sábado, 1 de outubro de 2011

Espíritos Livres e Cultivados

por Dominique Venner

Os homens sempre tem sentido necessidade de perscrutar o futuro. Os gregos perguntavam à Pítia de Delfos. A obscuridade dos pronunciamentos do oráculo permitia-lhes múltiplas interpretações. Inclinando-se ao costume, Alexandre consultou-a antes de dar início a conquista da Ásia. Como ela estava demorando a retornar a seu tripé, o impaciente macedônio arrastou-a lá pela força. Ela exclamou: "Não dá para resistir a você...". Tendo ouvido essas palavras, Alexandre deixou-a ir, dizendo: "Essa previsão é o bastante para mim". Ele era um sábio.

Cada era tem seus profetas, videntes, arúspices, astrólogos, futurólogos, e outros charlatãos. Hoje usamos computadores. Outrora, eles usavam médiuns. Catarina de Médici consultava Nostradamus. Cromwell ouvia William Lilly. Stalin questionava Wolf Messing. Hitler questionava Eric Hanussen. Briand e Poincaré partilhavam dos talentos de Sra. Fraya... O destino de um indivíduo, porém, é uma coisa; o destino de uma civilização é outra.

Precedido pelo otimismo herdado do Iluminismo, o século XX começou com promessas de um futuro brilhante, na certeza de que a ciência e o conhecimento levariam ao progresso e à sabedoria. O homem tornar-se-ia realmente "Mestre e possuidor da Natureza" e também adquiriria autodomínio. Após a vitória sobre as coisas, a paz e a harmonia entre os homens estabelecer-se-ia.

O impiedoso século XX despedaçou essas ilusões. Ninguém, ou quase ninguém, havia previsto as consequências catastróficas do assassinato em Sarajevo no verão de 1914. Todos os beligerantes esperavam uma guerra curta, fácil e alegre. Ela foi interminável, terrível e moral como nunca antes. Foi o presente imprevisto do progresso industrial e da democracia de massa à humanidade - dois novos fatores que transformaram a própria natureza da guerra. Começando como um conflito tradicional entre Estados, terminou como uma cruzada ideológica, derrubando toda a velha ordem européia, encarnada nos três grandes impérios do Centro e do Leste. E a chacina européia e as condições impostas aos vencidos após 1919 carregavam o germe de uma outra guerra catastrófica.

Na alvorada de um novo século e um novo milênio, as ilusões do progresso foram parcialmente dissipadas, tanto que ouve-se falar em "progresso fatal" ou "horror econômico". O marxismo e suas certezas afundaram no colapso do sistema ao qual ele deu início. O otimismo de outrora muitas vezes rende-se a um tipo de pessimismo sobrepujante, nutrido pela ansiedade por um futuro que temos todas as razões para temer. Volta-se à História em busca de respostas.

Mas a interpretação da História não escapa nem das modas nem das idéias reinantes. Assim sempre precisa-se de força mental e de caráter para libertar-se do peso do próprio tempo. Com um pouco de impulso, qualquer espírito curioso, livre e cultivado pode compreender o caráter imprevisível da História, que os últimos cem anos de fatos torna inevitavelmente claro, e ver através das teorias deterministas resultantes da visão hegeliana.
Em 22 de janeiro de 1917, um Lênin que era quase desconhecido e permanentemente exilado, falou diante de um círculo de estudantes socialistas: "Nós homens velhos", ele falou de si mesmo, "talvez jamais vejamos as batalhas decisivas da Revolução...". Sete semanas depois, o czarismo havia asido derrubado, e Lênin e os bolcheviques não tiveram nada a ver com isso. As "batalhas decisivas" nas quais ele não mais acreditava estavam começando, para o azar da Rússia e do resto do mundo. Eu conheço poucas anedotas tão reveladoras da dificuldade das previsões históricas. Essa está em uma classe toda própria.

Durante o ano acadêmico de 1975-1976, Raymond Aron, uma das mentes mais perspicazes de nossos tempos, deu um curso no Collège de France sobre "O Declínio do Ocidente", que já era todo um currículo. Aqui está sua conclusão: "o declínio dos Estados Unidos de 1945 a 1975 emergiu de forças irresistíveis". Notemos a palavra "irresistível". Em suas Memórias, publicadas no ano de sua morte, em 1983, Aron retornou a essa reflexão e amplificou-a: "O que eu tenho observado desde 1975 foi a ameaça de desintegração da zona imperial americana..." Àqueles que vivem sob a sombra do império global americano, essa análise poderia fazer-se questionar a lucidez do autor. E porém, ele nunca duvidou de si mesmo. Nosso assombro é devido ao fato de que a História avançou desconhecida para nós, mostrando-nos um mundo hoje que é muito diferente do que era vinte anos atrás, e que ninguém previu.

De modo algum eu sugiro ignorarmos as ameaças pairando em nosso horizonte: globalização devoradora, explosões demográficas, imigração massiva, a poluição da natureza, a engenharia genética, etc. Durante uma era de ansiedade, é saudável repelir ilusões alegres; é salubre praticar as virtudes do pessimismo ativo, aquelas de Tucídides ou Maquiavel. Mas é tão necessário quanto rejeitar o tipo de pessimismo que torna-se fatalismo.

O primeiro erro no que concerne ameaças futuras seria considerá-las como inescapáveis. A História não é o domínio do destino, mas o do imprevisto. Um segundo erro seria imaginar o futuro como uma prolongação do presente. Se algo é certo, é que o futuro será diferente de como imaginamos ele hoje. Um terceiro erro seria perder esperança na inteligência, na imaginação, na vontade, e finalmente em nós mesmos.

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