sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A Auto-Afirmação da Universidade Alemã

por Martin Heidegger



Assumir o reitorado significa comprometer-se com a liderança espiritual desta escola superior. A disposição a seguir de docentes e alunos só desperta e se fortalece a partir do verdadeiro e coletivo enraizamento na essência da universidade alemã. Essa essência, porém, só alcança clareza, destaque e poder, se antes de tudo e a todo o momento, os próprios líderes são liderados pela inexorabilidade daquela missão espiritual que o destino do povo alemão imprime em seu caráter histórico. 

Será que sabemos dessa missão espiritual? Quer sim, quer não a questão permanece inevitável: será que estamos, corpo docente e corpo discente desta escola superior, enraizados verdadeira e coletivamente na essência da universidade alemã? Possui essa essência uma força genuína para imprimir sua marca em nossa existência? Sim, mas só quando queremos essa essência radicalmente. Mas quem há de duvidar disso? Em geral, é na "autonomia administrativa" que se vê o caráter essencial mais importante da universidade; essa autonomia deve ser mantida. Contudo, será que temos considerado tudo o que essa pretensão de "autonomia administrativa" exige de nós? 

Com efeito, autonomia administrativa significa: pôr a tarefa a nós mesmos e determinarmos o caminho e o meio de sua realização, a fim de nela sermos nós mesmos o que devemos ser. Mas será que sabemos quem somos nós mesmos, essa corporação de docentes e alunos da mais alta escola do povo alemão? Será que podemos de todo sabê-lo sem a mais constante e a mais rígida auto-reflexão? 

Nem o conhecimento das condições atuais da universidade nem tampouco a familiaridade com a sua história anterior garantem já um saber suficiente de sua essência — a menos que delimitemos antes essa essência, em sua clareza e rigidez, para o futuro, a menos que a queiramos numa tal autodelimitação e que num tal querer nos afirmemos a nós mesmos. 

A autonomia administrativa só existe sobre a base da auto-reflexão. Mas a auto-reflexão só acontece com a força da auto-afirmação da universidade alemã. Será que vamos levá-la a cabo, e como? 

A auto-afirmação da universidade alemã é a vontade originária e coletiva para a sua essência. A universidade alemã significa para nós esta alta escola que, a partir da ciência e através da ciência, educa e disciplina os líderes e guardiães do destino do povo alemão. A vontade para a essência da universidade alemã é a vontade para a ciência, enquanto vontade para a missão histórico-espiritual do povo alemão, como um povo que se conhece a si mesmo no seu Estado. Ciência e destino alemão devem chegar juntos ao poder na vontade para a essência. E é o que farão se, e somente se, nós — corpo docente e discente — expusermos, por um lado, a ciência à sua mais íntima necessidade e se, por um lado, suportarmos o destino alemão em sua mais extrema carência. 

A essência da ciência todavia, não a experimentaremos em sua mais íntima necessidade enquanto nos limitarmos — discorrendo sobre o "novo conceito de ciência" — a contestar a independência e isenção de pressupostos de uma ciência demasiado atual. Essa maneira de proceder, que se limita a negar e cujo olhar retrospectivo mal se estende além das últimas décadas, acaba por se tornar o simulacro de um verdadeiro esforço em vista da essência da ciência. 

Se quisermos captar a essência da ciência, então temos de enfrentar a questão decisiva: deve a ciência continuar a ser para nós ou devemos deixá-la derivar para um rápido final? Que a ciência deva de todo ser, isso jamais é uma necessidade incondicional. Mas, se a ciência deve ser e se ela deve ser para nós e por nós, sob qual condição, então, pode ela verdadeiramente subsistir?

Tão-somente se nos situarmos de novo sob o poder do começo de nossa existência histórico-espiritual. Esse começo é o pôr-se em marcha da filosofia grega. É aí que o homem ocidental, a partir da unidade de um povo e pela força de sua língua, se levanta pela primeira vez em face do ente em sua totalidade, interrogando-o e compreendendo-o como o ente que ele é. Toda ciência é filosofia, quer ela o saiba e queira, quer não. Toda ciência permanece presa àquele começo da filosofia. É dele que ela haure a força de sua essência, na suposição de que ela permanece à altura desse começo. 

