quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A Concepção Evoliana da História

por Marcos Ghio


1. Concepção linear e cíclica da história

Em seu artigo "A Direita e a Cultura" Julius Evola manifesta a necessidade de formular uma concepção da história e da sociedade correspondente à direita tradicionalista e revolucionária em contraposição com a cosmovisão moderna em suas diferentes variantes, sejam marxistas, liberais, historicistas, etc.

Ditas ideologias, apesar de seus aparentes antagonismos, partem de um fundo comum o qual é a crença dogmática em um progresso linear e irreversível do devir histórico. De uma maneira lenta e evolutiva para a corrente kantiana, liberal e reformista, de um modo por sua vez abrupto, repleto de revoluções e mudanças repentinas - porém concordantes todas inconscientemente com uma racionalidade secreta que as regiria - para as vertentes hegelianas e marxistas.

Esta postura linear em relação ao fato histórico não é senão uma secularização do dogma judaico-cristão do fim dos tempos para o qual a História, campo de batalha consequente do pecado original, está caracterizada por ser a representação de uma longa séria de antagonismos e conflitos radicais, porém que culminariam todos em um final feliz e gratificante, o triunfo do bem sobre o mal, dos anjos bons sobre os demônios infernais.

Este mito religioso, levado ao terreno das ideologias políticas e sociais, sofrerá as seguintes conversões. A figura do anjo de espada flamejante e triunfante se transmutará com o marxismo na imagem do proletário espoliado que, dando o golpe de graça no burguês capitalista, demolirá assim o último vestígio de injustiça no mundo instaurando o paraíso comunista da sociedade sem classes nem padecimentos materiais. Sob a ótica liberal o triunfante será ao contrário o povo racional e "civilizado" que lentamente irá destruindo à irracionalidade da barbárie representada pela massa amorfa e irreflexiva, instaurando assim também o "paraíso" da Democracia, utopia esta última mais exitosa, pois é a que hoje vivemos no mundo.

Aos dogmas modernos derivados do judaico-cristianismo enquanto secularizações de seus mitos, pretendeu-se gerar em contraposição filosofias da história que buscaram seu fundamento em outras cosmovisões e sagas da Antiguidade, tratando de contrapor ao conceito linear, a imagem cíclica e repetitiva do devir histórico tal como aparecia em autores clássicos como Hesíodo. Isso trazia em acompanhamento a seguinte consequência: à convicção axiomática do moderno de que, em razão da unidirecionalidade dos acontecimentos, esta época resultaria o grau mais elevado de perfeição obtida, enquanto confirmação do ideal do Progresso ilimitado e da incessante evolução da espécie, tratou-se de subtrair importância a este tempo concebendo-o como um mais entre os outros, não como o efeito culminante de civilizações anteriores, senão como uma instância circular independente das demais.

Afirmou-se assim que entre os diferentes períodos ou ciclos da História existiriam como hiatos, descontinuidades e rupturas abruptas desvinculadas entre si; que portanto a chamada "pré-história" que nos antecedeu não seria a preparação para chegar a esta História, a qual para os modernos seria, senão a culminação, ao menos o estágio superior em perfeição, senão que seria tão somente outra História, com valores e crenças diferentes da atual, sem vasos comunicantes, como rastros residuais e involutivos encontráveis seja no inconsciente coletivo ou em sociedades em vias de extinção. Daí a idéia de que o homem primitivo não seria propriamente nosso antepassado, senão o efeito degenerado de outra humanidade diferente da nossa.

Assim pois à idéia de continuidade linear se contrapõe a imagem dos ciclos descontínuos, de periodizações de tempo que se sucedem em lapsos similares, porém que não guardam relação um com o outro.

René Guénon, quem melhor representou em nossa época tal concepção, nos fala em sua obra "Formas Tradicionais e Ciclos Cósmicos", de Manvantaras ou ciclos históricos que se repetiriam em lapsos de tempo iguais, sendo portanto a era atual uma das tantas manifestações possíveis, em nada algo superior, senão ao contrário um efeito decadente e crepuscular, justamente enquanto representa um período que, ao ter feito da própria a época culminante, rechaçando assim a Tradição, isto é, o permanente através do tempo, confundiu o Ser com uma de suas múltiplas manifestações.

