domingo, 4 de março de 2012

Alan Carlos Ghedini - Richard Wagner na Formação do Orgulho Alemão

por Alan Carlos Ghedini


Em fins do século XIX, quando países como França e Inglaterra já estavam há muito consolidados na forma de estados nacionais, a Alemanha não era mais que um amontoado de principados e ducados independentes e sem uma unificação administrativa. É nesse cenário que surge o músico Wilhelm Richard Wagner (1813-1883).

Nascido na pequena cidade de Leipzig e falecido em Veneza, Wagner representou em sua música toda a formação de um novo orgulho nacional alemão. Sua obra, sempre baseada em contos de uma Alemanha mítica e predestinada à glória, insuflou o espírito alemão de tal forma que colaborou na geração de uma forte onda nacionalista. Prova disso foi que, quando da unificação alemã por volta de 1871, Wagner tornou-se um símbolo, uma figura quase mítica no reich de Otto Von Bismark e da dinastia dos Hohenzollern.

O presente trabalho tem por objetivo apresentar as obras de Wagner analisadas no contexto da formação da Kultur alemã, ou seja, da geração de uma cultura regional e germânica capaz de promover a unificação da nação antes da formação do próprio estado.

A presença de Wagner na formação do orgulho nacional alemão parece bastante relevante. Não foi por acaso que, por exemplo, o termo Führer, usado por Adolf Hitler, tenha sido extraído de um trecho da ópera Lohengrin, onde consta o diálogo “Zum Führer sei er euch ernannt”(Aceitem-no como seu líder).

Assim, vamos analisar, aqui, a influência da obra wagneriana no nacionalismo alemão e suas implicações na formação da identidade nacional alemã, apresentando elementos que apontam na direção de uma nazificação da obra do mestre durante o regime. Evidentemente este estudo não pretende ser conclusivo, mas procura evidenciar a ligação entre ópera, cultura e nação através da fabulosa obra de Richard Wagner.

Ópera, cultura e nação: Richard Wagner na formação do orgulho nacional alemão

O grande general prussiano Karl von Claussewitz, autor do célebre tratado militar “Da Guerra”, disse acerca de sua terra natal: “A Prússia não é um país que possui um exército, é um exército que possui um país”. Pois bem, foi justamente sob a liderança desta belicosa e intrigante nação que a Alemanha alcançou em 1871 sua unificação política, após vencer a França de Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana.

A unificação e a formação do orgulho nacional alemão não decorrera tão somente das artimanhas de Otto Von Bismark, conhecido como o “Junkerlouco”, ou dos desejos pangermanistas do Kaiser Wilhelm I Hohenzollern. Tudo o que a Alemanha representou, sobretudo entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, foi reflexo da busca pela formação de uma cultura genuinamente alemã, que fosse capaz de unificar o povo antes mesmo da unificação do estado. Estamos tratando aqui da Kultur alemã.

Diferentemente da concepção universalista de cultura, proposta pela França, a Alemanha vai buscar na regionalização e nos costumes locais a sua cultura nacional. Segundo Herder em seu texto acerca do “gênio nacional de cada povo” (Volksgeist), era preciso gerar um conceito de cultura capaz de devolver às nações o seu orgulho nacional. Porém essa idéia vai levar a conseqüências muito maiores, no que se refere a formação do povo alemão e de seu orgulho nacional.

A formação dessa cultura e, por conseguinte, do nacionalismo alemão, aconteceu não somente pelo som dos exércitos prussianos marchando rumo ao front de batalha, mas também através da arte. E, é neste ponto que entra em foco o personagem de nosso estudo, o compositor alemão Wilhelm Richard Wagner.

1. A antítese entre Kultur e Zivilisation

Na Alemanha, o embate entre os conceitos de cultura e civilização acontece, sobretudo, no que se refere às diferenças entre a nobreza germânica que fazia constante uso dos modos e língua da corte francesa representando um tipo de “civilização de fachada” e a burguesia alemã em desenvolvimento. Para a nobreza alemã, fazia-se necessário o uso da língua francesa, pois com isso evidenciava-se civilidade e educação, porém a burguesia germânica pensava diferente, face a uma crescente necessidade em sair de uma posição marginal no cenário político alemão. Essa burguesia procurou construir não apenas um conceito de civilização ou Zivilisation, mas sim uma cultura própria, baseada nas características que uniriam a etnia alemã, surgindo assim o conceito de Kultur.

