terça-feira, 18 de outubro de 2011

Interpretação e Desfiguração do Pensamento de Nietzsche na Sociedade Moderna

por Raul Castillo


Introdução

Perscrutando a Literatura, Filosofia, História e demais áreas do conhecimento através das épocas, deparamo-nos sempre com algumas personagens cujas idéias parecem causar certo aborrecimento e embaraço à atual sociedade moderna, e que exatamente por possuírem essa natureza indomável e crítica, necessitam ser submetidas a uma espécie de “seleção de idéias”, na qual se pretende estabelecer um limite do que é aceitável dentro do atual panorama intelectual, político e acadêmico, tanto a nível nacional como internacional.

Nesse processo, muitos autores, intelectuais e políticos de qualidade têm sido condenados à escuridão, ao esquecimento e ao silêncio, sufocando suas vidas. Não obstante, o mais comum é encontrarmos esses homens e suas obras desfigurados, já “purificados” pelos professores acadêmicos ou intelectuais engajados na mídia que guiam a educação em nosso país.

Infelizmente encontramos Nietzsche na situação acima descrita. No entanto, o oposto também é verdadeiro. Quantos maus escritores e maus políticos não têm sido enaltecidos como heróis pela nossa mídia, que se proclama digna e íntegra.

Basta estudar com atenção as obras, as vidas e a influência de certos autores e políticos, como Che Guevara, Karl Marx, Mao Tsé-Tung, Freud e perceberemos como os ensinamentos dessas personalidades foi tão fatal e maligno a toda humanidade, que os caminhos indicados por eles levaram o homem a sua condição mais vil na terra, uma condição jamais vista.

É necessário apenas um momento de lucidez para chegar à conclusão de que algo está errado. Existem muitas idéias ocultas, interpretações mascaradas e acima de tudo improbidade intelectual. Porém, todas essas características tão contraditórias entre si se encaixam com perfeição na nossa civilização “social-democaratahumanitária-capitalista”.

Destarte, diante de toda venenosa ladainha da mídia, encontramo-nos, não com admiração, mas sim com espanto, com o filósofo Nietzsche. Mas como? Poderia o pensamento Nietzschiano, tão temido, tão combatido, cheio de perigos e verdades, uma filosofia que isola o seu adepto, ser compreendida pela nossa geração? Poderia o típico cidadão do mundo moderno retirar de seus ensinamentos algo de proveitoso para alcançar seus propósitos, que no geral são simplesmente materialistas, consumistas, sexuais e tão destituídos de moral, arte e filosofia? Tendo essas questões como ponto de partida, coloquemo-nos seriamente a pensar. Por mais perspectivistas que possamos ser, parece-nos impossível encontrar uma resposta positiva a tais questões.

Temos assistido, em nosso cotidiano, um estranho crescimento da freqüência com que se tem invocado o filósofo em diferentes ambientes. Sejam em novelas, jornais, livros, filmes ou outros meios de “comunicação”, tem-se feito ecoar o nome de Nietzsche. E o que parece importar é como ele tem sido representado, e não o que ele realmente representa.

Apresentam-nos o filósofo como um destruidor de preconceitos, que abominava o anti-semitismo de sua época, um gênio com uma personalidade terna, sublime, quase um salvador que procurava libertar o homem de uma carga pesada e desnecessária. Em síntese, praticamente um liberal! Portanto, não é muito difícil compreender o porquê do enorme crescimento daqueles que se proclamam seus admiradores ou simpatizantes, bem como sua aceitação em diversas camadas da sociedade. Restanos perguntar: sabem, esses, realmente a quem estão a admirar? Sabem com que tipo de mundo sonhava esse homem?

Sua filosofia, de caráter complexo e que muitas vezes parece à primeira vista cheia de contradições, pode facilmente ser deformada e apresentada aos leigos e estudantes como algo que não é, usando-se apenas fragmentos do seu pensamento, frases isoladas, e que de forma alguma podem dar uma visão completa de como sua filosofia encarava o mundo.

É exatamente por isso que não destino esse artigo aos que desconhecem o filósofo por completo, mas sim àqueles que já possuem certa familiaridade (ou pensam ter) com suas idéias, bem como aos que compartilham de um conhecimento mais profundo de seus ensinamentos, já que somente esses poderão estar a par do que será exposto nestas páginas. Poderão confrontar tudo que aprenderam sobre o pensador estudando suas obras e aquilo a que têm sido induzidos a acreditar através da mídia de massa, dos nossos professores e intelectuais que ás vezes parecem estar a tratar de uma outra pessoa... um Nietzsche que deveria ter sido.

