domingo, 24 de junho de 2012

Por Que Combatemos?

por Subcomandante Marcos


Quarta Guerra Mundial

"A guerra é um assunto de importância vital para o Estado - é a província da vida e da morte, o caminho que conduz à sobrevivência ou ao aniquilamento. É indispensável estudá-la a fundo."

Sun Tzu, "A Arte da Guerra"

O neoliberalismo, como sistema mundial, é uma nova guerra de conquista de territórios. O fim da Terceira Guerra Mundial, ou Guerra Fria, não significa, de maneira alguma, que o mundo tenha superado a bipolaridade e reencontrado a estabilidade, sob a hegemonia do vencedor. Pois, se há um vencido (o campo socialista), é difícil nomear o vencedor. Os Estados Unidos? A União Européia? O Japão? Os três juntos?

A derrota do "império do mal" abre novos mercados, cuja conquista provoca uma nova guerra mundial, a Quarta. Como todos os conflitos, este também obriga os Estados nacionais a redefinir sua identidade. A ordem mundial retornou às antigas épocas das conquistas da América, da África e da Oceania. Estranha modernidade, que dá dois passos para frente, três para trás. O crepúsculo do século 20 assemelha-se mais aos séculos bárbaros precedentes do que ao futuro racional, descrito por tantos romances de ficção científica.

Vastos territórios, riquezas e, sobretudo, uma imensa força de trabalho disponível aguardam seu novo senhor. Única é a função de mestre do mundo, numerosos são os candidatos. Daí a nova guerra entre os que pretendem fazer parte do "império do bem".

Se a Terceira Guerra Mundial viu o embate entre capitalismo e socialismo em diversos terrenos e com graus de intensidade variáveis, a Quarta é travada entre grandes centros financeiros, em teatros mundiais e com uma formidável e constante intensidade.

A famigerada "Guerra Fria" atingiu temperaturas elevadíssimas: desde as catacumbas da espionagem internacional até o espaço sideral da famosa "guerra nas estrelas" de Ronald Reagan; das areias da Baía dos Porcos, em Cuba, até o delta do Mekong, no Vietnã; da desenfreada corrida pelas armas nucleares até os selvagens golpes de Estado na América Latina; das manobras condenáveis dos exércitos da Otan até as ameaças dos agentes da CIA na Bolívia, onde foi assassinado Che Guevara. Todos estes acontecimentos acabaram por arruinar o campo socialista como sistema mundial e por dissolvê-lo como alternativa social.

A Terceira Guerra Mundial mostrou os benefícios da "guerra total" para o vencedor -o capitalismo. O pós-guerra deixa entrever um novo dispositivo planetário, cujos principais elementos conflitantes são o crescimento decisivo das terras de ninguém (em virtude da derrocada do Leste), o desenvolvimento de algumas potências (os Estados Unidos, a União Européia e o Japão), a crise econômica mundial e a nova revolução da informática.

Graças aos computadores, os mercados financeiros, com base nos escritórios de câmbio e a seu bel-prazer, impõem suas leis e seus preceitos ao planeta. A "mundialização" nada mais é que a extensão totalitária de sua lógica a todos os aspectos da vida. Mestres recentes da economia, os Estados Unidos são agora guiados -teleguiados- pela própria dinâmica do poder financeiro: a livre-troca comercial. E essa lógica tirou proveito da porosidade acarretada pelo desenvolvimento das telecomunicações para se apropriar de toda a gama de atividades do espectro social. Enfim, uma guerra mundial totalmente total!

Uma de suas primeiras vítimas é o mercado nacional. À maneira de uma bala atirada no interior de um recinto blindado, a guerra desencadeada pelo neoliberalismo ricocheteia e acaba por ferir o atirador. Uma das bases fundamentais do poder do Estado capitalista moderno, o mercado nacional, é liquidada pela canhonada da economia financeira global. O novo capitalismo internacional torna os capitalismos nacionais caducos e esfomeia, até a inanição, os poderes públicos. O golpe foi tão brutal que os Estados nacionais não têm força de defender os interesses dos cidadãos.

