sábado, 30 de junho de 2012

O Estado futuro que nos ocupamos de construir


Por Jose Antonio Primo de Rivera

Nada de um parágrafo de agradecimentos. Brevemente, obrigado, como corresponde à concisão militar do nosso estilo.

Quando, em março de 1762, um homem nefasto, que se chamava Jean Jacques Rousseau, publicou “O Contrato Social”, a verdade política deixou de ser uma entidade permanente. Antes, em outras épocas mais profundas, os Estados eram executores de missões históricas, tinham escritos sobre suas frentes, e até mesmo sobre os astros, a justiça e a verdade. Jean Jacques Rousseau veio dizer-nos que a justiça e a verdade não eram categorias permanentes da razão, mas que ao invés disso, eram, em cada instante, decisões da vontade.

Jean Jacques Rousseau supunha que o conjunto de todos nós que vivemos em um povo, tem uma alma superior, de uma hierarquia diferente de cada uma de nossas almas, e que esta, por ser superior, estava dotada de uma vontade infalível, capaz de definir a cada instante o justo e o injusto, o bem e o mal. E como essa vontade coletiva, essa vontade soberana, só se expressa por meio do sufrágio, pressupõe-se que o “mais” triunfa sobre o “menos” [vontade coletiva de mais pessoas triunfa sobre a vontade coletiva de menos pessoas – NT], na advinhação desse vontade superior, vinha a resultar que o sufrágio - essa farsa de cédulazinhas que entram em uma urna de cristal – tinha a virtude de nos dizer, a cada instante, se Deus existia ou não existia, se a verdade era a verdade ou não era a verdade, se a Pátria deveria permanecer, ou se era melhor, que em um momento, se suicidasse.

Como o Estado Liberal foi um servidor dessa doutrina, veio a constituir-se, não em executor resolvido dos destinos pátrios, mas em espectador das lutas eleitorais. Para o Estado Liberal, somento era importante que nas mesas de votação se sentassem um determinado número de senhores; que as eleições começassem às as oito e acabassem às quatro; que as urnas não fossem quebradas – quando, serem quebradas é o destino mais nobre de todas as urnas -. Depois, respeitar tranquilamente o que saisse das urnas, como se a ele, nada mais importasse. É dizer que os os governantes liberais não acreditavam nem mesmo na sua própria missão; não acreditavam que eles mesmos estavam ali cumprindo um respeitável dever, mas que todo aquele que pensasse o contrário e se propusesse a tomar o Estado de assalto, por vias boas ou ruins, tivesse o mesmo direito de dizer ou tentar, que os guardiões do Estado tinham de defendê-lo.

Daí veio o sistema democrático, que é, em primeiro lugar, o mais ruinoso sistema de desperdício de energias. Um homem dotado para a altíssima função de governar – que é talvez a mais nobre das funções humanas – teria que dedicar oitenta, noventa ou até noventa e cinco por cento da sua energia para lidar com reclamações formulárias, para fazer propaganda eleitoral, cochilar nas cadeiras do Congresso, bajular os eleitores e aguentar suas impertinências – porque dos eleitores iria receber o poder -, suportar humilhações e vexames, dos que, pela função quase divina de governar, estava convocado a obedecer; e se depois de tudo isso, ainda restavam algumas míseras horas na madrugada, ou alguns minutos roubados de um descanso intranquilo, nesta mínima sobra seria quando o homem dotado para governar, poderia pensar seriamente nas funções substantivas do Governo.

Depois veio a perda da unidade espiritual dos povos, porque como o sistema funcionava sobre a realização das maiorias, todo aquele que aspirava ganhar o sistema, tería que procurar a maioria nos sufrágios. E teria que procurá-los, roubando, se fosse preciso, de outros partidos, e para ele, não deveria vacilar em caluniá-los, em despejar sobre eles as piores injúrias, em faltar deliberadamente com a verdade, em não desperdiçar uma chance sequer para mentir e degradar. E, sendo assim, a fraternidade – um dos postulados que o Estado Liberal nos mostrava em seu frontispício -, nunca houve uma situação da vida coletiva onde os homens injuriados, inimigos uns dos outros, se sentiram menos irmãos do que na vida turbulenta e desagradável do Estado Liberal. 

