terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Liberdade Germânica" e Neopaganismo na Classe Trabalhadora, no Proletariado e na Cultura Socialista Alemã

por Henning Eichberg


Um estudo retrospectivo da esquerda alemã nos conduz, antes de 1914 e inclusive antes de 1900, a descobrir uma classe trabalhadora original e uma cultura socialsita dentro da qual encontramos aos livre-pensadores proletários.

Curiosamente, os historiadores da esquerda dos anos 70 deliberadamente ignoraram este movimento que em 1933, no momento em que Hitler chegou ao poder, não eram menos de um milhão de membros procedentes de organizações social-democratas, socialistas e comunistas.

Nos casos em que se estudou este movimento, estranhos de outro modo, foi em condições ideológicas de estreiteza mental; se aproximaram unicamente à história pessoal dos líderes e esqueceram dos aspectos quotidianos da vida desse movimento. Ao observar mais de perto sua história e sociologia, descobre-se, não obstante, muitas referências à antiguidade germânica.

"Thor decapita a Serpente de Midgard": tal é a lenda impressa em uma revista do Partido Socialista Democrático de 1895. Em Vorwärts, um jornal socialista, o historiador e ideólogo marxista Franz Mehring dá boas vindas à intenção de um editor de publicar uma série de livros que mostram antigas lendas alemãs e inclusive acrescentam conteúdo novo. Em um frontispício de 1894, se vê um anão de barba branca abrindo para umas crianças assustadas a porta para um mundo de lendas fantásticas; naturalmente se tratava de associá-lo com uma perspectiva futurista e socialista. O jornal socialista Der währe Jacob, abundava em idêntica direção, manejando as mesmas associações de idéias e imagens enquanto oferecia a seus leitores um pôster entitulado "Solstício de Inverno", que mostrava os antigos alemães reunidos ao redor de uma fogueira.

Usou-se uma série de desenhos colecionados e publicados por uma cooperativa social-democrata que distribuía produtos alimentícios baratos para transmitir a seguinte mensagem: "As reuniões de tribos da antiga Alemanha chamavam-se 'Things' ou 'Dings'; sempre ocorriam em locais ao ar livre. Estes locais de encontro estavam no alto das montanhas ou sob grandes árvores ou na proximidade de grandes blocos de pedra. Todos os homens livres e de prestígio que portavam armas tinham o dever de acudir a estes encontros. Se reuníam em datas estabelecidas ou à chamada de convocatórias extraordinárias para regular seus assuntos de acordo com as leis tradicionais, para decidir a paz ou a guerra ou para atuar como em uma corte".

Esta ala esquerdista declarava fidelidade às Things do Antigo Regime, dirigidas por assembléias de companheiros e pelas cooperativas de consumidores das primeiras décadas da democracia social alemã. Uma canção dos "Amigos Proletários da Natureza" (1900) mostra que o ar livre, evocado na descrição do Thing democrático, podia ser considerado como uma pretensão política, uma identificação com uma forma original do ambientalismo que preconizava a higiene vital:

Erguei-vos irmãos!
Partamos ao bosque querido e livre!
Que entre os verdes vales de bosques, nossas canções ressoem com ainda mais força.
Onde viveram nossos pais,
Fortes como leões e fieis como pombas,
Aonde voava a águia livre,
Onde nosso caminho começa a alçar-se.
Exerçamos ali a força de nossas massas,
Demonstremos o valor que há em nossos peitos
Para que nossos ancestrais no Valhalla nos olhem com alegria.

"Livre", "verde", "ancestrais", "Valhalla": aqui se assentou um cenário bastante romântico, porém em perfeita harmonia com as esperanças socialistas. Quando a festa dos trabalhadores cantantes da Bavária de 1925 pôde ser vista, enquanto entravam na cidade e a caminho da festa do solstício, uma cabina, ocupada por figuras com antigos trajes germânicos e por uma menina loira sentada do lado e atuando entre dois carvalhos. Estes personagens cantavam velhas canções alemães. Este espetáculo poderia passar por estranho e duvidoso se unicamente se associasse com as pompas patrióticas e militaristas da idade imperial. Porém no contexto do movimento socialista, não era nem militarista nem chauvinista: simbolizava a liberdade alemã, em perfeita harmonia com as visões de futuro do movimento socialista.


