sexta-feira, 23 de março de 2012

A Idéia de Cultura Integral

por Stephen Edred Flowers



I - Introdução

Nossa cultura está doente. Ela tem passado por um processo de desintegração já há alguns séculos. Suas várias partes constituintes tem sido progressivamente dispersas e desconectadas de seus ancoradouros naturais ou orgânicas. Tal desintegração somente pode ser retificada, curada, como ela era, através da integração, ou reintegração.

A palavra "cultura" tem me irritado um pouco ao longo dos anos.

As pessoas parecem usá-la de modos vagos e ambíguos. Quando eu comecei a ensinar literatura universal na Universidade do Texas no outono de 1984 eu realizei um estudo mais detalhado do termo "cultura", com a intenção de usar o que eu descobrisse em minhas palestras. O resultado foi a descoberta da "rede cultural". 

A cultura é composta por pelo menos quatro diferentes categorias, cada uma das quais é essencial para toda a idéia de cultural, nenhuma delas podendo ser ignorado quando se tenta descrever a cultura em sua totalidade. Essas quatro categorias são: cultura étnica, cultura ética, cultura material, e cultura linguística.

Na maior parte das discussões passadas a respeito dessas categorias culturais, a ênfase tem sido posta na existência das quatro categorias, e na necessidade de cada uma delas para uma descrição da totalidade. Essa ênfase foi boa até onde foi, mas foi consideravelmente estática. Na verdade, o que ocorre em culturas dinâmicas é que as categorias da cultura estão todas constantemente interagindo umas com as outras. Há um fluxo constante e interligado das categorias, cada uma das quais serve para reforçar as outras.

Nossa primeira tarefa é identificar as partes constituintes da cultura, ou seja, do mapa completo da experiência e ação humanas. Daí segue o imperativo de desenvolver cada uma dessas categorias intensamente o máximo que nossas habilidades permitirem. Finalmente se torna necessário completar o círculo pela reintegração das partes componentes em um todo orgânico e vital no qual a vontade individual expresse um homem culturalmente autêntico. Mais importantemente, o processo de "completar o círculo" serve para revigorar a própria cultura.

Esse processo orgânico é alcançado por um esforço consciente de integrar as categorias culturais e assim reconstruir uma cultura integral. Isso deve ser feito primeiramente de modo individual antes que possa ser transposto a um nível coletivo. A reintegração cultural começa a partir de dentro.

Ao fim deste artigo se tornará aparente que se for possível concordar que a cultural ideal deve ser integral, e que os indivíduos somente são realmente livres dentro do contexto de uma cultura integral, então seguir-se-ão toda uma série de imperativos pessoais e coletivos. Esses imperativos geralmente correm em sentido contrário às tendências da vida moderna, que tende a desintegrar a cultura em favor de aparentes interesses do indivíduo isolado. Esse indivíduo, separado de sua cultura, então se torna um alvo fácil para promotores de vários interesses transitórios. Esses interesses podem envolver uma noção política, ou um novo produto para consumo, ou qualquer uma entre um bilhão de outras coisas. O indivíduo desintegrado, atomizado, desconectado de seu contexto cultural orgânico é relativamente mais suscetível a essas sugestões do que alguém firmemente enraizado em um conjunto de valores culturais objetivos e conscientes. Valores culturais reais desse tipo, porém, não podem ser manufaturados artificialmente. Eles devem crescer a partir de um profundo solo histórico.

II - Cultura

De modo a desenvolver mais completamente a idéia de cultura integral, uma compreensão mais global das categorias da cultura deve ser alcançada.

A assim chamada rede cultural aparece na ilustração abaixo. Essa rede mostra as quatro categorias culturais organizadas de um modo que sugere bem mais do que sua mera listagem poderia.


As duas à esquerda do diagrama são principalmente materiais em natureza, enquanto as duas à direita são principalmente simbólicas. Enquanto as duas de cima podem ser consideradas primárias, as duas de baixo são secundárias.

Todas as categorias culturais envolvem contato com dois ou mais humanos. A cultura étnica está enraizada na conexão sexual entre um homem e uma mulher que leva à produção de crianças. O produto dessa união é o veículo corpóreo para que a cultura se manifeste no mundo material. Sem essa atividade reprodutiva - a encarnação (incorporação) literal da cultura - obviamente nenhuma cultura é possível. O próprio corpo, na forma do DNA, é considerado por muitos como codificando certos padrões culturais, e também é verdadeiro que dados culturais absorvidos pelo ser humano em desenvolvimento (principalmente nos primeiros anos de vida) efetivamente resulta em mudanças físicas permanentes no cérebro. (Ver Cultura em Mente de Brad Shore, Oxford, 1996.)