Não obstante, desde a ótica evoliana, esta postura tão somente parcialmente supera a concepção moderna. É certo que a perspectiva cíclica circular da História, com sua concepção crítica do conceito de Progresso, derrubou um dos pilares principais da modernidade, justamente, ao ter situado o tempo burguês como um tempo mais entre as múltiplas manifestações do Ser, acertou em cheio o humor principal dos modernos o qual é sua tendência ao histrionismo, à vaidade, dos quais esta época apresenta uma pletora de exemplos. Não obstante, isto não implica ainda o essencial de um rechaço radical e absoluta dessa concepção.

É mais, seja em tal postura cíclica como na linear, existe um fundo comum que as informa o qual é sua crença em uma certa fatalidade recorrente ao longo da totalidade do devir histórico. Assim pois, seja no judaico-cristianismo, como ainda em manifestações pagãs como a do próprio Hesíodo que o precederam, está presente a mesma idéia de que os acontecimentos históricos, analogamente ao que sucede no mundo natural, obedecem a um encadeamento necessário de causas e efeitos que no fundo torna nula a liberdade humana. Do mesmo modo que o homem não pode se safar da lei de ferro dos ciclos históricos, assim também a graça de Deus nos impõe de modo necessário e determinado seu "final feliz". É que em última instância mais que nos encontramos com concepções distintas da História, a linear e a circular, tratar-se-ia mais de duas tendências existenciais diferentes, mais ainda, de duas naturezas antagônicas.

Não obstante, é de se ressaltar que Evola, ainda com as limitações antes apontadas, aceita a visão circular da História e por consequência, que o tempo atual é decadente e sequência de etapas involutivas que o precederam, porém tão somente enquanto considera que não existe a fatalidade, senão que o devir histórico é fruto da liberdade humana e que os ciclos não se repetem de maneira necessária.

"Fica indeterminado pois, se ao esgotar-se um ciclo, poderá iniciar-se, com certo caráter de continuidade em relação aos antecedentes, uma nova face ascendente".

O tempo cíclico representa um processo de materialização da História. A respeito é bom ressaltar aqui a idéia que Evola expõe de matéria. Tal palavra vem de "mater" que significa mãe e representa um estado de passividade, de potência, de situação permanente de receber uma forma e portanto de ser determinado e regido por algo alheio. Espírito é ao invés por contraposição ato, princípio de autosuficiência e liberdade. Destas duas polaridades metafísicas emanam duas tendências existenciais diferentes. Ou o humano se expressa através do que é superior, do plano espiritual e portanto é ativo e livre, fazedor, enquanto indivíduo, da história, ou ao contrário, se prima nele a matéria, sobrevém então um estado mais próximo ao que é potência e passividade, representando isso um deixar-se conduzir pelo fluxo irreversível dos acontecimentos e então já perdem valor aqui seja a linearidade, como a circularidade e repetitividade dos fatos (o eterno retorno ao mesmo), se trata mais exatamente de ser o senhor da História ou uma simples marionete do destino. chame-se este Moira, ou Divina Providência, ou ainda lei do Progresso Universal, ou Luta de Classes.
Caberia a respeito se perguntar: Por quê se existe a liberdade, Evola adere a uma concepção cíclica da História? Para nosso autor vale a idéia de que nos encontramos em um tempo cíclico ou circular. É verdade que as idades se repetem, que a história, enquanto irrupção do devir ilimitado, acontece de maneira rítmica e reiterativa. Que à conclusão de uma idade áurea lhe sobrevem de maneira necessária três idades sucessivas obedecendo isto ao fenômeno da decadência pelo qual se vai rompendo paulatinamente e de forma cada vez mais acelerada o equilíbrio entre as formalidades do homem que compõem o contexto social. Porém há aqui uma diferença essencial com a concepção cíclica que habitualmente se conhece. Nem o ciclo acontece de maneira necessária à humanidade, nem tampouco à conclusão do mesmo sobrevém um novo. Estamos imersos em uma idade cíclica, é verdade, porém isso não é uma situação natural da humanidade. O devir histórico mesmo, com suas reiterações permanentes, não representa uma situação normal para o homem, senão a eternidade que se expressa como a perpetuidade ilimitada de um período de equilíbrio entre as partes do todo social.