Sendo assim, torna-se necessário reproduzir alguns trechos de suas obras, visando uma melhor compreensão do que aqui buscamos pôr em foco.

Embora seja um trabalho simples e até mesmo ingênuo (pois qualquer leitor atento e honesto poderia facilmente escrevê-lo), torna-se diante dos fatos de suma importância para uma compreensão mais completa de Nietzsche. Uma compreensão que DEVERIA ser alcançada pela maior parte de seus leitores com uma simples e HONESTA leitura.

Aqui não há a intenção de barbarizar ou bestializar este homem, mas apenas de expor uma parte de sua face que parece ter sido esquecida nas sombras pelo nosso atual modernismo, possivelmente por encontrar nele algo corrosivo aos seus alicerces.

Racismo e Feminismo

Muito se fala e se repete sobre as suas críticas aos alemães e ao seu germanismo, bem como a sua atitude de indignação diante do anti-semitismo, destacando-se os seus elogios aos judeus. No entanto, aquele que levar mais em consideração a sua própria experiência com o filósofo e suas obras do que os meros e simplórios comentários a que temos observado sobre o seu posicionamento sobre a questão semita, notará facilmente que Nietzsche não foi tão “benévolo” com o povo judeu, chegando a afirmar categoricamente que “os judeus são o povo mais funesto da história universal”.

Abaixo seguem alguns trechos selecionados de suas obras, nos quais o filósofo se refere aos judeus de forma crítica e desembaraçada de preconceitos, pondo em evidência uma faceta ainda não explorada nos nossos dias do seu pensamento sobre a questão judaica:

Os judeus são o povo mais singular na história, porque, ao verem-se colocados perante o dilema do ser ou não ser, preferiram com uma lucidez extraordinária, o ser por qualquer preço: esse preço era a falsificação radical de toda a natureza, de toda a realidade, tanto do mundo interior como do exterior. Entrincheiraram-se contra todas as condições que permitiam até ai que um povo tivesse a possibilidade, o direito de viver; fizeram de si próprios uma antítese das condições naturais - perverteram sucessivamente e de modo irremediável a religião, o culto, a moral, a história, a psicologia, transformando-os na antítese dos seus valores naturais.”

É por essa razão que os judeus são o povo mais funesto da história universal: a humanidade foi a tal ponto falseada pelo ulterior efeito da sua ação que, hoje em dia, um cristão pode sentir-se antijudeu sem se considerar a si próprio como a última conseqüência do judaísmo.”

Sob o ponto de vista psicológico, o povo judeu é o que possui força vital mais tenaz, o que, colocado em condições dificílimas, toma livremente, por uma profundíssima sabedoria de conservação, o partido de todos os instintos de decadência - não por estar sujeito a esses instintos, mas porque advinha neles um poder que lhe permitia afirmar-se contra o “mundo”. Os judeus são o contrário de todos os decadentes: tiveram de representar o papel destes até a perfeita ilusão, souberam colocar-se à frente de todos os movimentos de decadência com um non plus ultra [1] do gênio teatral (na forma do cristianismo de Paulo) para deles fazer algo que fosse mais forte que qualquer partido de adesão à vida. Para o tipo de homens que no judaísmo e no cristianismo aspiram ao poder, a decadência é um estado sacerdotal, unicamente um meio: é interesse vital dessa classe de homens tornar a humanidade doente e perverter as noções de “bem” e de “mal”, de “verdadeiro” e de “falso” num sentido mortal para a vida e infamante para o mundo.” ( O Anticristo, Capítulo XXIV, Editora Martin Claret.)

No cristianismo, a arte de mentir santamente é o judaísmo, uma aprendizagem, uma técnica judaica de muitos séculos, e das mais sérias, que alcança aqui a sua mais alta perfeição. O cristão, essa ultima ratio da mentira, é o judeu, ainda judeu, triplicemente judeu...” (O Anticristo, Capítulo XLIV, Editora Martin Claret.)

Reside nesta inversão de valores - em que convém empregar-se a palavra “pobre” como sinônimo de “santo” e de “amigo”- a importância do povo judaico. A rebelião dos escravos na moral começa com os judeus.” ( Para Além do Bem e do Mal, aforismo 195, Editora Martin Claret.)