Queremos resgatar aqui para a nossa existência duas propriedades distintivas da essência grega originária da ciência.

Entre os gregos circulava um antigo relato, segundo o qual Prometeu teria sido o primeiro filósofo. É a esse Prometeu que Ésquilo faz dizer uma sentença que exprime a essência do saber:
τεχυη δαυαγκης ασθευεστερα μακρω (Prom. 514, ed. Wil.)
"Mas o saber é de longe muito mais desprovido de força do que a necessidade." O que quer dizer: todo o saber acerca das coisas permanece de início entregue ao poder superior do destino e fracassa diante dele. 

É precisamente por isso que o saber deve desenvolver sua mais elevada obstinação, para a qual se ergue todo o poder de ocultamento do ente, a fim de efetivamente fracassar. É assim que o ente se abre em sua imutabilidade insondável e confere ao saber a sua verdade. Essas sentenças sobre a falta de força criadora do saber é um dito dos gregos, entre os quais por demais facilmente se quer encontrar o modelo para o saber que não depende senão de si mesmo e, no entanto, esquecido de si, o qual nos é apresentado como "atitude teórica". — Mas o que é a Theoria para o grego? Responde-se: a pura contemplação, que só permanece ligada à coisa em plenitude e exigência. Esse comportamento contemplativo deve supostamente — é o que se diz apelando-se aos gregos — acontecer por causa de si mesmo. Mas esse apelo é injustificado. Pois, por um lado, a "teoria" não acontece por causa de si mesma, mas unicamente na paixão de ficar junto ao ente enquanto tal e sob a sua aflitiva insistência. Por outro lado, porém, os gregos lutavam por compreender e levar a cabo esse questionar contemplativo como uma modalidade, na verdade como a suprema modalidade da energeia, do "estar em obra" do homem. O que buscavam não era assimilar a prática à teoria, mas, ao contrário, entender a própria teoria como a mais alta realização de uma prática genuína. Para os gregos, a ciência não é um "bem cultural", mas o centro mais intimamente determinante de toda a existência do povo no seio do Estado. A ciência tampouco era para eles um mero meio para a conscientização do inconsciente, mas, sim, o poder que mantém a acuidade da existência inteira e a abrange em sua totalidade.

A ciência é a firmeza incessante do questionamento em meio à totalidade do ente que incessantemente se oculta. Esse preservar atuante sabe, no entanto, de sua fraqueza diante do destino. 

Tal é em seu começo a essência da ciência. Mas esse começo não se encontra já há dois milênios e meio atrás de nós? O progresso do agir humano não alterou também a ciência? Certamente! A subseqüente interpretação teológica-cristã do mundo, assim como o posterior pensar técnico-matemático da modernidade, afastou a ciência tanto temporal quanto tematicamente do seu começo. Mas nem por isso o começo foi de modo algum superado e muito menos reduzido a nada. Pois, dado que a ciência grega originária é algo de grande, então o começo dessa grandeza permanece como o que dela há de mais grandioso. A essência da ciência não poderia sequer ser esvaziada e desgastada, como é o caso hoje a despeito de todos os resultados e "organizações internacionais", se a grandeza do começo não subsistisse ainda. O começo ainda é. Ele não se encontra atrás de nós como algo há muito sido, mas está frente a nós. Como o mais grandioso que é, o começo já foi além, passando de antemão por cima de tudo o que estava por vir e, assim, por cima de nós também. O começo caiu em nosso futuro, ele está aí como a longínqua injunção sobre nós de alcançar de novo a sua grandeza. 

É só quando nos conformamos resolutamente a essa longínqua injunção, a fim de recuperar a grandeza do começo, que a ciência se torna para nós a mais íntima necessidade da existência. De outro modo ela permanece um acaso com que deparamos ou a sossegada satisfação de quem se ocupa sem correr riscos em promover o mero progresso dos conhecimentos. 

Se nos conformamos, porém, à longínqua injunção do começo, então a ciência tem de se tornar o acontecimento fundamental da nossa existência espiritual como povo. 

E se até nossa mais própria existência está diante de uma grande mudança, se é verdade o que disse o último filósofo alemão a buscar Deus apaixonadamente, Friedrich Nietzsche, a saber: que "Deus está morto" —, se devemos levar a sério esse estado de abandono do homem atual em meio ao ente, o que então se passa com a ciência?



