sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As Raízes da Civilização

por Alain de Benoist

A grande revolução cultural teve seus primórdios há 35.000 anos, se não mais. "Parece ser - escreve o professor Marschack - que em uma época tão distante como 30.000 anos antes de nossa era, durante o período glacial, os caçadores-coletores da Europa ocidental faziam uso de um sistema de notação cronológica tão elaborado e complexo que já demandava uma tradição que quiçá remontasse-se a milhares de anos mais no passado. Este sistema de notação procede de uma técnica cognitiva cronofatorizada e cronofatorizante."

Trata-se, sem dúvida, de uma das mais importantes descobertas em matéria pré-histórica.

Tudo começou a princípios do decênio de 1960. Alexander Marschack, diretor de investigações do Museu Peabody de Etnologia e Arqueologia da Universidade de Harvard, interrogava-se sobre o problema das "origens". Buscava um método capaz de determinar a natureza dos processos mentais do homem da mais distante antiguidade.

"Nos limites da evolução da espécie - observa - o cérebro permaneceu constante durante cem ou duzentos milhares de anos". Não falamos pois de um "progresso humano", senão de uma transformação contínua do mundo por um homem que permaneceu sendo o mesmo desde os tempos mais imemoriais. Se o fenômeno humano forma um todo, a "cultura" é tão velha como o próprio homem.

"Sustento a hipótese - prossegue Marschack - de que o homem ante-histórico, o homem do período glacial, não difere em grande medida do homem contemporâneo. Diferem as idéias e as relações inculcadas em seu cérebro, porém não a maneira de funcionar do mesmo, nem suas aptidões, nem suas capacidades, nem sua inteligência."

Em outros termos, o homo sapiens é muito mais que um simples "fabricante de úteis", somente capaz de reconehcer e empregar as formas. Desde suas origens, tem consciência das noções de "sucessão", do símbolo e do tempo. O autor qualifica esta consciência com um termo: suas atividades são "cronofatorizadas".

A hipótese, antes de ser ousada, está bem fundamentada. Alexander Marschack não parte de um pensamento prédeterminado, senão de profundas reflexões sobre os registros históricos.

As "fases" lunares

Até então, os pré-historiadores, os descobridores dos sinais gravados nas cavernas e nos refúgios rochosos, haviam-se contentado com falar de "motivos decorativos" ou de "marcas de caça". Criticavam com suma dureza qualquer interpretação que ousasse aventurar-se mais além do simplismo naturalista.

Entre 1965 e 1970 o professor Marschack estudou mais de mil objetos pré-históricos proedentes de nove países diferentes da Europa, e submeteu-os a uma análise minuciosa: fotografias, escavação, cópias, exames no microscópio. Os resultados superaram suas esperanças: existia uma constante repetitiva nas marcas dos diferentes objetos, um "código de escrita", uma constante gráfica.

Na maior parte dos objetos (chifres de rena, omoplatos de diferentes mamíferos, objetos líticos, etc.), as marcas, os pontos e as estrias dispunham-se em linhas ou em grupos que foram gravados "em momentos diferentes, em ângulos diferentes e com marcas diferentes, sobre os quais haviam-se exercido pressões diferentes". Certos signos revelavam a marca de um só golpe; outros, de golpes repetidos. As técnicas também variam: simples golpes de punção, traços longos e pouco profundos, traços profundos e pouco longos, marcas que envolve o objeto ao seu redor, etc. É difícil falar de coincidências: constata-se uma intenção precisa, sim. Porém qual?

"Estas marcas - indica Marschack - não foram feitas no mesmo momento nem pela mesma pessoa, porém tem um mesmo ritmo, revelam um mesmo pensamento e uma mesma utilidade que estende-se no tempo. Pertencem a uma "tradição". São "cronofatorizadas".

Prosseguindo seus trabalhos, Marschack percebeu que as marcas não estavam dispostas ao azar. Geralmente, estão agrupadas em números múltiplos de vinte e nove ou de trinta, que imediatamente trazem à mente uma relação com os meses do ciclo lunar (a mais evidente e fácil de observar na natureza). Mais ainda: no interior de uma mesma "sequência", os "subgrupos" de signos gravados correspondem exatamente às diferentes fases da Lua. As explicações de Marschack revelam "um ano, um ciclo lunar completo perfeito em suas subdivisões".

Em seu livro, abundantemente ilustrado, Marschack oferece inúmeros exemplos destes "ciclos" e apresenta não menos esquemas verificados pelo computador. Estende-se particularmente em duas peças características: o denominado "bastão de La Marche" (um chifre de rena decorado), com suas correspondentes duzentas e vinte e uma marcas que correspondem a sete meses lunares, e o chamado "osso de Blanchard" (um omoplato de urso de caverna), cuja face principal oferece uma dupla linha de sessenta e nove marcas duplas em forma de ponta que mudam sua direção (para cima ou para baixo) vinte e quatro vezes.

