segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Idéia de Estado em um Mundo em Ruínas

por Marcos Ghio

Estamos convencidos de que onde mais percebe-se a profunda diferença existente entre o mundo moderno e o tradicional é no relativo ao conceito do Estado que ambas civilizações sustentaram ao longo do tempo. Tradicionalmente o Estado implicava, de acordo a seu próprio nome, um sinônimo de estabilidade, de permanência e de equilíbrio em um mundo marcado pelo câmbio e pelo incessante devir. A função de governo, longe de ficar reduzida como agora a uma simples tarefa administrativa pela qual obtinha-se o "bem-estar" da comunidade, implicava por sua vez algo superior e absoluto, consistente em uma ação divina e demiúrgica pela qual quem mandava tinha a função eminente de ordenar uma matéria caótica que preexistia-lhe. O que governava não era pois o encarregado de realizar a natureza que o homem manifestava de maneira espontânea, senão, ao contrário, de modificá-la, de dar-lhe uma forma, de elevá-la de sua condição imediata, conduzindo ao governando para os caminhos mais elevados da eternidade e do espírito. Consequentemente o chefe de Estado tampouco era como agora um delegado ou um representante do povo, "um dos nossos", possivelmente o mais esperto e astuto, ao que, em razão de certas destrezas e habilidades desenvolvidas geralmente nos negócios, encomendava-se-lhe a função de fazer também "felizes" e converter em "saciados" aos habitantes, senão que ao invés ele representava um paradigma, um ser quase pertencente a outra natureza, superior ontologicamente a quem governava, ou mais ainda, ele era aquele que da melhor maneira havia desenvolvido aquela outra natureza mais profunda que tão somente existe de maneira latente nos demais e portanto representava para estes como um farol de luz em um mundo escuro de trevas.

A maneira como melhor compreende-se a função própria do governante, em contraposição com as caricaturas dos mesmos existentes na atualidade, é através do desdrobamento daquela dicotomia que contrapõe à pessoa com o simples indivíduo, compreendidos como duas maneiras diferentes e antitéticas para caracterizar ao ser humano. Pessoa e indivíduo, mais que realidades já constituídas e formadas, representavam classicamente duas tendencialidades diferentes e opostas entre si. Indivíduo era uma unidade indiferenciada, um ser carente de um caráter próprio, alguém "demasiado humano" no dizer de Nietzsche, sendo o equivalente de uma força descendente que conduzia aos seres de nossa espécie para o plano mais baixo da matéria pura, o que a nível social era o equivalente à massa anônima, aquilo que caracteriza-se por ser o mais semelhante ao mundo físio e animal. Em efeito, sabemos que na esfera própria das bestas as diferenças entre os indivíduos que compõem suas espécies são mínimas e insignificantes e mais ainda quando descende-se ao grau qualitativamente mais baixo dos animais de rebanho, sendo muito difícil ainda fisicamente encontrar distinções entre os indivíduo que compõem uma manada de ovelhas ou de bois, ou um exército de formigas ou outros insetos. Por isso a tendência para a individualização exige como correlato necessário aquela outra que expressa o incremento do princípio da igualdade, pois tudo o que atente contra este fluxo para a matéria pura está representado justamente por seu oposto exato o qual é a corrente na direção da diferença e da hierarquia entre os seres. É dentro de tal processo descendente como pode-se compreender a nível sócio-político a corrente para o incremento e aprofundamento da democracia moderna, a qual é em tal esfera o equivalente de tal impulso para a individualização expresso no plano político. Ela manifesta-o em seu dogma e práxis essencial pelo qual todos os homens, ademais de sê-lo por natureza, devem converter-se cada vez mais em iguais enquanto indivíduos equivalentes a um voto, sem nenhuma diferença qualitativa entre aqueles que emitem-o, seja de nível, sexo ou idade, ou ainda de simples inteligência ou formação.

