quinta-feira, 22 de março de 2012

Julius Evola - A Lenda do Graal e o “Mistério” do Império

Por Julius Evola


De uma outra forma, nas tradições dos povos mais variados sempre se encontra a idéia de um poderoso “Senhor do Mundo”, de um reino misterioso que se encontra por cima de todo reino visível. De uma residência que tem, em sentido superior, o significado de um pólo, de um eixo, de um centro imutável, representado como uma terra firme em meio ao oceano da vida, como uma comarca sagrada e intangível, como uma terra da luz, ou terra solar. Significados metafísicos, símbolos e obscuras memórias se entrelaçam aqui inseparadamente. A idéia da realeza olímpica e do “mandato do céu” constitui um tema central: “Aquele que reina através da virtude (do Céu) – disse Kong-tze – se assemelha a estrela solar polar: permanece imóvel, mas todas as coisas se movem ao seu redor”. A idéia do “Rei do Mundo” concebida como cackravartî se encontra por cima de uma série de temas subordinados: o kravartî – Rei dos reis – faz girar a roda – a roda do Regnum, da “Lei” – permanecendo ele mesmo imóvel. Invisível como a do vento, sua ação tem sem embargo a irresistência das forças da natureza. De mil formas, e em estreita conexão com a idéia de uma terra nórdico-hiperbórea, irrompe o simbolismo da sede do meio, da sede imutável: a ilha, a altura montanhosa, a cidadela do sol, a terra defendida, a ilha branca ou ilha do esplendor, a terra dos heróis: “Nem por terra, nem por mar, se alcança a terra sagrada”- se dizia na tradição helênica. “Só o vôo do Espírito pode conduzir até aí” – sussurra a tradição extremo-oriental. Outras tradições falam de um monte magnético misterioso, e do monte do qual desaparecem ou são raptados aqueles que obtiveram a perfeita iluminação espiritual. Outros falam ainda novamente de uma terra solar, desde a qual provêm aqueles que são destinados a assumir a dignidade de reis legítimos entre povos sem príncipes. Essa é também a ilha de Avalon, quer dizer, a ilha de Apolo, o deus solar hiperbóreo, denominado a sua vez Aballún pelos celtas. Também a respeito das lendárias raças “divinas”, como os Tuatha de Dannan, que vieram de Avalon, se diz que vieram do “céu”. Os Tuatha levaram consigo desde Avalon alguns objetos místicos: uma pedra que indica os reis legítimos, uma lança, uma espada, um vaso que provê um alimento permanente, o “dom da vida”. São os mesmos objetos que figurarão na lenda do Graal.

Desde os tempos primordiais, estes temas originários descem até o Medievo assumindo nesta época formas características. De aqui, por exemplo, as tradições relativas ao reino de Preste Juan e do Rei Arthur.

“Preste Juan” não é um nome, mas um título: se fala de uma das dinastias de “Prestes Juan” a qual, do mesmo modo que a estirpe de David, haveria revestido ao mesmo tempo a estirpe régia e a sacerdota. O reino de Juan assume muitas as características do “lugar primordial”, do “paraíso terrestre”. É lá onde cresce a Árvore; uma árvore que, nas diversas redações da lenda, aparece as vezes como Árvore da Vida, outras como Árvore da Vitória e do domínio universal. Alí se encontra também a pedra da Luz, uma pedra que tem a virtude de ressuscitar o animal imperial, a Águia. Juan domina os povos de Gog e de Magog – as forças elementares, o demonismo do coletivo. Várias lendas falam de viagens simbólicas que os maiores dominadores da história teriam feito até o país de Preste Juan, ou à terras que teriam um significado análogo, para receber alí uma espécie de consagração sobrenatural de seu poder. Por outro lado, Preste Juan enviou imperadores, como “Federicus”, doações simbólicas que teriam o significado de um “mandato divino”. Um dos heróis que alcançou o reino de Preste Juan foi Oyero de Dinamarca. Mas na lenda de Oyero de Dinamarca, o reino de Preste Juan se identifica com Avalon, quer dizer, com a ilha hiperbórea, com a terra solar, com a “ilha branca”.