A bela vitrine da Guerra Fria -a nova ordem mundial- foi estilhaçada pela explosão neoliberal. Alguns minutos bastam para que as empresas e os Estados se desintegrem -e não por causa do sopro das revoluções proletárias, mas em razão da violência dos furacões financeiros.

O filho (do neoliberalismo) devora o pai (o capital nacional) e, de passagem, destrói as mentiras da ideologia capitalista: na nova ordem mundial, não há nem democracia, nem liberdade, nem igualdade, nem fraternidade. A cena planetária foi novamente transformada em campo de batalha, onde reina o caos.

Por volta do final da Guerra Fria, o capitalismo criou um horror militar: a bomba de nêutrons, arma que destrói a vida, mas respeita as construções. Uma nova maravilha foi descoberta por ocasião da Quarta Guerra Mundial: a bomba financeira. Ao contrário daquelas de Hiroshima e Nagasaki, esta nova bomba não somente destrói a "polis" (aqui, a nação) e inflige a morte, o terror e a miséria àqueles que nela habitam, mas transforma o seu alvo em simples peça no quebra-cabeça da mundialização econômica. O resultado da explosão não é uma pilha de ruínas fumegantes ou milhares de corpos inertes, mas um bairro que se soma a uma megalópole comercial do novo hipermercado global e uma força de trabalho perfilada para o novo mercado de emprego planetário.

A União Européia experimenta na própria pele os efeitos da Quarta Guerra Mundial. A mundialização conseguiu apagar as fronteiras entre Estados rivais, que há séculos eram inimigos, e os obrigou a convergir para a união política. Dos Estados-Nações até a federação européia, o caminho será pavimentado de destruições e de ruínas, a começar pelas da civilização européia.

As megalópoles se reproduzem em todo o planeta. As zonas de integração comercial constituem o seu terreno predileto. Na América do Norte, o Nafta, acordo de livre-comércio entre o Canadá, os Estados Unidos e o México, precede a realização de um velho sonho de conquista: "A América para os americanos".

Será que as megalópoles substituem as nações? Não, ou melhor, não apenas. Elas lhes atribuem novas funções, novos limites e novas perspectivas. Países inteiros tornam-se departamentos da megaempresa neoliberal, que cria, de um lado, a destruição/despovoamento, e, de outro, a reconstrução/reorganização de regiões e nações.

Se as bombas nucleares tinham um caráter dissuasivo, cominatório e coercivo durante a Terceira Guerra Mundial, as hiperbombas financeiras, no transcorrer da Quarta, são de natureza diversa. Elas servem para atacar os territórios (Estados-nações), destruindo as bases materiais de sua soberania e produzindo seu despovoamento qualitativo -a exclusão de todos os inaptos à nova economia (por exemplo, os índios). Mas, simultaneamente, os centros financeiros operam uma reconstrução dos Estados-Nações e os reorganizam segundo a nova lógica: o econômico prevalece sobre o social.

O mundo indígena está repleto de exemplos que ilustram essa estratégia: Ian Chambers, diretor responsável pela América Central da Organização Internacional do Trabalho (OIT), declarou que a população indígena mundial (300 milhões de pessoas) vive em zonas que contêm 60% dos recursos naturais do planeta. "Não admira, portanto, que surjam inúmeros conflitos pelo domínio das terras. (...) A exploração de recursos naturais (petróleo e minas) e o turismo são as principais indústrias que ameaçam os territórios indígenas na América" (1). Depois vêm a poluição, a prostituição e as drogas.

Nessa nova guerra, a política, como motor do Estado-Nação, não existe mais. Ela só serve para administrar a economia, e os homens políticos não passam de administradores de empresa.

