sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA não é o problema

por Matt Parrott




É uma coisa boa que o SOPA e PIPA foram abalados por tempo indeterminado pelo drama digital de ontem. Nada me agrada mais do que imaginar uma nuvem escura de ira popular varrendo os lobbyistas de Washington, forçando-os a fugir, engatinhando como vermes, de quaisquer males que eles estivessem planejando. Todo o episódio me lembra da bola de fogo de revolta popular que destruiu a tentativa de John McCain em 2007 de passar uma lei de anistia total.

Mas a coisa toda foi só um drama digital, e diversos comentaristas estão corretos em notar que ainda que essas revoltas tenham seu lugar, a indústria de tecnologia precisa desenvolver uma estratégia de longo prazo para derrotar as doninhas da indústira do entretenimento de uma vez por todas. E não é por causa do meu "antissemitismo" ou minha aversão pseudo-comunista a pagar por propriedade intelectual. Eles são uma ameaça genuína à liberdade de expressão e precisam ser derrotados.

Mas como?

Will Oresmus insiste que a indústria de tecnologia precisa amadurecer e jogar o velho jogo de influência em Washington...

"Os blecautes de hoje serão bem sucedidos em influenciar a opinião pública. Isso não quer dizer, porém, que nós vamos ver o amanhecer de um novo tipo de lobbyismo corporativo. Há uma razão pela qual empresas simplesmente não entram em greve a cada vez que eles estão preocupados com uma legislação nova. Até os negócios mais populares só podem retirar seus serviços um certo número de vezes antes que as pessoas percam sua paciência e comecem a procurar por uma alternativa permanente.

Além disso, a única razão pela qual a indústria de tecnologia entrou em erupção foi porque eles não jogaram o jogo bem o bastante desde o início. Se os lobbyistas de tecnologias tivessem sido capazes de abrir um espaço na mesa quando SOPA e PIPA estavam sendo rascunhadas, essas leis jamais teriam sido tão mal escritas. Essa campanha de guerrilha anti-SOPA certamente não foi o Plano A- foi uma opção de último recurso, tomada porque a bem conectada indústria de entretenimento colocou a indútria de tecnologia para escanteio em Washington".
Em primeiro lugar, nós temos que dar um passo atrás e reconhecer o verdadeiro escopo do problema. SOPA e PIPA foram escritas com termos genéricos demais e a ameaça das leis serem tomadas fora de contexto para alcançar o verdadeiro oposto do efeito pretendido é uma preocupação válida. Afinal, mais cedo nessa semana, uma lei que considera crime de "linchamento" arrancar um suspeito de um oficial está sendo usado contra a própria massa do Occupy Wall Street. Certo, mas as leis que estão sendo promovidas pela indústria do entretenimento ainda são basicamente sobre propriedade intelectual.

A internet tornou-se a arma mais poderosa do povo contra tiraonia governamental, e eu não estou apenas falando de dar poder ao povo pela possibilidade de se educarem por conta própria e enviar e-mails aos políticos. Eu estou falando de revolução, com as revoltas da Primavera Árabe tendo sido basicamente organizadas e orquestratadas através de redes sociais como o Twitter. Hillary nem pisca ou derrama uma lágrima quando soldados americanos são mutilados em combate, mas fica acordada à noite temendo que em algum lugar, de algum modo, poderia haver um vídeo que revele a realidade de suas guerras e que se torne viral.

Se a indústria de tecnologia decidir se tornar uma força lobbyista em Washington, então ela fará lobby por seus próprios interesses corporativos - não pelos nossos. Ela vai ingressar nos bastidores e jogar o jogo. Até esse ponto, eles tem sido relativamente transparentes e majoritariamente não tem sido malignos (talvez estúpidos). A quase aprovação do SOPA levou a era de inocência a um fim para a indústria de tecnologia, e a campanha de blecaute foi meramente uma medida desesperada para ganhar algum tempo antes de encararem a dura escolha que os aguarda: Tornar-se parte da máquina de influência de Washington ou ser destruído por ela.