E por último, o Estado Liberal nos fez depararmo-nos com a escravidão econômica, porque aos trabalhadores, com trágico sarcasmo, era dito: “São livre para trabalhar no que quiserem, nada os pode forçar a aceitar umas ou outras condições, agora bem: como nós somos os ricos, oferecemos as condições que nos convêm, vocês, cidadãos livres, não estão obrigados a aceitá-las, mas vocês, cidadãos pobres, se não aceitarem as condições que nós impomos, morrerão de fome, rodeados da máxima dignidade liberal”. E assim, podem ver, nos países onde se têm os parlamentos mais brilhantes e instituições democráticas mais finas, não temos que nos distanciar mais de uns cem metros dos bairros luxuosos para encontrarmos favelas sujas e superlotadas onde moram os trabalhadores e suas famílias, no limite das condições quase subhumanas. E encontramos trabalhadores rurais que de sol a sol se sacrificam na terra, com as costas queimadas, e que ganham, no ano todo, graças ao livre jogo da economia liberal, setenta ou oitenta salários de três pesetas.

Por isso teve de nascer, e foi justo o seu nascimento (nós não escondemos nenhuma verdade), o Socialismo. Os trabalhadores tiveram que se defender contra aquele sistema, que só dava promessas de direitos, mas não cuidava de proporcionar-lhes uma vida justa.

Agora, o Socialismo –que foi uma reação legítima contra a escravidão liberal- veio a se desviar, primeiro, por sua interpretação materialista da vida e da História; segundo, por um sentimento de retaliação; terceiro, pela proclamação do dogma da luta de classes.

O socialismo, sobretudo o socialismo que construíram, impassíveis na frieza dos seus gabinetes, os apóstolos socialistas, em quem acreditam os trabalhadores pobres, e como nós já descobrimos - como era Alfonso Garcia Valdecasas-, o socialismo, assim entendido, não vê na história, mais do que um jogo de primaveras econômicas, o espiritual é excluído, a religião é o ópio do povo, o país é um mito para explorar os desgraçados. Tudo isso, quem disse foi o Socialismo. Não há nada além de produção, de organização econômica. Assim, os trabalhadores têm de torcer suas almas de modo que não haja dentro delas a menor gota de espiritualidade.

O Socialismo não aspira a reestabelecer uma justiça social destruída pelo mal funcionamento dos Estados Liberais, mas aspira apenas à represália; aspira a chegar à injustiça em graus muito maiores do que chegaram as injustiças dos sistemais liberais. 

Finalmente, o Socialismo proclama o dogma monstruoso da luta de classes; proclama o dogma de que as lutas entre classes são indispensáveis e se produzem naturalmente na vida, porque não pode haver nunca, nada que os aplaque. E o Socialismo, que veio a ser uma crítica justa ao liberalismo econômico, nos traslou por outro caminho, o mesmo que o liberalismo econômico: a desagregação, o ódio, a separação, o esquecimento de todo o vínculo de irmandade e de solidariedade entre os homens. 

Assim resulta que quando nós, os homens da nossa geração, abrimos os olhos, nos encontramos em um mundo em ruína moral, um mundo afudado em toda sorte de diferenças; e pelo que está perto de nós, nos encontramos em uma Espanha em ruína moral, uma Espanha dividida por todos os ódios, todas as lutas. E assim, nós temos tido de chorar do fundo da nossa alma quando recordávamos dos povos dessa Espanha maravilhosa, esses povos, que apesar da aparência tão humilde, se descobrem pessoas dotadas de uma elegância rústica, que não possuem um gesto excessivo ou uma palavra ociosa, gentes que vivem sobre uma terra seca em aparência, com secura exterior, mas que nos assombra como a fecundida estala no triunfo dos ramos de trigo. Quando lembrávamos dessas terras e víamos essas gentes, e sabíamos que são torturadas por pequenos caciques, esquecidas por todos os grupos, divididas, envenenadas por pregações tortuosas, tínhamos que pensar em todo esse povo, que é o mesmo que cantava a El Cid ao vê-lo vagando pelos campos de Castilla, banido de Burgos:
“¡Dios, qué buen vasallo si ovierá buen señor!” 