Ao Avalon rei Arthur se retirou. Acontecimentos trágicos, descritos de formas diferentes de acordo aos textos, o obrigam a buscar alí refúgio. Este retiro de Arthur não tem o significado da conversão do princípio de uma função, em algo latente. Arthur, de acordo à saga, não foi nunca morto. Ele vive, todavia, em Avalon. Ele voltará a se manifestar novamente. Na figura do Rei Arthur deve se ver uma das múltiplas funções de “dominador polar”, do “rei do mundo”. O elemento histórico se encontra aqui revestido pelo suprahistórico. E a antiga etimologia vinculava o nome de Arthur com arkhtos, quer dizer, “urso”, o qual, através do simbolismo astronômico da constelação polar, remete novamente à idéia do “centro”. O simbolismo da “Mesa Redonda”, de cuja cavalaria Rei Arthur é o chefe supremo, é “solar” e “polar”. O palácio de Rei Arthur – assim como Mitgard, a residência luminosa dos Aesir, dos “heróis divinos” nórdicos – está construído no “centro do mundo” – in medio mundi constructum. De acordo com alguns textos, o mesmo gira ao redor de um ponto central: gira, como na “ilha branca” – Sveta Dipa – recordada pelos indoeuropeus da Ásia, na terra hiperbórea cujo deus é o solar Vishnu, gira a swastika, como a “ilha de vidro” celto-nórdica – um semelhante de Avalon – gira; como a roda fatal do cackravartî, do “Rei do Mundo” ariano, gira. As características sobrenaturais, “mágicas”, próprias desta figura se encarnam, por dizer assim, em Myrddhin, quer dizer, em Merlin, conselheiro inseparável do Rei Arthur, que é, no fundo, mais um ser diferente dele, a representação personificada da parte sobrnatural do mesmo Arthur. A cavalaria de Arthur irá em busca do Graal. A cavalaria de Arthur, que recruta seus membros entre todas as pátrias, tem como lema: “O que for nosso chefe, que seja nossa ponte”. De acordo com a antiga etimologia, pontifex significava pelo demais o “criador de pontes”, aquele que estabelece o laço entre as duas margens, entre os dois mundos.

A ele se agregam obscuras memórias históricas e transposições geográficas de noções temporais. A “ilha” situada “na extremidade do mundo”, a respeito do qual, em várias tradições, em realidade significa o centro primordial nas distâncias remotas do tempo. A terra do sol é, para os Gregos, Thule – Thule ultima a sole nomen habens – e Thule equivale ao Airyanem-Vaêjô, o país do extremo norte dos antigos persas. O Airyanem-Vaêjô foi conhecido como reino do solar rei Yma, na “idade de Ouro”. Mas Hesíodo recorda: “Quando esta idade (a idade de Ouro) declinou, aqueles homens divinos continuaram a viver toí mèn...eisí e se converteram, em forma invisível eóra essamenou nos guardiães dos homens”. Isso porque o “sentido da história” é a decadência: à idade de Ouro sucede a de Prata – a idade das Mães; logo a de Bronze – a idade dos Titãs; finalmente a idade de Ferro; “idade obscura”, kali-yuga, “crepúsculo dos deuses”. Por quê? Muitos mitos parecem querer estabelecer uma relação entre “caída” e hybris, quer dizer, usurpação prometeica, revolta titânica. Mas novamente, Hesíodo nos recorda: Zeus, o princípio olímpico, criou na idade de Ferro uma geração de heróis, que são mais que “titãs” e têm a possibilidade de conquistar uma vida similar à dos deuses, iós te òesí. Um símbolo: o Heracles dórico-aqueu, aliado ao dos Olímpicos, inimigo dos titâs e dos gigantes.

