terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Julius Evola - Faces do Heroísmo

por Julius Evola


Um ponto sobre o qual muitos vezes aludimos e que em uma investigação acerca da "raça interior" tem sua importância, relaciona-se com o fato de que, ademais de morrer e de combater, deve considerar-se um "estilo" diferenciado, uma diferente aptidão e um diferente sentido próprio à luta e ao sacrifício heróico. Melhor, geralmente, pode-se falar, aqui, de uma escala, que varia segundo os casos, para medir o valor da vida humana.

Precisamente os atos dessa guerra revelam, a esse respeito, contrastes que desejaríamos ilustrar brevemente. Vamos nos limitar essencialmente aos casos limite, representados respectivamente, por Rússia e Japão.

Subpersonalidade Bolchevique

Que a conduta de guerra da Rússia soviética não tenham nem o mínimo de consideração pela vida humana e pela personalidade, é algo que já conhecemos. Os bolcheviques reduzem seus combatentes a um verdadeiro "material humano", no sentido mais brutal dessa sinistra expressão que converteu-se em habitual em certa literatura militar: um material, pelo qual não há que se ter qualquer respeito e que, portanto, não há que titubear na hora de sacrificá-lo da forma mais impiedosa onde quer que faça minimamente falta. Pelo geral, tal como já foi ressaltado, o russo sempre soube ir com facilidade ao encontro da morte por uma espécie de fatalismo inato e escuro; desde muito tempo a vida humana sempre teve um baixo preço na Rússia. Porém a utilização atual do soldado russo como "bucha de canhão" também é uma consequência lógica da concepção bolchevique, que nutre o desprezo mais radical pelo valor da personalidade e afirma querer liberar o indivíduo das superstições e "preconceitos burgueses", quer dizer, o "eu" e "o meu", tentando reduzi-lo a membro mecanizado de um conjunto coletivo, o único que pode ser considerado vital e importante.

Sobre esta base perfila-se a possibilidade de uma forma, que nós diríamos "telúrica" e subpessoal do sacrifício e do heroísmo: é o traço do homem coletivo onipotente e sem rosto. A morte sobre o campo de batalha do homem bolchevizado representa para esta via a fase extrema do processo de despersonalização e destruição de cada valor qualitativo e pessoal, que encontra-se na base o ideal bolchevique de "civilização". Assim pode realizar-se verdadeiramente o que, em um livro tristemente famoso, Erich Maria Remarque deu como significado total da guerra: a trágica irrelevância do indivíduo no fato bélico, no qual os puros instintos, as forças elementais desatadas, impulsos subpessoais possuem vantagem sobre qualquer valor e ideal. Melhor dizendo, este dramatismo tampouco experimenta-se porque o sentido da personalidade já esgotou-se e cada horizonte superior está previamente fechado; a coletivização, também do espírito, já enfiou suas raízes em uma nova geração de fanáticos, educada segundo o verbo de Lênin e Stálin. Tem-se assim uma forma precisa, de predisposição para morrer e sacrificar-se, e inclusive até uma sinistra alegria pela destruição própria e alheia.

A Mística Japonesa do Combate

Alguns episódios recentes da guerra japonesa deram a conhecer um "estilo" de morrer, que, não bostante, possui semelhanças com o do homem bolchevique, para testemunhar, em aparência, o mesmo desprezo pelo valor do indivíduo e, geralmente, da personalidade. Sabe-se, em efeito, de aviadores japoneses que precipitaram-se sobre o alvo, deliberadamente, com sua carga de bombas, ou de "homens-mina" predestinados a morrer em ação. E inclusive parece que no Japão tenha sido organizado há certo tempo um cormpo com estes "voluntários" da morte. Novamente, nos encontramos com algo pouco compreensível para a mentalidade ocidental. Não obstante, se tentarmos penetrar no sentido mais íntimo dessa forma extrema de heroísmo, encontramos valores que representam a perfeita antítese do "heroísmo telúrico" e sem luz do homem bolchevique.

