sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Aleksandr Dugin - Fascismo: Sem Fronteiras e Vermelho

por Aleksandr Dugin



Existem, no Século XX, apenas três ideologias que conseguiram demonstrar que os seus princípios são realistas em termos de implementação político-administrativa – Elas são o liberalismo, o comunismo e o fascismo. Por mais que se queira – é impossível nomear outro modelo de sociedade que não esteja nos moldes dessas ideologias e que, ao mesmo tempo, existiu na realidade. Existem países liberais, existem países comunistas, e existem países fascistas (nacionalistas). Outros não existem. São impossíveis. Na Rússia, passamos por dois estágios ideológicos – o comunista e o liberal. Falta o fascismo.

1. Contra o capitalismo nacional

Uma das versões do fascismo, que aparentemente a sociedade Russa de hoje está pronta (ou quase pronta) para abraçar, é o capitalismo nacional. É quase indubitável que o capitalismo nacional ou “fascismo de direita” constitua uma iniciativa ideológica daquela parte da elite da sociedade que está seriamente preocupada com o problema do poder e sente agudamente o poder do tempo [velenie vremeni]. Ainda assim, a variação “nacional-capitalista”, “direitista” do fascismo, de modo algum, esgota a natureza dessa ideologia. Além disso, a união da “burguesia nacional” com os “intelectuais” em que, de acordo com alguns analistas, se baseará o fascismo russo que está por vir, constitui um evidente exemplo do que, na verdade, é inteiramente estrangeiro ao fascismo como visão-de-mundo, como doutrina e como estilo. “A dominação do capital nacional” – essa é uma definição Marxista do fenômeno do fascismo. Absolutamente não leva em conta a auto-reflexão filosófica da ideologia fascista e ignora conscientemente o núcleo-pathos fundamental do fascismo.

O Fascismo – isso é, o nacionalismo, mas não qualquer nacionalismo, mas [uma forma de nacionalismo] revolucionário, rebelde, romântico, idealista, atraente ao grande mito da idéia transcendental, tentando colocar em prática o Sonho Impossível, dar a luz a uma sociedade do herói e do supra-humano, mudar e transformar [preobrazovat` i preobrazit`] o mundo. No aspecto econômico, o fascismo é mais caracterizado pelos métodos socialistas ou moderadamente socialistas, que subordinam os interesses econômicos pessoais e individuais aos princípios do bem-estar nacional, da justiça e da fraternidade. E finalmente, a visão fascista da cultura corresponde a uma rejeição radical da mentalida humanista, “excessivamente humana”, ou seja, o que representa a essência [do pensamento] dos “intelectuais”. O fascista odeia o intelectual como um tipo. Ele [o fascismo], vê nele [intelectual] um burguês mascarado, um filisteu pretensioso, um covarde tagarela e irresponsável. O fascista ama o brutal [zverskoe], o supra-humano e o angelical ao mesmo tempo. Ele ama o frio e a tragédia, ele não gosta do calor e do conforto. Em outras palavras, o fascismo despreza tudo o que faz parte da essência do “nacional capitalismo”. Ele luta pelo “domínio do idealismo nacional” (e não pelo capitalismo nacional) e contra a burguesia e os intelectuais (e não por eles ou com eles). O Pathos fascista é corretamente definido pela famosa frase de Mussolini: “Erga-se Itália fascista e proletária!”. Fascista e proletária – essa é a orientação do fascismo. Ela é uma ideologia do trabalho e heróica, militante e criativa, idealista e futurista, que não tem nada em comum com assegurar mais conforto governamental aos comerciantes [torgasham] (mesmo que mil vezes nacionais) ou sinecuras para os socialmente parasitários intelectuais. As figuras centrais do Estado fascista e do mito fascista são o camponês, o trabalhador e o soldado. No topo, como o símbolo supremo da trágica luta com o destino, entropia cósmica, está o líder-divino, Duce [duche], Führer [fyurer], o homem-superior que que realiza na sua personalidade supra-individual, a extraordinária tensão da vontade nacional para a façanha. Sem dúvidas, em algum lugar na periferia, há também lugar para o mercador-cidadão [grazhdanin-lavochnik] honesto e para o professor universitário. Eles também usam distintivos do partido e participam de reuniões cerimoniais. Mas, na realidade fascista, as suas figuras estão desaparecendo, se perdendo e se colocando em segundo plano [otstupayut na zadnii plan].

Não é por causa deles e nem por eles que a revolução nacional é feita.

Na história, o Fascismo limpo, ideal, não vivenciou um encarnação direta. Na prática, os problemas urgentes da tomada do poder e do estabelecimento da ordem econômica, forçaram os líderes fascistas – incluindo Mussolini, Hitler, Franco, assim como Salazar – a forjar alianças com conservadores, nacional-capitalistas, grandes proprietários e chefes de corporações. Assim, estes compromissos sempre acabaram deploráveis para os regimes fascistas. O anti-comunismo fanático de Hitler, instigado pelos capitalistas alemães, custou a derrota na guerra para a URSS, enquanto que Mussolini – confiando no rei (articulador dos interesses das grandes empresas) – ganhou em troca os renegados Badoglio e Ciano, que colocaram o Duce na prisão e correram para os braços dos americanos.

