sábado, 3 de dezembro de 2011

Giorgio Freda: O Revolucionário Inclassificável

por Edouard Rix



"Eu odeio esse livro. Eu odeio-o com todo meu coração. Ele deu-me glória, aquela coisa irrisória chamada fama, mas ele também é a fonte de todas as minhas misérias. Por este livro, eu conheci muitos meses na prisão,...perseguição policial tão mesquinha quanto cruel. Por este livro, eu experimentei a traição de amigos, inimigos, má-fé, egoísmo e a maldade humana. Desse livro originou-se a estúpida lenda que pintou-me como cínico e cruel, algum tipo de Maquiavel disfarçado como Cardeal de Retz que eles gostam de ver em mim". Apesar de terem sido escritas por Curzio Malaparte na introdução de seu famoso ensaio A Técnica do Golpe, Giorgio Freda, o autor de A Desintegração do Sistema poderia ter tornado suas essas linhas. Porque, ao escrever esse pequeno livro de aproximadamente 60 páginas extremamente densas que solapam a base do sistema burguês, o jovem escritor sofreu anos de perseguição judicial e midiática.

Edizioni di Ar

Em 26 de outubro de 1963, o senador Umberto Terracini, um membro influente da comunidade judaica e do partido comunista italiano, relatou publicamente aos Ministros do Interior e da Justiça a disseminação em Pádua de "um panfleto vil levando o título Gruppo di Ar, que, assumindo as mais vis teorias racistas do nazismo italiano, abertamente retratam os autores como editores advogando uma ideologia anti-democrática", e pergunta "se e quais medidas foram propostas e tomadas para cauterizar a ferida e parar a infecção antes que ela tenha disseminação mais ampla e penetre na esfera da ação".

Originalmente publicamente estigmatizado, o grupo foi fundado por um jovem advogado platonista e evoliano chamado Giorgio Freda. O nome escolhido pelo grupo, Ar, era altamente simbólico, já que encontra-se em muitas línguas indo-europeias, sendo a raiz semântica conotando a idéia de nobreza e aristocracia.

Em 1964, Freda teve que passar por um julgamento por um panfleto denunciando a política sionista na Palestina. Esse foi apenas o primeiro de muitos. No mesmo ano, Edizioni di Ar, que ele havia acabado de fundar, publicou seu primeiro livro, Um Ensaio sobre a Desigualdade das Raças por Arthur de Gobineau. Depois foram os escritos menores de Julius Evola e as obras de Corneliu Codreanu. Cada título tinha uma circulação de 2.000 cópias.

Havia duas constantes no comprometimento militante de Freda: a luta contra o sionismo internacional, incluindo Israel, que ele acreditava ser apenas a ponta da luta e contra o sistema burguês liberal, expressado pelo imperialismo americano na Europa desde 1945. Sobre o anti-sionismo, Freda foi o primeiro editor na Itália que apoiou combatentes palestinos, mesmo enquanto a Direita, representada pelo MSI (Movimento Sociale Italiano), exaltava Israel como a "muralha do Ocidente contra os árabes escravizados por Moscou". Foi ele que organizou em Pádua em março de 1969 - em conjunção com o grupo maoísta, Potere Operario - o prieiro grande encontro na Itália em apoio à resistência palestina na presença de representantes do Fatah, de Yasser Arafat. O lobby sionista jamais o perdoou. Ademais, não contente com mero apoio verbal, como tantos distintos intelectuais, ele secretamente forneceria timers de bomba para um suposto representante do Fatah.

A Desintegração do Sistema

Mas Giorgio Freda é acima de tudo um homem do texto. E que texto! A Desintegração do Sistema foi escrito em 1969 enquanto protestos estudantis estavam em pleno vigor. A Itália passava então por um "Maio rastejante" - em oposição à súbita explosão e precipitação na França. Convicto da necessidade urgente de subversão radical do mundo burguês, Freda acreditava que tudo deveria ser tentado e, quando muitos jovens buscavam dar um contexto verdadeiramente revolucionário à revolta estudantil, que ele deveria ser recuperado dos proponentes do marxismo ortodoxo ou do reformismo social-democrata. Foi para esses jovens que A Desintegração do Sistema foi dirigida, e longe de ser o programa pessoal de Freda, ele sintetizava as demandas comuns de todo o milieu nacional-revolucionário, da Giovane Europa à Lotta di Popolo.

