segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Sobrenatural no Mundo Moderno

por Julius Evola




“É a hora propícia para todas as empresas equívocas de falso misticismo que mesclam curiosamente as confusões espiritualistas com a sensualidade materialista. As forças espirituais invadem tudo por toda parte. Não se pode dizer mais que o mundo moderno careça do sobrenatural. É possível vê-lo aparecer por todas as partes em múltiplas espécies e variedades. E o grande mal de hoje em dia já não é mais o materialismo ou o cientificismo, senão que é uma espiritualidade desencadeada. Mas o sobrenatural verdadeiro não resulta por isso mais reconhecido. O “mistério” o envolve todo, instala-se nas regiões obscuras do Eu, que devasta, no centro da razão, que o expulsa todo de seu domínio. Está-se sempre pronto para reintroduzi-lo por todo lugar, exceto na ordem divina, onde o mesmo verdadeiramente reside”.

Assim escreveu o católico Henri Massis numa obra não recente[1]. Mas são palavras estas que ainda hoje possuem seu peso. Com efeito, ainda hoje em dia são numerosos e pujantes os grupos, as seitas e os movimentos que se consagram ao oculto e ao “sobrenatural”. Reavivados pela intensificação da crise do mundo ocidental, tais correntes reúnem seus aderentes em número notório, havendo o Espiritismo por si só alcançado milhões de participantes. Doutrinas exóticas de todo tipo são importadas e quanto mais apresentam as características do estranho e do misterioso, mais exercem uma verdadeira fascinação. Pode-se dizer que qualquer “misturada” encontra um lugar importante no “espiritualismo”, incluindo aqui as diferentes adaptações do Yoga, variedades da mística espúria, “ocultismo” dentro das margens das lojas maçônicas, neorrosacruzismo, regressões naturais e primitivistas de fundo panteísta, neognosticismo e divagações astrológicas, parapsicologia, mediunidade e coisas semelhantes, sem falar de tudo que é meramente uma pura mistificação. Em geral, é suficiente que algo se aparte da ordem daquilo que se convém denominar como normal, é suficiente que se apresente os caracteres do excepcional, do oculto, do místico e do irracional para que uma notória quantidade de nossos contemporâneos se interesse por tudo isso com uma grande facilidade. Finalmente, até a própria “ciência” interviu aqui: em algumas de suas vertentes, como a Psicanálise e a “psicologia profunda”, a mesma termina muitas vezes em promíscuas evocações nas regiões de fronteira do Eu e da personalidade consciente. Tem-se visto ademais este paradoxo: que justamente os representantes daquelas disciplinas “positivas” que, para poder justificar-se e organizar-se a si mesmas, entregaram-se a uma sistemática negação de qualquer concepção do mundo que contivesse elementos suprassensíveis, justamente estes representantes, em um setor a parte, hoje são indulgentes não poucas vezes com formas primitivas de neo-espiritualismo. E então a reputação que sua seriedade adquiriu nos domínios de sua competência é conduzida em forma abusiva como aval para o valor de ditas formas e transforma-se em um perigoso instrumento de sedução e propaganda, típico foi o caso dos físicos Crooke e Lodge[2] no relativo ao espiritismo. É assim como ambos os setores do mundo ocidental hoje estão exalando um caos espiritual que os faz semelhantes estranhamente com o mundo asiatizado da decadência helenística. Nem tão pouco faltam os Messias em múltiplas edições e formatos.

É necessário, em primeiro lugar, orientar-se e ver quais são as causas principais do fenômeno.

Como primeiro traço principal, estaríamos induzidos a pensar em um impulso geral à evasão. Num certo aspecto o neo-espiritualismo tem indubitavelmente um rol análogo ao de tudo aquilo com o qual o homem de hoje em dia trata de evadir-se do mundo que o rodeia, das formas sufocantes assumidas pela civilização e pela cultura ocidental moderna, chegando, desde tal perspectiva, nos casos limites, ao uso mesmo de drogas, à explosões anárquicas, ao demonismo do sexo, à formas difundidas e variadas de compensações neuróticas.

