terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sombart e os Judeus

por Claudio Mutti



A questão do aporte feito pelos judeus para a construção do capitalismo foi abordada por Werner Sombart em uma de suas obras.

Ademais de ocupar-se disso em Die Juden und das Wirtschaftsleben, editada em Lipsia em 1911, Sombarte estudou o caso, ainda quando de maneira bastante sintética em Zukunft der Juden (Lipsia, 1912), no capítulo Der Bourgeois, inserido na antologia sombariana feita por nós nas Edições de Ar, na segunda edição de Der Moderne Kapitalismus e nas edições sucessivas dessa mesma obra.

A presença de um capítulo sobre os judeus como veículos do espírito capitalista nas edições definitivas de Der Moderne Kapitalismus - estudo de caráter histórico, econômico, e sociológico sobre a formação do capitalismo - reveste um valor emblemático acerca das conclusões sugeridas ao autor sobre as investigações precedentemente realizadas sobre o papel desempenhado pelos judeus na vida econômica: investigação da qual aparecem organicamente expostos os resultados, concretamente em Die Juden und das Wirtschaftsleben, e tais conclusões vem resumidas no início de dito capítulo, o sexagésimo segundo do primeiro volume:

"Creio ter demonstrado em meu livro sobre os hebreus que sua importância específica para a história moderna há que ser buscada no impulso dado por eles a essa forma do desenvolvimento capitalista que eu chamo comercialização da vida econômica, cuja geração marca a passagem à época do capitalismo maduro. A particular e decisiva importância dos judeus deve pois encontrar-se no fato de que a sua atividade atribui-se a aceleração da passagem das formas econômicas do primitivo capitalismo às formas do capitalismo maduro".

Sombart, porém, demonstrou em Os Judeus e a Vida Econômica, que a contribuição hebraica à instauração do capitalismo não reduz-se à mencionada transição, senão que manifesta-se nos próprios primórdios da economia moderna, toda vez que já o período pré-capitalista apresenta, com particular evidência, formas de atividade econômica características dos judeus. A intervenção da atividade hebraica na época dos primórdios do capitalismo, acima de tudo desde o distanciamento das correntes do tráfico das áreas mediterrâneas para as do Norte da Europa, constitiu principalmente, segundo Sombart, na notável participação quantitativa dos judeus no volume dos negócios, e todavia mais na qualidade de seu comércio, que ocupava-se especialmente de mercadorias de luxo, produtos de consumo a longo prazo, artigos novos que subvertiam os procedimentos tradicionais.
A participação empresarial dos judeus manifestou-se, ademais, no aporte massivo dos mesmos à colonização das Américas, onde já desembarcaram no final de 1492: em terceiro lugar, à função levada a cabo pelos mercadores judeus como provedores dos exércitos durante os séculos nos quais formaram-se os estados modernos.

Tampouco limita-se Sombart a sublinhar, no que refere-se ao aporte judeu à formação do capitalismo, este papel de pioneiros levado a cabo pelos judeus: ele considerava como imprescindível sua atividade no setor creditício, exercitada e aperfeiçoada no curso de séculos e séculos de prática usurária. Sombart, de fato, atribui ao crédito "uma das mais importantes raízes do capitalismo" até o ponto de que pode, tranquilamente, e com toda objetividade, atribuir à moderna civilização ocidental uma matriz cultural judaica, de acordo com Karl Marx, do qual cita em Deutscher Sozialismus (Berlin, Charlottenburg, 1934) esta famosíssima afirmação: "o espírito judaico converteu-se no espírito prático dos povos cristãos", "os judeus emanciparam-se no mesmo sentido que os cristãos converteram-se em judeus", "a verdadeira essência dos judeus realizou-se na sociedade burguesa".

A diferença entre Marx e Sombart, ainda que ambos estivessem lucidamente convictos da equivalência que progressivamente foi-se estabelecendo entre mentalidade judaica e mentalidade ocidental, consiste na absoluta e irredutível antítese do juízo de valores expresso por eles sobre a civilização capitalista sob o signo da usura. Marx, de fato, em razão do fundamental critério progressista e historicista que condiciona toda sua elaboração ideológica, vê um fator de evolução histórica, quer dizer, um acontecimento positivo, na expansão planetária da civilização burguesa e que revela-se, mais coerentemente que aqueles de seus epígonos que pretendem-se "anti-imperialistas" e promotores do "Terceiro Mundo", um convicto partidário fanático do colonialismo, como quando exalta a obra de devastação anti-tradicional realizada pelo imperialismo britânico na Índia, ou como quando, por ocasião da guerra entre EUA e Méico, declara-se abertamente a favor dos primeiros, pronunciando-se em um artigo aparecido na Rheinische Zeitung, contra os "selvagens mexicanos" e, geralmente, contra os movimentos de liberação sulamericanos.