Assim pois, em semelhança ao mito cristão do Paraíso adâmico e de diversas sagas pertencentes às grandes religiões, Evola considera que o estado habitual do homem representado por seus remotos antepassados era o da imortalidade no quai não se conhecia o que hoje chamamos História, um processo ilimitado de mudanças, sejam estas compreendidas de forma linear ou circular. E esta sobreveio como o produto de uma queda, de um estado de decadência intrínseco à própria humanidade. Quer dizer que a ciclicidade do tempo não foi o produto de uma situação necessária, senão de um ato voluntário pelo qual o homem se apartou de um estado primordial ou idade áurea ou paraíso terreno, etc.

E por quê a ciclicidade se ajustaria melhor que a linearidade ao curso dos fatos históricos? Justamente porque, ao produzir-se a queda do homem, o tempo, como uma das várias manifestações de seu ser em decadência, vai assumindo cada vez mais, a medida que transcorre, a forma mais próxima à matéria qual é a reiteração homogênea dos fatos. Assim pois, da mesma maneira do que sucede na natureza física:

1) Os fatos ficam encadeados em um ciclo repetitivo: as idades se sucedem de modo necessário.

2) A sua vez, a medida que se aprofunda a materialização do tempo, se acentuará a assimilação do acontecer humano com o fenômeno físico da aceleração. Assim como de acordo à Física a queda de um corpo acrescenta seu movimento a medida que se aproxima ao centro da Terra, da mesma maneira um ciclo, ao aproximar-se a sua fase terminal, aumenta ilimitadamente o movimento da queda. E estamos então na Idade do Ferro.

3) Os períodos podem ser previstos com antecedência, assim como acontece com os fenômenos próprios das ciências fáticas. Ainda que seja bom assinalar que tais previsões não podem ter a exatidão dessas disciplinas pois nunca a materialização do tempo é absoluta e sempre fica um resquício ainda remoto de espiritualidade, ainda nas eras mais decadentes, o que faz com que as etapas possam se prolongar ou encurtar.

Por otura parte o tempo pode chegar a enlouquecer, os acontecimentos suceder-se de maneira vertiginosa e não obstante isso não significar a conclusão do ciclo. Vale aqui então o exposto em outro artigo: "quando o final parece mais próximo, maiores profundezas adquire o abismo da queda"..."a decadência pode se prolongar no tempo, como um processo de morte infinita, como uma queda abismal na qual se fizesse cada vez mais indeterminado o saber em que momento acontecerá a detenção". Por isso é que a conclusão do ciclo, assim como seu início dependerá única e exclusivamente da liberdade humana.

2. A Meta-História


Antes da História existiu a Metahistória. As raças boreaias de homens imortais não viveram então as mudanças abruptas e repentinas que hoje conhecemos com o nome de Revolução, ainda que seria mais próprio falar de Subversão. Classicamente a Revolução possuía um significado que ainda hoje residualmente conserva a Astronomia: era um movimento ordenado das partes ao redor de seu centro retor o qual, a semelhança de um motor imóvel, movia sem ser movido orientando-as e atraindo-as para si como uma causa final que permitia que estas realizassem sua própria natureza. Tal princípio metafísico supremo e organizador recebia na esfera social simultaneamente dois nomes: era por um lado o Estado, pelo que se assinalava, como sua própria palavra indica, uma instância de permanência, estabilidade e imutabilidade, sendo analógicamente como um Sol que irradia luz e calor a todas as partes que dele participam. Em segundo termo se chamava Império, pois era um princípio de mando e de governo, uma causa formal e eficiente que regia a vida dos homens, permitindo-lhes, ao encontrar e realizar sua própria medida, elevar-se a uma instância superior de eternidade. A função de governo consistia pois em realizar nas partes múltiplas que compõem a trama social a dimensão do espírito e da liberdade outorgando um sentido supremo a todas as ações, desse modo, ainda a mais humilde de suas atividades, por tal irradiação e orientação, se sentia multiplicada e dignificada.

