quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Em direção a uma Frente Nacional Comunista? – entrevista com Alain Soral.


Há já alguns meses, este sociólogo e escritor de combate empenhou-se no combate político com a firme vontade de se exprimir livremente sobre os temas que leva a peito. Uma coisa é clara, Alain Soral não é consensual. O seu empenhamento pela Frente Nacional fez correr muita tinta e agitou o pequeno mundo da net. Mesmo sendo bastante cépticos sobre a vontade do partido de Jean Marie Le Pen em contribuir para o nascimento de uma alternativa credível ao sistema capitalista, quisemos oferecer-lhe a ocasião de apresentar as suas idéias e as suas propostas. Isto porque uma vez que para lá das polêmicas vãs, dos anátemas ideológicos e dos slogans ocos, queríamos dar-lhe a ocasião de expor claramente nas nossas colunas, as razões e os objectivos da sua adesão. Pensamos que as pessoas que nos lêem, terão o espírito suficientemente aberto e livre para elaborarem a sua própria opinião sobre a escolha sincera de um homem que queimou os seus barcos.

Rébellion : O seu percurso político é dos mais atípicos. Como é que se passa em alguns anos do PC à FN? Quais são as etapas por onde passou o seu empenhamento [político]?

Alain Soral : O meu percurso não é assim tão atípico quanto isso. É a história oficial que se encarniça em fazer crer que é o caso, quando sempre houve pessoas de esquerda que se encontraram no campo nacionalista; é uma longa tradição francesa inspirando-se em Proudhon, Sorel, no sindicalismo revolucionário. Como para eles, trata-se, para mim, de continuar fiel a uma luta de insubmissão e de resistência. E desde a altura em que o PC renunciou a ele mesmo para se tornar num auxiliar do PS liberal, a partir do momento em que abandonou a resistência à mundialização por um discurso pró sem-papeis, passei logicamente do PC a Chevènement, depois deste à FN, numa linha antiliberal e antimundialista. Basta debruçarmo-nos sobre os arquivos do INA para descobrir que o discurso de Marchais no fim dos anos 70, é o discurso da FN de hoje: «produzamos francês», «alto à imigração». As pessoas modestas aperceberam-se disso imediatamente, elas que passaram do voto PC ao voto FN a partir de meados dos anos 90.

Qual é a sua situação no seio da FN? Que impressão tem do interior do partido? Dos seus quadros como dos seus militantes?


Alain Soral: A de um conselheiro especial, exterior, uma vez que não ocupo nenhum lugar na FN, um companheiro de caminho que se empenhou na altura da campanha presidencial. Quanto às minhas impressões, elas são diversas e mitigadas. A FN parece-se com aquilo que é: uma reunião de desiludidos de direita e de desiludidos de esquerda. É, pois, difícil de lá encontrar uma linha política clara e única, uma coerência doutrinal para a qual o trabalho [de elaboração] nunca foi efectuado, uma vez que se tratava de uma estratégia de ajuntamento. Um cálculo que foi ganhador durante anos, mas que a FN acabou por pagar aquando da campanha de Sarkozy. É preciso compreender que para além dos marginais e de alguns extremistas, há essencialmente dois tipos de eleitores na FN, pequenos burgueses liberais e assalariados antiliberais. A questão crucial é, pois, a de saber o que se entende por liberalismo. Um trabalho que se reenvia à questão do populismo, desse liberalismo anti neoliberal que analisa muito bem Michea, sociólogo também ele surgido da esquerda e que poderia ser o pensador da FN de amanhã se não tivesse medo de se “queimar” no meio universitário! Nas últimas presidenciais constata-se que são globalmente os desiludidos da direita – ou seja, o eleitorado médio e pequeno burguês – que votou Sarkozy, e que é o eleitorado popular, mais à esquerda, que permaneceu fiel. Na era Sarkozy, a saúde desse movimento patriótico e popular passa, pois, necessariamente por uma forte ancoragem à esquerda – no sentido de esquerda econômica e social. Uma visão que infelizmente não partilham os paladinos da união das direitas, uma corrente dominante no seio do aparelho actual da FN, mas minoritário no seu eleitorado, uma vez que é constituído por sobreviventes das antigas elites sucessivamente relegadas e tornadas obsoletas pela evolução do liberalismo mercantilista…

Entre os detritos da velha Extrema Direita (nostálgicos de Vichy e da Argélia Francesa) e a nova geração modernista de quadros sem linha precisa, pensa ter os meios para influenciar a linha política da FN? Não se arrisca a ser absorvido pela força da inércia de um movimento coagulado no seu discurso bem como na sua organização?