O contraste entre a nobreza cortesã dita “civilizada” e a intelligentsia de uma classe média que falava alemão vai gerar o que podemos chamar de um contraste entre os conceitos de Kultur e Zivilisation. Será através da Kultur que a burguesia alemã buscará ascender no cenário social e político alemão, através da defesa de uma cultura regional que enfatiza as diferenças nacionais e a identidade particular dos povos. Para a burguesia intelectual alemã, evidentemente existia a Zivilization, porém a idéia de civilização, conforme os moldes franceses, estava em segundo plano, sempre abaixo do valor regional e crescente da idéia de Kultur, da cultura regional e nacional.

2. A ópera encontra o nacionalismo

As óperas de Richard Wagner sempre caracterizaram-se por uma força dramática muito além do que se ouvia antes da estréia do mestre de Leipzig. Com ele, a orquestra ganhou uma nova dimensão, a exemplo do que houve em relação a Ludwig van Beethoven, pois cabia agora a orquestra, e não apenas a vozes humanas, a interpretação dos dramas e tragédias da ópera. Wagner soube explorar a força de uma grande orquestra de maneira ímpar e o fez de forma a sempre exaltar temas relacionados a uma Alemanha mítica, ou mais especificamente, a uma Germânia de deuses como Wotan e Odin, além de personagens como as Valquírias e Lohengrin, o cavaleiro do Graal.

A necessidade de Wagner em apresentar uma Alemanha poderosa, imperial e nacionalista explica-se, em boa parte, pelas próprias convicções políticas do mestre. Sabe-se hoje, que era anti-semita e propagandista de confusas idéias vegetarianas e budistas. O compositor chegou inclusive a participar de um levante nacionalista em 1849, a Revolução de Dresden, fato que lhe custou alguns anos de exílio em Zurique.

Para apresentar um pouco dessa teutomania wagneriana, acompanhe abaixo alguns trechos traduzidos do primeiro ato da ópera Lohengrin:

(...)Escutai!
Condes, nobres, homens livres de Brabante!
Henrique, rei dos alemães, veio a este lugar
para consultá-los
segundo o Direito do Império!(...)

(...)Agora é a hora de defender
A honra do Império;
Que todas as terras germânicas
angariem forças para o combate.
E então ninguém ousará vilipendiar
o Império Alemão!

Adiante, com Deus e pelo
Império Alemão!(...)

Esse nacionalismo quase mítico de Wagner irá influenciar toda uma era de pensadores, políticos e industriais alemães, conforme diz Otto Maria Carpeaux , “à mentalidade dessa nova burguesia corresponde a glorificação do passado germânico, com todos os recursos de um luxo de nouveau riche. É o neo-romantismo de Wagner”. Essa mesma burguesia, ainda segundo Carpeaux, “submeteu-se aos poderes feudais da Prússia para conseguir a unificação nacional da Alemanha".

Em torno de Wagner formou-se o que Carpeaux define como a “seita dos wagnerianos”, que originaria no século XX o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), o Partido Nazista Alemão. Não se está dizendo aqui, sob hipótese alguma, que Wagner era nazista, mas sim que seu anti-semitismo e sua música notoriamente pangermanista, animou os ânimos daquilo que depois seria a semente do nazismo na Alemanha.

A ópera de Richard Wagner pressupunha um povo alemão forte e unificado, o que pode ser observado em suas constantes menções a um “Império Alemão”, como no caso da ópera Lohengrin de 1848, mais de duas décadas antes da unificação do estado alemão. Esta vasta e potente obra musical tornar-se-á um verdadeiro bastião da liberdade e da união nacional na mão dos grupos pró unificação.

Como ídolo dos nacionalistas alemães, Wagner atraiu a ira de intelectuais contrários à sua obra pangermanista. O compositor acabou sendo, segundo Carpeaux, combatido pelo chamado Círculo de Brahms bem como pela grande imprensa, e, sem qualquer surpresa, pelos judeus. Porém, justamente na França, país odiado por Wagner, é que sua obra veio a encontrar seus mais fervorosos adeptos.

Assim, portanto, apresenta-se a obra de Richard Wagner sob o ponto de vista de um instrumento importante na formação dos grandes núcleos nacionalistas alemães, que acompanhariam a vida política do Reich, entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.

Embora o estado costume ditar o destino dos povos seja na paz, seja na guerra, a obra wagneriana apresenta-nos uma segunda possibilidade: de que a formação da nação, e inclusive do estado, possa antes passar pela construção de um verdadeiro orgulho nacional, baseado na identidade étnica e cultural. É o que, em boa medida, apresenta enfim, a Kultur alemã.

4. Dom Pedro II e a construção do Festspielhaus

O grande sonho de Richard Wagner era, de fato, a construção de um teatro que, sob sua direção, fosse totalmente dedicado à interpretação de suas obras. Este sonho começou a ser realizado em 22 de maio de 1872 com o assentamento da pedra fundamental em Bayreuth. Os fundos para a construção vieram de Sociedades Wagnerianas, do Rei Ludwig II da Baviera (razão pela qual o teatro foi construído em Bayreuth), e de Dom Pedro II, Imperador do Brasil.

