sexta-feira, 18 de maio de 2012

O problema da natalidade


 por Julius Evola

Entre os fatores da desordem e da crise dos tempos modernos, além daqueles causados por processo de subversão que não podem ser considerados como espontâneos, há outros inquestionáveis que têm um caráter natural e que causam estragos somente porque não é montada uma resistência contra eles. Um fator particularmente importante desse tipo é o crescimento da população mundial. Não há dúvida de que se fosse possível reduzir a densidade populacional para a de três séculos atrás, enquanto ainda retendo o grau de civilização material, os problemas sociais e econômicos que afligem a população mundial nos dias de hoje seriam basicamente irrelevantes. No caso, eliminaríamos, por grande parte, situações que forças revolucionárias exploram para sua vantagem; poderíamos liderar em direção a um abrandamento e a um descongestionamento que limitaria todo frenesi ativista (os primeiros dentre eles, aqueles que pertencem a um poder global de economia) e fortemente propiciar um retorno à normalidade, graças a um espaço novo, mais amplo, e mais livre.

Entretanto, é bem sabido que estamos procedendo na direção oposta em passo acelerado. O alarme que foi lançado no passado, com o choro “as raças estão morrendo”, se tornou falso. Nem mesmo as destruições de uma guerra “total”, que não foram poupadas nem cidades indefesas, nem mulheres e crianças, foram capazes de parar o crescimento mundial, mesmo nos países da Europa Central (com exceção da Itália), em comparação às condições de pré-guerra. É como estar em frente a uma avalanche que, se continuamente ganha chão, cresce irresistivelmente, exacerbando todo tipo de crise e desordem; não podemos ajudar, mas rejeitar a idéia de que isso não é uma questão fatal, e de que os humanos facilmente poderiam controlar. O que temos aqui é um caso de desproporção que existe no povo moderno Ocidental, entre o controle do domínio externo e o do domínio interno. Forças elementares da natureza são controladas pela tecnologia, então poderiam servir desejos humanos, ou então para prevenir de ser prejudicial; e ainda nada é feito em relação à explosão populacional, porque então o homem teria que agir sobre si mesmo, sobre seus preconceitos e instintos. O homem moderno está cada vez mais perdendo sua vocação, e o único domínio que ele pode ostentar é o controle efêmero que exerce na questão.

É bem sabido também que o perigo da superpopulação foi advertido por Malthus, no último século. Entretanto, seu ponto inicial foi totalmente materialista, e só relativamente consistente. Em qualquer caso, não é o único que eu considero como decisivo para o problema final ou para a solução do problema. O problema real não é, como Malthus acreditava, que os meios de subsistência e fornecimento de alimento possam se tornar insuficientes para uma população mundial totalmente aumentada. Considerando todas as medidas que poderiam ser tomadas antes que chegássemos a tal situação, esse perigo ocorreria somente em um diagrama futuro. Antes de chegar a esse ponto, muitas coisas indesejáveis poderiam ocorrer que não fossem consideradas pelos zelosos apóstolos do contínuo e ininterrupto progresso. Ainda considerando somente o plano material, a crise causada por superpopulação na nossa era e no futuro aparece em termos diferentes. Superpopulação intensifica o problema de como empregar força de trabalho; isso também, inviavelmente, intensifica o processo de produção, que por sua vez, devido ao seu determinismo, fortifica a natureza demoníaca da economia. O resultado é uma crescente escravização do indivíduo e a redução do espaço livre e de qualquer movimento autônomo nas cidades modernas, enxameando como todavia na putrefação com seres sem rostos de “civilização em massa”. Esse é o aspecto mais importante do problema.

Sombart corretamente viu que a diminuição da população seria um dos poucos meios de dar um golpe mortal ao alto capitalismo (que ele comparou a um gigante selvagem e destrutivo) sem proceder com modificações desastrosas em toda instituição socioeconômica. Sombart acreditava que era para isso que rumávamos. Entretanto, o decorrente, depois de uma pequena baixa, continuou a fluir na direção oposta; assim, as perspectivas acima mencionadas são as que o futuro próximo tem reservado para nós, a não ser que decidimos reagir.

Para uma adequada reação, precisamos, acima de tudo, limpar o caminho dos erros e preconceitos que ainda promove uma atitude passiva em relação à praga sobre a população.