No caso japonês, as premissas, em efeito, são de caráter rigorosamente religioso, e inclusive diríamos melhor ascético e místico. Isso não há que ser entendido no sentido mais conhecido e exterior, quer dizer, com a idéia, de que no Japão a idéia religiosa e a idéia imperial são uma e a mesma idéia, e que o serviço ao imperador, identifica-se com um serviço divino e o sacrificar-se pelo Tenno e pelo Estado possui o mesmo valor que o sacrifício de um missionário ou um mártir, porém em sentido absolutamente ativo e combativo. Tudo isso é certo e forma parte dos aspectos da idéia político-religiosa japonesa: não obstante a última e mais exata referência deve ser buscada em um nível superior, isso é na visão do mundo e da vida própria do budismo e acima de tudo na escola Zen, que foi definida justamente como a "religião" do samurai, quer dizer da casta especificamente guerreira japonesa.

Tal visão de mundo e da vida aspira essencialmente a deslocar o sentimento de si mesmo sobre um plano transcendente, e relativiza o sentido e a realidade do indivíduo e de sua vida terrena.

Primeiro ponto: o sentimento de "vir de longe". A vida terrena não é senão um episódio, não começa nem acaba aqui, tem causas remotas, é a tensão de uma força que projetar-se-á de outras formas, até a liberação suprema. Segundo ponto: em relação a isso, nega-se a realidade do eu, do eu meramente humano. A "pessoa" volta a ter o sentido que este termo teve originariamente em latim, onde equivalia a "máscara" de atores, quer dizer um determinado modo de aparecer, uma forma de "manifestação"... Segundo o Zen, quer dizer, segundo a religião do samurai, existe algo inapreensível e indomável na vida, algo infinito, suscetível de assumir infinitas formas, e que simbolicamente designa-se como shûnya, quer dizer "vazio", oposto a tudo aquilo que é materialmente consistente e vinculado a uma forma.

Sobre tal base perfila-se o sentido de um tipo de heroísmo que pode chamar-se em rigor "suprapessoal", em oposição ao bolchevique de natureza "subpessoal". Pode-se tomar a própria vida e arrojá-la, com uma intensidade extrema, na certeza de uma existência eterna e na indestrutibilidade que, não tendo tido princípio, tampouco pode ter um fim. O que pode parecer extremo para alguma mentalidade ocidental, resulta aqui natural, claro e evidente. Não pode-se falar tampouco de tragédia senão em um sentido oposto ao que do bolchevismo: não pode-se falar de tragédia por causa da irrelevância do indivíduo e pela possessão de um sentido e de uma força que, na vida, vem de além da vida. É um heroísmo, que quase poderíamos chamar "olímpico".

E aqui, de passo, remarcamos a diletante banalidade dos que trataram de demonstrar, com quatro linhas, o caráter deletério que pontos de vista similares - diretamente opostos aos que supõem que a existência terrena seja única e irrevogável - teria para a idéia de Estado e de serviço ao Estado. O Japão representa o mais fragrante desmentido para semelhantes elucubrações; a veemência com que, junto a nós, o Japão conduz uma luta heróica e vitoriosa, demonstra não obstante, o enorme potencial guerreiro e espiritual que procede de um sentimento experimentado da transcendência e da superpersonalidade como a que aludimos.

A "Devotio" Romana

Aqui convém sublinhar que, se no ocidente moderno se reconhecem os valores da pessoa, isso conduz também a uma acentuação, quase supersticiosa, da importância da vida terrena, que logo, ao "democratizar-se", deu lugar aos famosos "direitos do homem e a uma série de superstições sociais, democráticas e humanitárias. Como contrapartida desse aspecto em absoluto positivo, tendeu-se a outorgar uma similar ênfase à concepção "trágica" para não dizer "prometéica" - algo que, assim mesmo, equivale a uma queda de nível.

Devemos, contrariamente a isto, recordar os ideais "olímpicos" de nossas mais antigas e autênticas tradições; assim poderemos compreender que nosso heroísmo aristocrático, livre de paixão, situa-se justo em seres nos quais o centro de sua vida situa-se verdadeiramente sobre um plano superior, desde o qual arremeçam-se, mais além de cada tragédia, de cada vínculo, de cada angústia, como forças irresistíveis.

