quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um Estilo de Vida para a Casta dos Guerreiros

por Julián Ramirez



No nº11 do El Fortín nos referíamos à necessidade de reconstruir a casta dos guerreiros e às considerações ali vertidas nos remetemos. Nessa breve nota exporemos algumas idéias relativas às pautas gerais que apontem ao estilo de vida dos guerreiros.

A TRADIÇÃO

Não falamos de um estilo de vida novo. A essa altura da frenética e agitada degradação geral todo o novo não faz senão aprofundar a queda desse mundo. Há que recuperar as antigas normas e condutas hoje totalmente esquecidas. Tradição sim, novidades não.

E quando dizemos Tradição, tal conceito não se deve confundir com o utilizado pelos grupos católicos tradicionais os quais são tradicionalistas pela metade, ou menos que pela metade, nem muito menos com os círculos tradicionalistas folclóricos. Por Tradição entendemos a primazia do transcendente e do espiritual, em total oposição ao mundo moderno, intranscendente e materialista. Nos referimos a uma Tradição primordial, que pode se rastrear em todas as antigas civilizações, e nas quais as religiões não são senão manifestações parciais.

POSSIBILIDADE DE CRIAR UM ESPÍRITO IMORTAL

Julius Evola em "Homens Entre as Ruínas" diz: "É necessário sentir como evidente que, mais além da vida terrestre, há uma vida mais alta, porque somente quem sente assim dispõe de uma força intangível e imbatível..."

Quer dizer, a casta dos guerreiros não pode reconstruir com base em indivíduos entregues a uma vida intranscendente, materialista, burguesa e consumista, que se lembrem do mais além quando estejam próximos à morte, ou quando cumprem - alguns deles - com a missa dominical, ou com cerimônicas tais como o batismo ou o casamento.

O mais além, o sagrado, o transcendente, devem estar presentes em todos os atos dessa vida, devem impregnar cada conduta e decisão, devem ser assumidos como uma realidade, mais real que a sensível e que a científica.

Sem uma firma crença na possibilidade da imortalidade do espírito, salvando assim a alma, não pode haver guerreiros no sentido tradicional, ao contrário só haverá desesperados e românticos extraviados por algum mito moderno.

AUSTERIDADE E SOBRIEDADE

A vida de um guerreiro é incompatível com o supérfluo e com a abundância consumista. O correr todo o dia desesperadamente atrás de consumos desnecessários, levando uma vida de apuro e de agitação, de correrias e superativismo, impede de dedicar tempo ao que é superior. Certamente que não nos referimos aos milhões de argentinos que suportam extremas necessidades materiais, porém, como expressa Julius Evola na obra supracitada: "Porém também individualmente as qualidades que em um homem valem mais e que o tornam verdadeiramente tal muitas vezes se despertam em um clima duro, inclusive de indigência e de injustiça, de modo tal que se convertem em um desafio, e com o qual ele é colocado espiritualmente a prova".



DESAPEGO

A casta dos guerreiros deve praticar ativamente o desapego em relação ao mundo moderno. Com isso não queremos dizer que se deve estar apartado do quotidiano, sem se comprometer com ele o menos possível. Calma, impassibilidade, frieza, não compromisso com o contingente e passageiro, não se deixar dominar por paixões e emoções, ainda que se as tenha, estar no mundo sem se deixar enganar por ele.

NÃO EMPREENDER AÇÕES PARCIAIS

O mundo moderno chegou a tal grau de materialismo, degradação e decadência, que já é impossível conseguir uma reação tradicional a partir de algum componente do mesmo. As reações parciais que se tentam a única coisa que conseguirão será prolongar a agonia e dar armas à subversão globalizadora. A última tentativa de resgatar certos aspectos tradicionais da civilização ocidental foi derrotada na Segunda Guerra Mundial. Desde então a mundialização materialista avança como uma aplanadora incontível, derrubando Estados nacionais, instituições tradicionais e religiões.

Não nos coloquemos, pois, em seu caminho. Deixemos que a avalanche desça da montanha e cumpra seu destino. Fazê-lo seria como tratar de deter um rio que já cai pela catarata. Entretanto a casta dos guerreiros em silêncio seguirá afiando as espadas.

ESTRATÉGIA SEM TEMPO

A estratégia da casta dos guerreiros não tem um tempo dentro do qual devam inexoravelmente se cumprir certos fatos. Essa é a concepção moderna do tempo. O homem atual considera o tempo como algo vazio que a cada momento deve ser preenchido com sua ação agitada, frenética, carente de reflexão, com seu superativismo que beira o irracional.

"Não tenho tempo", "estou com pressa", são frases que escutamos todos os dias e que assinalam uma forma de vida que conduz ao sub-humano, à enfermidade física e moral.

