigindo-lhe sua subordinação ao clero, de acordo ao esquema judaico de dependência do homem com respeito ao Criador, do qual na terra o sacerdócio pretendia ser sua representação.

Agora bem, uma vez que foi formulado em tal modo o problema e se considera que o desvio d Igreja com respeito ao catolicismo se havia produzido inicialmente não com o Concilio Vaticano II, tal como sustentam na atualidade os grupos integristas, senão através do guelfismo, qual é a postura que deve sustentar-se com respeito a esta em relação aos princípios tradicionais e iniciáticos? Vemos também aqui uma mudança sustancial em relação á primeira edição da obra. Enquanto que ali se falava de uma simples tolerância do cristianismo como uma religião mais, acá encontramos uma aceitação da Igreja como uma instituição necessária para a sociedade, entanto tem que ser a encarregada de agrupar “aos que creem”. Assim pois seu ponto de vista é com respeito ao seguinte. Em primeiro lugar, em um mundo no qual os valores do espírito foram sido expulsos por toda parte, “o catolicismo é ao menos algo”, algo preferível antes que o laicismo e o cientificismo e a era atual. Em segundo lugar, de acordo a que dizia o filósofo Averroes e a Tradição em geral, entanto os homens não sejam iguais, existem portanto maneiras diferentes de relacionar-se com a divindade. Estão primeiramente a dos que sabem e logo aquela dos que creem. Os primeiros são aqueles que têm uma visão direta do divino, porque, através de um processo ascético de elevação e maturidade de si mesmos, hão chegado a ser quase como de sua mesma natureza, e a eles pois lhes corresponde ser os guias do resto da comunidade. Este é o sentido último que dava Platão quando dizia que os sábios deviam governar, não entendendo por tais os meros “intelectuais” de hoje em dia, mas a seres superiores enquanto foram capazes de modificar sua natureza meramente humana. Por debaixo deles se encontrar aqueles que não podem ver, mas que sem embargo são capazes de crer no que os que são mais lhes indicam e portanto os seguem, entanto fiéis. A Igreja somente pode ser aceita na medida em que se convirta naquela instituição que agrupe estes últimos e portanto renuncie a seu exclusivismo, a considerar-se como a depositária exclusiva da espiritualidade e reconheça pois sua função exotérica e a superioridade do Imperador, como representante máximo dos que sabem. Desde modo cumpriria com uma função necessária e útil para o ordenamento de uma sociedade normal.

Ante isso o guelfismo representa justamente a atitude contrária. Desdenhando a capacidade do homem de se relacionar com Deus de maneira direta, ergue a si mesmo,, entanto Igreja, como o intermediário obrigado e necessário que permite alcança-lo e “salvar-se”, condenando como luciférica e pecaminosa a pretensão de querer conhecer Deus de frente nesta vida, e exigindo em troca que todos sejam iguais entanto que crentes, quer dizer, como na atual democracia, nivela por baixo, e portanto exige que os que são realmente superiores se resignem a ser subordinados como qualquer outro com respeito a quem seria o depositário da fé, da mesma maneira que no atual sufrágio universal todos valem por igual um voto.