A doutrina do centro supremo e das idades do mundo está estreitamente vinculada com a das leis cíclicas e das manifestações periódicas. Se se deixasse de um lado tais pontos de referência, muitos mitos e muitas recordações tradicionais nos remeteriam a uma situação de fragmentos quase incompreensíveis. “Ele aconteceu uma vez – acontecerá de novo”, ensina a tradição. E também: “Cada vez que o Espírito declina e a impiedade triunfa, eu me manifesto; para a proteção dos justos, para a destruição dos malvados, para estabelecer firmemente a lei, de idade em idade me revisto com um corpo”. Em todas as tradições, sob formas diferentes, mais ou menos completas, recorre sempre a doutrina das manifestações cíclias de um princípio único, subsistente nos períodos intermediários no estado latente. Messias, Juízo Universal, Regnum, etc.: em tudo isto não representa outra coisa que uma tradução religiosa e fantasiosamente deformada, deste conhecimento; conhecimento que por demais se encontra também na base de aquelas lendas confusas, nas que se narra sobre um dominador que não tinha sido morto nunca, senão que se tinha retirado a uma sede inacessível – idêntica no fundo, ao “Centro” – para voltar a manifestar-se no dia da “última batalha”; de um imperador que dorme e que voltará a despertar; de um príncipe ferido, que espera aquele que o curará e que conduzirá a seu reino decaído ou devastado até um novo esplenador. Todos estes muito notórios temas da lenda imperial medieval nos remetem sumamente longe dos tempos. O mito primordial do Kalki-avatâra contém já todas estas idéias em uma relação sumamente significativa com outros símbolos já indicados por nós. Kalki-avatâra “nasceu” em Shamballa*, que é uma das designações do centro hiperbóreo primordial. O ensino foi transmitido por parte de Paraçu-Râma, o representante “nunca morto” da tradição dos “heróis divinos”, o destruidor da casta guerreira em rebelião. Kalki-avatâra combate contra a “idade obscura” e sobretudo contra os chefes das forças demoníacas da mesma, Koka e Vikoca, os quais, ainda etimologicamente remetem a Gog e Magog, às forças subterâneas que, já dominadas e subjugadas pelo rei Preste Juan, se desencadearão na idade obscura e contra as quais também o imperador voltará a despertar e deverá combater.

***

A lenda do Graal deve ser referida a tal ordem de idéias e somente sobra a base destes dados tradicionais e deste simbolismo universal a mesma pode ser compreendida seja desde o ponto de vista histórico como desde o suprahistórico. Aquele que na história do Graal considera tão somente uma lenda cristã, ou uma expressão do “folklore celta pagão”, ou a criação de uma literatura cavaleiresca sublimada, não captará dos respectivos textos, senão o aspecto mais exterior, acidental e insignificante. Da mesma maneira, seria equivocado também toda tentativa de deduzir os temas do Graal do Espírito de um povo em particular. Se pode afirmar, por exemplo, que o Graal é um “mistério” nórdico; mas tão somente a condição de entender por “nórdico” a algo sumamente mais profundo e mais compreensivo que “alemão” ou ainda “indogermânico”, algo que em vez remita à tradição hiperbórea, a qual faz uma mesma coisa com a mesma tradição primordial do presente ciclo. Em realidade, justamente desde esta tradição se podem deduzir todos os temas principais das lendas em questão.