A tendência para a individualização, enquanto fluxo do homem para o mais baixo do ser, devia trazer ademais uma segunda consequência degradante da política, qual seja o materialismo ou a subordinação da mesma a disciplinas inferiores como a economia ou a sociologia. Assim pois hoje em dia, ao falar-se de governo, confunde-se tal atividade com a de simples administração, de modo tal que, quando quer-se cobrar de elogios a um "governante", costuma-se dizer que trata-se de um bom administrador ou de um eficiente gerente de uma macroempresa a qual é uma nação e por sua vez, de todas as funções que regem a atividade política, é a do ministério de economia a que tem hoje em dia maior valor, sendo o posto-chae mais cobiçado, determinante de toda ação de "governo" em qualquer dos tantos países modernos. E mais ainda, quando na atualidade quer falar-se de um conglomerado de povos unidos em função de um interesse comum, não é a seus caráteres culturais ou espirituais aos quais trata-se de fazer referência, ou a suas afinidades raciais ou religiosas, mas sim a suas conveniências econômicas. Por isso não é de estranhar que, para referir-se aos mesmos, costuma-se utilizar o termo de mercado: tais como Mercado Comum Europeu, Mercosul, Mercado de países asiáticos, etc., sem importar nem quem compõe-os, nem as afinidades eletivas que os próprios integrantes possam possuir.

Este desvio economicista e materialista da era moderna, com os consequências fenômenos de democracia, socialismo e sociologismo como fatores determinantes das relações humanas, aconteceu na medida em que as classes econômicas, a burguesia e o proletariado, sublevaram-se de sua condição própria havendo assumido as rédeas do poder político, criando um universo a sua medida. Um universo no qual reputa-se mais importante e como signo de "progresso" o mero avanço tecnológico e a acumulação de bens materiais e não assim a elevação moral e espiritual das pessoas, o qual segundo a mentalidade materialista existente seria tão somente um efeito originado pela ainda não lograda distribuição universal de tais "benefícios".

Na medida em que o homem moderno fez-se cego em relação a qualquer outra realidade que não pertença ao plano da matéria, consequentemente ignora ou confunde a outra categoria antitética de indivíduo, a pessoa. Enquanto que para este ambos os conceitos são praticamente sinônimos, pois assim como todos os homens seriam iguais, todos também seria consequentemente pessoas e no mesmo grau, para o homem tradicional por sua vez pessoa é tão somente aquele indivíduo que desenvolveu uma dimensão espiritual, e posto que o espírito é uma realidade absoluta, há graus diferentes de personalidade em função das capacidades desenvolvidas no logro do mesmo.

Por trás de ambas perspectivas há duas antropologias antagônicas. Para o moderno o homem é um mero composto de corpo e de alma e apesar de que sofisticamente tenda a suprimir muitas vezes tal distinção, considerando ao segundo termo como uma "ficção teológica", ele não obstante reconhece a existência de tal dualidade na aceitação da existência de somente duas dimensões, a do espaço, o relativo ao corpo, e a do tempo, o relativo à alma. E na medida em que a individualização encontra-se em seu grau mais agudo de desenvolvimento temos hoje em dia que o tempo é compreendido cada vez mais com categorias espaciais (tempo meteorológico, de relógio, etc.), havendo-se por sua vez a consciência reduzido sempre mais a suas dimensões inferiores e infraconscientes, referidas ao plano do mero instinto corporal. O homem clássico por sua vez compreendia ademais destas duas realidades (as quais ademais de ser claramente diferenciadas por este, remitia-se a sua vez ao psíquico outras manifestações, como a sutil ou astral, ignoradas totalmente pelo homem moderno), a outra superior e mais elevada da qual a humanidade participa, a qual é a espiritual. Se pelo corpo e pela alma o homem podia participar do reino físico e animal, pelo espírito a ele estava permitido fazê-lo do mundo dos deuses, quer dizer das coisas imortais. Porém enquanto que o homem ao nascer encontrava-se de forma imediata como um ser individual, psíquico e corporal, o desenvolvimento da personalidade, produto da educação e da ascese, implicava a descoberta paulatina de uma terceria dimensão, de caráter eterno e divino, a qual era o espírito. E em tal iniciativa ele encontrava uma sociedade que, através de uma trama de realidades superiores hierarquicamente sobrepostas, permitia-lhe elevar-se cada vez mais a tal condição. E assim como o mundo tradicional conheceu a polaridade mais baixa daquele que é puro indivíduo enquanto carente de qualquer caráter ou forma própria, o pária, o qual em razão de sua importância por possuir-se em uma forma somente causava rechaço e repúdio, em sua cúspide superior conheceu a uma série de figuras que expressavam nesta vida as maiores aproximações à Pessoa absoluta, aquele ser livre e autosuficiente, o que, na medida em que tudo podia, em nada precisava dos outros. Assim é como encontravam-se heróis, deuses, santos e reis sagrados que eram as pessoas que por suas ações elevavam para o alto e arrancavam ao homem de sua mera singularidade promíscua vinculada ao baixo, à espécie vermicular e repetitiva.