No domínio político, precisamos tomar um suporte contra o mito expresso na fórmula: “Há poder em números”. Tentar estabelecer uma política imperialista e uma campanha demográfica foi um dos sérios erros da ideologia fascista que deve ser denunciada sem hesitação. O poder do número é o poder das meras massas brutas; esse poder, é, em si mesmo, muito relativo, porque até mesmo rebanhos precisam ser guiados. Todo império verdadeiro nasceu de uma raça de conquistadores que conquistaram terras e povos, não porque eles sofriam de superpopulação ou deixavam de ter “um local sob o sol”, mas na base de uma chamada e de uma qualificação maior, que os permitiam reinar como minoria em terras estrangeiras. Foi um impulso resultado de uma superpopulação complexa e intolerável que liderou os romanos, aquemênidas, francos, espanhóis, tropas pré-islâmicas, e os britânicos de outrora a conquistar? Além disso, quando consideramos a fase na qual o domínio material é integrado por fatores espirituais, uma ênfase ainda maior deveria ser dada a fatores que não podem ser reduzidos à meros números e ao domínio dos números.

Há mais para falar em relação a problemas interiores de um povo. Onde quer que o crescimento demográfico indiscriminado é promovido ou permitido sem ser desafiado, podemos esperar os efeitos prejudiciais da lei da seleção natural. O fato é que as raças inferiores e o estrato social inferior são os mais prolíficos. Dessa forma, podemos dizer que enquanto o número dos elementos mais diferenciados superiores cresce em proporção aritmética, o número dos elementos inferiores cresce em proporção geométrica, resulta uma involução fatal da raça humana. O colapso e a desintegração dos grandes organismos imperiais ocorreu mais frequentemente por tal razão: se fosse devido ao curso baixo, por causa de uma expansão monstruosa da base constituída pelos promíscuos ou pelo elemento “proletário”.  Deveríamos relembrar aqui que o termo proletário vem das proles latinas e sugere a idéia de fertilidade animalesca. Como Mereshkovski corretamente notou, esse termo foi aplicado àqueles que o único diferencial criativo que possuíam era a geração de crianças – foram homens em corpo, mas eunucos em espírito. Na sua revelação lógica, essa tendência leva à tal sociedade “ideal” em que não haveria mais classes, nem homem nem mulher, mas camaradas, ou unidades assexuadas pertencendo a um mesmo formigueiro.

Politicamente falando, a explosão demográfica é condenada a criar uma congestão que por sua vez produz soluções internacionais críticas, resultando em guerras que não podem ser justificadas por qualquer idéia maior: aqui a mera quantidade e condição de uma “nação proletária” não corresponde a um direito ou a uma idéia. Em relação a soluções militares, deveríamos também manter em mente que a importância do fator numérico tem se tornado relativo devido ao aumento da natureza técnica das recentes guerras. À parte d aguerra, a população sobrecarregada pode somente liderar alguns países a pedir espaço entre outros povos como uma exportação emigratória de “mão de obra barata” que são eventualmente destinados a perder sua identidade e a se tornar disperso entre outros povos. Como a congestão continua, os efeitos fatais serão crises internas e tensões sociais representando o maná do céu para os líderes da subversão marxista.

Novamente, se pode ver consequências negativas vindas de uma população indiscriminada aumentando (como eu disse, esse aumento resulta em uma superioridade numérica do inferior, estrato “proletário”) quando um regime democrático está no poder: em uma democracia são os números que asseguram o poder, através do “sufrágio universal”, destruindo os limites pelos quais, em outros regimes, o crescimento numérico da “base” não concernia a minoria ou a elite que foi o controle das posições-chaves no Estado.

Depois dessas considerações de uma ordem política, eu farei alguns comentários sobre os prejuízos de uma natureza religiosa e burguesa que evita o controle da natalidade.

A religião Católica abraçou o princípio bíblico concernindo à multiplicação da espécie humana. Este é um dos casos no qual a Igreja concedeu um valor ético em coisas que tem somente um valor prático, relativo, que é bastante desatualizado nos dias de hoje. O preceito judeu foi justificado somente considerando as condições patriarcais das tribos antigas judaicas, compostas por agricultores e pastores, nas quais (como ainda acontece hoje nessas poucas áreas rurais onde situações análogas são encontradas) uma descendência abundante era considerado desejável e providente por causa da necessidade de corpos hábeis. Tudo isso não tem nada que ver com religião ou ética. De um ponto de vista específico – a do ascetismo – é possível condenar os prazeres do sexo em geral, como foi no caso da tradição asceta original cristã. Mas na vida habitual, e em geral, onde quer que haja vocações não ascéticas é extremamente irracional legitimar e santificar união sexual e casamento somente quando estão hábeis para procriar, declarando serem pecaminosos em toda outra instância. Para proposições práticas, o que significa que a perspectiva religiosa aqui aprova e ainda encoraja a expressão de um instinto que é o mais primitivo e animalesco? Concepção essencialmente implica um estado de completo abandono do homem à paixão sexual, assim como um dos meios mais naturais para evitar concepção implica uma certa renúncia, predominância de poder, e auto-controle, frente-a-frente, o impulso mais primitivo do instinto e desejo. Em outro caso fora de sexo, a Igreja presa e formalmente aprova a última disposição – que é a predominância do intelecto e poder sobre os impulsos dos sensos. Mas quando vem a união sexual, porque estupidamente mantém o preceito desatualizado da lei judaica, ou tampouco  de hipocrisia ou de um ódio teológico do sexo per si, a moralidade católica aprovou a atitude oposta: a atitude daqueles que passivamente estão no “gênio da espécie” do Schopenhauer, através de acoplamentos que são realmente more ferarum [depois do comportamento de bestas].