Grande admirador da obra de Wagner, em 1857 o Imperador Brasileiro chegou a convidar o compositor para trabalhar no Brasil, quando aquele encontrava-se exilado na Suíça, devido ao fracasso da Revolução de Dresden. Porém o artista, após uma grande contribuição financeira de Otto Wesendonck, optou por permanecer na Europa, tendo, contudo, enviado a Dom Pedro II, como agradecimento, partituras de suas obras.

Era desejo de Dom Pedro II que Carlos Gomes, fosse estudar música na Alemanha de Wagner. O compositor brasileiro optou pela Itália, onde escreveu suas grandes obras. Contudo, Carlos Gomes não escapou das críticas de Mário de Andrade, com relação à ópera Fosca:

“É sabido que uma das causas a que se atribui o pouco sucesso da Fosca em 1873, é ser música erudita demais. Chegaram mesmo a afirmar que a ópera estava impregnada de wagnerismos. O que determina a influência de Wagner sobre Gomes, seria a utilização do Leitmotiv wagneriano, o que não ocorre. Para Carlos, o motivo condutor não é o elemento sinfônico como em Wagner, é antes o elemento melódico.”(Mário de Andrade).

O Imperador Brasileiro, foi um dos grandes financiadores na construção do Festspielhaus, em Bayreuth. No dia da inauguração, em agosto de 1876, estavam presentes, além de Wagner, o Rei da Prússia e Imperador da Alemanha, Guilherme I, o chanceler Otto Von Bismark, grandes nomes da música e Dom Pedro II, o qual, recepcionado na casa de Wagner, foi homenageado pelo grande Franz Liszt, com um concerto.

Afora a admiração do Imperador Brasileiro pela obra wagneriana, podemos também oferecer uma segunda e concomitante hipótese sobre, por exemplo, as razões de Dom Pedro II querer patrocinar Carlos Gomes na Alemanha. Durante o reinado de Pedro II, o Brasil buscava afirmar-se como nação. Assim, se Wagner com sua ópera fora capaz de contribuir no processo de formação de um orgulho nacional alemão, Carlos Gomes também poderia desempenhar o mesmo papel no caso brasileiro. A hipótese mostra-se bastante plausível a medida que se observa como o modelo de ópera oferecido por Wagner contribuiu na construção de um sentimento de pertencimento do povo alemão em relação à Alemanha.

Segundo os argumentos apresentados neste trabalho, pode-se afirmar que sob o ponto de vista do conceito de Kultur, a obra wagneriana ofereceu à nação alemã em formação a possibilidade de uma identificação étnica e cultural regionalista e, sobretudo, nacionalista.

Sua obra, permeada por elementos que lembram um passado germânico glorioso, insuflou principalmente na emergente burguesia alemã do século XIX, um forte sentimento de pertencimento à nação e à etnia alemã. Acredito, portanto, que antes mesmo de “pegar em armas” por uma guerra de unificação, o processo de formação nacional da Alemanha passou por uma gradativa construção de um orgulho nacional baseado na cultura comum ao povo alemão.

Assim, a ópera wagneriana não atuou como mero espectador da luta pela unificação alemã, mas como agente ativo capaz de despertar naquele povo, um sentimento nacionalista. (...) Fato curioso na análise da ópera de Wagner foi que, justamente na França da cultura universalista, a obra do mestre acabou tendo, em meio a intelectuais franceses, seus adeptos mais fervorosos. Curiosa contradição histórica, ou indícios de que a França talvez não fosse de fato tão universalista? Bem, cabe por hora deixar a resposta desta questão em aberto.

O estilo de ópera wagneriano, como vimos, despertou inclusive a atenção de Chefes de Estado estrangeiros, como foi o caso de Dom Pedro II, que, embora tenha parecido mero admirador e financiador, também pode ter desejado o seu próprio Wagner, ao pretender enviar Carlos Gomes à Alemanha. O maestro brasileiro, decidiu-se pela Itália, onde fez seus estudos e escreveu obras como “O Guarani”, que embora contenha um alto teor nacionalista, era consideravelmente diferente do estilo do compositor alemão.

Ópera, cultura e nação estão, portanto, intimamente ligados. Esse momento em que a arte encontra a nação e o estado, aponta-nos a direção de que, mesmo a mais bela expressão artística pode vir a ser utilizada como um instrumento político ímpar. Enfim, como elemento aglutinador e identificador de toda uma nação, de todo um estado nacional.

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