Nietzsche não era um anti-semita, um mero racista, isto temos que concluir. Mas a que conclusão perigosa chegamos nós! Se há um minuto atrás essa mesma conclusão causava alívio aos construtores de um Nietzsche moderno, quão consternados não devem ficar após lerem os trechos supracitados! Oras, se Nietzsche não era um anti-semita, o que significam todas essas críticas?

Na verdade, tudo é muito simples e claro. O filósofo, em suas pesquisas filosóficas, históricas e psicológicas não poupava a ninguém. Se ele mesmo, como alemão, não poupou aos alemães, porque pouparia aos judeus? As frases são claras, a intenção é clara. Não há espaços para interpretações dúbias quanto ao sentido. Durante toda a leitura de O Anticristo esbarramos com censuras ao “povo escolhido”, do início ao fim, sem que possamos nos esquivar ao seu exame frio e extremamente lúcido. Analisando o filósofo por esse ângulo não é difícil compreender a simpatia que despertou em muitos Nacional Socialistas, embora suas apreciações sobre o povo judaico não fossem o único elo entre o filósofo e esses, como observamos em sua obra Aurora, aforismo 272, A purificação da raça:

Não há provavelmente raças puras, mas somente raças depuradas, e estas são extraordinariamente raras. O mais freqüente são raças cruzadas, nas quais, ao lado dos defeitos de harmonia nas formas corporais (por exemplo, quando os olhos e a boca não harmonizam), há necessariamente sempre defeitos de harmonia nos costumes e nas apreciações de valor. (Livingston ouviu uma vez um indivíduo dizer: “Deus fez homens brancos e homens negros, mas o diabo criou as raças misturadas”).

As raças cruzadas produzem sempre, ao mesmo tempo que culturas cruzadas, morais cruzadas; geralmente são piores, mais cruéis, mais inquietas.


E mais abaixo conclui:

Mas, enfim, quando o processo da depuração foi conseguido, todas as forças que antes se perdiam na luta entre as qualidades sem harmonia encontram-se à disposição do conjunto do organismo; por isso as raças depuradas são sempre mais fortes e mais belas. Os gregos nos oferecem o modelo de uma raça e de uma cultura assim depuradas: e é de esperar que se conseguirá também um dia a criação de uma raça e de uma cultura européias puras.“

Junte-se a isso ainda a sua afirmação de que a Alemanha já possuía judeus demais, sendo que não se devia deixar entrar novos fluxos no país. Acreditava ingenuamente que as raças inteligentes tiveram medo freqüentemente, tornando-se pálidas e permanecendo pálidas até os dias de hoje, “pois a inteligência se mede pela capacidade de temer”. Afirma ainda: “A diminuição progressiva do homem é precisamente a força motriz que nos faz pensar na criação de uma raça mais forte.” A divergência entre os nacional-socialistas e o filósofo reside no fato de suas opiniões não sustentarem ou visarem ao racialismo e ao nacionalismo, já que o último não passava de um movimento de massas, fruto de uma época decadente, uma neurose, segundo Nietzsche.

Sua acidez é fruto de seu estudo e de seu entendimento do mundo, e não de meros preconceitos. Sua época não estava tão condicionada ao politicamente correto como a nossa se encontra. Tão politicamente correta a ponto de impedir que certas pessoas ou certos grupos exponham publicamente suas idéias, com ameaças de prisão e até de morte.

Continuemos então, já que ainda estamos “livres”, a nossa batalha contra os medíocres que insistem em ver no mundo somente aquilo que reforça as suas teses acadêmicas e que serve aos seus propósitos de falsificação histórica.

Atualmente a mulher tem sido elevada acima dos homens e já não resta mais nenhuma dúvida sobre a sua aceitação em nossa civilização moderna. O chamado “sexo frágil” inclusive tem conquistado cada vez mais liberdade e independência em questões jurídicas, possuindo mais direitos e menos deveres do que os homens. Para se chegar a essa constatação basta observarmos o nosso cotidiano, principalmente no que envolve a justiça, como separação judicial, decisões pela guarda dos filhos, casos de agressão física (ela é sempre a vítima, independente do que se tenha sucedido na ocasião) e até mesmo na busca por trabalho elas parecem levar vantagem.