Por isso valha aqui outra diferença espiritual entre os que antes mandavam e aquele que parodicamente hoje manda. O monarca, enquanto proximidade mais plena com a pessoa absoluta, não necessitava de seu súdito, assim como em um grau ainda mais elevado o imperador não precisava de nações e pátrias subordinadas "provedoras de matéria-prima para seus produtos manufaturados" como os atuais imperialismos. Nunca era concebível que um rei centrasse sua política na mera economia, assim como tampouco que corresse atrás de eleitores prometendo-lhes panacéias inapreensíveis a fim de que ungissem-o através do sufrágio universal. Era o inferior que precisava do superior e neste princípio estribava pois a necessidade e consistência do governo.

Para a concepção clássica, em diferença à moderna, a realidade não ficava pois reduzida ao plano físico, senão que tão somente tinha sentido enquanto era concebida como um meio de algo superior e metafísico. Portanto, compreendia-se a função de governo como algo não distanciado do ato pelo qual Deus criava ou ordenava o universo. De nenhuma maneira reduzia-se dita função, como agora, ao logro da "felicidade" e do "bem-estar". Tudo devia ser reconduzido à unidade, longe estava-se da especialização e autonomia das ciências; política, religião, metafísica não eram termos antagônicos ou independentes, e sentia-se a existência mais que como um esforço por adaptar-se ao meio, como pregam as atuais ciências sociais, como uma luta incessante por ordenar um caos, do mesmo modo como a nível cosmológico o Demiurgo ordenava a matéria evitando que o universo inteiro dissolvesse e desagregasse. Por isso as comunidades tradicionais outorgaram ao governante um significado sagrado; o caos havia sido dobrado pela ação do Demiurgo, porém tratava-se de uma força que sempre estava latente e pronta para eclodir em qualquer momento no qual as potências do alto debilitaram e decaíram em seu prestígio. A ação do governante somente era justificável na medida em que era a que evitava a queda no caos e sua figura era assimilável a de um capitão de um barco que dirigia-se até o fim em uma longa viagem, repleta de perigos, a qual seria esta existência.

A vida não era pois uma totalidade encerrada em si mesma à qual estava-se obrigado a aceitar, resignando e dobrado de joelhos, em sua exterioridade e fatalidade, senão algo que havia que transcender incessantemente e ao qual sempre havia que estar atento e preparado para outorgar-lhe um significado superior, sendo tal o verdadeiro sentido da política em seu aspecto tradicional. Ela tinha pois por meta a de converter ao conglomerado animal e social em uma pólis, quer dizer em uma cidade, porém em sentido espiritual e hierárquico, não em uma colméia ou em uma "sociedade" promíscua como acontece em nossas modernas megalópoles. Não era pois como agora onde a política está subordinada à sociedade civil, do mesmo modo como o Estado está em relação à nação. O governante não equivalia ao guia de uma manada à qual devia meramente prevenir em relação aos perigos que espreitavam e levá-la às pradarias mais abundantes e férteis para seu melhor apacentamento, sendo por isso reconhecido em sua superioridade, senão aquele que descobria e orientava para um sentido que transcendia-a. Era principalmente um pontífice, um condutor desde esta vida para a outra, de caráter superior e eterno.