Por debaixo, o corpo social se encontrava ordenado a partir de tal princípio organizador em um emaranhado de castas diferentes. As castas eram funções que projetavam socialmente as distintas formalidades das que participa o homem enquanto a sua própria natureza. Enquanto este é espiritual e partícipe da eternidade, vinculado e projetdo para o que é mais que mera vida, pertencia a aquele grupo de pessoas que realizavam a nível social o valor do sagrado. Esta era a casta sacerdotal e seus instrumentos próprios eram o rito e a consagração.

Pelo primeiro, instauravam no tempo do devir o não-tempo da eternidade, evitando assim que pela contaminação secular que tudo corroi, os homens caíssem desagregados pelos múltiplos afãs que habitualmente os agitam aos lhes imprimir uma têmpera superior. Pelo segundo outorgavam caráter sagrado e divino ao que em aparências era tão somente profano, estabelecendo desse modo um laço, uma continuidade ontológica entre esse mundo e um superior. Assim pois tínhamos as consagrações reais pelas quais quem era coroado rei adquiria por tal ato a dimensão de pontífice, isto é, um fazedor de pontes entre a Terra e o Céu, uma figura e imagem divina no seio da humanidade. Através do sacerdócio toda ação se convertia em um rito e toda realidade em um símbolo, oficiando de ponte, de ponto de apoio para elevar-se para o mais além do que é puramente humano.

Em segundo lugar vem a função psíquica, a qual tem por fim o de representar um princípio de ordem e racionalidade do organismo humano e vivente evitando que tudo aquilo proveniente da função animal e sensitiva, os instintos e impulsos que costumam desencadear-se sob a forma de caprichos, desejos e modas irrefreáveis, determinem ao homem conduzindo-o para a desagregação temporal, para o âmbito do que é puramente múltiplo e caótico. Tal função a nível político era assumida pela aristocracia, isto é, aquele grupo de homens selecionado desde o berço e por uma longa experiência pública para dirigir e moralizar a comunidade evitando que as classes sociais vinculadas às dimensões animais e puramente biológicas do homem, desencadeem no contexto social enfermidades ou desordens tais como a avareza, a usura, a luxúria, e toda outra classe de desenfreio irracional pelo mutável. Tal classe tinha uma função eminentemente ética; longe se estava do maquiavelismo que separava tal dimensão da política. E recebia do sacerdócio e de sua criação vivente, o Imperador, uma direção existencial pela qual se conduzir.

Em terceiro e quarto lugar vem as duas ordens pertencentes à esfera material: primeiro o correspondente ao nível biológico animal do qual o homem participa pelo corpo enquanto ser vivo e sensitivo e logo o nível físico-vegetativo, enquanto ser submetido aos processos elementais de mudança incessante e movimento e à função vital puramente vegetal e nutritiva de mero indivíduo que cresce, se reproduz, e morre de forma contínua, vermicular e reiterativa.

Tais dimensões, correspondentes à natureza material, se manifestam socialmente através das classes econômicas em duas ordens claramente diferenciadas a nível funcional e existencial. Primeiro se encontra aquela que ordena o processo produtivo, estabelecendo metas ao mundo do trabalho, tratando que o mesmo se oriente para a organicidade funcional própria do que é vida sensitiva e logo encontramos aquela que, apegada mais ao plano físico e ao não ter em si mesma o princípio do movimento, carece de qualquer finalismo e organicidade e somente executa de forma mecânica e necessária, seja o que a classe que lhe é superior, seja seus meros instintos, ordena. No primeiro caso teríamos à classe dos empresários ou da que se conhecia antes como os "capitães de indústria", para quem o processo produtivo se associa à criatividade, a empresa é concebida aqui como um exército, a produção a um desafio no qual triunfa quem se descata por seu gênio e o mercado um campo de batalha no quai se sobressaem a aptidão e habilidade para perpetuar-se e vencer. No segundo estaria a daqueles que por si mesmos não veem na economia nada que a transcenda, que endeusam o dinheiro, o consumo, o prazer e o trabalho como escura necessidade; sendo esta a classe que deve seguir as mais férreas regulamentações para poder viver a existência livre do espírito.