Ademais dos amigos da natureza e dos proletários livre-pensadores, havia jovens trabalhadores socialistas que seguiam os passos de Hermann Cherusci ao realizar passeios pelo bosque de Teutoburgo. Nas cidades, os jovens trabalhadores rompiam a monotonia de sua existência industrial dançando danças populares ao ar livre, celebrando os solstícios e redescobrindo as antigas obras de teatro da Idade Média. Inclusive se adotou uma reforma cosmética pela juventude trabalhadora: as mulheres reviveram os comportamentos femininos da antiguidade alemã usando diademas e alfinetes de bronze.

Esta reapropriação da herança cultural alemã, transformada e adaptada, encontrou um eco particular dentro das festas proletárias, organizadas em sua maioria pelos livre-pensadores socialistas. Em 1874, um jornal socialista escrevia: "Quem não se alegra ao se aproximar o feliz tempo do Natal? Quem não está encantado com seus filhos ao vê-los pular de alegria diante da árvore de Natal cheia de presentes? Porém poucos de nossos contemporâneos perguntam-se pelo verdadeiro significado das festas natalinas. A cristandade teve êxito ao transformar as festas da antiguidade pagã em festas cristãs. Era o que acompanhava ao Natal que os antigos alemães tinham em grande consideração. Esta festividade antiga é agora uma das maiores festas dos cristãos. Os antigos alemães tinham sentimentos parecidos porque os dias começam a se alargar. Nossos ancestrais frequentemente associavam suas festas aos processos naturais. A prolongação dos dias criava dentro de seus lares um ambiente festivo porque significava mais luz. A luz é vida e mais luz significa mais vida".

Ao final de 1880, o poeta proletário Manfred Wittich publicou uma obra natalina para a "União dos Trabalhadores Especialistas" de Leipzig. Esta obra descobria antigos costumes alemães do Natal. Um texto militante de Franz Diedrich entitulou-se "Solstício de Inverno". Após a Primeira Guerra Mundial, os jovens trabalhadores interpretavam cenas do solstício que foram publicadas pelas "Edições de Trabalhadores Jovens". Entre estas publicações, poderíamos citar a Luz, uma obra de teatro de solstício pertencente a Hermann Claudius e Solstício de Jurt Heilbutz. Os filólogos deveriam iniciar uma investigação exaustiva para estabelecer se estas fogueiras e festividades do solstício surgiram sem pensar na literatura socialista ou se estavam inspiradas na conduta da juventude trabalhadora. sem dúvida ambas tiveram sua importância. É mais que provável que o movimento da juventude contribuiu para o desenvolvimento de ritos enquanto a literatura socialista aportava temas, teorias, e justificativas. Em 1926, um livre-pensador socialista escreveu: "o proletariado cria suas próprias festividades. Nós vemos no Natal um fato através do qual o comunismo traz sua mensagem de felicidade ao povo: o solstício é para nós um símbolo do proletariado em luta. Da mesma forma que o Sol sai a cada dia, o movimento revolucionário superou seu ponto ínfimo e se encontra na senda da vitória: também chegará nossa primavera".

Festividades de maio, festas pagãs de primavera e culto ao trabalho

Ademais do solstício, o primeiro de maio se interpretava também pelos socialistas alemães como um dia da luta internacional da classe trabalhadora e a vinculavam aos costumes pagãos da primavera. Já em 1880, Wilhelm Liebknecht apelava às longínquas origens socialistas do primeiro de maio: "Há milênios que o primeiro de maio é dia festivo, não somenten as nações germânicas, senão também nas latinas. É a festa da primavera e o renascimento da terra. Portanto, o primeiro de maio é a escolha festiva mais afortunada de todas as festas do mundo do trabalho ao estar santificada por uma tradição milenar".