Convém realizar uma breve reinvocação histórica. Ainda que as antigas tradições romanas sejam pouco conhecidas, apresentam traços similares a aqueles traços que compõem o dom heróico dado livremente em nome do Estado e dos objetivos da vitória, que temos visto também aparecer na mística japonesa do combate. Aludismo ao chamado rito da "devotio". As bases desse rito são, naturalmente, sagradas. Nele está também presente o sentimento geral do homem tradicional, de que forças invisíveis estão atuando por trás do mundo visível e que o homem, por sua vez, pode influir sobre elas.

Segundo o antigo ritual romano da "devotio", um guerreiro e, acima de tudo, um Chefe, pode facilitar a vitória através de um misterioso desencadeamento de forças desencadeadas pelo sacrifício deliberado de sua pessoa, realizando-se com a vontade de não sair vivo da experiência. Recorda-se a execução desse ritual por parte do cônsul Décio na guerra contra os latinos em 340 a.C., bem como sua repetição - exaltada por Cícero (Fin. 11, 19, 61; Tusc. 1, 37, 39) - da parte de dois outros representantes da mesma família. O ritual teve um cerimonial preciso que dá testemunho da perfeita consciência e lucidez dessa oferenda heróica sacrificial. Segundo a ordem hierárquica, foram invocadas inicialmente as divindades olímpicas do Estado romano, Jano, Júpiter e Quirino; logo o deus da guerra, Pater Mars; logo os deuses indigetas, "deuses que possuem potência sobre os heróis e sobre os inimigos"; em nome do sacrifício que propõe-se cumprir, invocou-se "conceder força e vitória ao povo romano dos Quiriti e de arrojar com terror, susto e morte aos inimigos de nosso povo" (cfr. Lívio, VIII, 9). Propostas pelo Pontifex, as palavras dessa fórmula são pronunciadas pelo guerreiro, revestido pela praetesta, com um pé sobre um dardo. Depois disso, lança-se ao combate para morrer.

A transformação do sentido da palavra devotio é, assim mesmo, significativa. Aplicada originariamente a essa ordem de idéias, quer dizer a uma ação heróica, sacrificial e evocadora, no Baixo Império significou a simples fidelidade do cidadão e até o esmero no pagamento de tributos (devotio rei annonariae). Segundo as palavras de Bouché Lequerq, ao final, "ao ser substituído o César pelo deus cristão, 'devotio' passou a significar mera religiosidade, a fé disposta para todos os sacrifícios e, mais tarde, uma posterior degeneração da expressão, converteu a 'devotio' em 'devoção', no sentido atual da palavra, quer dizer uma preocupação constante pela salvação, afirmada em uma prática minuciosa e reta do culto".

Na antiga "devotio" romana temos pois signos bem precisos de uma mística consciente do heroísmo e do sacrifício, próxima a uma estreita conexão entre o sentimento de uma realidade sobrenatural e supra-humana e a luta e a dedicação em nome do próprio Chefe, do justo Estado, e da própria raça. Não faltam testemunhos acerca de um sentimento "olímpico" do combate e da vitória em nossas antigas tradições. Disso, nos ocupamos extensamente em outro lugar. Somente recordamos agora que na cerimônia do triunfo o "duce" vitorioso assumia em Roma as insígnias do deus olímpico, expressando a verdadeira força que nele determinava a vitória; recordaremos também que mais além do César mortal, a romanidade venerou ao César como um "vencedor perene", quer dizer como uma espécie de força suprapessoal dos destinos do Império.

Assim, se nos tempos posteriores prevaleceram outras experiências, as tradições mais antigas demonstram que o ideal de um heroísmo "olímpico" também tem sido um ideal nosso, que também nossa gente conheceu a oferenda absoluta, a consumação de toda uma existência em uma força arrojada contra o inimigo até o limite de evocação de forças abissais; uma vitória, por fim, que transfigura e propicia participações em potências suprapessoais. Assim também sobre a base de nosso legado ancestral perfilam-se pontos de referência em radical oposição ao heroísmo subpessoal e coletivista que indicamos ao princípio, e também a cada visão trágica e irracional, que ignora aquilo que é mais forte que o fogo e o ferro, que a morte e a vida.

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