Deixem-me repetir: eu poderia entender o preceito do celibato e castidade e a total condenação dos prazeres do sexo e do uso da mulher do ponto de vista de uma moralidade asceta com objetivos sobrenaturais. Entretanto, é incompreensível aprovar o uso da mulher e da sexualidade somente para a procriação, como corresponde a degradar toda relação entre o sexo a um nível animal. Ainda um libertino, que eleva o prazer à arte (sem mencionar um certo “Dionisismo” que na antiguidade teve uma sanção religiosa), é indubitavelmente superior àqueles que seguem o pensamento católico ao pé da letra.

Entretanto, parece que a Igreja tem recentemente sendo tentada a fazer algumas concessões. Enquanto a preocupação do Vaticano de manter com o tempo teve várias consequências depreciáveis, podemos ainda reconhecer como algo positivo o reconhecimento explícito do Conselho de que não a procriação, mas o “amor” como um bem, poderia ser o fundamento legítimo do casamento. Além disso, tendências revisionistas ganharam momentum ainda em relação ao “controle da natalidade”: atualmente, a questão para a Igreja não é o controle de natalidade, mas se os métodos empregados são ou não legítimos. Entretanto, necessitamos somente olhar às reações do filósofo católico Gabriel Marcel, quem escreveu com indignação sobre as medidas para limitar o nascimento como “blasfêmias contra a Vida”, com fins de realizar a persistência tenaz dos prejuízos entre católicos ainda fora da doutrina oficial.

Além dos prejuízos religiosos, a posição anti-controle-de-natalidade deriva de uma mentalidade na qual uma grande função é posta por slogans e sentimentos convencionais, marcadas por uma grande gradação de hipocrisia e mentiras. Por instância, há retóricas burguesas sem sentido sobre crianças, o culto da criança, e o desejo em ter crianças. Na grande maioria dos casos, não é verdadeiro que crianças são desejáveis e são a principal razão do porque um homem e uma mulher se casam. Crianças simplesmente vêm. Uma votação tomada na Europa Central rendeu estes resultados: dos entrevistados, 45 por cento nunca realmente tiveram pensado em ter crianças ou não quando se tornaram casados; 30 por cento disseram que não queriam; somente 25 por cento expressamente queriam ter algumas.

Tanto quanto um movimento revolucionário-conservador se preocupa, há uma necessidade para homens que são livres desses pensamentos burgueses. Esses homens, adotando uma atitude de comprometimento militante e absoluto, deveriam estar prontos para qualquer coisa e quase sentir que criar uma família é uma “traição”; esses homens deveriam viver sine impedimentis, sem qualquer laços ou limites para suas liberdades. No passado houveram Ordens seculares nas quais o celibato era regra. Deveríamos também apreciar a validade do dictum de Nietzsche: “O homem deveria ser treinado para a guerra e a mulher para a recreação (ou para o descanso, Erholung) do guerreiro: tudo além disso é loucura!”. Em qualquer evento, o ideal da “sociedade guerreira” obviamente não pode ser o ideal pequeno-burguês e paroquial do “casa e crianças”; pelo contrário, acredito que no domínio pessoal o direito a um amplo grau de liberdade sexual para esses homens deveria ser reconhecido, contra o moralismo, conformismo social, e “heroísmo de chinelos”.