Os novos mestres do mundo não precisam governar diretamente. Os governos nacionais se incumbem de administrar os negócios por conta deles. A nova ordem é a unificação do mundo num mercado único. Os Estados não passam de empresas com gerentes à guisa de governo, e as novas alianças regionais mais parecem uma fusão comercial do que uma federação política. A unificação produzida pelo neoliberalismo é econômica; no gigantesco hipermercado planetário, só circulam livremente as mercadorias, mas não as pessoas.

Essa mundialização difunde, também, um modelo geral de pensamento. O "american way of life", que seguira as tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial, depois no Vietnã e, mais recentemente, no Golfo, estende-se, agora, ao planeta, por obra dos computadores. Trata-se de uma destruição das bases materiais dos Estados-Nações, mas também de uma destruição histórica e cultural.

Todas as culturas forjadas pelas nações -o nobre passado indígena da América, a brilhante civilização européia, a sábia história das nações asiáticas e a riqueza ancestral da África e da Oceania- são corroídas pelo modo de vida americano. O neoliberalismo impõe a destruição de nações e de grupos de nações, ao fundi-los num único modelo. Trata-se, assim, de uma guerra planetária (a pior e a mais cruel) que o neoliberalismo move contra a humanidade.

Estamos, aqui, diante de um quebra-cabeça. Para reconstituí-lo, para compreender o mundo de hoje, faltam muitas peças. Podemos, no entanto, encontrar sete delas, a fim de poder esperar que esse conflito não termine com a destruição da humanidade. Sete peças para desenhar, colorir, recortar e tentar reconstituir, encaixando-as às outras, o quebra-cabeça mundial.

A primeira dessas peças é a dupla acumulação de riqueza e pobreza no dois pólos da sociedade planetária. A segunda é a exploração total do mundo. A terceira é o pesadelo de uma parte ociosa da humanidade. A quarta é a relação nauseante entre o poder e o crime. A quinta é a violência do Estado. A sexta é o mistério da megapolítica. A sétima são as múltiplas formas de resistência que a humanidade opõe ao neoliberalismo.

CONCENTRAÇÃO DA RIQUEZA E REPARTIÇÃO DA POBREZA

Na história da humanidade, diversos modelos combateram entre si para propor o absurdo como marca da ordem mundial. O neoliberalismo ocupará uma posição privilegiada na entrega de medalhas. A sua concepção da "distribuição" da riqueza é duplamente absurda: acumulação das riquezas por parte de alguns e carência para milhões de outros. A injustiça e a desigualdade são os signos distintivos do mundo atual. A Terra soma 5 bilhões de seres humanos: 500 milhões vivem confortavelmente, 4,5 bilhões padecem de pobreza. Os ricos compensam a sua inferioridade numérica graças a seus bilhões de dólares. Só a fortuna das 358 pessoas mais ricas do mundo é superior à renda anual da metade dos habitantes mais pobres do planeta, ou seja, por volta de 2,6 bilhões de pessoas. O progresso das grandes empresas multinacionais não pressupõe o avanço das nações desenvolvidas. Ao contrário, quanto mais estes gigantes se enriquecem, mais se agrava a pobreza nos países tidos como ricos. A distância entre ricos e pobres é enorme - longe de se atenuarem, as desigualdades sociais aumentam.

Esse cifrão que vocês desenharam representa o símbolo do poder econômico mundial. Agora, lhe dêem a cor verde-dólar. Ignorem o odor nauseante - este aroma de lixo, de lodo e de sangue vem da origem. 
 


GLOBALIZAÇÃO, EXPLORAÇÃO E OS SERES DESCARTÁVEIS


Uma das mentiras neoliberais é dizer que o crescimento econômico das empresas produz uma melhor repartição da riqueza e do emprego. Isso é falso. Assim como o aumento de poder de um rei não tem por efeito um aumento do poder dos seus súditos (mas, antes, o contrário), o absolutismo do capital financeiro não melhora a repartição das riquezas e não cria empregos. Pobreza, desemprego e instabilidade são as suas consequências estruturais.