Sombart, ao contrário, em destacada polêmica com determinados contemporâneos exaltadores da expansão ocidental como condição da hegemonia mundial da "raça branca", encontra no colonialismo um veículo de exportação da decadência. Sua condenação do fenômeno colonial é, pois, nítida e incondicional:

"Os europeus ocidentais não podem oferecer aos povos submetidos por eles nada mais que os valores problemáticos de sua civilização, por exemplo canhões, pólvora, água corrente, banheiros, máquinas, instalações telefônicas, constituições parlamentares, etc.; enquanto destróem preciosas civilizações na África, América, e Ásia. Comportaram-se como elefantes em um armazém de porcelanas; no lugar de uma variada diversidade colocaram a cinza uniformidade de sua incultura. Este desagradável período da história humana é, cabe esperá-lo, algo a ponto de terminar. O domínio da raça branca na terra aproxima-se de seu fim; porém não porque os europeus ocidentais reconheceram seus erros, senão porque os outros povos começaram a pensar por si mesmos e em sua natureza particular. O pensamento nacional difunde-se cada vez mais e vai encontrando seus apóstolos".

E assim foi como, nos anos que em que Sombart formulava tais opiniões, os "apóstolos do pensamento nacional" - se queremos usar também nós essa brutal expressão com a qual pretende-se designar os expoentes das diversas formas tradicionais - fixaram-se fielmente naquele mesmo "socialismo alemão" do qual o economista de Ermsleben esperava uma superação da "era econômica"; assim foi como, na tentativa de deter a difusão contaminadora do "foetor judaicus" e de salvar as zonas da terra ainda não empesteadas por ele, os ambientes mais instruídos e representativos do hinduísmo, da tradição nipônica, e do Islã aderiram à guerra levada a cabo pelo Terceiro Reich contra as potências dominadas pela Usura, conferindo um caráter de "guerra santa" à luta do nacional-socialismo e transformando o duelo ímpar entre Alemanha e os Aliados em um combate entre o mundo da Tradição e o mundo moderno.

Considerada à luz de tais acontecimentos históricos, a obra de Sombart - desde Capitalismo Moderno até Os Judeus e ao ponderado ensaio antropológico Sobre o Homem - ainda quando possam parecer limitados e parciais seus horizontes específicos, adquire o valor de um manifesto que, articulando-se no mesmo talante espiritual do que surgiu a Decadência do Ocidente, anuncia, com um tom análogo, a decadência do sistema instaurado pelo homem faustiano e, entre os modelos que apresentam-se como alternativa do estado capitalista - representados naquela época pelo estado soviético e pelo estado völkisch - orienta-se na direção das soluções propostas pelo segundo modelo.

Die Juden exerceu também uma notável influência sobre os ambientes völkisch, como confirma um estudioso judeu autorizado, Mosae, que escreve a esse respeito:

"Os pressupostos econômicos, sempre populares nos círculos antissemitas, obterão o selo acadêmico com o ensaio de Werner Sombart (...) Sombart não pronunciava contra os judeus em um juízo condenatório: sua intenção era simplesmente formular uma análise histórica na evolução do capitalismo, porém autores e propagandistas nacional-patrióticos aprenderam rapidamente a utilizar sua obra, adaptando-a a seus próprios fins. Esta, grosso modo, coincidência com a imagem elaborada por eles, dos judeus como seres incapazes, desenraizados, desleais, intermediários e especuladores, preocupados somente em acumular ouro e sangrar a Alemanha".

Em efeito, Die Juden constitui um importante ponto de referência para Theodor Fritsch - o qual teve a idéia da cidade-jardim - o qual, em seu "compêndio da questão judaica", um texto que alcançou as quarenta edições e foi considerado pelos nacional-socialistas como a obra de um Altmeister utilizou em diversos pontos o ensaio sombartiano sobre os judeus, para descrever o papel jogado por estes na economia da sociedade moderna: e o livro de Fritsch, juntamente com Die Juden und das Wirtschaftsleben, figura entre os títulos maias citados em um opúsculo de Dietrich Eckart, publicado depois de sua morte, no qual alguns acreditaram encontrar uma fonte da polêmica antijudia de Hitler.

