sábado, 24 de março de 2012

Julius Evola - O “Amor Pelo longínquo”

por Julius Evola


No campo das reações interiores e daquela disciplina que, com um neologismo, foi denominada a etologia, se podem distinguir de formas fundamentais, marcadas respectivamente com as fórmulas de “amor pelo próximo” e “amor pelo longínquo” (que não é outra que a nietzscheana Liebe der Ferne). No primeiro caso se sente atraído por aquilo que se encontra próximo, no segundo, do contrário, pelo que está longe. O primeiro tem que ver com a “democracia”, no sentido mais amplo e sobretudo existencial do termo; o segundo, contrariamente, tem relação com um tipo humano mais alt, rastreável com o mundo da Tradição.

No primeiro caso, a fim de que uma pessoa, um chefe, seja seguido, é necessário que se sinta ele como “um dos nossos”. Assim, pois, alguém cunhou com tal respeito a feliz expressão de “nostrismo”. As relações deste com a “popularidade”, com o “ir em direção ao povo” ou “netre o povo”, assim como também, consequentemente, com sua infrutibilidade em relação a tudo o que signifique diferenças qualitativas, resultam sumamente evidentes. Casos recentes e significativos de tal orientação são conhecidos por todos nós, podendo-se incluir entre os mesmos também a insípida vocação “viajante” dos mesmos Pontífices, alí onde o normal tivera sido alimentar uma casi-inacessibilidade, essa mesma pela qual certos soberanos apareceram ante o povo como “alturas solitárias”. Há que salientar aqui o pathos da situação, posto que pode existir uma proximidade física que não exclui senão que mantêm a distância interior.

Se sabe do papel relevante que o “nostrismo” teve ainda nos regimes totalitários passados e de hoje em dia. São patéticas as cenas, que não deixaram de ressaltar por toda parte, de ditadores que demonstram compaixão por figurar entre o “povo”. Alí onde a base do poder é em grande medida demagógica, resulta pelo demais quase uma necessidade. O “Grande Companheiro” (Stalin) não cessou de ser o companheiro. Tudo isto pertence a um preciso clima coletivo. Faz já mais de um século e meio que Donoso Cortés, filósofo e homem de Estado espanhol, teve ocasião de escrever com amargura que já não existem soberanos que pretendem apresentar-se verdadeiramente como tais; e que se eles o fizerem, quiçá quase ninguém os seguiria. De modo tal que parece como se se impusera hoje em dia uma espécie de prostituição, já posta em relevo por Weininger no mundo da política. Não é acaso afirmar que se hoje existissem chefes em um autêntico sentido aristocrático, estes muitas vezes estariam obrigados a esconder sua natureza e apresentar-se sob a vestimenta de agitadores democráticos de massas, se é que pretendessem exercer uma influência. O único setor que em parte permaneceu ainda imune de tal contaminação é o chefe do exército, ainda se já não é fácil falar alí do estilo severo e impessoal que caracterizou por exemplo o prussianismo.

Ao “nostrismo” corresponde um tipo humano essencialmente plebeu. O tipo oposto é aquele ao qual se pode referir a fórmula do “amor pelo longínquo”. Não a proximidade “humana”, senão a distância suscita nele um sentimento que no fundo o eleva e, ao mesmo tempo, o impulsiona a seguir e a obedecer, em termos sumamente diferentes do outro tipo. Antigamente se podia falar da magia ou do fascínio da “superioridade olímpica”. Vibram aqui outras cordas da alma. Em um domínio diferente, nós não podemos por certo ver um progresso na passagem do homem-deus do mundo clássico (por mais simbólico ou ideal que fosse) ao deus-homem do judeu-cristianismo, aquele deus que se faz homem e funda uma religião de fundo humano, com um amor que deveria mancomunar a todos os homens assim como fazê-los próximos um do outro. Não equivocadamente, Nietzsche denunciou neste ao oposto do que designou com a palavra vornhem, que se traduz por “distinto” ou “aristocrático”.

O céu noturno estrelado por cima de si era exaltado por Kant por sua indizível longinquidade, e tal sentimento é provado por muitos seres não vulgares, de maneira totalmente natural. Nos encontramos aqui no limite. Sem embargo, um reflexo pode ser ressaltado também em planos infinitamente mais condicionados. À distância “anagógica” (quer dizer, à distância que eleva), se pode opor aquele que se esconde sob a vestimenta de uma certa humildade. É de Séneca o dito de que não existe orgulho mais detestável que o dos humildes. Este dito deriva de uma agúda análise do fundo da humildade ostentada por pessoas que, no fundo, sentem compaixão consigo mesmas, sintindo-se, do contrário, sumamente insuportáveis em relação a tudo o que é superior a elas. O sentir-se juntas nestas é natural e remete ao que temos dito mais acima.

Como em muitos outros casos, as considerações aqui expostas são compreendidas com a finalidade de estabelecer critérios de discriminação, de medida, e se encontram em verdade em uma posição de contracorrente com o atual.

A respeito da mania de popularidade dos grandes, não resistimos à tentação de referir um episódio pessoal. Anos atrás dissemos chegar um de nosso livros a um soberano reespeitando as regras normais de etiqueta, quer dizer, não de maneira direta, senão através de um intermediário. E bem, nós dissemos a pura verdade quando afirmamos ter provado quase um schock ao receber uma carta de agradecimento que começava com as palavras “Querido (!) Evola”, sem que eu tivesse conhecido pessoalmente tal personagem ou tivesse sequer escrito ao tal. Esta “democraticidade” parece estar muito em voga. Em vez disso, hoje em dia tenho desgosto àquela pessoa que ainda tem uma sensibilidade pelos antigos valores. Em um domínio sumamente banal, se podia recordar como índice de uma linha similar, um uso muito difundido nos Estados Unidos, o país mais plebeu da Terra. Em especial na nova geração não se pode trocar um par de palavras com alguém sem que este nos convide a tuteá-lo e chamá-lo com seu primeiro nome, Al, Joe, etc. Em constraste com isto podemos recordar aqueles filhos que tratavam de Você a seus próprios pais e de uma certa pessoa, a nós sumamente próxima, a qual continuava tratando de Você a meninas (meninas, bem) ainda logo de ter-se deitado com elas, enquanto que películas, que seguramente refletem os costumes do mais além do oceano, nos apresentam o estereótipo daquele que, logo de um simples e insípido beijo em seguida tuteia a mulher.

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