Então o preservar inicial e admirado dos gregos diante do ente transformar-se num estar exposto, totalmente a descoberto, ao oculto e incerto, isto é, ao que é digno de questão. O questionar não é mais então apenas o estágio preliminar superável à resposta enquanto saber, mas o questionar torna-se ele próprio a mais alta figura do saber. O questionar desenvolve então sua mais própria força de descerramento do essencial de todas as coisas. O questionar compele então a mais extrema simplificação do olhar lançado sobre o que é incontornável. 

Semelhante questionar rompe o encapsulamento das ciências em disciplinas separadas para trazê-las de volta da dispersão sem limites e sem metas em campos e recantos isolados, e expõe de novo a ciência imediatamente à fecundidade e à benção de todos os poderes mundanos da existência história, quais sejam: natureza, história, língua: povo, costumes, Estado: poetizar, pensar, crer: doença, loucura, morte: direito, economia, técnica.

Se quisermos a essência da ciência no sentido da firmeza incessante e a descoberta do questionar em meio à certeza do ente na totalidade, então esta vontade de essência cria para o nosso povo o seu mundo do mais íntimo e do mais extremo perigo, isto é, seu mundo verdadeiramente espiritual. Pois "espírito" não é nem sagacidade vazia, nem um jogo descomprometido do chiste, nem o entregar-se sem limites à análise conforme o entendimento, nem mesmo a razão do mundo, mas o espírito é, sim, a resolução originariamente afetiva e sapiente para a essência do ser. E o mundo espiritual de um povo não é a superestrutura de uma cultura, tampouco o arsenal de conhecimentos e valores utilizáveis, mas o poder da mais profunda conservação de suas forças extraídas da terra e do sangue, enquanto poder da mais profunda excitação e da mais vasta comoção de sua existência. Somente um mundo espiritual garante ao povo sua grandeza. Pois ele força a constante decisão, entre a vontade de grandeza e o deixar livre curso à decadência, a se tornar a lei a ditar o passo à marcha que o nosso povo iniciou adentro à sua história futura. 

Se quisermos essa essência da ciência, então o corpo docente da universidade tem de avançar efetivamente para os postos mais extremos do perigo que é a incessante incerteza do mundo. Se ele se mantiver firme aí, isto é, se daí surgir para ele — na proximidade essencial da aflitiva insistência de todas as coisas — o questionar em comum e o dizer afinado com um sentimento coletivo, então ele se tornará forte para a liderança. Pois o que é decisivo no liderar não é o mero ir à frente, mas a força para andar sozinho, não por teimosia e desejo de dominar, mas em virtude de uma destinação a mais profunda e de uma obrigação a mais ampla. Semelhante força vincula ao essencial, produz a seleção dos melhores e desperta a genuína disposição a seguir daqueles tomados de renovada coragem. Mas não precisamos primeiro despertar a disposição a seguir. O estudantado alemão está em marcha. E quem ele busca são aqueles lideres através dos quais quer elevar a sua própria destinação a uma verdade fundada e sapiente, colocando-a na clareza da palavra e da obra que atua interpretando. 

É a partir da resolução do estudantado alemão de manter-se firme em face do destino alemão em sua mais extrema carência que provém uma vontade para a essência da universidade. Essa vontade é uma vontade verdadeira na medida em que o estudantado alemão se põe a si mesmo, por meio da nova legislação estudantil, sob a lei da sua essência e assim delimita, pela primeira vez, essa essência. Dar-se a lei a si mesmo é a mais alta liberdade. A tão decantada "liberdade acadêmica" se vê expulsa da universidade alemã: pois essa liberdade era inautêntica, visto que se limitava a negar. Ela significa despreocupação, arbitrariedade das intenções e inclinações, descompromisso em suas ações e omissões. O conceito da liberdade dos estudantes alemães se vê agora restituído à sua verdade. É dela que se desdobram futuramente as vinculações e o serviço do estudantado alemão. 