Em uma sociedade onde o feminismo é uma virtude, é interessante saber que lugar Nietzsche teria reservado às mulheres em sua ética. Para tanto, é imprescindível lermos um trecho de Para Além do Bem e do Mal, aforismo 232.

A mulher quer emancipar-se. Para atingir esse desiderato começa a esclarecer os homens sobre a “mulher em si”. Sem dúvida que isto constitui um dos piores progressos no sentido do geral afeamento da Europa. Quanta coisa não se revelará nestas tentativas desajeitadas de cientificismo e autodesnudamento femininos! A mulher tem tantas razões para ficar envergonhada! Há tanto pedantismo na mulher, tanta superficialidade, doutrinarismo, presunção mesquinha, pequenez desenfreada e imodesta! Preste atenção no seu convívio com crianças! Até agora, só o medo ao homem refreou e reprimiu essas fraquezas. Ai de nós no dia em que o “eternamente aborrecido na mulher” [2] - e ela é rica nisso! – ouse aparecer! Se ela começar a desaprender, radicalmente e por princípio, a sua inteligência e a sua arte, a da graciosidade, a de brincar, de dissipar cuidados, de aliviar as penas e de as tornar ânimo leve, o seu delicado jeito para desejos agradáveis! Agora já se ouvem vozes femininas que, por Santo Aristófanes!, assustam. Explica-se ameaçadoramente e com clareza de médico o que, em primeira e última análise, a mulher quer do homem.”

E prossegue ainda:

Que importa, à mulher, a verdade! Desde a origem, nada é mais estranho, mais avesso, mais odioso à mulher do que a verdade. A sua grande arte é a mentira, o que mais lhe interessa é a aparência e a beleza. Confessemo-lo entre nós homens: nós honramos e amamos na mulher exatamente essa arte e esse instinto. Nós que temos uma vida difícil e, para nos aliviarmos, gostamos de nos juntar a seres sob cujas mãos, olhares e tolices ternas, a nossa seriedade, a nossa gravidade, a nossa profundidade quase nos aparecem como uma tolice. Pergunto por fim: alguma vez uma mulher concedeu profundidade a um cérebro de mulher, justiça a um coração de mulher?.”

Realmente não há o que comentar. Com o passar do tempo a tendência é que se oculte e se deixe morrer no silêncio e na escuridão essa visão que o filósofo possuía das mulheres, como coisa repugnante, um mero preconceito que mais uma vez foi derrubado, ultrapassado pela modernidade. Sem dúvida, “machismo da pior espécie”.

Democracia, Socialismo e Aristocracia.

Embora saibamos que o nacionalismo o exasperasse, tem-se exposto o que pensava de outras formas de política, que espécie de governo desejava? Suas opiniões têm sido colocadas à vista dos leigos e estudantes sobre essa questão, ou têm sido (como muitas) sorrateiramente empurradas “para debaixo do tapete”? Novamente pensamos seriamente e chegamos à mesma conclusão! Ocultam-nos a verdade!

Nietzsche havia se posicionado contra a democracia, pois para ele tudo que age em favor do sufrágio universal beneficia o domínio dos homens inferiores. Para ele a democracia não representava apenas a decadência da organização política, mas também a mediocrização e desvalorização do homem. Sua filosofia não se destinava aos homens que se achassem ao nível médio das massas, mais sim àqueles que estavam muito além delas. E como em todo rebanho há manipulação, o poder do povo simplesmente não existe.

Tão pouco possuía simpatia para com o socialismo. Em Ecce Homo deixa claro: “A última coisa que eu me prometeria seria “melhorar” a humanidade”. Não se preocupava em absoluto com o sofrimento ou com os direitos do proletariado, não colocando, inclusive, nenhuma objeção ao sacrifício desses, desde que fossem necessários para a produção de um homem superior. Acredita, aliás, que o socialismo só poder existir através do extremo terrorismo e dominar pelo pavor, sendo sua missão exterminar o indivíduo, o qual lhe aparece como um injustificado luxo da natureza, que deve ser adequado aos fins da comunidade. Há uma passagem em Para Além do Bem e do Mal, aforismo 203, que nos da uma imagem clara do que pensava dos socialistas:

A degenerescência global do homem até àquilo que é considerado pelos cretinos e boçais socialistas como o seu “homem do futuro” - seu ideal! – Essa degenerescência e amesquinhamento do homem até ao perfeito animal de rebanho – ou, como eles diriam, até ao homem da “sociedade livre” -, essa bestialização do homem até converter-se em animúnculo dos direitos iguais e reivindicações igualitárias é possível não haja dúvida!”.