A casta dos guerreiros ao contrário não se submete a essa concepção do tempo. Tem seu próprio ritmo que se desenvolve não no tempo de instantes que se sucedem sincronicamente, senão no cumprimento de etapas cuja aceleração ou desaceleração dependerá da maior ou menor decadência da modernidade em seu colapso inevitável.

No "Martín Fierro" se diz: "O tempo somente é tardança do que está por vir". Para a casta do guerreiros o que está por vir é seu próprio atuar.

NÃO COLABORAR. RESISTÊNCIA

Deve-se negar e rechaçar toda colaboração com autoridades estatais, com partidos políticos e com instituições do mundo moderno. Fazê-lo seria cair em uma armadilha pois essa colaboração outorga a eles apoio, cria falsas ilusões e expectativas.

Esse perigo atinge a muitos em épocas eleitorais como a atual. Há que combater a teoria do "mal menor". O mal não se combate com outro mal senão com o melhor e superior.

Existe em nosso povo uma inclinação ao facilismo, a crença de que as coisas podem mudar e melhorar sem esforço, que se podem mitigar muitos males sem eliminá-los pela raiz.

É tarefa da casta dos guerreiros combater essas tendências para assim agrupar os melhores. A esperança nasecrá quando se perca a última ilusão.

O PERIGO DO ECONOMICISMO

A casta dos guerreiros deve evitar muitos perigos. Pela brevidade da nota agora nos referiremos apenas a um deles. Se trata daquela sugestão progressista, humanitária, populista, marxista ou liberal, que se refere a "que antes se tem que pensar em satisfazer as necessidades materiais, dando o necessário a todos (e também o supérfluo), antes há que fazer progredir a investigação científica, antes se tem que resolver todos os problemas que se apresentem e se apresentarão ao homem, relativos à existência física, ao mundo e ao futuro e depois, porém muito depois, se poderá pensar nos problemas do Espírito" (A Magia como Ciência do Espírito).

Na mesma obra "se reclama em efeito a quem se faça disponível para uma ação de reconstrução tradicional que supere o preconceito materialista, habilmente insinuado pela subversão também na alma dos melhores". As forças modernas pretendem fazer crer que para a obra de expansão de uma Idéia são "necessários ingentes meios econômicos, propagandísticos, etc. Isso é falso, enquanto é a própria potência da Idéia a que conclui conferindo aos que são seus portadores aquela Fortuna, em sentido romano, que necessariamente concluirá pondo a seu serviço também os instrumentos materiais de expansão".

E tudo isso vem a conta por aquele dito de "prima mangiare, dopo filosofare", que condiciona os guerreiros a ficarem determinados pelos inimigos e totalmente limitados em suas possibilidades.

AÇÃO IMPESSOAL E DESCONDICIONADA

A ação dos guerreiros deve se distinguir da "ação" como vulgarmente se entende. Essa última é um atuar interessado, em benefício do indivíduo, com objetivos únicamente materiais. Quer dizer, é condicionado, não livre.

A ação dos guerreiros por sua vez é impessoal, mais além do indivíduo, quer dizer, livre, sem condicionamentos. Ação produto de um espírito esquivo, implacável, sem ataduras com emoções, nem mitos terrenos, e que vai mais além do êxito ou da derrota temporal, porém isso sim, sempre transcende no plano eterno.

GRANDE GUERRA E PEQUENA GUERRA SANTA

Na tradição islâmica se fala da grande guerra santa e da pequena guerra santa. A grande guerra santa é a interior, na qual por um processo de ascese se tenta dobrar o inimigo interior que todos levamos dentro. Uma vez logrado isso, a pequena guerra santa contra o inimigo exterior resulta triunfante.

Essa idéia deve ser uma das fundamentais da casta dos guerreiros. Uma grande fortaleza espiritual, conquistada à força de constância, valentia, decisão e vontade, será a base para a reconstrução.

Os que tentem o difícil porém não impossível caminho, não temam se encontrar sozinhos porque logo conhecerão outros que seguem a mesma senda, e em última instância, um homem forte nunca o é tanto do que quando está em solidão.

ORGANIZAÇÃO PARA POUCOS

A casta dos guerreiros, com os lineamentos que antecedem, é para poucos. "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos", ainda que nesse caso há que sentir profundamente que um escolhe a si mesmo, por sua própria dignidade e honra. Minoria de minorias como foi ao longo de toda a história, porém minoria possuidora de uma qualidade superior e de um atuar transcendente, para assim deitar as bases de um Estado fundado em princípios sagrados.

Um milhão de ignorantes não fazem um sábio. Um milhão de votos não fazem um guerreiro.

O espírito aristocrático da mais primordial tradição da humanidade, a antidemocracia, a hierarquia, o reconhecimento das desigualdades, a honra, a valentia e a firme convicção de saber para quê se vive e, chegado o caso, para quê vale a pena morrer, serão as normas.

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