A tal respeito, há sem embargo motivações das quais não se pode desconhecer sua parcial legitimidade. Não é casualidade que os começos do neo-espiritualismo são contemporâneos com a afirmação da concepção positivista-materialista a respeito do homem e do mundo em sua esquálida desespiritualização, agregando-se a isso o racionalismo, quer dizer, a pretensão da razão abstrata de negar tudo aquilo que pertence aos estratos mais profundos do ser e da psique. Ao mesmo tempo, deve-se assinalar a carência das formas de uma civilização tradicional em sentido superior, capaz de efetivas aberturas até o alto. Para o Ocidente trata-se sobretudo da religião que tem predominado, quer dizer, do Cristianismo, e do fato de que ela mesma cessou-se de se apresentar como algo vivente, de oferecer pontos de referência para uma verdadeira transcendência, reduzindo-se mais precisamente, no específico ao Catolicismo, por um lado a um inerte edifício teológico-dogmático, por outro a um devocionalismo confessional e um moralismo de caráter pequeno-burguês, de modo tal que terminou-se por falar na “morte de deus” e com a formulação da exigência de uma desmistificação da religião que reduza seu conteúdo válido à mera prática social (como por exemplo, no denominado cristianismo ateu).

Mas se ocorreu assim, da religião positiva diminuir-se a respeito de sua função mais elevada, ofereceu-se muito pouco àqueles que mais que uma fé e uma domesticação moralista de tipo burguês e social do animal humano, buscavam, ainda que obscuramente, uma experiência espiritual libertadora, estes, por sua vez, não podiam não suscitar finalmente um desconformismo e uma rebelião às máximas subversivas das ideologias últimas, para as quais o princípio e o fim do homem encontram-se sobre a terra e que, como fim, indicam uma sociedade da produção e do bem-estar de massa destinado a converter-se em insípido e aborrecido, e de qualquer forma a pagar com condicionamentos e mutilações múltiplas da personalidade.

A menos que não intervenham processos de fundamental degradação, no profundo da natureza humana subsiste a necessidade do “outro” e, no limite, do sobrenatural. Não se pode sufocá-lo em todos mais além de um certo limite. Nos tempos últimos, a “morsa” fechou-se em razão dos fatores recém mencionados. Daqui que em muitos apareça o impulso que crê achar uma satisfação e um desaguar em tudo o que o neo-espiritualismo pretende oferecer, em uma certa medida com caráter de coisa nova, com ideias que parecem abrir o acesso a uma mais vasta realidade, não tão só teoricamente, senão sobretudo como experiência espiritual vívida. O fato de que nos tempos últimos terminou-se por reconhecer, ainda esporadicamente, um “extranormal” como manifestação de energias, leis e possibilidades mais além das admitidas no anterior período positivista, tal fato tem constituído muitas vezes um fator ulterior para a particular orientação do impulso à evasão do qual pretendemos nos ocupar aqui.

Um último e não irrelevante fator tem sido o conhecimento, já não mais restrito a uma cultura superior especializada, de doutrinas de origem prevalecentemente oriental, as quais prometiam mais do que as religiões ocidentais positivas de sempre, mas sobretudo em suas formas últimas vazias e sem vigor, pareciam oferecer.

Este é, em síntese, a conjuntura “situacional” à qual se pode referir a difusão do neo-espiritualismo, o qual, tal como o temos notado em outra circunstância[3], apresenta em geral os caracteres do que Oswald Spengler definiu como a “segunda religiosidade”, que se manifesta não no período luminoso originário de uma civilização orgânica, qualitativa e espiritual encontrando-se no centro desta, senão na margem de uma civilização crepuscular e em dissolução, no caso específico do que Spengler definiu como o “Ocaso do Ocidente”, como um fenômeno peculiar do mesmo.

Depois do qual é preciso fixar alguns pontos fundamentais de referência para uma tomada de postura discriminatória ante as variedades do neo-espiritualismo e de qualquer outra corrente afim com o mesmo.

A tal respeito, devemos sublinhar que a nós sobretudo nos interessa aquilo que em dito espiritualismo não se reduz a teorias, senão que compreende tendências, as quais, as vezes sem querê-lo, propiciam evocações de forças da “outra margem” e levam indivíduos e grupos em contato com as mesmas a cultivar modalidades extranormais de consciência.

A premissa é obviamente que estas influências e estas modalidades existam tão realmente como as formas da realidade física e da psique ordinária. De uma maneira ou de outra isso tem sido sempre reconhecido em toda civilização normal e completa e foi tão só negado por algum decênio de “positivismo” ocidental. Hoje em dia, sem embargo, há que ir mais além de um simples reconhecimento em termos psicológicos ou, para dizer melhor, psicologistas, tal como acontece, por exemplo, no domínio da Psiquiatria e da Psicanálise. Pelo que nos interessa, este “espiritual” se deve compreender por sua vez em termos ontológicos, quer dizer, justamente como realidade.