A primeira vinculação é com a comunidade do povo. Ela obriga a participar das fadigas, aspirações e competências de todos os estamentos e membros do povo, com eles respondendo em comum e agindo em conjunto. Essa vinculação está doravante fixada e enraizada na existência estudantil pelo serviço do trabalho.

A segunda a vinculação é com a honra e o destino da nação em meio aos outros povos. Ela exige a pronta disposição, assegurada como saber e competência enrijecida pela disciplina, para se engajar até às últimas conseqüências. Esse vínculo abrange e perpassa futuramente toda a existência estudantil enquanto serviço militar.

A terceira vinculação do estudantado é com a missão espiritual do povo alemão. Esse povo atua em seu destino na medida em que, tendo colocado a sua história num âmbito que se manifesta o poder de todas as potências configuradoras-de-mundo da existência humana, ele conquista numa luta sempre renovada o seu mundo espiritual. Exposto assim ao que há de mais questionável em sua própria existência, este povo quer ser um povo espiritual. Ele exige de si para si em seus líderes e guardiães a mais dura clareza do mais alto, mais amplo e mais rico saber. Uma juventude estudantil, que se arrisca cedo na vida adulta e que estende o seu querer sobre a sorte futura da nação, compele-se radicalmente ao serviço desse saber. Para ela, o serviço do saber não poderá mais ser esse adestramento embotado que leva rapidamente a uma profissão "renomada". É porque o homem de Estado e o docente, o médico e o juiz, o pároco e o construtor lideram a existência do povo no seio do Estado e, velando sobre ela em suas relações fundamentais com os poderes configuradores-do-mundo da existência humana, mantêm a sua agudeza, é por isso que essas profissões e a educação para elas estão confiadas ao serviço do saber. O saber não está ao serviço das profissões, mas, ao contrário, as profissões efectivam e administram esse mais alto e essencial saber do povo acerca da sua existência inteira. Mas esse saber não é para nós a tranquila toma de conhecimento de essencialidades e valores em si, mas, sim, o mais agudo pôr em risco da existência em meio ao poder superior do ente. O carácter questionável do ser em geral é o que extorque do povo trabalho e luta e o compele ao seu Estado, ao qual pertencem as profissões. 

As três vinculações — pelo povo à sorte do Estado em sua missão espiritual — são igualmente originárias para a essência alemã. Os três serviços que se originam daí — serviço do trabalho, serviço militar e serviço do saber — são igualmente necessários e de igual importância. 

O saber co-atuante acerca do povo, o saber que se mantém em prontidão acerca da sorte do Estado, é o que primeiro constitui, juntamente o saber acerca da missão espiritual, a essência originária e plena da ciência, cuja efectivação é a tarefa que nos é confiada — na suposição de que nos conformemos à longínqua injunção do começo da nossa existência histórico-espiritual. 

É esta ciência que se tem em vista quando a essência da universidade alemã é delimitada como a escola superior que, a partir da ciência e através da ciência, educa e disciplina os líderes e guardiães do destino do povo alemão. 

Esse conceito originário da ciência obriga não apenas à "objectividade", mas em primeiro lugar à essencialidade e simplicidade do questionar em meio ao mundo histórico-espiritual do povo. De fato, é apenas a partir daí que se pode verdadeiramente fundar a objectividade, isto é, encontrar a sua espécie e limite. 

A ciência, entendida nesse sentido, deve tornar-se a força formadora da corporação da universidade alemã. Isso significa duas coisas: o corpo docente e o corpo docente devem, cada um à sua maneira, serem empolgados e permanecer empolgados pelo conceito de ciência. Ao mesmo tempo, porém, esse conceito de ciência tem de se inserir, reconfigurando-as, nas formas fundamentais no interior das quais docentes e alunos praticam comunitariamente em cada caso as respectivas actividades científicas, a saber: nas faculdades e departamentos

A faculdade só é faculdade se ela desenvolve uma capacidade de legislação espiritual, capacidade essa arraigada na essência da sua ciência, a fim de integrar, conformando-os, os poderes da existência que a afligem com a sua insistência, no mundo espiritual uno do povo.

O departamento só é departamento se ele se situa de antemão no domínio dessa legislação espiritual, derrubando desse modo os limites da disciplina e superando o que há de antiquado e espúrio na forma exterior do treinamento profissional.