Digamos ademais da outra diferença entre as duas versões é a perspectiva desde a qual se formulam os princípios imperiais do paganismo. Se na italiana o ponto a atacar era o do guelfismo que confundia Roma com o acionar histórico da Igreja, quer dizer, havia aqui um conflito entre duas formas de espiritualidade, uma solar e outra lunar, aqui, com o nacional-socialismo, a problemática é muito diferente. O choque é contra as tendências modernas que no seio de tal movimento e com um caráter de notória influência, contrariamente ao guelfismo, pecam em vez por cientificistas, laicistas, e, se bem se reivindicam pagãos o fazem no sentido negativo de tal termo, quer dizer, o que a apologética cristã lhe atribuía quando falava de paganismo, pelo que era reduzido a um fenômeno meramente vitalista, e carente de qualquer espiritualidade. O caráter cientificistas do nazismo se manifestará principalmente em seu racismo biológico, pelo qual reduzirá o humano ao animal concebendo a restauração da raça ária germânica como o produto de uma série de cruzamentos, similares aos que se operariam no mundo animal. Tal cientificismo, além de sua conotação positivista, tem um fundo moderno também em sua herança romântica e nacionalista. De acordo ao asserto de Fichte de que não existem verdades universais, mas que o verdadeiro é o relativo ao próprio povo, o que nos proporciona um padrão de medida e guia para conduzir-se ante os fatos, a doutrina do principal teórico do nacional-socialismo, Alfred Rosenberg, interpreta a história em código puramente germânico. Assim pois fenômenos regressivos desde o ponto de vista tradicional, tais como a Reforma Protestante, as rebeliões campesinas, etc., entanto foram feitos por tal povo, se convertem em positivos e resgatáveis. Lutero é para tal autor o libertador com respeito a Roma, quer dizer, valendo para ele mais o fato de ser alemão que o de ter revertido o cristianismo até sua raiz última judaica e bíblica, repudiando o “paganismo” e o sincretismo católico.

Da mesma maneira é também rechaçado o Império e a dinastia dos Hohenstaufen, concebida como uma dinastia traidora que impulsara em solo germânico os interesses do imperialismo romano. Tal desvio se associa por sua vez com tendências socialistas de tal movimento (daqui o suspeito segundo nome que levava em si). Não foi casual que no mesmo certos setores extremos sustentaram que o nazismo devia se unir ao comunismo soviético em uma luta atávica conjunta contra Roma que representava o Ocidente contra o qual lutaram os povos bárbaros. E não era de se estranhar esta apelação. Foi o mesmo Lênin, nos faz notar Evola, quem manifestou que o grande inimigo do comunismo era o espírito greco-romano. Temos assim que desde pontos de vista opostos, da mesma maneira que o guelfismo, se considerava aqui também o cristianismo como uma continuidade histórica de Roma. Agreguemos por último que não resulta para nada casual hoje em dia, ainda que felizmente em escala menor e quase insignificante, encontrar-nos novamente com essa mesma confluência nacional comunista, a qual felizmente não prosperou durante o regime de Hitler.

Como alternativa ao nacionalismo moderno presente em tal movimento, Evola proporia, já em 1933, a união das Duas Águias, da Águia germânica e da Águia romana, resgatando nos dois casos a tradição imperial tal como aconteceu na época dos Hohenstaufen, dinastia germânica, mas ao mesmo tempo de caráter universal e romana. Para isso sustentava a irreversível necessidade de que ambas as nações e ambos movimentos fascistas, no poder ou a ponto de estar, renunciaram por igual a seus nacionalismos extremos e que assumiram a idéia de nação entanto que nesta, em sua história, se manifestasse a idéia de Império, isto é, entanto que em ambas histórias se encontrassem pontos que permitissem a adesão política a um conjunto de ideais tradicionais e antimodernos. Para isso era indispensável remover uma série de prejuízos. No caso italiano, teria que superar a antiga idéia, fundada na luta pela independência, de que os austro-germânicos eram o inimigo, e que em vez disso se estava mais próximo dos povos latinos, como França, por exemplo. Em verdade, se a problemática é vista desde o ponto de vista da Roma imperial, que é a verdadeira e autêntica tradição que deve reconhecer o movimento fascista, foram as nações germânicas durante a primeira guerra, com o Império Austro-Húngaro a cabeça, as que estiveram mais próximo de tal ideal, que França, Inglaterra, e Estados Unidos democráticos e liberais. Da mesma maneira o nazismo deveria libertar-se do sentimento antiromoano, produto de um nacionalismo sectário e míope, e remeter-se aos exemplos imperiais encontrados em sua história, ainda em seu remoto passado das tribos bárbaras, as que logo de um primeiro rechaço se assimilariam ao ideal romano superior e ourotgariam força e vigor na defesa do ideal imperial. É de ressaltar aqui que tal idéia foi em grande medida profética entanto que com muitos anos de distância prognosticou a constituição do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas sem embargo há que reconhecer também que em nenhum modo foram os princípios tradicionais sustentados por Evola os que estiveram na base de tal entendimento.