Nos anos 60 e 70, o número de pobres (cuja renda líquida, segundo o Banco Mundial, é menos de US$ 1 por dia) atingia cerca de 200 milhões. No início dos anos 90, a cifra subiu a 2 bilhões.

Mais seres humanos pobres ou empobrecidos; menos pessoas ricas ou enriquecidas - tais são as lições da peça 1 do quebra-cabeça. Para obter esse resultado, o sistema capitalista mundial "moderniza" a produção, a circulação e o consumo de mercadorias. A nova revolução tecnológica (a informática) e a nova revolução política (as megalópoles emergentes sobre as ruínas do Estado-Nação) produzem uma nova "revolução" social - uma verdadeira reorganização das forças sociais, principalmente da força de trabalho.

A população economicamente ativa do mundo pulou de 1,38 bilhão, em 1960, para 2,37 bilhões, em 1990. Cresceu o número de seres humanos capazes de trabalhar, mas a nova ordem mundial os circunscreve a espaços precisos e lhes redefine as funções (ou as não-funções, como no caso dos desempregados e dos empregos instáveis).

A população mundial empregada por atividade modificou-se radicalmente ao longo dos últimos 20 anos. O setor agrícola e a pesca caíram de 22%, em 1970, para 12%, em 1990, as manufaturas, de 25% para 22%, mas o setor terciário (comércio, transporte, bancos e serviços) passou de 42% a 56%. Nos países em via de desenvolvimento, o setor terciário cresceu de 40%, em 1970, para 57%, em 1990, e a agricultura e a pesca caíram de 30% para 15% (2).

Cada vez mais trabalhadores são desviados para atividades de alta produtividade. O sistema age, assim, como uma espécie de megapatrão, para quem o mercado planetário não seria mais que uma empresa única, administrada de maneira "moderna".

Mas a "modernidade" neoliberal parece mais próxima da infância bestial do capitalismo que da "racionalidade" utópica. De fato, a produção capitalista continua a fazer apelo ao trabalho infantil. Existem mais de 1,15 bilhão de crianças no mundo. Pelo menos 100 milhões vivem nas ruas e 200 milhões trabalham - e serão, segundo as previsões, mais de 400 milhões no ano 2000. Somente na Ásia, seriam 146 milhões nas fábricas.

E, no norte, também, centenas de milhares de crianças trabalham para complementar a renda familiar ou para sobreviver. Da mesma forma, muitas crianças são empregadas nas indústrias do prazer: segundo as Nações Unidas, a cada ano, 1 milhão de crianças é lançado no comércio sexual.

O desemprego e o emprego instável de milhões de trabalhadores no mundo - eis uma realidade que não parece prestes a desaparecer. Nos países da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o desemprego passou de 3,8%, em 1966, a 6,3%, em 1990; na Europa, ele passou de 2,2% a 6,4%.

O mercado mundializado destrói as pequenas e médias empresas. Com o desaparecimento dos mercados locais e regionais, estes, sem proteção, são incapazes de suportar a concorrência dos gigantes multinacionais.

Milhões de trabalhadores se vêem, assim, desempregados. Absurdo neoliberal: longe de criar empregos, o aumento da produção os destrói - a ONU fala de "crescimento sem emprego".

Mas o pesadelo não pára aí. Os trabalhadores devem aceitar a instabilidade no emprego. Uma instabilidade maior, jornadas de trabalho mais longas e salários mais baixos. Tais são as consequências da mundialização e da explosão do setor de serviços.

Tudo isso produz um excedente específico: seres humanos em demasia, inúteis à nova ordem mundial, porque não produzem mais, não consomem mais e não tomam mais empréstimos nos bancos. Em resumo: eles são descartáveis. A cada dia, os mercados financeiros impõem suas leis aos Estados e aos grupos de Estados. Eles redistribuem os habitantes. E, no final, acabam por constatar que ainda existe gente em demasia.