Desse modo, uma sociedade humana alcança a realizar seu equilíbrio e harmonia quando as quatro classes que a compõem cumprem com a função que lhes corresponde. Que as mais altas orientem às inferiores e que estas lhes respondam com lealdade e fidelidade recíproca.

Um princípio resuma o espírito do mundo metahistórico da Tradição e era o da equidade que rezaa: "a cada um o seu"; que cada natureza cumpra com a função que lhe corresponde e não pretenda insubordinar-se e violentar a própria condição. Este princípio foi ilicitamente confundido mais tarde com o da igualdade.

Toda a trama social poderia se resumir nas seguintes normas: a) que a classe sacerdotal, sacralizando à classe política, dê conteúdo transcendente à função moralizadora que esta personificava. b) Por baixo, as classes econômicas, conduzidas por normas espirituais, moderavam seus apetites materiais fazendo que a economia servisse ao homem, assim como o corpo sustenta e é informado pela alma e não ao contrário. DE modo a sua vez que a matéria mecânica que não é movida por si mesma, seja dirigida para a finalidade do orgânico. Que a vida respeite o fim dos bens morais que lhe propõe a alma para conduzi-la à liberdade e que o psíquico-político transcenda a ordem da temporalidade alcançando a meta do sagrado que lhe oferece o sacerdócio. E que em sua cúspide mais alta o que manda, quem personifica o Estado que representa o equilíbrio retor do mundo da Tradição, plasme esta ordem existencial conduzindo esta vida para a outra vida.

3. A História

Qual é a razão pela qual em uma sociedade de homens livres, orentada para a eternidade, haja surgido a decadÊncia em um grau cada vez maior e ilimitado até chegar à instânca crepuscular na qual hoje nos encontramos? Não foi uma fatalidade, como disséramos anteriormente, senão mais exatamente o resultado da ruptura de um equilíbrio entre as partes diferentes que a compunham. É como se em um determinado momento se tivesse operado algo equiparável a um curtocircuito, a um cansaço existencial, a um enfraquecimento dos laços que mantinham unido o organismo social.
Evola concebe a ruptura da ordem da humanidade normal como um processo de simultâneo relaxamento e tensão recíproca entre as duas naturezas das que participa o homem, entre o princípio retor, de caráter espiritual, e o que é por ele regido, a ordem da matéria. Tudo acontece como se por uma espécie de esgotamento o que manda deixasse de ser sol e causa final das partes singulares, em que a casta dos espirituais decai renunciando a realizar sua função de orientação e direção da matéria. E então é quando sobrevém o modo próprio dessa última, o qual é um estado de passividade, "a impotência de cumprir a si mesmos em uma forma perfeita, de possuir-se em uma lei".

 O materialismo, modalidade própria da segunda natureza ou princípio ao qual pertence o homem, vai desencadeando-se como um processo lento que abarca desde os próprios inícios as distintas etapas sucessivas que compõem o devir histórico. Mais ainda, o materialismo se equipara ao próprio mundo do devir e da mudança. Assim como a Metahistória representa o acontecer do espírito, a História é uma mudança aqui entendida como o desdobramento da natureza material enquanto vai perdendo paulatinamente os laços que a subordinam à esfera espiritual: explicação esta totalmente contraposta a uma perspectiva hegeliana.

É importante estabelecer aqui os distintos alcances que pode possuir o vocábulo materialismo. Em um sentido metafísico entendemos por isso a aquela concepção que considera à matéria como a substância que origina e fundamenta a realidade. Desde uma perspectiva histórica e ainda marxista representaria a concepção que considera que o móvel último do devir humano é a satisfação das necessidades materiais e econômicas. Há um terceiro materialismo que está no fundo e os restantes e que podería assimilar-se ao empirismo e que Evola considera como "o verdadeiro materialismo dos modernos" pelo qual para tal "tipo humano sua experiência não sabe senão captar coisas corpóreas". Porém ademais existe uma forma ainda mais profunda de materialismo assimilável ao conteúdo etmológico de tal palavra. Como disséramos, matéria vem de "mater" que significa mãe, isto é, princípio de geração, porém determinado pela ação de outro, em virtude da passividade própria do sexo feminino.