Com respeito a isto é sumamente significativo que, segundo o “Perceval li Gallois”, os textos que contêm a história do Graal teriam sido encontrados na “Ilha de Avalon”, onde “está a tumba de Arthur”. Ademais, outros textos chamam ao país, no qual José de Arimatéia teria levado o Graal e onde habitavam certos enigmáticos antepassados do mesmo José, a “Ilha Branca”, e “Insula Avallonis”: são, novamente, designações do centro nórdico primordial. Se Inglaterra nesta literatura aparece muitas vezes como uma espécie de terra prometida do Graal e como o país no qual se desenvolvem essencialmente as aventuras do Graal, muitos indícios nos dizem que, a respeito disso, se trata de um país simbólico. Inglaterra foi também chamada de “Albion” e “Ilha Branca”; “Albânia” foi uma parte da mesma; Avalon na localidade de Glastonbury. A antiga toponímia celto-britânica parece pois haver transposto a Inglaterra, pelo menos a uma parte desta, algumas recordações e alguns significados referidos essencialmente eo centro nórdico primordial, a Thule, a “terra solar”. Este é o verdadeiro país do Graal. E é por isso que o reino do Graal se encontra em estreita relação com o reino simbólico de Arthur, com o reino devastado –la terre gaste- com o reino cujo soberano se encontra ferido, em letargia e decaído. Uma ilha montanhosa, uma olha de vidro, uma ilha que gira sobre si mesma (the isle of the tournance), uma residência rodeada pelas águas, um lugar inacessível, uma cúpula alpina, um castelo solar, um monte selvagem e um monte da salvação (Montsalvatsche e Mons Salvationis), uma cidadela invisível, tal de poder ser alcançada somente pelos eleitos, e incluso por estes correndo um perigo mortal, etc. – aqui as cenas principais sobre as quais se dirigem as principais aventuras dos heróis do Graal: não são senão tantas representações do “Centro”, da residência simbólica do Rei do Mundo. Também o tema da terra primordial é recorrente: um texto chama “Eden” à terra do Graal. O ciclo de Lohengrin e a Sachsenkronik von Halberstadt referem: “Arthur se encontra com seus cavaleiros, no Graal, que já foi o paraíso e que agora foi convertido em um lugar de “pecado”.

Na literatura cavalheiresca do Graal é propriamente um objeto sobrenatural, que tem essencialmente estas virtudes: alimenta (“dom da vida”; ilumina (iluminação espiritual); converte em invencível (quem tem o visto, n’en court de bataille venchu, segundo Robert de Boron). Enquanto os restantes aspectos, há que se notar dois.

Sobretudo, o Graal é uma pedra celeste, que não somente designa aos reis – como a pedra que os Thuata levaram consigo ao Avalon- senão que indica também aos dominadores destinados a se converter em “Preste Juan” (de acordo a “Triturel”). Em segundo lugar, o Graal seria a pedra caída da coroa de Lúcifer no monento de sua derrota (de acordo com “Wartburgkrieg”). Como tal, o Graal simboliza um poder que Lúcifer, ao cair, perdera, e o mesmo também em outros textos conserva o caráter de um mysterium tremmendum. Como uma força temível, o Graal mata, despedaça, cega os cavaleiros que se acercam sem serem dignos do mesmo e sem serem eleitos (segundo o “Grand St. Graal”, “Jpseph de Arimathia”, etc.). Este aspecto do Graal se encontra em relação com a prova do “lugar perigoso”. À Mesa Redonda de Arthur falta alguém. Um lugar se encontra vazio, no qual, no fundo, é do chefe supremo da Ordem. Aquele que o ocupa sem ser o herói esperado, é fulminado ou é levado por um súbito vórtice. O Graal pode ser alcançado tão somente combatendo – er nous erstriten werden – disse Wolfram von Eschenbach.

O mistério do Graal compreende duas temáticas. A primeira retoma a idéia de um reino simbólico, concebido como ua imagem do centro supremo; reino, que deve ser restaurado. O Graal não está mais presente alí, ou bem perdeu sua virtude. O rei do Graal está doente, ferido, decrépito, ou bem padece de um sortilégio, em razão da qual ele parece viver, conserva uma aparência de vida, ainda estando morto desde séculos (segundo o “Diû Krone”). A outra temática consiste na chegada de um herói que, tendo visto o Graal, deve se sentir levado à uma tal restauração; de outro modo ele trairá sua missão e sua força heróica será maldita (segundo Wolfram von Eschenbach). Ele deve voltar a unir uma espada partida. Ele deve ser vingador. Ele deve “formular a pergunta”.