Eis aí, portanto, uma figura que se assemelha ao triângulo: a representação da pirâmide de exploração mundial.

MIGRAÇÃO, O PESADELO ERRANTE

Já falamos da existência, no fim da Terceira Guerra Mundial, de territórios (os antigos países socialistas) a conquistar e de outros a reconquistar. Daí a tríplice estratégia dos mercados: as "guerras regionais" e os "conflitos internos" proliferam; o capital persegue um objetivo de acumulação atípico; e grandes massas de trabalhadores são mobilizadas.

Resultado: uma grande ciranda de milhões de migrantes através do planeta. "Estrangeiros" num mundo "sem fronteiras", segundo a promessa dos vencedores da Guerra Fria, eles sofrem perseguições de xenófobos, a perda de sua identidade cultural, a repressão policial e a fome - isso quando não são jogados nas prisões ou são assassinados.

O pesadelo da emigração, qualquer que seja sua causa, continua a crescer. O número daqueles que dependem do alto comissariado das Nações Unidas para os refugiados literalmente explodiu, passando de 2 milhões, em 1975, a mais de 27 milhões, em 1995.

A política migratória do neoliberalismo tem por meta desestabilizar o mercado mundial do trabalho, e não pôr freios à imigração. A Quarta Guerra Mundial - com os seus mecanismos de destruição/despovoamento, reconstrução/reorganização - provoca o deslocamento de milhões de pessoas. Seu destino é errar, com o pesadelo às costas, a fim de constituir uma ameaça para os trabalhadores que dispõem de emprego - um espantalho capaz de fazer esquecer o patrão e um pretexto para o racismo. 
 


MUNDIALIZAÇÃO FINANCEIRA E GENERALIZAÇÃO DO CRIME

Se vocês pensam que o mundo da delinquência é sinônimo de regresso e de obscuridade, estão enganados. Durante o período da Guerra Fria, o crime organizado adquiriu uma imagem mais respeitável. Ele não apenas começou a funcionar como uma empresa moderna, mas também penetrou profundamente nos sistemas políticos e econômicos dos Estados-Nações.

Com o início da Quarta Guerra Mundial, o crime organizado globalizou suas próprias atividades. As organizações criminais dos cinco continentes infundiram-se do "espírito de cooperação mundial" e, associadas, participam da conquista de novos mercados. Eles investem nos negócios legais, não somente para lavar o dinheiro sujo, mas para adquirir o capital destinado a seus negócios ilegais. Atividades preferidas: os imóveis de luxo, o lazer, a mídia e... os bancos.

Ali Babá e os 40 banqueiros? Pior. Os bancos comerciais utilizam o dinheiro sujo para suas atividades legais. Segundo um relatório das Nações Unidas, "o desenvolvimento dos sindicatos do crime foi facilitado pelos programas de ajuste estrutural que os países endividados foram obrigados a aceitar, para ter acesso aos empréstimos do Fundo Monetário Internacional" (3).

O crime organizado também conta com os paraísos fiscais. Existem cerca de 55 - um deles, as Ilhas Cayman, ocupa o 5º lugar como centro bancário e possui mais bancos e sociedades registradas que habitantes.

Além da lavagem de dinheiro, os paraísos fiscais servem para escapar aos impostos. Eles são lugares de contato entre governos, homens de negócios e chefes mafiosos.

Eis, portanto, o espelho retangular, no qual legalidade e ilegalidade trocam de reflexo. De que lado do espelho está o criminoso? De que lado o perseguidor?

VIOLÊNCIA LEGÍTIMA DE UM PODER ILEGÍTIMO?

