segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sobre Machado (de Assis)

Por Janer Cristaldo
José Hernández

Não gosto de caju. Nem de goiaba. Muito menos de Coca-Cola. Pepsi, ni pensar. Pensando bem, não gosto de refrigerante nenhum. Vinho rosé, muito menos. Até hoje, pelo menos, nunca ninguém acusou-me de preconceito em relação a caju, goiaba, Pepsi ou vinho rosé. Mas basta dizer que não gosto de Machado de Assis, lá vem a acusação: preconceito.

Ora, preconceito seria se eu jamais tivesse lido o Machado e afirmasse não gostar de sua leitura. Não é o caso. Li os principais romances de Machado e muitas de suas crônicas. Não vou afirmar que seja um escritor medíocre. Mas não consigo gostar. Trata-se de um pós-conceito: digo que não gosto após tê-lo lido. É curioso observar que quando elegemos um vinho, damos preferência a vinhos estrangeiros. Uísque, idem. Carro, também. Por que raios, na hora da literatura, tenho de preferir a nacional?

Nasci no Brasil, mas me criei embalado pelas coplas de Fierro. Quando ainda vivia no campo, antes mesmo de buscar as vacas para a mangueira, em torno ao fogo no galpão, meu pai me recitava os versos de Hernández. Eu não sabia quem era Hernández, provavelmente meu pai também não. Imaginávamos que Fierro era um gaúcho daqueles pagos, talvez até mesmo de nossa época. E nisto reside a importância de uma obra, quando o personagem mata o autor. Quando Hernández morreu, um jornal argentino noticiou:

Se murió el senador Martín Fierro

Lá pelos dez anos, conheci cidade. Não que tenha esquecido Fierro, suas coplas ficaram guardadas num desvão da memória. Mas havia uma biblioteca na prefeitura de Dom Pedrito e naquela pequena biblioteca estava o suficiente para nutrir o espírito de um jovem. Nela, li Platão e Cervantes, Balzac e Montesquieu, Voltaire, Flaubert e Maupassant. Quando fui ler Machado, já estava enamorado pela grande literatura.

Mais tarde, em Porto Alegre, mergulhei em Swift e Dostoievski. Foi certamente nos bares, e não na universidade, que descobri a melhor literatura. Li ainda Koestler e Orwell, Somerset Maugham, Papini e Pitigrilli. Descobri Nietzsche, leitura que mudou meus rumos. Machado foi ficando cada vez mais distante, com sua preocupação ridícula, mesmo para o século XIX, sobre se Capitu traiu ou não traiu Bentinho. Cervantes ironizava a humana loucura, Dostoievski estava discutindo religiões e o assassinato, Swift vituperava o gênero humano, Nietzsche decretava a morte de Deus, Marx planejava uma revolução. Enquanto isso, o Machadinho estava preocupado com um reles caso de infidelidade conjugal.

Nunca consegui gostar de Machado. Admito que escrevia bem, mas era muito raso como escritor. Em algum momento da história, tomou força a idéia que a literatura define uma nacionalidade. Criou-se então um afonsocelsismo na literatura nacional. É preciso louvar autores nacionais. E se entre eles não houver um que preste, elege-se um. Ora, quando leio, não estou preocupado com reflexões sobre ser brasileiro. Prefiro autores que me falem do ser humano.

A Veja desta semana, na esteira do centenário da morte de Machado, o saúda como “gênio da virada do século XIX para o XX”, como “um escritor atual, de uma vitalidade artística única no panorama brasileiro e mundial”. Brasileiro, vá lá! Afinal Machado é empurrado goela abaixo de adolescentes, como leitura obrigatória na escola e nos vestibulares. Daí a considerar Machado importante no panorama mundial, vai uma grande distância.

As traduções do escritor carioca no Exterior são obras de embaixadas que precisam vender algum produto tupiniquim. Também são produto de intercâmbios universitários. Sempre rendem bolsas, tanto no Brasil como lá fora. Machado é boa mercadoria, não fere convicções. Afinal, jamais tomou partido em relação a filosofia nenhuma. Neste centenário de sua morte, cita-se muito a inclusão de seu nome no cânone da literatura ocidental de Harold Bloom. Ora, Bloom já admitiu que seu cânone dependeu de encomenda de editoras. Se não pusesse Machado no cânone, é claro que não seria publicado no Brasil. Além disso, sequer menciona Hernández, o poeta maior do continente latino-americano. Trecheei seu ensaio numa livraria. Quando vi que não mencionava Hernández, deixei-o de lado.

Na universidade, o carioquinha impulsiona muitas carreiras. Se você escreve sobre Machado, entra automaticamente em bibliografias nacionais e internacionais, é chamado para deitar falação em simpósios e colóquios, ganha viagens, bons hotéis e excelente restauração. Machado é aposta certa, não há como perder. Acadêmico algum ousa atacar Machado. Viraria leproso na academia.

“Sê como o Machado, que perfuma o vândalo que o fere”, disse um PhDeus uspiano pretendendo criar um calembour engraçadinho. Talvez se referisse ao Millôr Fernandes, que o considera um escritor de segunda categoria. Ou talvez a Paulo Francis: “aquele mulatinho jamais devia ter aberto a boca”. Eu não chegaria a tanto. Mas, a partir da reação de leitores, concluí que não gostar de Machado é crime de lesa-pátria.

Não sou acadêmico, não disputo bibliografias, viajo, bebo e como com meu dinheiro. Não preciso louvar Machado para passar bem. Mesmo que precisasse, não louvaria. Não gosto e me reservo o direito de não gostar. Antes dele, há centenas de autores mais importantes na literatura universal.

A machadianos e machadistas, lanço um desafio. Não obriguem mais escolas e universidades a ler Machado. Joguem-no no mercado livre, ao sabor da oferta e da procura. E quero então ver se algum editor ousará editar o carioquinha.

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