O elo que indivíduos vivos possuem com seus ancestrais não é meramente simbólico. É também físico. A totalidade dos corpos de nossos ancestrais constituem uma espécie de super-corpo cultural para nós. Cultura étnica é cultura corporificada.

Na outra ponta de um espectro aparente está a cultura ética. O ethos de uma cultura é seu simbolismo ou ideologia. Essa talvez seja a parte da cultura que mais nos interessa, já que nós normalmente somos mais fascinados pelas idéias de nossa cultura mais do que pelas das outras. Essa é a parte da cultura que contém estruturas, padrões, e mitos (ou metanarrativas) formadas por idéias simbólicas.

As palavrás "étnica" e "ética" são escolhidas aqui, ainda que outros termos pudessem ter sido utilizados, para demonstrar o elo arcaico entre biologia e idéias.

Para os antigos gregos o ethnos ou tribo era determinado pelos deuses aos quais se sacrificava, e de onde se absorvia os próprios valores. Gregos eram aqueles que sacrificavam aos deuses gregos, falavam a língua grega e perpetuavam biologicamente o ethos grego. Uma padrão de crenças similar pode ser detectado em outros ramos da tradição indo-europeia.

A cultura simbólica, ou ética, é inteiramente invisível e supra-sensível. Nós a conhecemos através de suas manifestações nas outras três categorias culturais: étnica, material, e linguística.

A cultura simbólica está codificada mais perfeitamente na cultura linguística. Isso se deve principalmente ao código linguístico falado e compreendido pelos membros de uma certa cultura. Mas o código linguístico, sua fonologia, morfologia, sintaxe, e semântica também constituem um código semiótico complexo através do quai os membros da cultura compreendem o mundo e se expressam a outras partes do mundo. Sem tal comunicação entre humanos, e metacomunicação entre humanos e outras partes do cosmo, os humanos seriam impotentes no mundo.

A cultura material é facilmente percebida. Ela é formada por tudo que uma cultura produz, ou sea, todos os objetos físicos feitos por membros daquela cultura. Isso pode ser uma ponta de flecha, ou um arranhacéus. Esses são os objetos feitos pela mão humana após terem sido imaginados pelo coração humano. Em outras palavras esses objetos são artificiais, ou seja, "feitos por artifício do homem". Costuma ser o caso de que tudo que sabemos sobre uma cultura arcaica se resumir aos objetos que a mesma deixou para trás. Mas a partir desses objetos muitas vezes podemos reconstruir os valores de uma cultura. Se a cultura moderna fosse ser avaliada apenas por sua cultura material, eu não tenho certeza sobre o que pensaria os arqueólogos do futuro. Eles certamente a considerariam titânica, mas talvez também estéril e vazia.

Uma coisa que deveria ser óbvia é que estes quatro componentes da cultura não são categorias separadas e isoladas. Ao invés eles são quatro pólos de manifestação que pertencem a um todo maior. Cada categoria interage com as outras três em um discurso ativo. A cultura linguística cruza a material na forma da escrita, de inscrições, livros, softwares de computação, etc. A cultura simbólica não somente fornece formas para a produção de objetos materiais (como templos e esculturas), como também normalmente determina a natureza da reprodução física de corpos humanos na forma de leis e costumes relativos ao casamente, reprodução e criação. (O caos generalizado e desintegração atual desses costumos é tanto uma declaração sobre esse tópico como também o são os costumes mais tradicionais encontrados em outros tempos ou culturas).

As quatro categorias básicas da cultura se tocam e influenciam uma a outra, e nenhuma delas pode existir sem as outras três. Mudanças em uma inevitavelmente levarão a alterações nas outras partes. A vitalidade em uma ajudará a revigorar as outras, enquanto a fraqueza em uma também naturalmente resultará em uma difusão dessa fraqueza para o resto da totalidade.

Em nosso estado atual de fragmentação cultural, essa percepção da natureza integrada da cultura foi perdido. A causa fundamental dessa fragmentação também deve ser aparente. Um dos modos mais eficazes de se revoltar contra o mundo moderno é participar na reintegração da cultura, realizar uma síntese pessoal e cultural das várias categorias da cultura.