No cabaré da globalização, o Estado se entrega a um striptease, ao termo do qual não conserva mais que o mínimo indispensável: sua força de repressão. Destruída a sua base material, anulada a sua soberania e independência, eliminada a sua classe política, o Estado-Nação torna-se um mero aparelho de segurança a serviço de megaempresas. Em vez de orientar o investimento público pela despesa social, ele prefere aperfeiçoar os equipamentos que lhe permitem controlar com mais eficácia a sociedade.

O que fazer, se a violência procede das leis do mercado? Quando a violência é legítima? Quando é ilegítima? Que tipo de monopólio da violência podem reivindicar os infelizes Estados-Nações, quando o livre jogo da oferta e da procura desafia um tal monopólio? Não acabamos de mostrar, na peça nº 4, que o crime organizado, o governo e os centros financeiros encontram-se intimamente ligados? Não é evidente que o crime organizado conta com verdadeiros exércitos? O monopólio da violência não pertence mais aos Estados-Nações: o mercado o pôs em leilão...

Se a contestação do monopólio da violência invoca não as leis do mercado, mas os interesses dos "de baixo", então o poder mundial verá nisso uma agressão. Este é um dos aspectos menos estudados (e mais condenados) do desafio lançado contra o neoliberalismo e a favor da humanidade pelos índios armados do Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN).

O símbolo do poder militar americano é o Pentágono. A nova polícia mundial quer que os exércitos e as polícias nacionais sejam um simples corpo de segurança, que garanta a ordem e o progresso nas megalópoles neoliberais.

A MEGAPOLÍTICA E OS ANÕES

Dissemos que os Estados-Nações são atacados pelos mercados financeiros e forçados a se dissolver no seio das metrópoles. Porém o neoliberalismo não move a sua guerra apenas "unindo" nações e regiões. A sua estratégia de destruição/despovoamento e de reconstrução/reorganização produz, além disso, fraturas nos Estados-nações. Este é um dos paradoxos dessa Quarta Guerra: destinada a eliminar as fronteiras e a unir as nações, ela provoca uma multiplicação das fronteiras e uma pulverização das nações.

Se alguém ainda duvida de que essa globalização seja uma guerra mundial, que se lembre dos conflitos acarretados pelo colapso da União Soviética, da Tcheco-Eslováquia e da Iugoslávia, vítimas dessas crises que minam os fundamentos econômicos dos Estados-Nações e sua coesão.

A construção de megalópoles e a fragmentação dos Estados são uma consequência da destruição dos Estados-Nações. Trata-se de acontecimentos separados? São eles sintomas de uma megacrise no futuro? 

Fatos isolados?

A supressão das fronteiras comerciais, a explosão das telecomunicações, a rede global de informações, a potência dos mercados financeiros, os acordos internacionais de livre-comércio - tudo isso contribui para destruir os Estados-Nações. Paradoxalmente, a mundialização produz um mundo fragmentado, feito de compartimentos estanques, unidos apenas por passarelas econômicas. Um mundo de espelhos quebrados, que refletem a inútil unidade mundial do quebra-cabeça neoliberal.

Mas o neoliberalismo não somente fragmenta o mundo que ele gostaria de unificar, ele produz, também, o centro político-econômico que dirige essa guerra. Urge falar da megapolítica. A megapolítica engloba as políticas nacionais e as reúne num centro, que tem interesses mundiais obviamente econômicos. É em nome do mercado que são decididas as guerras, os créditos, a compra e a venda de mercadorias, os reconhecimentos diplomáticos, os blocos comerciais, os apoios políticos, as leis sobre imigração, as rupturas internacionais, os investimentos.
 
Em resumo, a sobrevivência de nações inteiras

Os mercados financeiros não se importam com a cor política dos dirigentes dos países: o que conta, a seus olhos, é o respeito ao programa econômico. Os critérios financeiros se impõem a todos. Os mestres do mundo podem tolerar a existência de um governo de esquerda, contanto que este não adote nenhuma medida prejudicial aos interesses do mercado. Eles jamais aceitarão uma política de ruptura com o modelo dominante.