Assim como desde um ponto de vista metafísico o espírito é o ativo que informa e governa e a matéria é o passivo que é formado e orientado, de maneira correspondente, a nível físico tal vínculo se expressa na dupla sexual homem-mulher através das características próprias dessas duas dimensões diferentes e complementares. Quer dizer que se trataria aqui da matéria em um sentido qualitativa e não quantitativo tal como se a concebe, de acordo com Guénon, nos tempos últimos. E assim como o próprio da matéria é sua aptidão por ser determinada pela forma, o que é próprio do feminino é ser conduzido e regido pelo masculino.

Entenderíamos então por materialismo em seu grau primeiro e principal a esta tendência à insubordinação do que é passividade e potência contra aquilo que é forma e atividade. Partindo pois dessa perspectiva o materialismo não se nos apresenta em primeiro termo - tal como acontece nos tempos atuais- como uma estereotipação das ciências em detrimento da religião e da Metafísica, senão que se expressa como uma inversão em relação entre a dupla espírito-matéria e homem-mulher. Isso aparece primeiramente em formas religiosas que acentuam o caráter passivo e dependente do homem. É quando se substitui o viril pelo materno, quando a procriação aparece como o ato principal da espécie, primeiro em importância. A mera existência biológica é reputada como um verdadeiro milagre que deve ser incessantemente agradecido e que suscita assombro e devoção. A vida vai substituindo de pouco em pouco à supra-vida, a qual é relegada para um mais além, recôndito e distante.

Aparecem também como principais divindades de caráter feminino; a Lua e as divindades noturnas se situam no lugar primordial ocupado antes pelo Sol. Ao nomadismo, enquanto busca incessante e realização do absoluto sobrevém a atitude sedentária e ao culto dos deuses olímpicos, que são mais que homens enquanto homens absolutos, substitui a veneração pela Mãe-Terra acompanhado isto com ritos e libações pelas sementes e colheitas abundantes. A sociedade tornou-se então matriarcal. Esta passividade se transmite então à relação do homem com seu Deus; nasce assim o estado de submetimento e abandono passivo a sua Absoluta Vontade, a resignação pelo próprio estado insuficiente que é mais uma renúncia por "cumprir-se a si mesmo em uma forma", o fatalismo, a dependência, a espera em uma Graça Providencial que paraliza a própria iniciativa e afunda no desespero.

Poderíamos dizer que esta primeira insubordinação ou ruptura acontecida na própria aurora da humanidade pôs fim à harmonia, equilíbrio e correspondência entre as duas naturezas essenciais do homem, própria do estado primordial. Sobreveio ao invés uma dialética de radical enfrentamento entre ambas que recorrerá sempre e de maneira recorrente a história das mais variadas civilizações e culturas.

Gerada tal cisão entre ambas naturezas, o materialismo adquirirá três formas sucessivas e cada vez mais decadentes, distanciando-se assim do que é ato e unidade primordial até chegar ao grau mais próximo da potência pura e a dissolução individual e caótica no coletivo. Primeiro se manifestará sob a forma de um puro humanismo sem transcendência e de um Estado reduzido ao papel de mera força exterior e material. E isto se conhecerá como o absolutismo. Logo lhe sobrevirá o otimismo pelo progresso material e o endeusamento da economia com o liberalismo dos séculos XVIII e XIX que viveu nossa civilização. Por último, com o hedonismo ou consumismo, ou tecnocratismo, onde o homem, liberado já de qualquer ideal, até mesmo do progresso material, tão somente "vive" e desfruta do presente e estaríamos então na época atual.