Apesar disso há os que negaram a possibilidade de definir a obra de Sombart como um "prelúdio intelectual do nazismo" ou que definiram as diferenças entre a "ideologia do nacional-socialismo" e o "espiritualismo de estampa romântica e religiosa" de um Sombart, quer dizer, "de um homem de cultura, e não de ação", como se as doutrinas das quais toma forma o fenômeno nacional-socialista não tivessem sido elaboradas por homens de cultura. Agora, deixando de lado a intenção fraudulenta, transparente em uma certa sociologia, sobre tudo católica de recuperar e instrumentalizar alguns aspectos do pensamento sombartiano - intenção que implica a necessidade de separar artificialmente as "responsabilidades" de Sombart na do nacional-socialismo não é ccertamente em tais termos simplistas que deve apresentar-se a questão. Em vez disso, tratar-se-ia de ver que correntes, em que fenômeno não homogêneo qual foi o nacional-socialismo alemão que reconheceu-se como mais afins ao espírito que insinua-se na obra de Sombart e que elementos dessa última influenciaram as diversas tendências do movimento em questão. Para dar um exemplo: não pode-se excluir que o já citado juízo sombartiano sobre o colonialismo se não será certamente compartilhado pela ala ocidentalista e anglófila do nazismo possa ter contribuído para a formação de uma posição anticolonialista entre os ambientes da SS, já que na época da ação na Etiópia o diário oficial da Ordem, Das Schwarze Korps, criticou duramente a iniciativa italiana fazendo eco dos motivos expostos por Sombart.



Um ponto no qual os mencionados "recuperadores" esforçaram-se em ver um combate irredutível entre Sombart e o nacional-socialismo é o que refere-se à raça, como se os teóricos raciais do nacional-socialismo não tivessem se deslocado por uma variedade de posições. Segundo Rizzo, por exemplo, Sombart formularia "um formidável argumento contra o racismo" quando observa que a população alemã é formada por cinco raças diferentes e um número impreciso de sub-raças: o acadêmico em questão cita logo, em apoio a sua tese, a seguinte passagem de "Socialismo Alemão":

"Não pode-se cientificamente demonstrar nem que uma determinada raça possa habitar em um só espírito, nem que um determinado espírito possa albergar somente uma determinada raça. Um espírito alemão em um negro é possível, como um espírito negro em um alemão. Pode-se unicamente demonstrar que homens com espírito alemão são extremamente mais numerosos no povo alemão que no povo negro e vice-versa".

Pois bem, que diferenças essenciais existem entre a política de Sombart e a melhor doutrina racial, a que sabe negar ou superar o racismo materialista biológico para reconhecer no homem um ser composto não somente de corpo e considera, portanto, todos os elementos de que o ser humano compõe-se? O "formidável argumento contra o racismo" triunfantemente esgrimido por Rizzo, é deduzido por Sombart propriamente da classificação antropológica formulada por um expoente de primeira linha entre os estudiosos raciais: Hans F.K. Günther, professor de antropologia social na universidade de Freiburg, que em 1942 é declarado por Evola "um dos mais notórios e citados racialistas alemães". Formidável argumento contra o racismo também o de Günther? Enquanto ao fragmento do Socialismo Alemão já mencionado, os pontos de vista que nele encontram-se constituem propriamente uma adesão às orientações mais positivas que a doutrina racial soube exprimir. Que diferenças essenciais, perguntamos uma vez mais, existem de fato entre tais pontos de vista e os que sustenta a psicoantropologia de Ludwig Ferdinand Clauss? E pode, seriamente, ser considerado Clauss, com a contribuição retificadora aportada por ele à doutrina racial, um adversário do nacional-socialismo?

A idéia, herética tanto para o racismo "zoológico" como para o antirracismo democrático de uma "raça da alma", idéia que encontra-se na base da teoria de Clauss e está sinteticamente exposta no fragmento citado mais acima, é fundamental para compreender a noção sombartiana do "espírito judeu". Como é possível encontrar um "espírito negro em um alemão" e vice-versa, também é possível encontrar um espírito judeu em muitos "goyim".

"Os maiores magnatas das finanças mundiais são do mais puro sangue ariano e muitos dos mais colossais escândalos financeiros ou bancários estão ligados a nomes não judaicos".