De uma antropologia de corte metafísico emanava consequentemente uma fé diferente da moderna. Não acreditava-se que entre o homem e o divino existisse um hiato abismal, como implantou com o tempo a heresia judaico-cristã, senão que o próprio homem era Deus em devir. Não uma criatura dependente e pecadora como indica tal desvio, senão um criador, um colaborador de Deus em sua tarefa por ordenar o cosmos. Entre esta matéria e o absolutamente perfeito, a forma pura, o homem tradicional concebia uma constelação hierárquica de divindades intermediárias: anjos, deuses, reis, heróis; todas elas testemunhavam por sua vez a existência de uma humanidade superior a esta, exterior e superficial, que meramente captam nossos sentidos externos e que é a que o homem moderno massificado tão somente pode perceber. A espécie humana não era igual à animal. O homem participava do divino pelo espírito e o próprio apoiava-se em sua diferença hierárquica e em uma soma ordenada de desigualdades.

Dentro de tal perspectiva, tal como dissera Platão, devia ser o philosophos enquanto era concebido como um Mestre, quer dizer como aquele que conduz as almas pelos caminhos superiores do espírito, na medida em que era ele que sabia, não sendo compreendido obviamente como os filosofastros ou intelectualóides de hoje em dia, senão como aquele que, enquanto estava na verdade, e vivia de acordo a ela, irradiava um carisma que em circunstâncias normais cegava e prendia os discípulos e súditos pois fazia-lhes presente a existência de outra esfera.

A modernidade significou o dualismo, a ruptura do equilíbrio clássico onde o religioso e o político, o divino e o humano coexistiam em uma relação hierárquica em unidade. Da cisão entre civitas Deis e civitas diaboli agostiniana pela qual demonizava-se o mundo como pecado, temática logo retomada pelo protestantismo, passando logo à mera assunção do Estado como puro realizador do bem comum de caráter tomista, aparecem todas estas como vias diferentes pelas quais o mundo e o Estado são esvaziados de sua sacralidade. E este será o fenômeno do guelfismo, o qual não duvidamos em qualificar como a causa primeira e originária da decadência moderna.

O segundo passo será o Absolutismo (Hobbes) onde o Estado faz-se absoluto porém em um sentido meramente material convertendo-se no organismo que monopoliza a força, ainda que esvaziada esta de qualquer caráter superior e transcendente, sendo o antecedente do Estado gendarme do liberalismo e do totalitarismo estatal de nossos dias.

Devia resultar óbvio que, uma vez que o Estado passara de ser um ente carismático dador de sentido e elevação espiritual a um mero órgão detentor do monopólio da força e assegurador do "bem comum", chegava-se com o tempo À concepção anárquica co mesmo, isto é, a que nega-o em sua essência e necessidade, a que concebe-o como um mal provisório, destinado a desaparecer na medida em que pela educação ou a "luta de classes" chegara-se à igualdade absoluta das pessoas e ao desenvolvimento sempre maior da democracia. Será o Estado classista, burguês ou proletário, inaugurado pela Revolução Francesa, aperfeiçoado logo pela russa e a partir de 1989 universalizado totalitariamente através do fenômeno da globalziação e do Mundo Uno que em realidade não é senão uma paródia do Império Universal, uma imagem distorsida e economicista do mesmo onde o ser humano vive tão somente e late em função da economia como destino universal e em perpetuação ilimitada do instante prazenteiro.

Deixamos para o final a resposta à pergunta acerca de como haveremos de sair do Estado moderno e como será nossa função restauradora da normalidade para retornar ao Estado de sempre, o qual existira em todas as grandes civilizações milenares com diferenças de grau e circunstâncias.

Uma das objeções mais usuais contra o pensamento tradicional no relativo a sua visão da política tem que ver fundamentalmente com sua viabilidade. Considera-se habitualmente como uma coisa utópica e irrealizável tendo em conta as atuais circunstâncias de fato que assinalam-nos o estado de degradação em que encontra-se o mundo moderno no qual cada dia que passa a economia e o socialismo parecem ser sempre mais as realdiades excludentes e detemrinantes que encontram-se à ordem do dia e ante o qual qualquer reação pareceria algo inútil e estéril.