O filósofo desejava um governo aristocrata. Para ele a aristocracia era a responsável por toda a cultura superior que surgira na terra. A aristocracia, inicialmente, seria formada sempre por uma casta de bárbaros, de conquistadores que teriam se lançado sobre povos mais fracos, mais civilizados. Antes das revoluções francesa e americana praticamente todos os governos dos grandes estados foram dirigidos por aristocracias. Inclua-se neste currículo a civilização egípcia, grega, romana entre dezenas de outras e poderemos compreender porque desejava tal espécie de governo. Lembre-se que para Nietzsche era indiferente o que acontecia com as massas sobre um governo aristocrata, desde que as castas aristocráticas estivessem exercendo o poder e criando uma cultura superior de acordo com seus valores. Portanto, para compreendermos sua posição não devemos julgar o que aconteceu com as massas sobre o governo das aristocracias, como se costuma fazer com os atuais governos democráticos e socialistas, onde as condições de vida das massas populares (como a diminuição da miséria, o equilíbrio social e o alto desempenho escolar) passam a ser o avaliador da atuação de um governo. Devemos apenas buscar pelas criações na arte, filosofia e ciência de tais aristocracias, que seriam fruto de uma moral de senhores, dos nobres. Além do mais, uma simples análise da pobre arte produzida durante os governos socialistas ou democratas é o bastante para lhe dar razão, embora algumas poucas exceções sobrevivam.

A moral e o espírito livre

Com razão Nietzsche se considerava um imoral em sua época, já que seus valores conflitavam radicalmente com os valores defendidos pelos seus contemporâneos. Erroneamente muitos acreditam que o filósofo era contra todo tipo de moral, mas como veremos adiante essa crença está edificada em uma visão falsa.

Para ele a moral de sua época não passava da moral de rebanho, a moral dos fracos, dos escravos. Era contra essa moral que Nietzsche estava em luta, proclamando-se dessa maneira como um imoral. A moral de rebanho ensina ao indivíduo a ser função do rebanho, a se atribuir valor apenas em função do rebanho. Essa moral teria se originado com “os violentados, os oprimidos, os sofredores, os servis, os inseguros e cansados de si mesmos”. Estes veriam a vida como sofrimento, a existência seria dessa forma indigna. Sua moral prestaria honras à compaixão, à humildade, ao bom coração e à paciência como ”virtudes” úteis para se agüentar a pressão da existência.

Contrastando com essa moral de decadência se encontraria a moral dos senhores, dos nobres. A moral dos senhores é diferente das outras porque não se encaixa no espírito de rebanho. Essa moral é a criadora de valores e surge dos dominadores, dos conquistadores, fruto de estados de alma elevados e altivos; a moral nobre enobrece a vida e afirma tudo que há de grande, de belo e mesmo de repreensível nela. Essa não seria para todos, mas deveria permanecer como pertencente a uma minoria aristocrática, isolando o seu possuidor. Nietzsche diz ainda: “Nenhuma moral é possível sem um bom nascimento

Portanto, devemos considerar como um “mal entendido moderno” o fato de muitos verem o filósofo como um imoral no sentido literal da palavra, ou seja, como se não passasse de um indivíduo sem princípios, sem valores. Isso demonstra que ainda estamos presos a dualismos em nossos dias. Quão perigoso não pode ser esse mal entendido quando algum desinformado entende sua imoralidade como ausência de valores e pretende dessa forma conduzir suas ações!

Os espíritos livres, também denominados como filósofos do futuro seriam aqueles que conseguiram se libertar de todo dogmatismo, e que por isso mesmo seriam os novos criadores de valores. Estariam libertos de todo dualismo, lançando-se para além do bem e do mal. Isso lhes permitiria a criação de infinitas perspectivas, sem medo de experimentações com o pensamento, pois “o temor é o pai da moral”.

No entanto, ser um espírito livre não significa necessariamente não possuir nenhuma perspectiva, mas sempre estar aberto ao perpectivismo, procurando encarar uma realidade por diversos ângulos, o que impediria o dogmatismo, pois infinitas são as possibilidades do pensamento e sendo assim não há razões para se fechar em uma única visão do mundo.