Alain Soral: Como bom marxista responder-lhe-ei que a única resposta é a acção. Cepticismo e fatalismo são posturas de direita, e enquanto homem de esquerda, não vejo outra solução que não seja tentar a aventura. É evidentemente arriscado. Mas face à realidade das forças em presença, não vejo outra possibilidade a tentar a não ser esta experiência heróica.

Como explica a evolução de pessoas surgidas dos movimentos contestatários, como Dieudonné, em direcção ao que os jornalistas do sistema qualificam de «esquerdo-lepenismo»? Existe um embrião de «Esquerda Nacional» no seio ou na margem da FN?

Alain Soral: A evolução de Dieudonné ancora-se nas suas posições em relação à Palestina. Por um percurso de sofrimento, de perseguições, ele descobriu a verdadeira clivagem esquerda – direita actual, que passa sistematicamente pela adesão ou pela recusa da dominação atlântico-sionista. Podemos verificá-lo plenamente hoje em dia pela governação Sarkozy que, a coberto de uma abertura à esquerda, está na realidade prestes a operar a união sagrada dos atlântico-sionistas franceses. De facto, é de direita, hoje, quem quer que seja que adira a essa linha ou participe nessa dominação, é de esquerda quem se lhe opõe. Essa descoberta, para Dieudonné, passou pela experiência, pela prática, e todas as pessoas de esquerda, das quais faço parte,que viveram essa experiência e da qual retiraram as conclusões que se impõem, encontram-se de facto nessa esfera esquerdo-lepenista. Quanto, a saber, se o futuro dessa tendência de esquerda nacional antiliberal antimundialista se situa na FN ou à margem da FN, isso dependerá da vontade da direcção da FN em se situar na vanguarda ou na rectaguarda da História!


No momento em que se fala tanto de Identidade Nacional, qual é a sua concepção deste termo tão vaporoso?

Alain Soral: Uma concepção à francesa que não é nem a germânica (racialista) nem a anglo-saxônica (comunitarista) e que mistura subtilmente direito do sangue e direito do solo no conceito de assimilação, projecto hoje em dia depreciado à vez pela esquerda integracionista – na realidade comunitarista – e a extrema direita racialista, também ela comunitarista, mas sob uma forma mais belicosa que fatalista. Comunitarismo de esquerda ou de direita, muito anti-francês – mesmo quando se julga patriota – que demonstra que o modelo que está em vias de nos ser imposto é o modelo anglo-saxão. Supremacia verificada, mais uma vez, pela governação Sarkozy que adiciona nas suas escolhas: submissão à dominação atlântico-sionista e clientelismo comunitarista. Tendo em conta a mentalidade francesa, a história da França e o seu passado colonial, parece-me, todavia, que o nosso modelo assimilacionista continua a ser o melhor para nós, e constato que é ainda a FN que melhor o defende. Constato também que a mídia mente sobre esta realidade assimilando sistemática, e voluntariamente, a preferência nacional à preferência racial para desqualificar a FN, e isto desprezando as bases fundamentais deste movimento, encarnados desde a sua fundação pela presença de um Roger Holeindre. Uma reductio ad hitlerum praticada sistematicamente pelo sistema, e difundida pela estupidez esquerdista, a fim de fazer passar um movimento patriota por um movimento colabo, quando os verdadeiros colabos são todos esses agentes coligados do Império, de de Villiers a Besancenot.

Que pensa do comunitarismo? Que modelo podemos opor a esse sistema americanizado, de controle das populações?

Alain Soral: Como devem estar a pensar, o pior possível; com o comunitarismo não se obtêm a paz das comunidades, mas a rivalidade victimária, a culpabilização sistemática do cidadão médio que, ele sim, joga o jogo da República una e indivisível. Quanto à solução, é sem dúvida o modelo assimilacionista francês que deu bons resultados até à aparição do reagrupamento familiar, época aquela em que o Estado Francês decidiu ele mesmo destruir a França aumentando massivamente a imigração não cristã e não europeia, destruindo um processo de assimilação que se tornava contudo cada vez mais necessário…

Navegando entre nacional liberalismo e paternalismo social, a linha da FN sobre estes assuntos é das mais obscuras. O discurso social e econômico da FN evoluiu desde a época em que Jean Marie Le Pen se proclamava o «Reagan Francês»? Como é que sendo marxista, como é, se pode reconhecer nestas questões cruciais?