O tom do texto é decididamente ofensivo. Um discípulo de Evola, Freda é o primeiro não apenas a comentar eruditamente sobre seus escritos, mas a partir da teoria para a prática, tanto que pode-se ver em A Desintegração do Sistema a prática política da teoria disposta em Cavalgar o Tigre, um dos últimos escritos de Evola. Com esse livro, o Barão dispôs o molde intelectual afirmando a crença de Freda de que não pode haver compromissos com o sistema burguês. "Há uma solução", escreve Evola, "que deve ser firmemente descartada: construir a partir do que sobreviva do mundo burguês, e defendê-lo como uma base para lutar contra as correntes de dissolução e a mais violenta subversão, após possivelmente tentar facilitar ou fortalecer os restos com alguns valores superiores que sejam mais tradicionais". E o Barão acrescentou: "Pode ser bom ajudar a derrubar o que já está cambaleando e pertence ao mundo de ontem, ao invés de ajudar a apoiar e artificialmente prolongar sua vida. Essa possível tática, tal como prevenir a crise final, é o trabalho das forças opositoras que então assumiriam a iniciativa. O risco disso é óbvio: nós não sabemos que possui a palavra final".

Em A Desintegração, Freda não foi gentil com os ídolos e valores da sociedade burguesa. Ordem por ordem, sacrossanta propriedade privada, capitalismo, conformismo moral, e pró-sionismo e filo-americanismo cegamente viscerais, mas também Deus, padres, juízes, banqueiros - nada e ninguém escapou de suas críticas. Ao modelo de mercado dominante, ele ofereceu uma alternativa real, reafirmando a doutrina tradicional do Estado, completamente oposta aos valores pseudo-burgueses, e desenvolveu um coerente projeto estatal, o aspecto mais espetacular incluindo a organização de uma economia comunista - um comunismo espartano e elitista que deve mais a Platão que a Karl Marx.


Um homem de ação, Freda estava enojado pelos evolo-guenonistas pseudo-intelectuais trancados em suas torres de marfim. Ele tinha palavras duras para alguns evolianos: "apologistas estéreis do discurso sobre o Estado", "idólatras de abstrações", "campeões de gestos conceituais" que, aos seus olhos, cavalgavam tigres de papel. "Para nós", ele escreve, "sermos verdadeiros a nossa visão de mundo - e portanto do Estado - significa conformar-se a ela, não deixando nada sem ser feito para alcançá-la historicamente". Nessa perspectiva, ele claramente demonstra a intenção de estender a mão para setores envolvidos na negação objetiva do mundo burguês, incluindo a extrema-esquerda extra-parlamentar à qual ele propôs uma estratégia dedicada a uma luta unida contra o Sistema. Foi então que ele contatou diversos grupos maoístas, tais como Potere Operario, e o Partido Comunista Marxista-Leninista da Itália.

"Para um soldado político, a pureza justifica qualquer dureza, a indiferença toda trapaça, enquanto a estampa do impessoal na luta dissolve todas as preocupações morais". Essas palavras fortes põem fim ao manifesto.

Vítima da Democracia

Em 12 de dezembro de 1969, uma bomba explodiu no Banco Nacional da Agricultura, Piazza Fontana em Milão, matando 16 pessoas e ferindo 87. A seção italiana da Internacional Situacionista, de extrema-esquerda, publicou um manifesto chamado "O Reichstag Queima", denunciando o regime como o real organizador do massacre. Os situacionistas continuariam repetindo que a bomba de Piazza Fontana não era "nem anarquista, nem fascista".

Giorgio Freda, enquanto isso, continuou sua luta intelectual contra o Sistema. Em 1970, em um prefácio a um texto de Evola, ele saudou a possibilidade de guerrilha urbana na Itália. Em abril de 1971, a Edizioni di Ar publicou oficialmente pela primeira vez na península desde 1945, Os Protocolos dos Sábios de Sião. No mesmo mês, Freda foi preso e acusado de "ter distribuído livros, informações impressas e escritas contendo propaganda ou incitação à subversão violenta". O aparato repressivo estava operante. Pela primeira vez desde o fim do regime fascista, um magistrado tentou aplicar o Artigo 270 (a lei contra associação subversiva) do Código Rocco (nomeado por conta do Procurador-Geral de Mussolini). Logo após, a Edizioni di Ar publicou O Inimigo do Homem, uma coleção de poesia bélica palestina, provocando a fúria dos sionistas.