Isso veio a encontrar-nos no movimento que se inicia nesse dia: esse legítimo sonhar da Espanha; mas um homem como San Francisco de Borja, um homem que não morreu em nós. E para que não morramos, temos de ser um senhor que não seja, ao mesmo tempo, o escravo do interesse de grupos ou de um interesse de classes.

O movimento de hoje, não é de partidos, mas é um movimento, podemos dizer quase um anti-partido, deixe-o ser conhecido desde agora, não é de direita nem de esquerda. Porque no fundo, a direita é o desejo de manter uma organização econômica, mesmo que injusta, e a esquerda é, no fundo, o desejo de subverter uma organização económica, ainda que no processo, leve muitas coisas boas. Então é decorado por uns e por outros como uma série de considerações espirituais. Saibam, todos aqueles que nos escutam de boa-fé, que estas considerações espirituais cabem todas em nosso movimento; mas que nosso movimento nunca irá vincular seus destinos ao interesse de grupos ou ao interesse de classes, independente de estarem sob a divisão superficial de direita ou esquerda.

A Pátria é uma unidade total, que integra todos os indivíduos e todas as classes, a Pátria não pode estar nas mãos das classes mais fortes e nem do partido melhor organizado. A Patria é uma síntese transcendente, uma síntese indivisível, com seus próprios fins a cumprir, e o que nós queremos é que o movimento de hoje, e o Estado em que acreditamos, sejam um instrumento eficaz, autoritário, servindo uma unidade indiscutível, uma unidade permanente, uma unidade irrevogável que se chama Pátria. 

E com isso já temos todo motor de nossas ações futuras e da nossa conduta em mente, porque nós seríamos mais um partido que anunciaría um programa de soluções concretas. Tais programas têm a vantagem de que nunca se cumprem. Em vez disso, quando você tem uma sensação permanente ante a história e sobre a vida, esse próprio sentido nos dá as soluções diante do concreto, como o amor nos diz em que caso devemos lutar e em que caso devemos abraçar, sem que um verdadeiro amor tenha feito um mínimo programa de abraços e brigas.

É aqui que exige-se nosso sentido total da Pátria e do Estado que há de servir-la. 

Que todos os povos da Espanha, por diversos que sejam, se sintam harmonizados em uma irrevogável unidade de destino.

Que desapareçam os partidos políticos. Um membro de um partido político nunca fez nada; ao invés disso, nascemos todos membros de uma família; somos todos vizinhos de um Município; todos nos empenhamos no exercício de um trabalho. Porque, se estas são as nossas unidades naturais, se a família e os municípios e as corporaçãos é do que realmente vivemos, por que precisamos do instrumento intermediário e pernicioso dos partidos políticos, que para nos unir em grupos artificiais, começam por desunir-nos em nossas realidade verdadeiras?

Queremos menos verborragia liberal e mais respeito à liberdade profunda do homem. Porque só se respeita a liberdade do homem quando o estima, como nós o estimamos, portador de valores eternos; quando se estima a envoltura corporal de uma alma que é capaz de condenar-se ou de salvar-se. Somente quando se considera o homem desta maneira, é que pode-se dizer que realmente respeita a sua liberdade, e ainda mais, que essa liberdade é acoplada, como pretendemos, em um sistema de hierarquia, autoridade e ordem. 

Queremos que todos se sintam membros de uma comunidade séria e completa; isto é, dizer que as tarefas a realizar são muitas: alguns com o trabalho manual, outros com o trabalho do espírito, alguns com ensino de costumes e refinaentos. Mas em uma comunidade como a que pertencemos, deixa-se claro desde agora, não devem haver convidados e nem devem haver zangões. 

Não queremos que se proclamem direitos individuais que nunca poderão ser cumpridos na casa dos famintos, mas que se deem a todos os homens, a todos os membros da comunidade política, por um feito sério, uma meneira de se ganhar com o trabalho, uma vida humana, justa e digna. 