Em Para Além do Bem e do Mal, aforismo 44 existem algumas passagens esclarecedoras sobre a importância de não se confundir o espírito livre nietzschiano com o que se tem denominado como espírito livre moderno.

Em todos os países da Europa e, igualmente, da América, há agora gente que abusa desse nome, um tipo de espíritos muito estreitos, presos, algemados, que querem mais ou menos o contrário do que está nas nossas intenções e instintos, não falando do fato de que eles, em relação àqueles novos filósofos que emergem no horizonte devem ser, em oposição, janelas fechadas e portas aferrolhadas. Expressando-me sem rodeios, eles fazem parte, infelizmente, dos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres”, porque são os escravos fecundos e primitivos do gosto democrático e das suas “idéias modernas”. São todos eles homens sem solidão, sem uma solidão que lhes pertença, bons rapazes simplórios a quem não se deve negar coragem nem boa conduta, mas que são ridiculamente superficiais e não-livres, principalmente na sua tendência básica de ver, mais ou menos, nas formas desta velha sociedade, a causa de toda a miséria e sofrimento humanos. Dessa forma, a verdade fica certeiramente de cabeça para baixo. O que aspiram com todas as forças é à verde felicidade geral dos rebanhos no pasto, com a segurança, a ausência de perigos, o bem-estar e a vida fácil para toda a gente. As suas duas cantilenas e doutrinas mais estafadas chamam-se “igualdade de direitos” e “piedade para com os que sofrem”. O próprio sofrimento é considerado por eles como algo que se deve suprimir. Nós, que vemos as coisas sob outra óptica, nós que abrimos os olhos e a consciência à questão de saber onde e como se desenvolveu até aqui mais rigorosamente a planta “homem” [3], julgamos saber que tal se deu sempre em condições absolutamente opostas”.

Achamos que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na alma e na rua, que a dissimulação, o estoicismo, a artimanha e os sortilégios de toda ordem, que tudo o que é mau, terrível, tirânico, tudo o que o homem possui de fera e de serpente, tudo isso serve tão bem à elevação da espécie homem, como o seu contrário”.

No que se refere à perigosa fórmula “para além do bem e do mal”, com a qual evitamos pelo menos ser confundidos com outros, somos coisa bem diferente dos libres-penseurs, dos liberi pensatori, Freidenker ou de qualquer outra coisa que se queiram chamar esses bravos defensores das “idéias modernas””.

Conclusão

Como podemos observar nada escapou a sua visão penetrante: alemães, europeus, nacionalistas, anti-semitas, judeus, socialistas, democratas, feministas, filósofos, cristãos, todos foram alvo de suas investidas. E até mesmo toda a história da humanidade foi questionada, lançando sobre ela o seu olhar interrogador. Nietzsche era extremamente honesto a sua inteligência e as suas conclusões. Não se sentia embaraçado diante de cada verdade ou de cada mentira que descobria. Talvez se espantasse às vezes com a própria perspicácia. Parece, porém, que em nenhum momento deixou de expressar suas idéias, mesmo que a verdade pudesse doer em muitos, e muitos pudessem se proclamar seus inimigos.

Estamos diante de um homem que estava em guerra com a sua época e que continua em guerra com a nossa, pois cada vez mais estamos distantes do mundo que desejava. Tudo o que descreveu em suas obras como decadente está cada vez mais destinado a servir de alicerce a nossa sociedade. Será esse o motivo por que se tem ocultado, ou pelo menos dispensado uma atenção insuficiente a muitos de seus princípios, principalmente àqueles onde ele mais se opunha de forma clara e estarrecedora a uma determinada situação, que encontra na nossa atual sociedade o seu modelo exemplar? Podemos concluir que sim, embora não deixe de ser uma conclusão infeliz. Que governo fanaticamente democrata (como os governos ocidentais) gostaria de encarar frente a frente e desarmado a tal personagem? Mas sejamos sinceros, e que a verdade doa a quem doer!

É necessário que se explique novamente: por mais perspectivistas que possamos ser, por mais que tenhamos boa vontade, não se pode chegar a um entendimento, a uma compreensão de certas posturas a que tem sido exposto o pensamento nietzschiano. Como entender que pessoas envolvidas com o entretenimento vulgar das massas estejam se inspirando em seus escritos? Que justamente aqueles a quem considerava como decadentes, os que transformavam a cultura em comércio, sejam agora seus admiradores e simpatizantes, ou antes, pior, os divulgadores de suas “idéias”? Que jovens imbuídos de idéias modernas até a medula se sintam influenciados e até mesmo identificados com o filósofo, sendo que o mesmo os desprezaria com repugnância? Ele é um guerreiro a quem a civilização atual não pode digerir, a não ser que o transforme em parte dela mesma.