De modo a participar nessa revolta, deve-se começar por si mesmo. A síntese das categorias culturais interiores deve ser harmônica. Isto é, ainda que os humanos sejam em um sentido prático livres para "misturar e combinar" elementos culturais, apenas idiotas suporiam seriamente que eles próprios são sábios o bastante para projetar uma síntese tal antes de eles mesmos serem produtos irtualmente finalizados da cultura e do caráter. Seria como pedir que uma criança projetasse sua vida aos oito anos de idade! Nesse caso nós não teríamos que advinhar porque motivo tal pessoa seria bastante infeliz aos vinte anos de idade. A nossa própria síntese cultural individual existe in potentia. É a tarefa do indivíduo perceber isso, torná-la real, atualizar o potencial.

Essa síntese cultural pré-existente, à qual buscamos retornar em uma oitava superior, só pode ser alcançada em um tempo em que a totalidade integrada esteja em evidência. É por isso que os indivíduos interessados em autenticidade cultural almejam tanto por tempos pagãos ou arcaicos. Não é tão uma nostalgia pelo "paganismo" per se, como uma nostalgia pela completude e pela natureza integral do eu e da cultura que é possível em tais sociedades.

Em um nível pessoal, individual cabe ao praticante da cultura integral descobrir e então harmonizar os conteúdos de seu corpo, cérebro (mente), língua (linguagem) e seus feitos ou ações quotidianas. Cada parte da vida recebe indicações de outra parte integral dessa vida multidimensional. O corpo contém um código que porta a história essencial de todos os nossos ancestrais. Nossos mitos culturais articulam essa história, e esses mitos são então recodificados em histórias expressas às vezes em linguagens arcaicas. Esses códigos portam as instruções para a ação interior que pode levar o indivíduo de volta a um estado integrado de existência. É assim que eles funcionavam em tempos pretéritos, e é assim que eles podem funcionar hoje. Meramente ler e pensar sobre esses padrões normalmente não é o bastante. Outras técnicas construídas para imprimir os códigos na mente consciente devem ser experimentados. Níveis altos de pensamento repetido, concentrado, ordenado e intenso devem ser experimentados. Este não é o lugar para descrever essas técnicas.

Uma parte essencial do processo de reintegrar culturalmente a personalidade envolve a interação consciente com outros que pertençam a esta cultura. Cultura é, em uma análise final, sempre relativa ao contato entre humanos. A experiência individual isolada é uma forma de misticismo, mas não uma manifestação de atividade cultural integrada. Deve-se determinar por conta própria como se pode contribuir melhor para a tarefa da integração cultural, ou permitir que ela seja determinada por outros. Alguns fornecerão corpos humanos fortes para o futuro, outros criarão instituições que irão revigorar e impulsionar a cultura adiante, outros ensinarão as sabedorias e linguagens da cultura, outros moldarão e criarão os instrumentos artísticos e práticos que portarão a cultura materialmente. Algumas almas nobres serão capazes de contribuir em mais do que uma dessas áreas. Mas todos estes âmbitos são necessários; nenhum é realmente mais importante do que os outros. Eles devem ser vistos trabalhando juntos como uma totalidade.

Pode ser notado que todas as idéias da cultura parecem estar de algum modo enraizadas no "passado". De modo a compreender a idéia do "passado", a própria idéia de história deve ser examinada.



III - Uma "História" das Idéias

Dependendo de como ele é compreendido, o conceito de "história" pode ser ou irrelevante ou essencial para a idéia de cultura integral.

Se por história entendemos uma cadeia objetiva de eventos progredindo do passado distante até o momento presente imbuída com sentido e significância "cósmicas", então a "história" pode ser descartada como "farsa". A história jamais foi, nem jamais será, algum tipo de ocupação científica limitada por fatos objetivos. A história é o que ela própria diz que é: uma história. Todas as histórias são narrativas. Para ter algum sentido todas elas devem possuir certas características de moralidade, tensão, e principalmente certos "enredos" que são inerentemente interessantes ao ouvinte ou leitor. Essas características demonstram o quanto a "história" é simplesmente mitologia reconfigurada de modo secular. Não há nada de errado com isso, a parte das mentiras que poderiam ser fomentadas caso as pessoas acreditassem de outro modo - o que, é claro, a maioria faz. Isso se deve ao fato de que o mito, ou metanarrativa, do mundo moderno no qual a maioria das pessoas vive hoje possui como um de seus suportes principais a idéia de uma "história objetiva". (Esta é uma metanarrativa herdada do judaico-cristianismo, a qual foi a primeira ideologia a sacralizar eventos históricos mundanos e imbuí-los de significância cósmica). Por outro lado, se por história queremos dizer uma visão sintética de mitos, estruturas, e idéias, bem com vários eventos contemplados ao longo do tempo, então "história" é fundamental para a cultura.