Queremos que o espírito religioso, chave dos melhores arcos da nossa história, seja respeitado e amparado como merece, sem que por isso o Estado interfira em funções que não são suas próprias e nem em parte, como fazia, talvez por outros interesses que não são os da verdadeira religião – que possui funções que pode realizar por si mesma-. 

Queremos que a Espanha recupere fortemente o sentido universal de sua cultura e de sua história.

E queremos, finalmente, que se em algum caso, isso precise se dar pela violência, que não nos detenhamos ante a violência. Porque – quem falou que “tudo menos a violência”, que a suprema hierarquia dos valores morais residem na amabilidade? -, quem disse que quando insultam nossos sentimentos, ao invés de reagirmos como homens, estamos obrigados a ser amáveis? Sim, o diálogo está como primeiro instrumento de comunicação. Mas não existe nenhum diálogo mais admissível que o diálogo dos punhos e das pistolas, quando se ofende a justiça ou a pátria. 

Isto é o que pensamos do Estado futuro que nós nos ocupamos de construir.

Mas nosso movimento não seria compreendido inteiramente se acreditar-se ser apenas uma maneira de pensar; não é uma maneira de pensar: é uma maneira de ser. Não devemos nos propor somente à construção, à arquitetura política. Temos que adotar, diante da vida inteira, em cada uma de nossas ações, uma atitude humana, profunda e completa. Esta atitude é o o Espírito de serviço e sacrifício, o sentido ascético e militar da vida. Assim, não imagine nunca que recrutamos aqui para oferecer privilégios. Quisera eu que este microfone que tenho aqui diante de mim, levasse minha voz até os últimos rincões onde se encontram os trabalhadores da nação, para dizer-lhes: Sim, nós usamos gravatas, sim, pode-se dizer que somos cavalheiros. Mas trazemos o espírito de luta, precisamente por aquilo que não nos interessa como cavalheiros.; viemos lutar porque a muitos de nossa classe, foram impostos sacrifícios duros e justos, e viemos lutar para que um Estado Totalitário alcance com os seus bens, da mesma maneira, tanto os poderosos, quanto os humildes. E somos assim, porque assim foram, durante toda a história da Espanha, os cavalheiros. Assim conseguiram alcançar a verdadeira hierarquia dos senhores, porque em terras distantes, e em nossa própria Pátria, souberam encarar a morte e assumir as missões mais difíceis, precisamente por eles, como cavalheiros, não importar mais nada.

Eu acredito que a bandeira está levantada. Agora vamos defendê-la alegremente, poéticamente. Porque há alguns frente à marcha da revolução, acreditam que para unir vontades, convem oferecer as soluções mais intensas, acreditam que deve-se cultar na propaganda o que podería despertar uma emoção ou assinalar uma atitude enérgica e extrema. Que equívoco! Nada há movido mais os povos do que os poetas, e ai daquele que não sabe se levantar diante da poesia que destrói, da poesia que promete!

Em um movimento poético, nos levataremos esse ardente desejo da Espanha; nós nos sacrificaremos; nós renunciaremos, e nosso será o triunfo – triunfo que, para que lhes dizer? Não vamos conquistar nas próximas eleições -. Nestas eleições, votem em quem lhes pareça menos mal. Mas nossa Espanha não sairá disso, e ali não nos enquadramos. Aquela é uma atmosfera escura, já cansada, como uma taverna ao fim de uma noite devassa. Lá não é o nosso lugar. Eu acredito sim que sou candidato; mas o sou sem fé e sem respeito. E digo isso agora, quando esses dizeres podem fazer com que me tirem todos os votos. Não me importo com nada disso. Nós vamos disputar os habituais restos moles de um banquete sujo. Nosso lugar está fora, mas talvez transitemos por dentro do outro. Nosso lugar está ao ar livre, debaixo da noite clara, arma em punhos, e ao alto, as estrelas. Que sigam os outros com as suas festivdades. Nós estamos de fora, em vigilância severa, fervorosa e segura, já pressentimos o amanhecer na alegria de nossas entranhas.

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