sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Julius Evola - O Imperador Juliano

por Julius Evola


É alentador dar com trabalhos eruditos que vão mais além dos preconceitos e distorções que caracterizam a maioria dos pontos de vista dos historiadores contemporâneos. Este é o caso de Raffaello Prati, que traduziu ao italiano e introduziu ao público os escritos especulativos do imperador romano Juliano Flavius, intitulados coletivamente "De Deuses e Homens".

É destacável que Prati empregara o termo "imperador Juliano" em lugar da expressão predominante de "Juliano, o Apóstata". O termo "apóstata" é dificilmente apropriado neste caso, posto que melhor deveria ser aplicado àqueles que abandonaram as sagradas tradições e os cultos que eram a verdadeira alma da antiga grandeza de Roma e aos que aceitaram uma fé nova, que não era a da estirpe romana ou latina senão de uma origem asiática e judaica. Deste modo, o termo "apóstata" não deveria caracterizar àqueles que, como Juliano Flavius, ousaram ser fiéis ao espírito da tradição, tratando de reafirmar o ideal solar e sagrado do império.

A leitura dos textos publicados, que foram escritos por Juliano em sua barraca de campanha, entre longas marchas e batalhas (como tratando de sacar novas energias de seu espírito para afrontar eventuais dificuldades), deveria servir de proveito aos que seguem a corrente de opinião que define o paganismo, em seus componentes religiosos, como mais ou menos sinônimo de superstição. De fato, Juliano, em sua tentativa de restaurar a Tradição, opôs ao cristianismo uma visão metafísica. Os escritos de Juliano permitem-nos ver, por trás dos elementos alegóricos e externos dos mitos pagãos, uma substância de qualidade superior.

"Sempre que os mitos sobre assuntos sagrados sejam absurdos segundo o pensamento racional, sendo gritados em voz alta, como foram, chamam-nos a não crer neles literalmente, senão a estudá-los e seguir a pista de seu significado oculto... Quando o significado é expressado de modo incongruente há uma esperança de que os homens descuidem do significado mais óbvio (aparente) das palavras, e que a pura inteligência possa ascender à compreensão da natureza inequívoca dos deuses que transcende todos os pensamentos atuais".

Este deveria ser o princípio hermético empregado pelos que estudem os antigos mitos e teologias. Não obstante, quando os eruditos utilizam termos depreciativos como "superstição" ou "idolatria", vem demonstrar que são mentalmente fechados e de má-fé.

Portanto, na revaloração da antiga tradição sagrada de Roma, tentada por Juliano, é o ponto de vista esotérico da natureza dos "deuses" e seu "conhecimento" o que finalmente importa. Este conhecimento corresponde a uma realização interior. Desde esta perspectiva, os deuses não são retratados como invenções poéticas ou como abstrações de teologias filosóficas, senão como os símbolos e as projeções de estados transcendentes de consciência.

Deste modo, o próprio Juliano, como iniciado nos mistérios de Mitra, viu uma relação estreita entre um conhecimento superior de si mesmo e a via que conduz ao "conhecimento dos deuses"; esta é uma nobre meta que não impediu-lhe dizer que inclusive o domínio sobre as terras de Roma e as bárbaras empalidece em comparação.

Isto leva-nos novamente à tradição de uma disciplina secreta através da qual o conhecimento de si mesmo é transformado radicalmente e fortalecido por novos poderes e estados internos, que são simbolizados na teologia antiga por vários numina. Esta transformação diz-se que ocorre após uma preparação inicial, consistente em viver uma vida pura e na prática do ascetismo e finalmente recebendo experiências especiais que estão determinadas por ritos iniciáticos.

Hélios é o poder ao qual Juliano dedica seus hinos, cujo nome invoca inclusive em suas últimas palavras, quando morre ao pôr do Sol em um campo de batalha na Ásia Menor. Hélios é o Sol, o qual não é concebido como um corpo físico, senão como símbolo de uma luz metafísica e de um poder transcendente. Este poder manifesta-se na humanidade e naqueles que foram regenerados, como soberano nous e como uma força mística do alto. Nos dias antigos e inclusive na própria Roma, através da influência persa, considerava-se que esta força estava estritamente associada com a dignidade real. O autêntico significado do culto imperial romano que Juliano tentou restaurar e institucionalizar por cima e contra o cristianismo, somente pode ser apreciado dentro deste contexto. O motivo central no culto é: o autêntico e legítimo líder é o único que está dotado de uma superioridade sobrenatural ontológica e o qual é imagem do rei celestial, chamado Hélios. Quando isso ocorre (e somente então), a autoridade e a hierarquia estão justificadas; o regnum é santificado; e um centro luminoso de gravidade vem a fundar-se, o qual atrai para si a um número de homens e forças naturais.

