sábado, 16 de junho de 2012

Guillaume Faye - A Essência do Arcaísmo

por Guillaume Faye

"Do nosso império interior" por Dragoš Kalajić.

É provável que apenas após a catástrofe que derrubará a modernidade, sua saga mundial e sua ideologia global, uma visão alternativa do mundo necessariamente se imponha. Ninguém terá tido a capacidade de previsão e a coragem de aplicá-la antes da erupção do caos. É, então, nossa responsabilidade - nós que vivemos, como Giorgi Locchi diz, no interregnum - preparar, desse momento em diante, uma concepção pós-catastrófica do mundo. Ela pode ser centrada no arqueofuturismo. Mas nós devemos dar conteúdo a esse conceito.

É necessário, primeiro, retornar a palavra "arcaico" a seu verdadeiro significado, o qual, em seu étimo grego archê, é positivo e não pejorativo, significando tanto "fundação" como "começo" - isto é, "ímpeto fundador". Archê também significa "aquilo que é criativo e imutável" e se refere ao conceito central de "ordem". Atender ao "archaico" não implica uma nostalgia retroativa, pois o passado produziu a modernidade igualitária, a qual atolou, e assim qualquer regressão histórica seria absurda. É a própria modernidade que agora pertence a uma era passada. 

Seria o "arcaísmo" uma forma de tradicionalismo? Sim e não. O tradicionalismo advoga a transmissão de valores e, corretamente, combate as doutrinas da tabula rasa. Mas tudo depende de que tradições são transmitidas. Nem toda tradição é aceitável - por exemplo, nós rejeitamos aquelas das ideologias universalistas e igualitárias ou aquelas que são fixas, ossificadas, desmotivadoras. É certamente preferível distinguir entre várias tradições (valores transmitidos) aquelas que são positivas e aquelas que são negativas.

As questões que perturbam o mundo contemporâneo e ameaçam a modernidade igualitária com catástrofe já são arcaicas: o desafio religioso do Islã; disputas geopolíticas por recursos escassos, terra agrícola, petróleo, pesca; o conflito norte-sul e a imigração colonizadora para o hemisfério norte; a poluição global e o choque físico da realidade empírica contra a ideologia do desenvolvimento. Todas essas questões nos lançam de volta em questões já de muito tempo, consignando ao esquecimento os debates políticos quase teológicos dos séculos XIX e XX, que eram pouco mais do que verborragia inútil sobre o sexo dos anjos.

Ademais, como o filósofo Raymond Ruyer, detestado pela intelligentsia esquerdista, previu em suas duas importantes obras, Les nuisances idéologiques e Les cents prochains siècles, uma vez que a digressão histórica dos séculos XIX e XX haja finalmente encerrado, com as alucinações do igualitarismo tendo descendido até a catástrofe, a humanidade retornará a valores arcaicos, isto é, bastante simplesmente, a valores biológicos e humanos (antropológicos): papéis sexuais distintos; transmissão de tradições étnicas e populares; espiritualidade e organização sacerdotal; hierarquias sociais visíveis e supervisórias; adoração dos ancestrais; ritos e testes iniciatórios; reconstrução de comunidades orgânicas que se estendem da unidade familiar individual à comunidade nacional do povo; a desindividualização do casamento para envolver a comunidade tanto quanto o casal; o fim da confusão entre erotismo e conjugalidade; o prestígio da casta guerreira; a desigualdade social, não implícita, que é injusta e frustrante, como nas utopias igualitárias atuais, mas explícita e ideologicamente justificável; um equilíbrio proporcional de deveres e direitos; uma justiça rigorosa cujos ditadors são aplicados estritamente a atos e não a indivíduos, o que encorajará um senso de responsabilidade nestes; uma definição do povo e de qualquer corpo social constituído como uma comunidade diacrônica de destino compartilhado, e não como uma massa sincrônica de átomos individuais, etc.

Em resumo, os séculos futuros, no grande movimento pendular da história que Nietzsche chamou de "eterno retorno do mesmo", irão de algum modo revisitar estes valores arcaicos. O problema para nós, para europeus, não é, pela covardia, permitir que o Islã os imponha sobre nós, um processo que está ocorrendo subrepticiamente, mas reimpo-los sobre nós mesmos, enquanto nos baseamos em nossa memória histórica.

Recentemente, um importante barão midiático francês - o qual eu não posso nomear, mas que é conhecido por suas simpatias esquerdo-liberais - me fez, em essência, o seguinte comentário desiludido: "Os valores econômicos do livre-mercado estão gradualmente perdendo para os valores islâmicos, porque eles são exclusivamente baseados no lucro econômico individual, o que é inumano e efêmero". Nossa tarefa é garantir que o retorno inevitável à realidade não nos seja imposto pelo Islã.

Obviamente, a ideologia contemporânea, hegemônica hoje mas não por muito tempo, considera estes valores como diabólicos, tanto quanto um louco paranóico possa ver os traços de um demônio no psiquiatra tentando curá-lo. Em realidade, estes são os valores da justiça. Verdadeiros à natureza humana desde tempos imemoriais, estes valores arcaicos rejeitam o erro iluminista da emancipação do indivíduo, que apenas acabou no isolamento desse indivíduo e em barbarismo social. Estes valores arcaicos são justos, no sentido grego antigo do termo, porque eles tomam o homem pelo que ele é, um zoon politikon ("um animal social e orgânico integrado em uma cidade-estado comunitária"), e não pelo que ele não é, um átomo isolado e assexual imbuído com pseudo-direitos universais porém imprescritíveis.

Em termos práticos, os valores anti-individualistas do arcaísmo permitem a auto-realização, a solidariedade ativa e a paz social, diferentemente do individualismo pseudo-emancipatório do igualitarismo, que acaba na lei da selva.

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