De que pergunta se trata? E qual é propriamente a missão deste “eleito”? Parece ser a mesma que Hesíodo atribui aos “heróis”, quer dizer, àquela mesma geração que, nascida na idade obscura da decadência, tem sem embargo ainda a possibilidade de restaurar a “idade de Ouro”. E assim como o herói hesiódico deve superar e governar o elemento titântico, da mesma maneira vemos que o herói do Graal deve superar o perigo luciférico. Não basta que o cavaleiro do Graal se mostre como “o melhor e mais valente cavaleiro do mundo” e um coração de aço – “ein stählernes Herz” – em cada tipo de aventuras naturais e sobrenaturais: ele deve também “estar livre de orgulho” e deve “conquistar a sabedoria” (segundo Wolfram e Gautier). Se o Graal tem sido perdido por Lúcifer, é aqui que alguns textos (Grand St, Graal, Gerbert de Mostreuil, “Morte Darthur”) referem justamente a Lúcifer o poder demoníaco que atua em diferentes provas contra os cvaleiros do Graal. Ademais, o velho rei do Graal foi feito impotente e incapaz de reinar em razão de uma ferida que se fizera com uma lança envenenada enquanto ele se encontrava ao serviço de Orguelluse: Mas é bastante visível que esta Orguelluse não é senão uma personificação feminina do mesmo princípio do “orgulho”. Ademais, outros cavaleiros do Graal, por exemplo Gauvain (“Galvano”), são postos à prova no castelo desta mesma Orguelluse. Mas eles não sucumbem. Vencem, deslocam – “possuem” – Orguelluse. O sentido desta prova é a realização de uma força pura, de uma virilidade espiritual; é a transposição da qualificação heróica sobre um plano separado de tudo o que é caos e violência, “A cavalaria terrestre deve se converter em cavalaria celeste” – se diz (Queste du Graal). Esta é a condição para poder se abrir o caminho em direção ao Graal, para poder ocupar o “lugar perigoso” sem ser fulminados, assim como o foram os titãs por parte do Deus olímpico.

Sem embargo, como tema fundamental de todo o ciclo do Graal deve ser considerado o seguinte: ao herói de todas estas provas se impõe uma tarefa ulterior e decisiva. Uma vez que tem sido admitido no castelo do Graal, ele deve sentir a tragédia do Rei do Graal ferido, paralizado ou vivente somente em aparência e deve tomar a ainiciativa de uma ação de restauração absoluta. É expressado pelos textos em várias formas enigmáticas: o herói do Graal deve “formular a questão”. Qual questão? Aqui se diria que os autores quiseram se calar. Se tem a impressão de que algo os impede de falar e que uma explicação banal possa esconder a resposta verdadeira. Mas se se segue a lógica interna do conjunto não é difícil compreender aquilo do que em verdade se trata: a questão a formular é a questão do Império. Não se trata de saber – como segundo a letra dos textos- o que significam certos objetos do catselo do Graal, senão que se trata de compreender a tragédia da decadência e, logo de ter “visto” o Graal, de formular o problema da restauração. Somente sobre esta base a virtude milagrosa desta enigmática pergunta se converte em compreensível: posto que o herói que não tem sido indiferente e que tem “formulado a questão”, com esta questão redime o reino. Então aquele que teria tão somente uma aparência de vida desaparece; aquele que estava ferido se cura. As vezes, o herói se converte no novo e verdadeiro rei do Graal, substituindo o precedente. Um novo ciclo começa.