Não se formula de outro modo o problema de perigo do “espiritual” (ou do espiritualismo) e do “extranormal”, ou do contrario conclui revestindo um caráter sumamente banal. Poderia falar-se das parodias, das paranoias, e das fantasias de mentes desequilibradas e desviadas, pelas quais não há que se alarmar em demasia.

Aqui tem que se referir à personalidade em sentido próprio. O contato com o “espiritual” e sua afloração podem representar um risco fundamental para o homem, no sentido de que podem ter por efeito uma diminuição de sua unidade interior, daquele pertencer a si mesmo, daquele poder de presença clara em si mesmo e de clara visão e ação autônoma que definem justamente a essência da personalidade.

Em sua forma atual a personalidade no mundo das coisas tangíveis e mensuráveis, dos pensamentos lógicos de forma pura, da ação pratica e de quanto em geral, possui relação com os sentidos físicos e com o cérebro que se encontra em sua própria casa, sobre um terreno firme. Ao invés no mundo do “espiritual” a mesma corre um continuo risco, a mesma volta ao estado problemático, posto que naquele mundo não exista mais nenhum dos apoios aos quais ela esta acostumada e dos quais possuem necessidades enquanto que é uma personalidade condicionada por um corpo físico.

Não é uma casualidade o fato de que muitos dos quais hoje em dia cultivam o “espiritualismo” são seres sem personalidade pronunciada (é significativa a presença de um grande numero de mulheres em seu seio), enquanto que em troca aqueles que dão sinal de uma personalidade forte e consciente mantém-se firmes nas coisas “positivas” e alimentam frente ao suprassensível uma repulsa invencível, sempre pronta para criar-se todo tipo de justificativas. Há de compreender que esta repulsa não é sinal da manifestação inconsciente, neles, de um instinto de defesa espiritual. As personalidades mais débeis, aonde tal instinto não existe ou é atenuado, são as dispostas a acolher e cultivar imprudentemente ideias, tendências e evocações, de cujo perigo elas não se dão conta.

Tais pessoas creem que qualquer coisa transcendente ao mundo no qual estão acostumadas constitui por eles mesmos algo superior, um estado mais alto. No momento em que neles atua a necessidade de “outra coisa”, como impulso à evasão, elas, as pessoas, tomam qualquer caminho, e não se dão conta quantas vezes elas em múltiplas circunstancias entram assim na orbita de forças que não se encontram acima, senão abaixo do homem como personalidade.

Este é um ponto fundamental: ver com suma clareza as situações nas quais, apesar de qualquer aparência ou mascara, o neoespiritualismo pode efetivamente ter um caráter regressivo e o “espiritual” não ser algo “sobrenatural”, senão “infranatural”; isto sempre em forma concreta e existencial, a parte de toda confusão e desvio doutrinal e intelectual.

Para poder ter uma ideia das influencias das quais podem ainda tratar-se quando se verificam esta abertura, que é para baixo e não para acima, e este distanciamento que é descendente e não ascendente, será oportuno fazer menção ao que em um sentido vasto e complexo deve-se compreender por “natureza”. Quando se fala de “natureza” hoje se entende no geral ao mundo físico, conhecido através dos sentidos físicos de cada “pessoa desperta” e medido pelas ciências exatas. Na realidade, este é tão somente um aspecto da natureza, uma imagem formada em relação com a personalidade humana, e mais ainda em certa fase de seu desenvolver histórico, sob a forma de uma experiência própria da mesma, e não de outras possíveis fases e formas de existência. O homem percebe a natureza nas formas tão definidas da realidade física porque tem se separado de sua mesma natureza, posto que tem se liberado e desprendido desta, em modo tal de senti-la finalmente como exterior, como “não-Eu”. A natureza em si, não é esta aparição no espaço, ela ao invés é captada ali onde este sentido de exterioridade se atenua, atenuando-se correlativamente o estado da consciência lúcida de vigília e penetrando estados nos quais o objetivo e o subjetivo, o “dentro” e o “fora” se confundem. Começam aqui os primeiros domínios de um mundo “invisível” e “psíquico” que, por ser tais, não deixam de ser “natureza”, é mais, são eminentemente “natureza”, e para nada “supranatureza”. Com a investigação cientifica objetiva sobre a matéria e a energia o homem no fundo se move em uma espécie de circulo mágico criado por ele mesmo. Sai de tal circulo e alcança a natureza somente quem retrocede da consciência pessoal formada até a subconsciência através da via que começa com as obscuras sensações orgânicas, com a emergência de complexos e de automatismos psíquicos em estado livre, ou seja, dissolvidos dos controles cerebrais, e logo se desenvolve descendendo no profundo da subconsciência física.