Juliano ansiava por realizar este ideal "pagão" dentro de uma hierarquia imperial estável e unitária, dotada de um fundamento dogmático, um sistema de disciplinas e leis e uma classe sacerdotal. A classe sacerdotal supunha-se ter como líder o próprio imperador, o qual, tendo sido regenerado e elevado por cima das meras condições mortais graças aos Mistérios, encarnava simultaneamente a autoridade espiritual e o poder temporal. De acordo com este ponto de vista, o imperador era tido como o Pontifex Maximus, um termo antigo recuperado por Augusto. Os pressupostos ideológicos sobre os quais fundamenta-se a visão de Juliano, são: 1) a natureza, é entendida como formada por um todo harmônico e penetrada por forças vivas, porém invisíveis; 2) um monoteísmo professado pelo Estado; 3) um corpo de "filósofos" (seria mais apropriado chamá-los homens sábios) capazes de interpretar a teologia tradicional da antiga Roma e de atualizá-la mediante ritos iniciáticos.

Esta visão está em duro contraste com o primitivo dualismo cristão, exemplificado pela frase de Jesus que diz: "dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César". Esta frase leva finalmente ao cristianismo rechaçar a render homenagem ao imperador em qualquer outro rol que não seja o de um governante. Este rechaço, ocasionalmente, foi considerado como uma manifestação de anarquia e de subversão, e culminou na perseguição estatal contra os cristãos.

Desgraçadamente o tempo não estava maduro para a realização do ideal de Juliano. Uma realização semelhante teria requerido a participação ativa, mediante sinergia, de todos os estratos da sociedade assim como um relançamento da antiga Weltanschauung em termos mais vibrantes. Em lugar disso, dentro da sociedade pagã deu-se uma separação irreversível entre forma e conteúdo.

Inclusive o consenso que havia conseguido o cristianismo foi um signo fatal da decadência dos tempos. Para uma ampla maioria do povo, falar acerca de deuses como experiências internas ou considerar os princípios solares e transcendentes acima mencionados como requisitos necessários para o império era nada mais que uma ficção ou mera "filosofia". Em outras palavras, o que faltava era uma fundação existencial. Ademais, Juliano enganou-se crendo que seria capaz de transformar certos ensinamentos esotéricos em forças formativas políticas, culturais e sociais. Devido a sua verdadeira natureza, esses ensinamentos estavam destinados, não obstante, a cair unicamente dentro da competência de círculos restritos.

Isso não deveria levar-nos à conclusão de que, ao menos em princípio, existiria uma contradição entre a visão de Juliano e o ideal de um Estado forjado na aplicação destes elementos espirituais e transcendentes. A própria existência histórica de uma sucessão de civilizações que foram centradas em uma espiritualidade "solar" (abarcando desde o antigo Egito e ao antigo Irã, até o Japão anterior à Segunda Guerra Mundial) deveria demonstrar que esta contradição não existe em realidade. Deveria dizer-se mais acertadamente que Roma, nos tempos de Juliano, carecia já da substância humana e espiritual capaz de estabelecer as conexões e relações de participação que caracterizam a uma nova hierarquia viva que possa criar um organismo imperial totalitário merecedor do nome pagão.

O célebre texto de Dimitri Merezhkovsky, "Morte dos deuses", reúne de modo admirável e sugestivo o ambiente cultural dos tempos de Juliano com seus presságios de um ocaso dos deuses.

Após um longo parêntese, alguns elementos da antiga Tradição foram destinados a ressurgir. Graças à emergências das dinastias germânicas nos palcos da história europeia, foi possível falar de novo de restauratio imperii, na forma do Sacro Império Romano Germânico medieval. Isso é certo especialmente se consideramos a tradição guibelina que tratou de reclamar para o Império, contra as demandas hegemônicas da Igreja de Roma, uma dignidade sobrenatural não inferior à que a própria Igreja desfrutava.

Atendendo a isso, é importante para um exame mais próximo ter em conta o que foi ocultado na literatura cavalheiresca, na assim chamada lenda imperial e também em outros documentos. Tratei de reunir e interpretar adequadamente todas estas fontes em nossa obra "O mistério do Graal e a tradição guibelina do império", ano 1937.

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