Segundo alguns textos, o cavaleiro morto, que parece querer recordar ao herói a missão a cumprir e a vingança, aparece em um ataúde transportado sobre o mar por cisnes. Mas o cisne é o animal de Apolo no país dos Hiperbóreos, na terra nórdica primordial. Conduzidos por cisnes, partem os cavaleiros do centro supremo, no qual Arthur é rei: desde o Avalon.

Em outros textos, o herói do Graal é chamado de o cavaleiro das duas espadas. Mas na literatura teológico-política da época, sobretudo na gibelina, as duas espadas significavam nada mais que o duplo poder, temporal e sobrenatural. Um texto clássico fala do país hiperbóreo como da terra da que vieram dinastias que, como as dos Heraclidas, encarnaram ao um mesmo tempo a dignidade régia e a sacerdotal. Em um texto do Graal, a espada que volta a se unir tem uma custódia cujo nome é: memória do sangue.

O reino inacessível e inatingível do Graal é uma realidade também na forma, segundo a qual o mesmo não está vinculado a nenhum lugar, a nenhuma organização visível e a nenhum reino terrestre. O mesmo representa uma pátria, a qual se pertence por um nascimento diferente do corporal, que tem o sentido de uma dignidade espiritual e iniciática. Este reino une em uma cadeia inquebrantável homens que possam também aparecer como dispersos pelo mundo, pelo espaço, pelo tempo, pelas nações, até o limite de aparecer como isolados e de não se conhecer reciprocamente. Nesse sentido, o reino do Graal – como o de Arthur e do Preste Juan, como Thule, como Mitgard, Avalon, etc. – está sempre presente. Segundo sua natureza “polar”, o mesmo permanece imóvel. Em consequência, não é que o mesmo esteja as vezes mais próximo e as vezes mais longe da corrente da história, são os homens e seus reinos que podem estar mais ou menos próximos.

Agora bem, em um certo período, o Medievo gibelino pareceu apresentar uma maior aproximação e oferecer, por dizer assim, uma matéria histórica e espiritual de tal caráter, que o reino do Graal tinha podido se converter, de oculto, também em sensível, e dar lugar a uma realidade ao mesmo tempo interior e exterior, como nas civilizações tradicionais das origens. Sobre tal base se pode sustentar que o Graal foi a coroação e o “mistério” do mito imperial medieval e a suprema profissão de fé do alto gibelinismo. Uma profissão de fé se manifesta mais na lenda e no mito do que na clara vontade política da época, segundo o que acontece também no indivíduo, onde o que há de mais profundo e de mais perigoso se expressa menos através das formas de sua consciência, reflete através do simbolismo e de uma espontaneidade subconsciente.

O Medievo esperava o herói do Graal a fim de que a Árvore Seca do Império voltasse a florescer, a fim de que toda usurpação, todo contraste, toda oposição, fosse destruída e reinasse verdadeiramente uma nova ordem solar. O reino do Graal, que tinha de ressurgir com um novo resplendor, era o mesmo Sacro Império Romano. O herói do Graal, que tinha podido se converter em “dominador de todas as criaturas” e aquele al qual “tem sido confiado o poder supremo”, é o Imperador histórico – “Fredericus” – se ele tivesse sido o realizador do mistério do Graal, do mistério hiperbóreo.

História e suprahistória pareceram pois, por um instante, interferir: resultou disto um período de alta tensão metafísica, uma culminação, uma suprema esperança – logo, novamente, colapso e dispersão.

Toda a literatura do Graal parece se agrupar em um período relativamente breve: nenhum texto parece ser anterior ao último quarto do século XII. A partir do primeiro quarto do século XIII se cessa briscamente, como por uma consigna, de falar-se do Graal. Somente depois de muitos anos, e já sob um espírito diferente, se exreverá novamente sobre o Graal. Parece pois como se em um certo momento uma corrente subterânea tivesse voltado a aflorar, para logo voltar a se ocultar (Weston). A época desta repetina desaparição da primeira tradição do Graal coincide aproximamente com a tragédia dos templários. Quiçá este é o início da fratura.