4 As etapas do ciclo ocidental

Voltemos agora à idéia anteriormente formulada. A queda do mundo da Tradição originada nas auroras da humanidade e da qual as grandes religiões conservam em seus relatos resenhas concordantes, gerou um fenômeno de tensão dialética que poderíamos chamar propriamente como o verdadeiro motor da História. É esta luta permanente entre dois princípios contrapostos: um olímpico e outro titânico, um solar e outro lunar, um masculino e outro feminino, enfim, um espiritual e outro material.

Dito fenômeno aparece em forma recorrente e de maneira imperfeita em todas as grandes civilizações e ainda de modo mais larvar nas próprias culturas nacionais. A raiz dessa queda primordial cada uma destas manifestações do espírito começa sendo em suas origens um princípio organizador do múltiplo que pretende plasmar-se e realizar-se. Ocidente desde a época clássica e a Idade Média trataram de logra-lo na figura do Império. Primeiro com Alexandre o Grande, mais tarde com Augusto, finalmente com o Sacro Império Romano Germânico.

Tal instituição representava o princípio retor transcendente que ordenava e elevava às distintas partes representadas pelas múltiplas nacionalidades que compunham o espectro da Europa. Quando sobrevém a ruptura da unidade ocidental? Novamente apelando à dialética espírito-matéria, ou também espiritualidade solar versus espiritualidade lunar, ou princípio masculino versus feminino, Evola o encontra em plena Idade Média com a doutrina do papa Gelásio e o consequente conflito pelas investiduras. Antes, na Antiguidade e na Alta Idade Média, o sacerdócio cumpria com o rol específico de consagrar e não considerava que este fato lhe proporcionara uma superioridade ontológica sobre o Império.

Agora, logo das doutrinas de Gelásio e de Gregório VIII, sobrevém o primeiro desencontro e a verdadeira origem da subversão moderna que é quando a Igreja quer substituir o Imperador ao considerar que o fato de havê-lo consagrado lhe outorga superioridade ontológica, assim como antigamente se reputava a Mãe como superior enquanto procriava. Não é casual que o Papado, ao considerar sua maior hierarquia titule ainda hoje à instituição que representa como a Mãe Igreja.

Desse modo, ao retirar ao Império seu caráter transcendente e divino, dará origem ao que mais tarde seria em forma secularizada a democracia, ao sustentar a primazia das nacionalidades (mais tarde convertidas em nações) e assim o Estado, ao perder seu caráter sagrado, se converte no mero organismo encarregado de assegurar o bem comum. Se inicia assim o fenômeno que logo se converterá na transformação da função de governo em uma tarefa de "bom administrador". 

Historicamente temos coroado este fato com o apoio da Igreja à rebelião das Comunas do norte da Itália contra o Imperador Frederico Barbarruiva.

Esta primeira ruptura entre o sacerdócio e o Império, tal desinteligência recíproca iniciará no Ocidente a era das Revoluções, também conhecida como das idades sucessivas e duradouras de acordo com a consistência do metal que representam. Destruída a unidade política e espiritual de Ocidente, confundidas as funções, a Igreja se mostrará incapaz, por sua espiritualidade lunar fundada no termo pelos castigos eternos e no pecado, masi que na imagem divina, heróica e vitoriosa do Império, de converter-se na instância transcendente mantenedora da unidade política.

Em virtude do princípio de degradação das castas expressado por René Guénon, havendo-se dessacralizado o poder político, "privando aos chefes do crisma de um mais alto princípio, empurra a sociedade para a órbita das forças inferiores as que paulatinamente tomam a primazia. Em geral é fatal que, cada vez que uma casta se rebela contra a superior e se constitui a si mesma, perca o caráter próprio que possuía no conjunto hierárquico para refletir no da casta inferior".

Assim pois as mesmas partes que antes se haviam aliado com a Igreja contra o Imperador hoje se sublevam a esta e as particularidades, convertidas em nações, "santificadas" logo pelo protestantismo com sua doutrina dos reis compreendidos como "lugartenentes de Deus" se convertem no poder absoluto substituto de uma autoridade suprema e transcendente. Eis aqui então a primeira revolução, a do poder político que se subleva contra a autoridade espiritual representada em primeiro termo pelo Imperador e a estrutura que o acompanhava, as ordens ascético-guerreiras da cavalaria, realizadoras das Cruzadas e em sua face já decadente, pela Igreja rodeada pela estrutura mística do monacato. O materialismo adquire agora a forma de humanismo renascentista, de relativismo, enquanto reivindicação do "livre exame" e ainda de "nacionalismo" enquanto valoração exacerbada do próprio e singular desgarrado de qualquer valor universal.