Há ainda os que argumentam que o seu pensamento é uma forma de filosofar e não uma filosofia em si, como norma de conduzir a vida. Constata-se, entretanto, tratar-se de um sério equívoco quando estudamos a vida do filósofo, já que tudo indica que ele seguiu de forma radical a todos os ensinamentos que se encontram em suas obras.

Talvez muitos se deixem levar pela beleza poética de algumas passagens de suas obras, primando por interpretar as palavras do filósofo de forma pessoal, ao invés de interpretá-las dentro do pensamento Nietzschiano, gerando (talvez) muitos dos mal entendidos.

No entanto, isso é compreensível somente diante dos ingênuos, dos desinformados e iniciantes. A maior culpa pelo desconhecimento e deformação de suas idéias é sem dúvida de origem acadêmica e dos intelectuais que dominam com mãos de ferro a educação de todos nós.

Repete-se como propaganda as famigeradas acusações de falsificação contra a sua irmã Elizabeth, que, no entanto, também podem servir aos nossos educadores, de uma forma mais sutil é verdade. Aliás, há um verso do poeta-filósofo que representa de forma adequada e irônica a situação: “O pecado deste minuto livrará o antigo da memória” [6]. E não é exatamente isso que pretendem?

Nietzsche estava contra tudo que é tépido, morno, que possui um brilho fraco e que conduz ao conformismo e ao comodismo. Inicialmente suas idéias nos guiam à dúvida e no meio do caminho somos forçosamente postos frente a frente ao niilismo justamente para ultrapassá-lo. E aquele que o ultrapassa está mais perto de compreender a sua filosofia. Pode até mesmo topar com suas pegadas! E esse é o objetivo, a vitória sobre toda a negação. A afirmação do querer até mesmo na dor, no sofrimento, nas horas mais infelizes.

Por fim, espero que se torne claro, desta maneira, conforme tudo que foi exposto nestas páginas, como o seu pensamento tem sido desconfigurado, tendo em vista sua aceitação em uma sociedade decadente, deformando suas idéias, dando a elas um sentido moderno, aceitável ao rebanho atual, que não apresenta perigo à ordem vigente, passando a ser mero entretenimento. Dá-se aos seus escritos outros ares, algo que se pode respirar sem grandes perigos. E assim ele passa para a lista dos prediletos de muitos, sem que o compreendam é claro, pois a sua compreensão os faria lançar para longe de si as suas obras, como algo maldito, como a visão de um mundo que jamais deveria ser.

Esses que se fazem presentes são apenas os descendentes daqueles que o condenaram e contra os quais lutou. E porque não os condenaria também?

É importante frisar que muitas vezes chegamos a uma visão mais clara e honesta sobre o filósofo através de leituras que o colocam contra a parede, que o combatem e que mesmo assim reconhecem a sua grandeza em tudo de terrível, de belo e artístico que possamos encontrar em sua vida e obra.

Mesmo que os difamadores da inteligência monopolizem suas idéias e as direcionem a um único rumo; que tentem pintar o tigre feroz com cabrestos, a águia com sentimentos de pomba, ainda muitas pessoas se colocarão diante de tal blasfêmia. E por acaso já não se escuta ao longe certo alarido, um tanto tímido é verdade, que amaldiçoa àqueles que querem nos roubar o diamante, ou melhor, transformá-lo em bijuteria para que todos possam vendê-lo e comprá-lo?
______
Fonte: Revista Cultural Tholf nº5

[1] Não mais além, isto é, algo inexcedível, que não se ultrapassa.

[2] “Das Ewig-Langweilige am Welbe” é evidente paródia dos versos finais do Fausto de Goethe, baseada na similitude entre weiblich, feminino, e langwlich, aborrecido:

Das Ewig-Weibliche
Zieht uns hinan.
(O eterno feminino
impele-os para o alto).


[3] Alusão a Stendhal, Rome, Naples et Florence, 1854, citando Vittoria Alfieri sobre a Itália: “A planta homem nasce aqui mais robusta que em qualquer outra parte”.

[4] O verso se encontra no poema “A piedosa Beppa”, em Gaia Ciência.

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