Nas mais longínquas origens do capitalismo não contam tanto os judeus como indivíduos ou como realidade coletiva que atua sobre a história, senão como uma idéia platônica (Sombart chama-a Geist) a qual dá lugar a uma tendência particular do espírito, a uma particular conformação psíquica (Sombart chama-a Gesinnung): é, esta, a "raça da alma" a qual Otto Weininger - "o único judeu digno de viver" segundo um juízo do Führer - dá o nome de "hebraísmo": Esta - escreve - representa para todo homem uma possibilidade, e no hebraísmo histórico teve somente sua realização mais grandiosa. Idéia, esta última, que reaparece em Sombart.
"Este espírito (o espírito hebraico) toma, nos primeiros tempos, raízes no povo judeu e difunde-se amplamente, porque, como é lícito supor, correspondia a um caráter congênito ou de 'sangue' bastante frequente no povo judeu".

Não obstante, a hebraicidade não é, apra Sombart, a única fonte da mentalidade capitalista.
"Não estamos tão desprovidos de senso crítico para atribuir todas as peculiaridades do homem econômico moderno ao influxo da moral judaica (por considerável que esta possa ter sido".

 Junto ao espírito judaico atuaram, em tal sentido, outros fatores, como certas filosofias, certas religiões, e certas igrejas, ademais das conquistas intelectuais, tais como a técnica, fatores psicológicos como a inveja social, o "ressentimento" segundo a teoria nietzscheana, dos burgueses e de outras forças mais, em primeiro lugar o Estado, uma entidade que nenhuma explicação racional pode explicar, porque:

"A compreensão do sentido do Estado entra no campo da transcendência".

O fato de que Sombart esforce-se em não enfatizar nenhuma dessas causas - nem mesmo a representada pelo espírito judaico - senão que preocupe-se em sublinhar a eficácia conexa a cada um dos diversos fatores induz a estabelecer uma relação entre o autor de Os Judeus e o autor de Die Protestantische Ethik und Der Geist des Kapitalismus. Max Weber, de fato, atribuindo uma atenção particular ao papel jogado pela ética protestante na formação da mentalidade capitalista, tivesse podido igualmente captar o significado convergente revestido por outras forças espirituais. Em vez disso, Weber estabeleceu uma relação de filiação quase exclusiva entre a ética protestante e mentalidade capitalista, o que reduziu a importância do judaísmo dentro dos termos de uma limitada aportação moral proporcionada por este último ao puritanismo:
"O judaísmo encontrava-se na parte do capitalismo dos aventureiros, orientado em um sentido político e especulativo: sua ética era, em uma palavra, a do capitalismo do pária: o puritanismo aportava o ethos da indústria nacional burguesa e da organização racional do trabalho. Formada da ética judaica somente o que lhe convinha dentro desses limites".

Tal ponto de vista é confirmado por Weber em seu escrito sobre a profecia e a ética judaica, onde o capitalismo judeu é nitidamente distinto do protestante, considerado como o único precursor do capitalismo moderno.
O capitalismo dos judeus é considerado como "típico de um povo pária" porque este:
"Encontrava-se em seu apogeu, ademais de no comércio e na usura, naquelas formas proscritas pelo protestantismo, quer dizer, no capitalismo de estado e no capitalismo predatório".

Weber propunha-se analizar ato seguido, de maneira profunda, o papel jogado pelos judeus no desenvolvimento da moderna economia ocidental, porque não considerava satisfatório o tratamento sombartiano da questão. O problema, não obstante, não foi abordado, por causa da morte de Weber, sobrevinda em 1920; uma volta aos motivos sinteticamente expostos no fragmento citado encontra-se porém, em "Economia e Sociedade", em uma passagem que explica como deve atribuir-se aos judeus a introdução na Europa de formas de atividade econômica entre as quais destaca-se o empréstimo.
Em realidade, se prescindimos da especial consideração que atribuiram Sombart e Weber, respectivamente, ao judaísmo e à ética protestante, vemos que as teorias formuladas pelos dois sociólogos, apesar da pretensão particular à exclusividade que observamos em Weber, podem muito bem complementar-se, sem que uma cause dano essencialmente à outra. Não obstante, podemos subscrever o que afirma Rizzo no sentido de que:

"A investigação de Weber de elementos pré-capitalistas no profundo da cultura protestante e a de Sombart sobre as consequências da marca dos hereges entrecruzam-se e convertem-se em complemetnares: a descrição de Sombart assume nesse ponto o aspecto de uma 'continuação' da análise de Weber".

Rizzo fala de marca dos hereges, porém deve ter-se presente, para evitar todo mal-entendido, que Sombart coloca os judeus grosso modo na categoria dos hereges.
"Os hereges na Europa eram, primordialmente protestantes (e judeus)".