Também pode se agregar um fato significativo em relação às simpatias que Evola pôde ter despertado entre o público alemão e em especial no regime vigente nesse momento. Se bem Imperialismo Pagão teve em seu momento uma acolhida muito boa, não sucedeu o mesmo com suas obras posteriores como a que editara sobre o tema da raça, tais como La Raza Del Espíritu. Ali é interessante ressaltar o rechaço que a mesma produziu esta vez entre os setores oficiais (na qual por outro lado se ampliavam certas posturas já manifestadas na anterior) entanto que era crítica com respeito ao racismo biológico ressaltando em vez disso a dimensão do espírito como um âmbito superior ao do mero corpo e em lugar onde se operava o exercício da liberdade por cima dos determinismos biológicos. Em vários informes separados se qualifica Evola como católico encoberto e figura determinada em sua doutrina por sua origem romana. Temos assim como desde perspectivas diferentes, o guelfismo por um lado e o nazismo biológico, entanto expoente de um pensamento antimetafísico, cientificistas e moderno, por outro, se rechaça o pensamento de Evola.

Expliquemos finalmente um último ponto. Em sua obra retrospectiva “O Caminho do Cinábrio”, nosso autor será singularmente crítico em relação ao livro que aqui apresentamos, começando pelo título que em seu momento o escolheu. Atribui sua publicação a um excesso de fervor juvenil e a uma carência de medida, produto da idade. Inclusive em distintas ocasiões se negará a que o mesmo fosse reeditado em vida. Isso acontecerá tão somente depois de sua morte e em vários casos, seja a favor como contra, servirá para ressaltar o paganismo de Julius Evola, ainda que obviando às vezes as especificações que o mesmo merece e que de alguma maneira temos tentado efetuar aqui.

Em relação ao título do mesmo ele se manifestará o pouco feliz que haveria sido eleger o nome do Imperialismo, o qual é um termo que com frequência se confunde com os fenômenos modernos, produtos dos nacionalismos exagerados, justamente como uma consequência última da modernidade. E pagão por sua vez seria outra palavra equívoca pois é o termo depreciativo e desqualificatório que o cristianismo em sua apologética atribuiu a quem, vivendo no campo, nos pagos, continuavam venerando os deuses de uma antiga religião, já esvaziada de todo significado espiritual, e que portanto foram os últimos a converter-se por força de inércia à nova que triunfava por todo lugar. Ele sugere antes como termos pertinentes os de “Tradicionalismo ou Tradicionalidade romana”.

Mais além de que ainda estes dois termos, a nosso entender, poderiam também produzir equívocos, quiçá muito mais em nossa época onde a confusão semântica chegou a extremos patológicos, hoje em dia provavelmente, logo da aparição de novas palavras substitutas, tais como globalização, Mundo Uno, Nova Ordem Mundial, etc., haja caído mais liberada a palavra imperialismo e império entanto sejam menos usadas que antes em sentido equívoco. E com respeito à palavra “pagão”, se bem é certo que possa conduzir também a confusões, em especial pelo mote depreciativo com que é utilizada, pode sem embargo servir para reivindicar a existência de outro tipo de espiritualidade na antiguidade que agrupe a todo aquele que não foi cristão. E enquanto ao estilo, ás vezes violento assumido pelo autor, o reputamos sem embargo eficaz para os tempos atuais. Quiçá as frases curtas, categóricas e tachadoras, manifestadas ao longo de toda a obra permitam a alguns uma mais rápida proximidade com o mundo da Tradição que a que podem produzir em vez disso obras mais especializadas e de maior vôo intelectual. Reputamos não obstante tudo que Imperialismo Pagão é uma qualificação impactante, quase provocativa em tempos como os atuais nos quais não cabe apresentar-se já com atenuações, e que da leitura atenta desta obra se evitará qualquer equívoco com respeito a isso. Ainda que a palavra final a terá sempre o público leitor.

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