Algumas investigações recentes têm previsto os elementos para dividir este processo de regressão também desde um ponto de vista positivo. Com anestesias locais provocadas experimentalmente tem-se seguido o que acontece nas funções psíquicas quando são neutralizados progressivamente aqueles estratos do córtex cerebral, desde os mais externos e recentes até os mais internos e antigos, até eliminar totalmente a ação do cérebro e passar ao sistema simpático que se tem mostrando vinculado ainda com certas formas de consciência. Os primeiros em desaparecer têm sido então os conceitos de espaço, tempo e causalidade, ou seja, os conceitos sobre os quais se apoia a experiência da vigília da natureza e a concatenação lógica dos pensamentos na personalidade consciente. Em relação com estratos mais profundos, a mesma consciência ordinária distinta do “Eu” vem a menos e nos encontramos no umbral de funções inconscientes, em imediata relação com a vida vegetativa. Isto é precisamente o final da “persona” e o umbral do impessoal, da “natureza”.

Aquilo que a antiguidade denominara gênios, espíritos dos elementos, deuses da natureza, etc., à parte das assunções supersticiosas populares e folclóricas e à parte das aposições poéticas, não se reduzia a mera fabula: tratava-se por certo de “imaginações” – ou seja, de formas produzidas em determinadas circunstancias por uma faculdade análoga à que atua no sonho em relação com o simpático – as quais sem embargo, em sua origem, dramatizavam de maneira múltipla e variada, justamente da mesma maneira que os sonhos, as obscuras experiências psíquicas de contato com as forças, das quais as formas, os seres e as leis visíveis da natureza não são senão sua manifestação.

Igualmente os fenômenos de clarividência denominavam “natural”, ou bem de clarividência sonambúlica, se vinculam a uma neutralização e exclusão do cérebro e do apoio de uma consciência reduzida, que em certos seres subsiste graças as circunstancias especiais, justamente ao sistema simpático. Os plexos principais do mesmo, e sobretudo o plexo solar, se transformam então em um sensório e assumem a função do cérebro, que eles exercitam sem a ajuda do instrumento dos sentidos físicos em sentido estrito, sobre a base de estímulos e sensações que não vem desde o externo, senão desde o interno. Naturalmente, segundo os casos, os produtos desta atividade possuem um caráter mais ou menos direto, ou seja, estão mais ou menos mesclados com as formas que as mesmas usam para traduzir-se e converter-se em conscientes e que são em grande medida informadas pelo elemento espaço-temporal próprias do cérebro[3]. Porém, por maior que seja a parte das escorias, subsiste nestes fenômenos uma margem incontestável de objetividade, que se confirmam às vezes também em forma evidente, pela correspondência dos dados previstos por tal via com os controláveis sobre a base das percepções físicas crivadas e organizadas pela consciência de vigília.

Isso proporciona já um ponto de orientação. Existe toda uma zona “psíquica”, “oculta” com respeito à consciência ordinária, a qual e a sua maneira real (não “ilusão subjetiva” ou “alucinação”), porém que não deve confundir-se com o “espiritual” em sentido de valor, e tanto menos com o “sobrenatural”. Com maior razão, se poderia aqui ao invés de falar de infranatural, e aquele que se abre passivamente, “extaticamente” a este mundo, em realidade retrocede, faz descer no nível interno de um grau superior para um inferior.

Toda medida positiva para a verdadeira espiritualidade, para o homem, deve ser a consciência clara, ativa e distinta: a que ele possui quando escuta objetivamente a realidade exterior ou forma dos termos de um racionamento lógico, de uma dedução matemática, ou toma uma decisão em sua vida moral. Sua conquista, o que o define na hierarquia dos seres, é esta. Quando ele por sua vez passa nos estados de um misticismo nebuloso, de um desvio panteísta e na fenomenologia – por mais sensacional que este seja – que se verifica nas condições da regressão, do colapso psíquico, do transe, ele não ascende, senão que descende na escala da espiritualidade, passa de um mais para um “menos que espírito”. Não supera a “natureza”, senão que se restitui para ela, e mais, converte-se no instrumento das forças ínferas encerradas nas formas da mesma.