Alain Soral: O discurso da FN, que partiu de um liberalismo declarativo e abstracto – digamos Tocquevilleano – ignorando tudo das evoluções e mutações do liberalismo real, começou, nestes últimos tempos, a enquadrar melhor o problema, a diferenciar, desde logo, liberdade de empreendimento e neoliberalismo mundializado – que é o seu oposto exacto. Tal foi visível no esforço de produzir um programa económico coerente aquando das últimas presidenciais. A posição actual da FN, embora não esteja ainda plenamente expressa, é a do populismo económico, tal como o define Michéa, ou seja a aliança dos pequenos produtores com os pequenos assalariados – vítimas do mesmo predador euro mundialista – sob o governo de um Estado Colbertista adepto do Plano e da economia mista. Infelizmente, aquando destas últimas eleições,os pequenos produtores deixaram-se seduzir pelo discurso hábil e mentiroso de um Sarkozy que não pode deixar de traí-los, ele que é o homem da grande finança mundializada. Este projecto de união sagrada entre camadas populares e classe média, está pois por realizar-se. E a tarefa da FN será, por uma critica da governação de Sarkozy e um grande trabalho doutrinal, ajudar a que coincidam interesse de classe e sensibilidade de classe na cabeça dos eleitores de direita onde perdura plenamente esta confusão entre liberdade e liberalismo…

Afirma-se que é o autor do «Discurso de Valmy» e auto designa-se também como «republicano»? Para si o que é a «República»?

Alain Soral: Digamos que sou o co-autor do discurso de Valmy, dado que em política tudo é colectivo. Um discurso símbolo cujo objectivo era insuflar uma linha nacional republicana a esta campanha! Quando se conhece a história da França e se compreende a origem sempre histórica das idéias políticas, somos obrigados a concluir que os dois termos Nação e República, no nosso País, são indissociáveis. Na França, fala-se sempre em República francesa, desse modelo que inventámos e que me permite precisar hoje em dia, enquanto Francês,de que maneira sou nacionalista. Não somente sou um nacionalista francês, mas pretendo que na realidade política francesa tal como ela é,só este objectivo é eleitoralmente atingível. O resto, o regresso à Cidade dos Gregos, à idade de ouro do Cristianismo medieval ou dos Hiperbóreos…é poesia.

Participou numa viagem de apoio à resistência libanesa nos dias que se seguiram à agressão israelita do verão de 2006. Qual é a sua opinião sobre a legitimidade da política belicosa israelita e sobre o apoio que ela recebe da parte dos estados Unidos?

Alain Soral: A opinião que deve ter toda a testemunha e todo o intelectual honesto: a condenação total de uma agressão injustificável e contrária a todas as regras de direito internacional. Um testemunho e uma opinião conforme aos «direitos do homem» e contudo muito difícil de fazer passar nos medias franceses, nos quais a linha se pode resumir à declaração nada menos que lapidar de Sarkozy sobre o assunto:«Israel tem direito à sua segurança». Quem quer que seja que tenha um pouco de perspectiva de recuo sobre os acontecimentos vê, todavia, que assistimos ao desenrolar, implacável e sistemático, do projecto de re-desmembramento do Médio oriente. Um projecto belicoso e delirante querido pelos neoconservadores americanos que dominam actualmente o Congresso nessa coalizão, dita, de cristãos -sionistas. Um projecto que põe Israel no centro do mundo e que explica à vez a agressão do Líbano, a destruição do Iraque e a criminalização mediática do Irã…

No momento em que novas convergências se operam entre os opositores à mundialização e ao sistema capitalista sobre o conjunto do planeta, que forma poderia ter em França uma real alternativa popular e socialista?


Alain Soral: Isso poderia fazer-se em torno de um movimento que realizasse a união sagrada dos antimundialistas. Uma espécie de chavismo à francesa no qual se reconheceriam tanto nacionalistas de origem reaccionária como progressistas ideologicamente próximos do Partido dos Trabalhadores. Uma grande união sagrada antiliberal patriota e popular, socialmente de esquerda e socialitariamente de direita – ou seja exactamente o contrário do actual sistema liberal-libertário -, saudando o trabalho político de Chavez, mas também o de Putin… Pois quem pretender resistir ao Império deve saudar a determinação destes dois líderes, sob pena de ficar nessa incoerência de rapazinhos que desqualifica a LCR.Lembremos que esse tipo de união sagrada já foi tentado em França no passado pela aproximação Sorel/Maurras, na época do círculo Proudhon, e que a essa tentativa de união sagrada antiburguesa, a burguesia, desde logo, respondeu com outra união sagrada bem menos respeitável: a da guerra de 14 contra os malvados boches… Com a eleição de Sarkozy, a propaganda incessante contra a ameaça terrorista islamita e a criminalização do Irão, receio bem que o sistema tenha em mente o mesmo gênero de solução abjecta, mas desta vez com os bougnoules [termo pejorativo para os magrebinos já nascidos em França e ou aí residentes] no lugar dos boches!Quem viver verá.

Fonte: Revista Rébellion, Nº 25 – Julho/Agosto 2007

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