Individualismo, relativismo, fuga e procissão do uno para o múltiplo, esta é pois a tendência que se inaugura através de um processo de enlouquecedora agitação cada vez mais descendente. O monarca se aliará logo com a burguesia contra a aristocracia feudal para consolidar seu autoritarismo, assim como antes o Papado o fez com os mercadores das cidades lombardas para dobrar o Imperador. Se terá preparado então o caminho para a segunda revolução, a da economia burguesa contra seu outrora aliado, o absolutismo monárquico, representado isso com o liberalismo da revolução francesa. Aqui o materialismo se manifesta já de forma aberta e até metafísica. A matéria passa a ser a "panacea" para o homem e sua posse permitiria o "progresso" da humanidade através da "ciência". A burguesia em sua revolução acudirá à aliança com a plebe, a casta mais baixa dos servos, aos quais "liberará" das cadeias da "ignorância" e da "superstição" tratando de torná-los adeptos de suas utopias "racionais", de sua crença na Democracia, na Paz, e no Grande Paraíso Universal.

Mas eis que aqui também sobrevém a terceira revolução dos servos, conhecida como a Idade de Ferro do comunismo, a Revolução russa de 1917. Não deve ser confundido isso necessariamente com uma de suas tantas manifestações, a ideologia marxista-leninista, nem com seus sucedâneos, senão mais exatamente compreendida como a época da substituição do individual próprio da sociedade burguesa pelo coletivo e massificado, o homem que por baixo do puramente animal, representado pela burguesia, descende ao rol de engrenagem de uma máquina ou mero animal domesticado. Os estímulos e campainhas do cãozinho de Pavlov são agora os sinais televisivos, os concertos de rock, a propaganda subliminar. É um homem que não pensa nem raciocina, senão um ser que responde por reflexos condicionados e que, ao falharem estes ou suspender-se, pela imperfeição da máquina, o mecanismo substituto satânico do princípio espiritual ordenador, suplantada a Revolução pela subversão, sobrevem repentinas comoções, vazios existenciais, hoje conhecidos como estados de niilismo ou violência irracional, que deixam o mundo na mais fria insegurança do abismal.

Teremos chegado assim ao final do ciclo, à instância mais próxima à potência pura, ao que é quase nada.

Alcançado este ponto, novamente volta a apresentar-se a disjuntiva inicial que deu início ao ciclo da decadência. Prenuncia a queda o "redirecionamento" ou a restauração de uma humanidade normal? Tem cabida o mito cristão apocalíptico do fim dos tempos resumido por Lutero em sua frase de que "pelas portas do inferno se ingressa ao Céu"?

Novamente é diferente a resposta evoliana: "Fia indeterminado saber se ao final de um ciclo se instaurará um novo". Está presente aqui a idéia de liberdade através da ação ousada de uma nova ordem da cavalaria.

 Concluamos com esta frase de Evola: "A sociedade medieval nos deixa seu testamento em duas lendas. A primeira é aquela, segundo a qual na noite do aniversário da supressão da Ordem dos Templários, todos os anos uma sombra armada com a cruz vermelha sobre o manto branco apareceria na cripta dos templários para perguntar quem queria libertar o Santo Sepulcro. 'Ninguém, ninguém, é a resposta, porque o Templo está destruído'. A outra é a de Frederico II que, sobre as alturas do Kiffhäuser, no interior do monte simbólico, seguiria vivendo com seus cavaleiros em um sonho mágico. E espera: espera que o tempo assinalado tenha chegado para descer no valor com seus fiéis para combater a última batalha de êxito seguro da qual dependerá o reflorescimento da Árvore Seca e o surgimento de uma nova era".

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