Só logo de ter visto com muita clareza este ponto se pode formular a ideia de uma diferente e antitética direção espiritual, que sirva para medir o que pode haver de válido no “espiritualismo” e que pode proporcionar a quem, tendo uma particular vocação e qualificação, busca uma “transcendência”; algo mais elevado do que oferece a concepção moderna do mundo, o espaço para uma superior liberdade mais além dos condicionamentos e do sem-sentido da existência de hoje em dia e das mesmas formas residuais das confissões religiosas. No nível dos princípios trata-se de formular a exigência de uma via para experiência que, longe de reduzir a consciência, transformam-na em supraconsciência, que, longe de abolir a distinta presença de si, tão fácil de conservar-se num homem são e desperto entre as coisas materiais e nas atividades práticas, elevem-na a um nível superior, de modo a não alterar os princípios que constituem a essência da personalidade, senão que em vez os integre. A via a experiências de tal tipo é a via ao verdadeiramente sobrenatural. Mas esta via não é cômoda nem sedutora para a imensa maioria. Pressupõe justamente a atitude oposta à dos entusiastas do “espiritualismo” e daquele que se encontra meramente impulsionado por uma tendência à evasão, pressupõe uma atitude e uma vontade de ascese, no sentido originário dessa palavra, distinto das assunções de ordem devocional mortificatória e monástica.

Não é fácil remeter a mentalidade moderna a considerar e a julgar em termos de interioridade, em vez que de aparência e de fenômeno ou de sensação. Muito menos é fácil, logo das devastações cumpridas pelo “biologismo”, pelo “antropologismo” e pelo evolucionismo, remeta-la ao sentido do que foi também e nominalmente ainda é hoje em dia um ensinamento católico: a dignidade e o destino sobrenatural da pessoa humana.

Agora bem, justamente este é, em câmbio, o ponto fundamental para a ordem das coisas das quais estamos tratando. Só aquele que tenha um tal sentido pode reconhecer com efeito que em tudo que não é mais material existem dois domínios diferentes, e mais, antitéticos. O correspondente a formas de consciência inferiores ao ponto de estado de vigília da pessoa humana normal é a ordem natural em sentido mais vasto. Tão só a outra ordem é a sobrenatural. O homem acha-se entre um e outro destes dois domínios, e quem sai de uma condição de êxtase ou de precário equilíbrio pode gravitar de uma a outro. De acordo com a antes mencionada doutrina da dignidade e do destino sobrenatural do homem, este não pertence à “natureza”, nem no sentido materialista do evolucionismo e do darwinismo, nem no sentido “espiritualista” do panteísmo e de concepções afins. Como personalidade ele se eleva já desde o mundo das almas místicas das coisas e dos elementos e desde o fundo de uma “cosmicidade” indiferenciada – e sua visão de coisas físicas claras, de crus contornos, objetivas no espaço, assim como sua experiência de pensamentos bem precisos e logicamente concatenados, expressa já quase uma espécie de catarse e de liberação a respeito daquele mundo, apesar da limitação dos horizontes e das possibilidades que disso derivam[4]. Quando em vez retorna ao mesmo, ele abdica e trai seu destino sobrenatural: cede sua “alma”. Ele toma, consciente ou inconscientemente, a via descendente, ali onde na fidelidade a seu fim lhe estaria eventualmente dado ir mais além de qualquer estado condicionado, por mais “cósmico” que este seja.

Este enquadre esquemático é suficiente já para uma primeira orientação ante as múltiplas correntes do “espiritualismo”. O desenvolvimento da crítica de cada uma delas permitirá precisar e integrar paulatinamente tais concepções de modo tal a deixar ver ao mesmo tempo quais podem ser os pontos positivos de referência.

Notas

[1] – H. Massis, Defense de l´Occident, Pais, 1927, pg. 245.

[2] – Ver nossa obra “Cavalgar o Tigre”.

[3] – Ver A. Shopenhauer, Parerga und Paralipomena, Ed. 1851.

[4] – Tem relação com esta postura o ensinamento budista segundo o qual os “deuses” (compreendidos como potências naturais) se querem obter a liberação, é preciso antes que passem ao estado humano, e que ali obtenham o “despertar”; com o qual vincula-se por sua vez o ensinamento hermético da superioridade do homem sobre os deuses como “senhor das duas naturezas”, mas também acerca do contínuo perigo no qual se encontra. Há que se notar – e à continuação o veremos de perto – que frente ao ideal da “liberação”, idêntico ao da completa realização do destino sobrenatural do homem, o conceito de “natureza” deve abarcar também os estados cósmicos e não-humanos, mas que se vinculam também eles ao mundo condicionado.

Texto retirado do “Mascara y Rostro del Espiritualismo Contemporáneo” (cap. I).

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