Mircea Eliade jamais cansou de apontar que o mito busca destruir a história. Isto é, o mito é eternamente verdadeiro e recorrente, graças a suas características estruturais herdadas. A história, como normalmente compreendida, porém, devia ser provisionalmente verdadeira, inevitavelmente aberta a várias interpretações, e fundamentalmente cronológica e progressiva. O mito é eternamente verdadeiro, enquanto a história é não raro uma celebração do absurdo. O pensador e crítico francês Alain de Benoist, entre outros, a indicou que o passado, presente e futuro não são, em realidade, uma progressão linear, mas sim três dimensões inteiramente distintas da existência humana. Outras idéias, tais como as de Oswald Spengler, enfatizam a "morfologia da história" e veem culturas como sujeitos orgânicos de "história" limitados por leis cíclicas de nascimento, vida, e morte.

Ainda que ela seja certamente uma metanarrativa, ou mito, não obstante é útil revisar a noção ordinária do historiador a respeito da progressão de épocas na história das ideias europeias.

O tempo anterior ao advento do Cristianismo é agrupado por historiadores em um período que eles chamam de "antigo". Eles não sabem o que fazer com isso em um sentido mais amplo, já que não havia qualquer mito supremo ou teoria geral em cujos termos esse período poderia ser compreendido. Os indoeuropeus (e todos os seus ramos culturais) tinham seu próprio conjunto de valores, os egípcios o seu, os chineses o seu, e daí em diante. Uma pluralidade inteligível reinava e categorias étnicas eram suficientes para diferenciar culturas em um sentido mais geral também: Nós podemos falar de um povo, religião, obras de arte, e língua germânicas de um modo mais ou menos coerente e integrado. O mesmo é válido para os gregos, os celtas, ou qualquer dos outros ramos da árvore indoeuropeia. É claro, isso é igualmente verdadeiro para todas as outras culturas "antigas". Nós confrontamos uma situação curiosa, porém, quando examinamos culturas de autenticidade contínua: sejam elas encontradas na Índia, ou em outros lugares. Certas culturas não sofreram qualquer grande ruptura entre seus passados arcaicos e seus estados atuais. Porém, a maioria das culturas passou por grandes perturbações em sua continuidade simbólica.

Essa perturbação é identificada nos pontos das mudanças do paradigma reinante de um paradigma particular e culturalmente autêntico a um mais generalizado (internacional). Esse paradigma generalizado é normalmente caracterizado pelo monoteísmo, por exemplo, Cristianismo ou Islã. Com o advento desse paradigma em uma cultura, não importa o quão parcial e imperfeito tenha sido o advento, diz-se que a cultura entrou em uma nova fase. Na Europa essa nova fase subsequentemente veio a ser chamada de período "medieval", ou "Idade Média". Qualquer coisa no meio vem entre duas coisas. Nesse caso essas duas coisas são o "antigo" e o "moderno". A Idade Média foi dominada pelo mito da fé institucionalizado na Igreja. Este não é o lugar para discutir os méritos desse mito. Somente é importante aqui perceber que as várias, plurais e nacionalmente determinadas mitologias foram ao menos parcialmente substituídas por uma única mitologia "internacional". Ainda que se dê muita ênfase à transição entre os períodos medieval e moderno, as diferenças entre as mitologias medieval e moderna não são tão grandes como as que havia entre a antiga e a medieval ou a moderna.

A modernidade meramente substituiu um mito monolítico por outro. Ao invés da fé e da Igreja serem os maiores árbitros da verdade, a razão e a ciência assumiram essa posição. Não raro os valores "religiosos" medievais foram meramente secularizados e reformulados em um modelo "político". A Igreja prometia a salvação de toda a humanidade através da fé, enquanto o cientificismo, o humanismo, etc, prometiam o mesmo tipo de perfeição universal através da aplicação progressiva da razão.

Aqueles que criticam a monoteose tanto do medievalista como do modernista, aqueles que veem uma burrice malévola nas promessas tanto da fé como da razão - como manifestas nas ideologias da Idade Média e no "progresso" da modernidade - podem ser chamados "pós-modernistas". Deve-se notar, porém, que o termo "pós-modernismo" tem sido sabotado por marxistas acadêmicos e cripto-marxistas para fazer avançar seus próprios objetivos (que estã ogeralmente ligados ao progresso de suas próprias carreiras nas universidades, agora os últimos bastiões dos fiéis marxistas). Por essa razão é difícil utilizar o termo sem invocar paralelamente toda uma horda de fábulas "politicamente corretas".