Porém não podemos eludir um esclarecimento necessário ainda que para muitos resolve óbvio, pedindo antecipadamente desculpas pelo mal gosto no que em continuação diremos, ainda que façamo-o tão somente para encontrar um atalho fácil que evite-nos múltiplas disquisições tediosas e dolorosas. Se nosso universo político reduz-se a estas paródias estilo Rodríguez Sá, Menem e todas as restantes miasmas que habitam nosso espectro e que de somente mencioná-las produzem em alguns, entre os quais incluo-me, verdadeiras arcadas estomacais, é óbvio que qualquer um poderia dizer que o nossa é uma apresentação utópica. Ademais haveria que agregar a isso que carecemos de grandes aparatos, que não temos nem a mais remota possibilidade de chegar aos principais meios, que jamais uma conferência nossa ou um livro será publicizado pelo sistema, nem ser-nos-á dado a conhecer frente ao grande público. E se por casualidade em algum momento fôssemos mencionados, como foi feito em distintas oportunidades quando o regime necessitou de distrações para ocultar suas malfeitarias consuetudinárias, seria tão somente para cobrir-nos de calúnias e de ridículos, tal como em nosso caso fizeram Página 12, Mauro Viale ou o jornalista Kollmann, o embaixador de Israel, a Daia, etc. Tudo o que deve ser concebido como um signo e testemunho de que estamos e transitamos pelo caminho correto. Sería gravíssimo e obrigaria de nossa parte a uma verdadeira reapresentação o dia em que inteirassemo-nos de que algum meio fala bem de nós ou que simplesmente faz-nos alguma publicidade. Isso significaria que fracassamos e que, sem dar-nos conta disso, entramos a formar parte do sistema em alguma de suas múltiplas facetas.

Porém queremos apontar que na crítica que faz-se ao pensamento tradicional sublinha-se o fato de que medir uma doutrina pelo êxito, atualidade, historicidade ou vigência, é aplicar a priori uma das crenças próprias da modernidade, cuja manifestação mais clara é o pragmatismo de origem ianque, para o qual uma teoria é verdadeira e válida somente quando seus postulados triunfam, e sem importar tampouco os meios que tenham-se aplicado nisso. E como para esta o tempo é tudo, assim como a rapidez nas resoluções, geralmente reduzidas a categorias eleitorais de males menores e irremediáveis, é de supor que nossas idéias resultem para eles anacrônicas e despertem, nestes seres minúsculos e fugazes, mais de um sorriso socarrão. Porém o homem tradicional, a diferença do moderno, não está submetido Às urgências da ação e as razões da mesma não estão determinadas nunca principalmente pelo êxito, senão pela conformidade com os princípios e com a verdade, a qual tarde ou cedo sempre triunfa ainda que possa-se ou não ser testemunha disso.

Se o moderno sente-se realizado pela fama, o aplauso e o dinheiro, o homem da tradição encontra ao invés sua satisfação na certeza interior de viver e estar na verdade. E é a verdade a que indica que quanto mais o Estado massifique-se, mais intrometa-se na vida privada das pessoas de modo totalitário, mais a economia converta-se no destino de todos, tanto dos que tem como dos que carecem até o elemental, mais próximo encontra-se o final de um ciclo de idade escura. Tal como vemos com evidência absoluta atualmente, pois vejam vocês, que um Estado monotemático como o burguês que hoje rege-nos, que converteu a economia em uma verdadeira obsessão para todas as pessoas, não obstante não foi capaz de resolver problemas econômicos elementalíssimos como os relativos à mera subsistência de seus habitantes.

Porém o homem tradicional sabe também que dele, enquanto força demiúrgica, dependerá a resolução de uma ordem plena. Por isso, porque sua ação está determinada pela verdade e os princípios e não pela "conquista do poder", ele opera mais além desta existência, destas gerações ou outras, conformando-se muitas vezes com pregar simplesmente a idéia a fim de que a chama não extinga-se.