Ainda que a festa do primeiro de maio complementasse certos pontos de vista econômicos e políticos com o olhar colocado definitivamente no futuro, recebia, por essa referência pagã, um elemento diferente que se integrava no desenho socialista dessa festividade. Unicamente desde uma consideração superficial da história do socialismo, baseada em óticas frequentes hoje em dia, pode parecer contraditório que um velho revolucionário socialista como Liebknecht formulasse referências às festas pagãs da primavera, às tradições milenares e aos aspectos sagrados que derivavam deles. Porém os socialistas da época certamente se referiam a eles. Em 1905, o jornal do SDP se ilustrou, em honra à festividade de maio, com desenhos do artista popular e neopagão Fidus. A primeira página mostrava o deus radiante da primavera (Baldur), rodeado de humanos nus ao modo dos antigos germanos. Fidus fez depois desenhos também para os anarquistas e para os livre-pensadores assim como para aqueles direitistas que estavam impregnados de religiosidade germânica e da adoração nacionalista do povo.



 A festa de maio, anticristã e de colorido pagão, acabou chegando aos estamentos mais elevados da política em 1919, quando o novo governo republicano propôs fazer dele uma festa nacional. Os debates no Reichstag foram abertos pelo ministro socialista do interior, David: "No primeiro de maio se celebra a natureza primitiva que sobrevive em muitos lugares dentro dos contos e dos costumes populares. Sente-se uma imensa alegria de viver, o regresso do sol e da luz, o despertar da natureza com um sopro de flores. Ao escolher este dia, os trabalhadores combatentes introduziram na natureza antiga celebrações de um elevado ideal cultural".

O porta-voz da ala direitista respondeu-lhe dizendo que a dignidade do trabalho se expressava melhor na festa cristã do Pentecostes. Como cristão, assinalou que mesmo na agitação do primeiro de maio, o aspecto religioso permanecia, porém longe do dos domingos e de outras festas públicas cristãs. Com o aplauso dos nacionalistas germânicos, concluiu dizendo que se negava a apoiar o reconhecimento legal do primeiro de maio e convidou a todos os deputados de sensibilidade cristã a que se unissem a ele.

Em continuação a este debate, criou-se um cisma visível entre os socialistas pagãos e uma facção da oposição que permanecia profundamente cristã. Esta oposição incluía os porta-vozes social-democratas que faziam referência a Jesus de Nazaré e insistiam que a ética cristão não podia ser apagada. Os livre-pensadores do movimento socialista aderiram a sua interpretação pagã da festividade de maio e a desenvolveram ainda mais. Por exemplo, em 1928 um jornal do Círculo de Leitores Social-Democratas declarou: "O caráter do primeiro de maio, celebrado como o dia de maior participação do ano entre muitos antigos, é tanto mais interessante quanto seu conteúdo ideológico não fica limitado a uma exaltação da nova terra, senão que introduz também uma varidade de tópicos culturais relacionados com o trabalho (...) Entre os celtas, os druidas distribuíam o fogo da nova terra no primeiro de maio. Esta distribuição do novo fogo era um costume dotado de um significativo sentido sacro; o caráter santificador do trabalho figurava entre os mais relevantes (...) o pensamento da maioria dos povos primitivos estava em grande parte regido por um sentimento de veneração pelas ferramentas de trabalho, pelas plantas e pelos animais domésticos. Encontram-se os mesmos propósitos na adoração do martelo: jura-se pelo martelo, sela ele os contratos, abençoa os matrimônios e se usa como amuleto. Coloca-se como talismã nas portas das coberturas do gado e nas casas, mais tarde nas portas das cidades. O signo cristão da cruz é o velho símbolo do martelo. O arado, o barco, a roda, a carroça, a foice e, acima de tudo, o fogo, gozavam da mesma veneração.

O fogo é particularmente significativo porque é o símbolo da unidade social, de uma comunidade socialista de trabalho e vida.

É o velho fogo da horda que encontramos aqui. A cerimônia do fogo é adicionada às reuniões populares mais importantes: a grande "Thing". O mesmo que para o antigo "Merkergeding", uma assembléia que geralmente tinha lugar na época da festividade dos Walpurgis, também chamada "Meigeding" (Thing de maio) ou, nos documentos mais antigos, "Meyengedingen", cuja origem se perde no tempo. Era o encontro mais solene dos membros de uma comunidade de colonos fronteiriços. Não se devia a razões arbitrárias que a festa da primavera e o agrupamento dos povos tivessem lugar conjuntamente. Os dois acontecimentos tinham uma raiz social. No espírito daqueles tempos remotos, era completamente normal associar a volta à vida da terra com a solução dos problemas da comunidade porque os deuses eram fatores de unidade.