Franco foi o que se manteve por mais tempo, ainda assim devido às concessões [que ele fez] aos liberal-capitalistas Inglaterra e Estados Unidos e por causa da sua recusa em ajudar os regimes ideologicamente parecidos do Eixo. Ademais, Franco não era um verdadeiro fascista. O nacional-capitalismo é o vírus interior do fascismo, seu inimigo e assegurador [zalog] da sua degeneração e destruição. O nacional-capitalismo não é, de maneira alguma, um característica essencial do fascismo e é o contrário, um elemento acidental e contraditório dentro da sua estrutura interna.

Portanto, no nosso caso, no caso do crescente nacional-capitalismo russo, não se pode falar em fascismo, mas uma tentativa de preliminarmente deturpar o que não pode ser contornado. Tal pseudo-fascismo pode ser chamado de “preventivo” ou [de] “precaução”. Ele se precipita em se fazer conhecido antes que um fascismo autêntico, real, radicalmente revolucionário e consistente, um fascismo fascista, esteja totalmente nascido e [que se torne] forte na Rússia. Nacional-capitalistas – eles são os antigos líderes de partido [comunista] que eram usados para mandar [vlastvovat`] e humilhar o povo e que subsequentemente, por conformismo, se tornaram “democratas liberais” e, agora que este estágio acabou, estão, igualmente zelosos, se aventurando em esconder-se sob vestes nacionais.

Transformando a democracia numa farsa, aparentemente, os partocratas, junto com os intelectuais controlados, estão decididos a envenenar o nacionalismo que avança na sociedade.

A natureza do fascismo é uma nova hierarquia, uma nova aristocracia. A novidade é que a hierarquia se baseia em princípios claros, naturais e orgânicos – dignidade, honra, coragem e heroísmo. A hierarquia dilapidada que esta tentando se arrastar para a era do nacionalismo é, como antes, baseada nas habilidades conformistas: “flexibilidade”, “cautela”, “um gosto por intrigas”, “bajulação”, etc. O conflito óbvio entre dois estilos, dois tipos humanos, dois sistemas normativos é inevitável.

2. Socialismo russo

É absolutamente injustificado chamar o fascismo de ideologia da “extrema direita”. Este fenômeno é muito mais precisamente caracterizado pela formula paradoxal da “Revolução Conservadora”. É uma combinação da um orientação cultura-política “direitista” – tradicionalismo, fidelidade ao solo, raízes, ética nacional – com um programa econômico “esquerdista” – justiça social, limitação das forças de mercado, libertação de “escravidão dos juros [protsentnogo]”, proibição da especulação no mercado de ações, monopólios e trustes, e primazia do trabalho honesto. Em analogia ao Nacional-Socialismo, que foi por vezes simplesmente chamado de “socialismo alemão”, pode-se falar do fascismo russo como “socialismo russo”. A especificação étnica do termo “socialismo” tem, nesse contexto, um significado especial. O que se entende é a formulação de uma doutrina socio-econômica desde o começo, não com base em dogmas abstratos e leis racionalistas, mas com base nos princípios espirituais-éticos e culturais, que têm formado organicamente a nação como tal. Socialismo russo – isso não quer dizer Russos para o socialismo, mas socialismo para os Russos. Diferente dos rígidos dogmas Marxistas-Leninistas, o Nacional Socialismo Russo prossegue de um entendimento da justiça social que é caracterizada exatamente pelo nossa nação, pela nossa tradição histórica, pelas nossas éticas econômicas.

Tal socialismo será mais rural do que proletário, mais comunal e cooperativo do que administrativo [gosudarstvennyi], mais regionalista do que centralista – todas essas são necessidades da especifidade nacional russa, que achará sua expressão na doutrina e não apenas na prática.

3. Novo povo

Tal socialismo russo deve ser construído por um novo povo, um novo tipo de povo, uma nova classe. Uma classe de heróis e revolucionários. Os restos da nomenclatura do partido e da sua ordem moribunda devem ser vítimas da revolução socialista. A revolução nacional russa. Os russos estão suspirando por novidade, por modernidade [sovremennosti], pelo romantismo não fingido, por uma participação viva em alguma grande causa. Tudo o que é oferecido a eles hoje ou é arcaico (os patriotas nacionais) ou tedioso e cínico (os liberais). A dança e o ataque, o hábito e a agressão, excessividade e disciplina, vontade e gesto, fanatismo e ironia irão arder nos nacional revolucionários – jovens, maliciosos [zlykh], agradáveis, destemidos, apaixonados e sem conhecer limites. Eles construirão e destruirão, governarão e cumprirão ordens, conduzirão expurgos dos inimigos da nação e carinhosamente tomarão conta dos idosos e das crianças russas. Furiosamente e alegremente se aproximarão da cidadela do sistema podre e moribundo. Sim, eles têm sede profunda [krovno] de poder. Eles sabem como usa-la. Eles respirarão Vida para a sociedade, eles impulsionarão [vvergnut] o povo para o doce processo da criação da História. Um novo povo, finalmente inteligente e guerreiro. Do jeito que é necessário. Que tomam o mundo exterior como um ataque (NdT: nas palavras de Evgenii Golovin [um místico russo e professor de Dugin])

Imediatamente antes de sua morte, o escritor fascista francês Robert Brasillach proferiu uma estranha profecia: “Eu vejo como no leste, na Rússia, o fascismo está crescendo – um fascismo sem fronteiras e vermelho.”

Nota: Não um desbotado nacional-capitalismo, marrom-rosado, mas o amanhecer cegante de um nova Revolução Russa, Fascismo – sem fronteiras como as nossas terras e vermelho como o nosso sangue.

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