No momento em que as faculdades e departamentos põem em marcha as questões essenciais e simples de sua ciência, docentes e alunos já estão envolvidos pelas mesmas necessidades e aflições últimas da existência do povo no Estado.

Dar forma, contudo, à essência original da ciência exige um grau de rigor, responsabilidade e paciência soberana, em comparação com o qual a obediência conscienciosa, por exemplo, ou a zelosa modificação de modos de proceder prontos, de pouca monta são. 

Se os gregos, porém, precisaram de três séculos só para situar, no solo correto e na direção segura, a questão sobre o que é o saber, então, com mais razão ainda, não podemos achar que a elucidação e o desdobramento da essência da universidade alemã ocorra no semestre em curso ou no próximo.

Mas uma coisa, certamente, sabemos a partir da essência da ciência, tal como indicada acima, a saber, que a universidade alemã só encontrará forma e poder quando os três serviços — do trabalho, militar e do saber — se reunirem originariamente em uma força capaz de deixar a sua marca. O que quer dizer:
A vontade de essência do corpo de docentes tem de despertar e se fortalecer para a simplicidade e a amplidão do saber acerca da essência da universidade. A vontade de essência do corpo de alunos tem de se forçar a ascender à mais alta clareza e disciplina do saber e a inserir na essência da ciência, exigindo e determinando, a forma do saber cúmplice que tem acerca do povo e do seu Estado. Ambas as vontades têm de se estimular reciprocamente para a luta. Todas as capacidades da vontade e do pensamento, todas as forças do coração e todas as habilidades do corpo têm de se desenvolver através da luta, de se intensificar na luta e como luta se conservar.

Nós escolhemos a luta com pleno conhecimento daqueles que questionam e proclamam com Klaus von Clausewitz: "Renuncio à esperança leviana de uma salvação pela mão do acaso".

Mas a comunidade de luta de docentes e alunos só transformará a universidade alemã para fazer dela o lugar da legislação espiritual e nela efetivará o centro do mais rígido recrutamento para o mais alto serviço ao povo em seu Estado, se o corpo de docentes e alunos organizar a sua existência de maneira mais simples, mais dura e mais livre de necessidades do que todos os outros camaradas do povo. Toda a liderança tem de reconhecer aos seguidores a sua força própria. Mas todo o seguir traz em si a resistência. Essa oposição essencial entre o liderar e o seguir não deve ser obscurecida, nem tampouco apagada. 

Só a luta mantém aberta a oposição e implanta na corporação inteira de docentes e alnos aquela disposição afetiva e fundamental, a partir da qual a auto-afirmação se delimita a si mesma e autoriza a auto-reflexão resoluta para uma genuína auto-administração.

Queremos a essência da universidade alemã, ou será que não a queremos? Depende de nós, se e até que ponto vamos nos esforçar, de maneira radical e não apenas incidentalmente, em vista da auto-reflexão e da auto-asserçao, ou se vamos — com a melhor das intenções — apenas modificar velhas instituições e ajuntar novas. Ninguém há de nos impedir de fazê-lo. 

Mas ninguém tampouco vai nos perguntar se queremos ou não, quando a força espiritual do Ocidente fracassar e quando este rebentar em todas as suas juntas, quando a pseudocultura decrépita desmoronar sobre si mesma, arrastando todas as forças para a confusão e sufocando-as na loucura. 

Se isso acontecerá ou não, depende apenas de saber se, enquanto povo espiritual historial, ainda e de novo queremos a nós mesmos — ou se não nos queremos mais. Cada indivíduo co-decide sobre isso, mesmo quando e sobretudo quando se esquiva dessa decisão. 

Mas nós queremos que o nosso povo cumpra a sua missão histórica. 

Nós queremo-nos a nós mesmos. Pois a jovem e a mais jovem força do povo, que já passa por cima de nós procurando algo além, já decidiu sobre isso.

A magnificência, porém, e a grandeza desse pôr-se em marcha, só a compreendemos se trouxermos em nós mesmos aquela profunda e ampla circunspecção onde a antiga filosofia grega foi buscar a seguinte palavra:
τα ... μεγλα παυτα επιφαλη
"Tudo o que é grande está na tempestade..." (Platão, República, 497 d 9).

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