Em julho de 1971, o juiz modificou as acusações e acusou Freda de "fazer propaganda para a subversão violenta do desenvolvimento político, econômico e social do Estado" através do A Desintegração do Sistema, "em que ele faz alusão à necessidade de subversão, por meios violentos, do Estado democrático burguês e sua substituição por um Estado definido e caracterizado como um Estado Popular".

Não intimidada pela repressão, a Edizioni di Ar publicou em novembro de 1971 a tradução italiana de O Judeu Internacional de Henry Ford.

Em 5 de dezembro de 1971, Freda foi preso de novo. Ele não mais foi acusado de crimes de opinião, mas duramente acusado de ter organizado o massacre da Piazza Fontana. Como eles não conseguiram pegar os "anarco-fascistas" eles decidiram pegar o "nazi-maoísta". As acusações contra Freda foram baseadas em duas evidências: que ele comprou timers como os que foram encontrados no banco, bem como as sacolas de viagem nas quais as bombas foram colocadas. Mas Freda realmente havia comprado timers mas havia dado os mesmos a um capitão do serviço secreto argelino que os pediu para os palestinos. O semanário Candido, investigando a manufatura dos timers de bomba, reuniu evidência de que a quantia desses timers vendidos na Itália não era de 57, como afirmado pelo juiz - Freda havia comprado 50 - mas centenas, e que os modelos comprados pelo editor eram diferentes dos usados no ataque. Ademais, o comerciante de Bolonha que havia vendido quatro sacolas de viagem parecidas àquelas usadas no ataque não reconheceu Freda como o comprador, mas sim dois policiais... É claro, o juiz não levaria em consideração evidências exculpatórias. Freda então começou seu tour solitário pelas prisões italianas em 1972 - Pádua, Milão, e Trieste. Então Roma, Bari, Brindisi, Catanzaro.

Chamado de traidor "maoísta" ou "agente da China comunista" pela Direita, especialmente pelo MSI neofascista, ou de "fanático racista" e "antissemita iludido" pela esquerda legalista e pelos círculos sionistas, e temerosamente rejeitado por alguns ultra-esquerdistas com os quais ele havia colaborado, Giorgio Freda foi então incitado pela imprensa em assumir o rótulo supostamente infame de "nazi-maoísta". Graças à promoção, isso acabou apenas sendo positivo de modo que as 1.500 cópias de A Desintegração do Sistema foram rapidamente vendidas. Alguns anos mais tarde, Freda admitiu que o texto estava recebendo mais consideração dos extremistas de esquerda do que dos da direita.

Julgamento

O longo julgamento de Piazza Fontana foi aberto em janeiro de 1975, diante da Corte Assize em Catanzaro. Os acusados eram o anarquista Pietro Valpreda com onze cúmplices e o neofascista Giorgio Freda com 12 co-réus. Chegando ao fim de sua prisão preventiva, Freda foi solto e colocando sob prisão domiciliar em agosto de 1976. Mas suas convicções permaneceram intactas. Assim em 1977, quando ele estava diante da possibilidade de prisão perpétua, ele não vacilou: em uma intrevista dada a seu amigo Claudio Mutti ele falou sobre luta armada como a melhor forma de oposição ao sistema na Itália!

Convencido de que os dados estavam viciados e que seria com certeza condenado, Freda fugiu em outubro de 1978. Ele foi capturado no verão de 1979 na Costa Rica, de onde ele não foi extraditado, mas levado a força pela polícia política italiana.

A farça judicial continuou. Em dezembro de 1984, o quarto julgamento pelo massacre de Piazza Fontana foi aberto em Bari. Após dezesseis anos de investigação, Freda foi finalmente inocentado do atentado mas preso por crimes de opinião, "associação subversiva" segundo o vernáculo jurídico italiano, o que garantiu-lhe uma sentença de quinze anos na prisão.

Após sua soltura, a mídia ainda falava de Freda porque ele inaugurou o Fronte Nazionale, razão pela qual ele novamente foi preso em julho de 1993. Certamente, o bom sangue sempre se expressa!

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