A decadência e, por último, o desaparecimento dessas comunidades de colonos das estepes, junto com seus métodos de gestão da economia e do bem-estar público mediante a utilização de um grande componente de ética social, não supôs necessariamente o desaparecimento da festa de maio. Pelo contrário, esta festividade não deixou de ter conotações sociais muito claras nem tampouco de expressar conflitos de classe. Os jogos de maio, que se celebravam ao redor da árvore de maio depois desta ter sido solenemente erigida, era normalmente o lugar das sátiras dos agricultures e dos artesãos do proletariado urbano e que iam dirigidas contra seus opressores e exploradores. Neste sentido, as obras de teatro dos ingleses são especialmente interessantes. Robin Hood aparece ali como "o rei de maio", e um herói popular. O que significava isso? Robin Hood! Robin Hood! Robin Hood! Aquele que tira dos ricos para dar aos pobres!

A festividade de maio foi a mais imponente da história da engenharia humana. Em 1889, com o congresso internacional de Paris, elevou-se até alcançar o nível de festa mundial do proletariado. Assim foi como se estabeleceu uam ponte sobre um milênio.

Neste texto socialista de 1928, já não se trata somente de questão de comportamento externo ou de explicações românticas - fogos de solstício, etc. Pelo contrário, se oferece uma visão sinóptica da "Thing": a adoração do fogo e da árvore de maio, a festa da primavera, a adoração do trabalho e a luta de classes. A festa de maio, por conseguinte, recebeu conteúdos que eram pagãos, socialistas e materialistas históricos. Os documentos que se encontram com referências pagãs e mitológicas da cultura operária socialsita são tão significativas que se pergunta como puderam passar desapercebidas até agora. O mesmo poderia ser dito das cavalgados com auras religiosas, do nudismo da classe trabalhadora (considerado como ato de liberação) e do movimento de livre-pensadores dentro do proletariado militante alemão.

Estas omissões não somente revelam o espírito limitado dos analistas senão também a arrogância de uma natureza metodológica implícita no seio dos meios de comunicação. Estes ressurgimentos, socialistas e neopagãos ao mesmo tempo, não eram proezas teóricas que emanaram de alguns líderes direitistas ou social-democratas. A razão pela qual nossos historiadores contemporâneos não a tomaram com seriedade se deve a que o movimento foi narrado em jornais quotidianos, em livros infantis e em gráficos. Certamente não em literatura socialista "séria".

Portanto, escondeu-se um capítulo inteiro da história da cultura de oposição da classe trabalhadore e perdemos um aprofundamento importante nas motivações que conduziram à formação de organizações proletárias significativas, a movimentos de uma juventude trabalhadora, aos círculos de "amigos da natureza" e aos livre-pensadores. Porém uma busca por parte dos pioneiros atuais, que estão começando a liberar-se do intelectualismo pretensioso e da pura teoria, revela uma religiosidade alternativa socialista. Ao estudar as formas espontâneas da festividade e a necessidade de religião que se sente e vive por parte dos trabalhadores, na Rússia viu-se como os traços do neopaganismo tomavam forma após a tomada de poder pelos bolcheviques. Portanto tivemos os "criadores de deuses", aos quais se referiram Anatoli Lunatcharski e Máxim Gorki. Entre os democratas ocidentais da Alemanha e Bélgica, Henri De Man fez um esforço parecido ao organizar o "Thingspiele" socialista junto com os nacional-socialistas.

Um exame de todo este material mostra que é bastante possível que pudesse haver uma continuidade direta ou uma analogia estrutural entre a cultura neopagã da classe trabalhadora de 1900-1933, por um lado, e as tentativas em uma linha muito similar por redescobrir raízes mitológicas na década de 70, por outro. Devemos desenvolver novas interpretações de natureza estrutura, como se preenchessemos uma brecha. Por outra parte, nos parece mais exato dizer que os românticos de esquerda dinamarqueses e alemães de fins do século XIX e do século XX são fonte de inspiração mais contemporânea.

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