Aos olhos da megapolítica, as políticas nacionais são conduzidas por anões que devem curvar-se ao ditado do gigante financeiro. E sempre será assim... até que os anões se revoltem.

INCONFORMISTAS E REBELDES POR TODO O PLANETA

"Para começar, peço-lhe que não confunda a Resistência com a oposição política. A oposição não se opõe ao poder, e a sua forma mais perfeita é um partido de oposição. Ao contrário, a Resistência não pode, por definição, ser um partido: ela não foi feita para governar, mas... para resistir"

Tomás Segovia, "Alegatorio", México, 1996.

A aparente infalibilidade da mundialização choca-se com a obstinada desobediência da realidade. Enquanto o neoliberalismo insiste em sua guerra, grupos de inconformistas e núcleos de rebeldes formam-se por todo o planeta. O império dos financistas de bolsos cheios enfrenta a rebelião dos bolsos da resistência. Sim, bolsos. De todos tamanhos, de diversas cores, de formas variadas. O seu único ponto em comum: uma vontade de resistência à "nova ordem mundial" e ao crime contra a humanidade representado por essa Quarta Guerra.

O neoliberalismo tenta submeter milhões de seres humanos e quer desfazer-se de todos os que estariam "em demasia". Mas estes "descartáveis" se revoltam. Mulheres, crianças, idosos, jovens, índios, ecologistas, homossexuais, lésbicas, soropositivos, trabalhadores e todos os que perturbam a nova ordem, que se organizam e que lutam. Os excluídos da "modernidade" tecem as resistências.

No México, por exemplo, em nome do programa de desenvolvimento integral do istmo de Tehuantepec, as autoridades querem construir uma grande zona industrial. Esta zona incluirá usinas e uma refinaria para elaborar produtos petroquímicos. Vias de trânsito interoceânico serão construídas: estradas, um canal e uma ferrovia transístmica. Dois milhões de camponeses seriam operários dessas usinas. Do mesmo modo, no sudeste do México, discute-se um projeto de desenvolvimento regional duradouro, com o objetivo de pôr à disposição do capital as terras indígenas, ricas em dignidade e história, mas também em petróleo e urânio.

Tais projetos acabariam por fragmentar o México, ao separar o sudeste do resto do país. Eles se inscrevem, de fato, numa estratégia de contra-insurreição, como uma tenaz buscando deter a rebelião antineoliberal nascida em 1994: no centro estão os índios rebeldes da armada zapatista de liberação nacional.

Sobre a questão dos índios rebeldes, diga-se, entre parênteses: os zapatistas estimam que, no México, a reconquista e a defesa da soberania nacional fazem parte da revolução antiliberal. Paradoxalmente, acusa-se o EZLN de querer a fragmentação do país.

A realidade é que os únicos a evocar o separatismo são os empresários do Estado de Tabasco, rico em petróleo, e os deputados federais originários de Chiapas e membros do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Os zapatistas consideram que a defesa do Estado nacional é necessária diante da mundialização e que as tentativas de esfacelar o México vêm do grupo que governa, e não das justas demandas de autonomia dos povos indígenas.

O EZLN e o conjunto do movimento indígena não querem que os povos indígenas se separem do México: eles pretendem ser reconhecidos como parte integrante do país, mas com as suas especificidades. Eles aspiram a um México que rime com democracia, liberdade e justiça. Se o EZLN defende a soberania nacional, o Exército federal mexicano, por sua vez, protege um governo que destruiu as suas bases materiais e ofereceu o país ao grande capital estrangeiro e aos narcotraficantes.