Em Wolfram von Eschenbach, os cavaleiros do Graal são chamados de Templeiste –“templários” – se bem em seu relato não figure para nada um templo, senão somente uma corte. Em alguns textos, os cavaleiros-monjes da “ilha” misteriosa levam ao século dos Templários: uma cruz vermelha sobre um fundo branco. Em outros textos as aventuras do Graal tomam uma direção típica de “crepúsculo dos deuses”: o herói do Graal cumpre, é certo, com a “vingança” e restaura o reino, mas uma voz celeste anuncia que ele deve se retirar com o Graal para uma terra insular misteriosa. A nave que vem buscá-lo é a nave dos Templários: tem uma vela branca com uma cruz vermelha.

Como artérias dispersas, organizações secretas parecem ter custodiado os antigos símbolos e as tradições do Graal, ainda logo do colapso da civilização imperial ecumênica: “Fieles del Amor” gibelinos, trovadores do período mais tardio, hermetistas. Assim chegamos aos Rosacruzes. Entre os Rosacruzs se apresenta todavia uma vez mais o mesmo mito: a cidadela solar, o Imperator como “Senhor do Quarto Império”, e destruidor de toda usurpação, uma confraternidade invisível de personalidades transcendentes, unidas unicamente através de sua essência e sua intenção, finalmente, o estranho mistério da ressurreição do Rei, mistério que se transforma na constatação de que o Rei já havia ressuscitado, já vivia e já estava desperto. O que assiste a este mistério leva consigo dos Templários: um estandarte branco com uma cruz vermelha. Também o pássaro do Graal- a pomba – está presente.

Mas uma consigna parece ter sifo transmitida neste caso. Em um determinado momente, se deixa subitamente de falar dos Rosacruzes. De acordo com a tradição, os últimos Rosacruzes, no período no qual o absolutismo, o racionalismo, o individualismo, e o iluminismo estavam preparando o caminho à Revolução Francesa e os tratados de Westfalia iam selando a decadência definitiva da autonomia do Sacro Império Romano, tinham abandonado o Ocidente para se retirar na “Índia”.

A “Ìndia” é aqui o símbolo. Equivale à residência de Preste Juan, do Rei do Mundo. É Avalon. É Thule. Segundo o “Titurel”, tempos obscuros chegaram para Salvaterra, onde residem os cavaleiros de Monsalvat. O Graal não pode permanecer mais naquele lugar. É transportado à “Índia”, ao reino de Preste Juan, que se encontra “próximo do paraíso”. Uma vez que os cavaleiros do Graal chegaram alí, o mesmo Monsalvat e sua cidadela aparecem a eles, são transportados ali magicamente, porque “nada de tudo isto dvee permanecer entre povos pecadores”. O mesmo Parcifal revestirá a função de “Preste Juan”.

E ainda hoje ascetas tibetanos dizem a respeito de Shamballah, a cidade sagrada do Norte, para onde conduz a “via do Extremo-Norte”, quer dizer “via dos deuses” – devayâna-: “Ela reside em meu coração”.


*(Nota do Tradutor) Shamballah é muitas vezes confundida com Agartha, como neste texto, porém, a primeira é uma cidade celeste para onde vão as almas pacíficas, da idéia de Zeus como Criador do Mundo (no mesmo caso, Olimpo e Valhalla [representados originalmente como análogos ao Tártaro e Agartha], são confundidos muitas vezes no mesmo mito). Porém, portanto, Agartha é a original cidadela representada nos mitos da Terra Oca, e para lá vão os guerreiros do Graal, e é lá também onde reside o Graal (a pedra da coroa de Lúcifer), diferentemente da cidade “celeste” e montanhosa do “Oriente” chamada Shamballa, para onde vão os sacerdotes e servos do Criador (também confundido com Zeus, algumas vezes).

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