IV - A Idéia de Cultura Integral

No contexto das metanarrativas modernas a revolta mais eficaz seria aquela que desafiasse a atomização modernista - a desintegração de todas as unidades integradas em partes menores com o objetivo de homogeneizá-las politicamente e/ou economicamente - através da promoção de uma reintegraçã ode elementos ou categorias culturais em uma totalidade harmônica e autêntica. A partir do qeu foi dito talvez uma boa idéia de como isso poderia ser feito já foi entendido. Porém, em conclusão, eu gostaria de ser mais específico. Há certos caminhos de ação na direção de uma cultura integral. Essas não são alternativas ou opções mas coisas que devem ser, em um grau ou outro, integradas na própria vida. A primeira é tradição, a outra é autenticidade pessoal, e a terceira é ação cultural.

Tradição é aquelo que tem sido transmitido desde tempos imemoriais através de diversos caminhos: genéticos, míticos, linguísticos, e materiais. O sujeito, ou seja, o ator desse tipo de ação deve descobrir a tradição, mito e escola ao qual ele ou ela pertence. Isso não é uma "escolha" no sentido de ser algo que é completamente arbitrário. É uma percepção de uma verdade. Uma vez que esta escolha autêntica tenha sido feita, o que pode ser visto tão facilmente como uma "escolha" por alguns aspectos desta tradição, não se pode voltar atrás ou vacilar frente às implicações dessa percepção.

A razão para isso é que isso é uma questão de autenticidade pessoal. As pessoas modernas pensam que elas podem escolher se tornar algo que elas não são na realidade, por exemplo, um xamã ameríndio ou um místico cabalista. Mas não é possível se tornar qualquer dessas coisas a não ser através da própria imaginação, (e talvez na imaginação dos outros). Na verdade, nós podemos apenas, para parafrasear Fichte, nos tornar o que nós somos. Dentro do reino das possibilidades há um número infinito de direções, mas a tradição é uma direção fixa. O mundo moderno torna o caminho da descoberta de uma tradição autêntica quase impossível. Porém, alguns poucos tem perseverado, na esperança de que algum dia a porta será aberta para os muitos. Deve-se simplesmente perguntar a si mesmo: "Do que eu posso ser um examplar de primeira categoria?" Eu posso ser um xamã ameríndio? Não, um ameríndio pode ser isso. Eu posso ser um cabalista de primeira categoria? Não, um judeu ortodoxo pode ser isso. A resposta positiva para esta pergunta pode assumir muitas formas. Mas dentro do próprio coração, se a honestidade da resposta for completa, o despertar autêntico será inequívoco e irrevogável na vida. O verdadeiro caminho será aberto, mas ele estará longe de ter sido trilhado.

O terceiro componente no caminho para uma cultura integral envolve a interação com outros. Deve-se participar ativamente com outros dentro da mesma escola ou tradição, com outros que similarmente descobriram seu caminho autêntico. Ser ensinado por outros, ensinar a outros, criar em cooperação com outros, e em geral interagir de todo e qualquer modo possível com outros da mesma tradição forma o laboratório quintessencial não apenas para uma ação cultural ampla, mas também para o trabalho interior.

Essa abordagem do desenvolvimento individual necessariamente leva em consideração mais do que os próprios desejos momentâneos e transitórios. Ela vê o indivíduo em seu verdadeiro contexto, como um ente que existe em muitas dimensões, no passado, no presente, e no futuro simultaneamente. O indivíduo possui uma história, no sentido de que o indivíduo existe apenas como parte de uma corrente cultural que não pode ser compreendida a parte de seus eventos e estruturas constituintes. A reconstrução da cultura a partir do modelo de uma visão sadia e integrada da sociedade não pode deixar de ter um efeito benéfico sobre as relações interpessoais, e portanto sobre todos os aspectos da cultura.

A doença profunda e sutil do mundo moderno tem suas raízes na desintegração e a promove a cada momento. Tal desenraizamento é propagandeado sob termos nobres como "liberdade", " direitos individuais". Mas uma vez que a árvore tenha sido arrancada e morta pela avalanche do modernismo progressista, e quando aqueles que vivem na árvore tiverem percebido o que aconteceu em nome da "liberdade individual", já será tarde demais. O eterno bem da totalidade terá sido sacrificado aos apetites efêmeros do indivíduo. Como então pode o indivíduo organizar uma revolta contra o mundo moderno?

A desintegração cultural é combatida pela reintegração cultural. Os caminhos de retorno até este nível de existência são marcados com os signos da tradição, da autenticidade, e da ação. Sem estes nenhuma revolta eficaz é possível.

Sic semper tyrannis!



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