Por isso longe encontramo-nos de sustentar uma atitude passiva e de fuga em relação à realidade como muitas vezes pode-se ter atribuido-nos. A nossa é outra ação, outra forma de fazer política. E si devemos definir a característica principal da ação tradicional, devemos dizer que a mesma é uma ação "à distância", a distância no tempo, porque não urge-nos tomar o poder como aos políticos e aos modernos, em geral ansiosos pela fama e o dinheiro, senão algo muito mais vasto e importante: lograr a finalização de um ciclo, o qual irreversivelmente concluirá ainda que nós não possamos vê-lo, se bem possamos incidir na aceleração do processo. Porém à distância principalmente em relação ao espaço e aos "acontecimentos históricos", porque nossa ação não é de massas e de opinião pública, senão, tal como manifestamos em nossos múltiplos livros editados, a mesma é mágica e por sugestão. A frequentação das forças sutis, totalmente desconhecidas por parte dos modernos, permite influenciar sobre os acontecimentos muitas vezes mais contundentemente que os meios massivos de difusão. Nós atuamos não sobre as maiorias, senão sobre as elites. E a respeito valha este comentário: muitos perguntar-se-ão hoje em dia, e na Europa é uma pergunta quotidiana que formulam-se, como pode ser que nossa democracia tenha fracassado dessa forma, e que isso não haja acontecido por sua vez da mesma maneira em países pobres que ainda com tal sistema são capazes de sustentar um grau de normalidade e estabilidade política? Digamos a respeito que este sistema, na medida em que encontra-se fundado no absurdo, está condenado sempre ao fracasso, porém a rapidez em que isso suceda depende unicamente da ação do homem da tradição. E a respeito sustentamos que a democracia argentina não fracassou sozinha, senão que topou-se com uma força que estabeleceu com clareza meridiana o permanente contraste com a mesma, seu caráter disparatado e o principal, prognosticou pontualmente cada uma de suas falências e desatinos, gerando consequentemente em seus promotores - os quais, apesar do generalizado silêncio a nosso ao redor, leem-nos e sabem de nossa existência - um verdadeiro estado de insegurança, paralisia, desequilíbrio e inclusive desespero, o que acelerou seu fracasso. Agora é dentro dessa mesma tônica que nosso próximo passo é promover uma vez mais o voto castigo ou bronca a fim de acelerar o cataclismo final do sistema. O naufrágio estrepitoso da democracia argentina, não perceptível tão somente por uns poucos néscios, é pois um êxito rotundo de nosso Centro, ainda que ninguém possa-o reconhecer e não tenhamos que ser nós necessariamente os que recolhamos no imediato os frutos.

Digamo-lo uma vez mais: a democracia argentina sucumbiu em outubro do ano passado quando o povo massivamente repudiou-a entre as urnas, quer dizer, em seu próprio espaço sagrado, em seu próprio altar. O que agora presenciamos não são nada mais que seus estertores finais. E perguntamos finalmente: qual é aquela circunstância, entre todas as que existem, que põe mais em evidência o fracasso absoluto e irreversível do sistema convertendo-o pura e simplesmente em inviável? É o fato de que neste país, celeiro do mundo, as crianças morrem de fome, o que seria o equivalente a dizer que há gente que pode morrer de sede na Antártida ou de frio na África, e paradoxalemente isso ademais sucede em um sistema que fez do bem-estar geral sua própria meta e destino.

Por último, para os amigos das suspicácias, digamos que resulta um fato sumamente significativo que o único país do mundo em que funciona um Centro de Estudos Evolianos é justamente também aquele em que a democracia fracassou da maneira mais estrepitosa. Porque não houve um só lugar no planeta onde este sistema moderno imposto unviersalmente tenha naufragado da maneira como sucedeu e ainda hoje sucede na República Argentina. Pelo quê suferismo, para acelerar os tempos finais do Kali-Yuga, o qual depende da ação do homem e não de uma simples fatalidade, que em todos os países do mundo constituam-se também Centros de estudos similares. Somente assim o Estado Tradicional voltará a brotar em nossa história sobre as ruínas e cinzas da paródia do mesmo construída pela modernidade.

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