Deveríamos considerar mais uma coisa. Sem sucessores, essa elite começaria e terminaria sem deixar nada para a posteridade: pareceria somente natural que deveria ter cuidado ao criar prole, e através da própria propagação trabalhar tanto quanto seja possível contra o ameaçador crescimento do estrato social inferior. Tenho muitas reservas quanto a essa idéia. Antes de tudo, o exemplo daquelas ordens religiosas de séculos antigos que abraçaram o celibato sugerem que a continuidade pode ser assegurada com outras procriações que não sejam físicas. Além daqueles que deveriam ser disponíveis como tropas de choque, seria certamente auspicioso formar um segundo grupo que asseguraria a continuidade hereditária de uma escolhida e protegida elite, como a contrapartida da transmissão de uma tradição e cosmovisão político-espiritual: a nobreza antiga foi um exemplo disso. Mas buscar esse objetivo hoje seria utópico, e corresponderia a fechar os olhos para a realidade, falhando em considerar as condições gerais sociais e existenciais que são agora prevalentes. Nesse contexto, seria possível começar a aventura da paternidade, onde algo do significado e dignidade da paternidade pode subsistir na família moderna, tornando certo primeiro, entretanto, através de um exame profundo da consciência de alguém, que o objetivo maior não é um pretexto para desencadear a incontinência procriativa de alguém. É óbvio que, em qualquer evento, em uma família que não é inspirada pelo modelo tradicional “romano”, há pouca esperança de exercitar uma influência formativa nos seus descendentes; essa necessária contrapartida, que é quase inexistente, é muito difícil para realizar no Oeste.

Mas ainda na melhor hipótese, não podemos racionalmente esperar competir na fertilidade com o estrato mais baixo para contê-los: não importa o quanto tentamos, e sempre assumindo que a descendência herda mais que o sangue, nunca será possível contrabalançar o crescimento geográfico dos estratos inferiores. Outros meios deveriam também ser empregados: a eliminação do sistema democrático e igualitário sendo o primeiro, necessária pressuposição. Outros meios seriam a adoção de uma atitude adequada em relação ao chamado Terceiro Mundo.

As tradições antigas indo-européias consideraram a procriação de um filho como um “dever” (em geral, a norma não se aplicava àqueles que seguiam uma chamada asceta): porque disso, o primogênito era chamado de “filho do dever”, em distinção de qualquer criança subsequente. Isso vai sem dizer que um preceito análogo produziria automaticamente a direção descendente desejável na curva demográfica, enquanto salvaguarda o princípio da linhagem patrilinear e que nisto pode ainda ser resgatado.

Tendo discutido o grupo que deveria permanecer livre de todos títulos, a o segundo grupo que tenta, procriando, formar uma posteridade, e assim para suprir a base biológica para um legado espiritual e a estrutura de uma Ordem, deveríamos agora considerar algo mais. Ao falar sobre a grande maioria de nossos contemporâneos, é absolutamente irresponsável, considerando as consequências coletivas que resultam disso, gerar outros seres que repetirão a mesma inconsistência, o mesmo vazio de uma vida sem qualquer significado real; em outras palavras, é absolutamente irresponsável alimentar a avalanche ameaçadora do mundo amorfo da quantidade somente porque se é passivo em relação à parte natural dele mesmo e em relação ao estímulo sexual mais primitivo, ou porque se é escravizado a prejuízos. A verdade é, portanto, o oposto do que é alegado por aqueles que acusam pessoas que recusam procriação de egoísmo e de individualismo: é o primeiro a pensar apenas neles mesmos, sem pensar sobre a contribuição que eles inconscientemente fazem para a desordem geral; portanto, fundamentalmente essas pessoas não mais pensam neles mesmos, a exceção de uma maneira obtusa e imediata. Ao considerar os efeitos da praga da superpopulação, pode-se facilmente dizer “eles tiveram o que desejaram”, exceto quando as consequências também afetam aqueles que não seguem o rebanho. Assim, seria desejável para o Estado tomar medidas rigorosas, sistemáticas, profiláticas, repressivas, e encorajadoras, a seu respeito, apesar do fato que em outra situação tais intervenções em domínio privado são intrusivas e opressivas (como foi a situação com a absurda “campanha para o crescimento populacional” durante a era fascista). De minha parte, penso que nunca se pode tencionar intensamente a necessidade de uma política anti-demográfica, especialmente porque, devido a uma inibição interior encontrada entre meios qualificados, não é possível ver as contribuições numerosas e pesadas, seja direto ou indireto, que o crescimento na população tem feito e ainda faz à crise de morte do mundo moderno.

Dessa forma, em um novo movimento, a orientação anti-demográfica necessariamente fará parte de uma luta global contra o mundo da quantidade e contra os já mencionados processos de contra-seleção. No contexto de um Estado real, em épocas modernas, a tarefa será dupla: conter a cancerígena proliferação de uma massa promíscua sem rosto e realizar as pressuposições pela nucleação e consolidação de um stratum no qual algumas qualificações são estabilizadas assim como tornar alguns indivíduos dignos e capazes de reter poder. Em tudo isto, a necessidade por um equilíbrio ou por um limite é suprema, não apenas na luta contra o poder global da economia, desde que essas duas coisas, como eu tenho sugerido, são complementares.

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