Mas há uma terceira possibilidade (...) uma posição mais radical na qual nós nos tebelamos contra o fato mais importante de que o governo possa de algum modo censurar a internet. O problema real é que o governo é capaz de censurar conteúdo na internet. Ponto. É um problema técnico, não um problema legal ou político. E deveria ser tratado como tal pela indústria de tecnologia. O fato de que o roteamento de domínios está à mercê de regimes soberanos e que ISPs podem ser conhecidos ou considerados legalmente responsáveis pelo que você está baixando ou hospedando é uma falha de segurança no modelo. Essa falha não era grande coisa antes de a internet virar um negócio sério, mas a Internet agora é algo sério. No grande esquema das coisas, o SOPA é simplesmente sobre se o Facebook será considerado legalmente responsável por hospedar imagens da Oprah andando de jet ski sem permissão da Harpo LLC.

Tecnologias de criptografia e roteamento anônimo existem e são relativamente maduras, mas ainda tem que receber o mesmo tipo de apoio institucional necessário para levá-las para além do reino dos pedófilos, dissidentes políticos, hackers, e hobbyistas. A rede escura espreitando sob a rede conhecida pelos n00bs precisa emergir e assumir o controle. O e-mail da minha mãe sobre as confusões mais recentes do meu sobrinho deveriam ser tão difíceis para o governo monitorar ou regular quanto os e-mails criptografados em PGP que eu envio para meus camaradas dissidentes.

Nosso primeiro obstáculo é que os gigantes da indústria de tecnologia não se importam com a censura governamental. Na verdade, eles dariam alegremente os nomes de incontáveis centenas de dissidentes políticos para regimes bárbaros do terceiro mundo em troca de acesso aos mercados desses regimes. Eles só se importam com essa nova censura do SOPA porque serem responsabilizados legalmente pelo que seus usuários postam ameaça seu modelo empresarial de lucrar com o que os outros postam. O segundo obstáculo é também sobre dinheiro. As maiores corporações tecnológicas tem modelos empresariais que dependem fortemente da coleta de dados de seus e-mails privados e atualizações de status para identificar quais são suas inadequações sexuais de modo que os marqueteiros virtuais possam te oferecer o remédio apropriado para a condição específica que sua ex-namorada te acusa de ter no Google Chat.

O terceiro e mais importante obstáculo é nossa própria ignorância: Ninguém culpa o Google por ter um servidor de e-mail que pode ter seu sigilo quebrado por qualquer governo que calhe de possuir o território no qual um servidor resida. Claro, não é uma pena que o governo chinês oprime seu povo? Não é uma pena que o governo iraniano rastreou e assassinou um ativista no Texas há uns dias? Não é uma pena que iogurte estrague tão rápido? Sim, sim, e sim. Mas oprimir é o que fazem os governos, e nós deveríamos começar a exigir que nossos fornecedores de tecnologia deixem de nos colocar no caminho do perigo nos expondo à maior vulnerabilidade de segurança de todas: o mandato judicial.

Quando nós nos mobilizamos junto com as corporações de tecnologia contra leis como o SOPA, nós na verdade estamos permitindo que elas enquadrem o debate de um modo que traça a linha da censura no ponto no qual ela ameaça seu modelo empresarial - ao invés de no ponto no qual ela ameaça nossa liberdade. Ela já ultrapassou essa linha, e nosso foco precisa ser investido em iniciativas open source de garantir a segurança da internet contra todo e qualquer tipo de intrusão governamental, fazendo lobby junto às corporações de tecnologia para apoiarem e colaborar com esses projetos, ou mesmo fazendo lobby junto às corporações para que elas desenvolvam suas próprias soluções para o problema. O que funcionar. Mas o que não funciona é permitirmos que nós como comunidade sejamos corneados pela indústria de tecnologia. Nós não deveríamos nos mobilizar em apoio a corporações multinacionais que estão se embrulhando de modo hipócrita na mesma bandeira anti-censura com a qual eles limpam o traseiro em virtualmente cada caso de censura que não ameace seu modelo empresarial.

O SOPA é uma droga, e ele deve ser derrotado. Mas ele não é o problema.

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