Não é somente nas montanhas do sudeste mexicano que se resiste ao neoliberalismo. Nas outras regiões do México, na América Latina, nos EUA e no Canadá, na Europa do tratado de Maastricht, na África, na Ásia e na Oceania, os bolsos de resistência se multiplicam. Cada um tem a sua própria história, suas peculiaridades, suas semelhanças, suas reivindicações, suas lutas, seus sucessos. Se a humanidade quer sobreviver e se aperfeiçoar, sua única esperança reside nestes bolsos que formam os excluídos, os abandonados à própria sorte, os "descartáveis".

Este é um exemplo de bolso de resistência, mas não deposito nele muita importância. Os exemplos são tão numerosos quanto as resistências e tão diversos quanto os mundos deste mundo. Desenhe, portanto, o exemplo que lhe agrada. Nesse assunto de bolso, como no de resistências, a diversidade é uma riqueza.

Depois de ter desenhado, colorido e recortado estas sete peças, você perceberá que é impossível encaixá-las. Eis aí o problema: a mundialização quis encaixar peças incongruentes. Por essa e por outras razões, que não posso desenvolver nesse texto, é necessário construir um mundo novo. Um mundo que possa conter muitos mundos, que possa conter todos os mundos.

Posfácio

O mar repousa a meu lado. Há muito ele partilha angústias, incertezas e inúmeros sonhos, mas, agora, ele dorme comigo na noite cálida da floresta. Eu o vejo ondular, como o trigo em meus sonhos, e me admiro ao encontrá-lo novamente intocado - tépido, fresco, a meu lado. O ar sufocante tira-me da cama e toma-me a mão e a pluma para trazer de volta o velho Antoine, como se retornasse nos anos...

Pedi ao velho Antoine que me acompanhasse numa exploração a jusante. Levamos pouca comida. Durante horas, seguimos a trilha caprichosa, e a fome e o calor nos subjuga. Passamos a tarde no encalço de uma alcatéia de javalis. Já é quase noite quando os alcançamos, mas um enorme porco selvagem se aparta do grupo e nos ataca. Lanço mão de todo o meu saber militar: deponho a arma e subo na árvore mais próxima. O velho Antoine permanece impassível diante do ataque e, em vez de correr, posta-se atrás de uma touceira. O gigantesco javali, reunindo todas as suas forças, investe contra ele, e se enreda nos galhos e nos espinhos. Antes que consiga libertar-se, o velho Antoine ergue sua velha carabina e, com um tiro, propicia a refeição da noite.

No lusco-fusco, depois de limpar meu moderno fuzil automático (M-16, calibre 5,56 mm, com seletor de cadência e um alcance real de 460 metros, uma mira telescópica e um pente de 90 balas), escrevo meu diário de campanha. Omito o que ocorrera, e observo apenas: "Encontramos javalis e A. matou um deles. Altitude, 350 metros. Não choveu".

Enquanto esperamos a carne grelhar, conto ao velho Antoine que minha parte servirá para as festas preparadas no acampamento. "Festas?", pergunta ele, enquanto atiça o fogo. "Sim", eu respondo. "Não importa o mês, sempre há algo para festejar." E desfio uma brilhante dissertação sobre o calendário histórico e as celebrações zapatistas. O velho Antoine escuta-me em silêncio; imaginando que o assunto não lhe interessa, preparo-me para dormir.

Imerso em meus sonhos, vejo o velho Antoine pegar o meu caderno e escrever alguma coisa. No dia seguinte, após o desjejum, repartimos a carne, e cada um segue para seu lado. Uma vez no acampamento, faço o meu relato e mostro o caderno para que saibam o que ocorrera. "Esta não é sua letra", dizem-me com o caderno aberto na última folha. Ali, depois de minhas notas, o velho Antoine escreveu em letras garrafais: "Se não pode ter a razão e a força ao mesmo tempo, escolha sempre a razão, e abandone a força ao inimigo. Em inúmeras batalhas, a força permite obter a vitória, mas uma guerra só é vencida graças à razão. O poderoso nunca poderá obter razão de sua força, ao passo que nós sempre poderemos obter força de nossa razão".

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