 De maneira que podemos concluir que, na panorâmica composta pelos estudos de Weber e de Sombart, ao trabalhar como veículos históricos do espírito capitalista são os estrangeiros, os hereges, os judeus, os emigrantes, os perseguidos por motivos religiosos, quer dizer aqueles que, animados pelo desejo de uma nova vida e do espírito de revanche exercitaram-se nas capacidades individuais de contínuos encontros com ambientes hostis, e veem no país ao qual chegaram uma terra estranha, desalmada e desolada.
Um ambiente tal somente pode ser considerado como um objeto de desfrute, como um meio para conseguir o fim, que é a riqueza, e que por tal motivo, podem ser tranquilamente empregados os métodos mais abjetos, como a usura. Entre todos os "estrangeiros" são os judeus os que praticam tais métodos como um dever religioso, pois assim prescreve o versículo do Deuteronômio: "Exige juros ao estrangeiros, porém não a teu irmão, com objetivo de que o Senhor, teu Deus bendiga todos os teus atos sobre a terra na qual entrares e da qual tomares posse".

É óbvio que o estudo do aporte judeu à construção capitalista não pode considerar-se terminado com a obra de Sombart sobre Os Judeus e a Vida Econômica; de modo que a presente tradução de Die Juden tem o sentido de um convite a continuar, prorrogar e integrar a tese sombartiana.
Com isso não se quer certamente dizer que, uma vez plenamente esclarecida a função que cabe ao "povo eleito" em relação à instauração do capitalismo, a sua consolidação e a sua expansão, o complexo significado do fenômeno capitalista já fique automaticamente resolvido. Tal fenômeno pode ser, de fato, representado como uma equação com várias incógnitas, para o qual a solução de uma única incógnita não significa, de fato, a solução de toda a equação.

O capitalismo constitui o estágio mais ignominioso da civilização humana, o grau de máximo aviltamento a que chega o processo de decadência do humano, o nível mais baixo da degeneração que Plotino define como um "deus vestido de carne" (théos en sarki). A ação do "espírito judaico" não é certamente a única causa da decomposição que conduziu a humanidade europeia a esse nível: essa ação, se queremos utilizar uma imagem bastante ajustada à realidade que tentamos expressar, trabalhou mais exatamente como um fermento.

Porém, se queremos ser mais precisos, devemos dizer que a decomposição da qual o judaísmo foi agente histórico realizou-se, anteriormente, na própria alma judaica: a isso testemunham claramente as vicissitudes históricas dos "filhos de Israel". Estes, de fato, manifestam uma irresistível tendência a separar-se da substância da Tradição para aderirem à forma, sempre mais vazia, da mesma: uma tendência que encontra na hipocrisia farisaica sua expressão mais evidente e que justifica e explica o elevado número de profetas surgidos no seio do povo judeu com a missão de corrigi-lo, levando de novo aos primordiais ensinamentos de Abraão. Ao equilíbrio do "espírito" e da "letra" que o espírito abraâmico comportava, os judeus preferiram o equilíbrio em prejuízo do espírito, ainda quando este caíra em um vazio formalismo, em uma idolatria da casca vazia, em uma subordinação obtusa e conformista a uma Lei que já não era entendida em seu valor de instrumento de realização espiritual e que objetivamente fica reduzida a instrumento de grosseira coesão social.

Sim, pois, o capitalismo é em parte um produto do "espírito judaico" - o qual expressa-se no formalismo mencionado - uma autêntica restauração do humano não pode ser levada a cabo mediante uma simples luta contra os últimos efeitos, sejam estes a organização capitalista da economia ou os próprios judeus. Em outras palavras: é ingênuo pretender que o processo de decadência que desemboca na ignomínia capitalista possa ser resolvido com meras medidas antijudaicas, por drásticas que estas possam ser; as "perseguições" lamentadas pelos judeus tiveram o sentido, como máximo, de uma operação epidérmica que deixa intacta a raiz do mal...um mal que tem sua verdadeira origem no espírito de negação anti-tradicional.

Por isso, uma oposição eficaz ao capitalismo e ao "espírito judaico" pode desenvolver-se somente ali onde assumem-se e vivem-se coerentemente como pontos de referência na batalha de com a ser travada, os ensinamentos da Tradição. Somente assim, opondo-se à antitradição no mesmo plano meta-histórico, na qual esta tem sua raiz, será possível restituir ao homem a função de lugar-tenente de Deus na Terra, função que o processo da decadência história foi, pouco a pouco, erodindo, até que, como resultando final, o estágio extremo da degeneração representado na "era econômica" sombartiana reservou ao ser humano um único papel: aquele bestial de produtor e consumidor de objetos, de acumulador e traficante de coisas materiais.

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