Os grandes caçadores

O homem pré-histórico dispõe, pois, de "um sistema mnemotécnico visual de eras lunares", um sistema de notação comum a todo o paleolítico superior europeu e uma técnica ao menos tão complexa como outros sistemas historicamente testados, em muitos aspectos similar ao dos índios da América do Norte, particularmente.

Na segunda parte de seu livro, o professor Marschack relaciona este sistema de notação com as grandes pinturas rupestres, mais especialmente com as representações de animais, as silhuetas de figuras femininas e os símbolos públicos característicos do aurignaciano. O exame microscópico revelou que estas figuras foram igualmente compostas em períodos diferentes, quer dizer também estavam "cronofatorizadas", o que permite situá-las em um contexto "dramático-narrativo" ritual.

Comentando estas descobertas, Henri de Saint-Blanquat escreveu na revista Sciences et Avenir: "As representações animais, a sua maneira, aportam um testemunho. Um dos cavalos visíveis no bastão de La Marche aparece com três orelhas e três olhos, duas crinas e duas linhas de dorso. As três orelhas foram gravadas com três punções diferentes, uma para cada, assim como os três olhos e as duas crinas. Tudo parece indicar que o cavalo foi 'empregado' várias vezes, e cada 'emprego' corresponde a um acréscimo de órgãos gravados".

"Suponhamos - pontualizava Marschack - que um primeiro mês relata a história de um herói lunar que faz-se devorar por um espírito totêmico. Esta história poderia pertencer a uma época. Um segundo mês poderia relatar as aventuras deste mesmo herói com qualquer outro animal 'temporal' ou com outro espírito divino. A notação poderia então corresponder a um momento narrativo ou simbólico destas aventuras, etc."
O ritmo essencialmente temporizador da vida no paleolítico desenha os contornos de uma religião dos grandes caçadores, onde os ritos de gravidez, por exemplo, associam-se aos "ancestrais" animais do clã: o mamute, a rena, o bisão ou o rinoceronte lanoso.

Marschack rebate como infundadas as interpretações "sexuais" ou psicanalíticas nas quais satisfazem-se certos pré-historiadores. "A magia da fecundidade - escreve - não é senão uma das formas de participação na história e no mito que relatam a gravidez e o nascimento (...) A mesma vulva feminina é, até certo ponto, um símbolo "não-sexual", quer dizer não copulador e não erótico, senão que representa as histórias de processos que incluem a vida e a morte, a menstruação e os ciclos cronofatorizantes vinculados à natureza, como as fases da Lua".

Até quando remonta-se nos tempos este sistema de notação? É difícil saber. As marcas presentes no "osso de Pech-de-Lace", as mais antigas das descobertas até hoje (em 1968, pelo pré-historiador François Bordes), tem uma antiguidade de 230.000 anos. Sem dúvida, uma enormidade que abre as portas ao investigador diante de perspectivas fantásticas.

A tradição, em todo caso, mantém-se até o mesolítico e o primeiro neolítico, justo até a alvorada da história. A propósito de um calendário lunar gravado na caverna de Ungerlöse (Dinamarca), Marschack comenta: "Este calendário explica a presença de uma tradição cronológica, fundada na observação, que estende-se pela Europa central e setentrional em uma época na qual as distantes culturas agrícolas do Sul praticavam uma tradição regional diferente. Poderia explicar a origem dos calendários rúnicos descobertos no norte da Europa na era histórica moderna. É igualmente possível que esta tradição européia não seja estranha aos alinhamentos megalíticos extremamente tardios de Stonehenge."

Um rol revolucionário

Pré-história e escrita são geralmente aceitos como termos contraditórios. Porém a linguística e a arqueologia permitem-nos, até certo ponto, franquear os muros que separam os "milênios silenciosos". Marschack fala constantemente de "As raízes da ciência e da escrita".

Podemos falar então, como assinala Henri de Saint-Blanquat, de "uma espécie de pré-escrita, uma notação pré-numérica, em suma das bases sobre as quais, milênios mais tarde, edificar-se-ão a verdadeira escrita e a verdadeira numeração".

"Esta capacidade de anotar e de simbolizar é própria, até o momento, às culturas européias do paleolítico superior (...) As antigas culturas européias tiveram assim um rol relativamente dinâmico, formador e revolucionário, com relação aos posteriores desenvolvimentos culturais."

O homem pré-histórico muda assim de aspecto diante dos nossos olhos. O hominídio bestial e "primitivo" encolhido medrosamente diante do fogo, emitindo ruídos guturais, arrastando à caverna suas fêmeas pelo cabelo e talhando objetos de sílex com golpes imprecisos, esfuma-se para deixar lugar a um homem "acabado", possuidor de uma consciência teórica e prática do tempo, do lugar, da direção, dos limites de seu território, capaz de descrever suas experiências e de expressá-las mediante símbolos. Um homem, diz Marschack, de "um nível de evolução e de sofisticação que poderíamos denominar protomodernos".

O fenômeno humano aparece, desde seus primórdios, ligado ao sentimento da diferença na duração. O "fenômeno humano" caracteriza-se pelo aparecimento de uma percepção "de dois níveis": o homem é o animal que tem consciência de ter consciência. A dimensão histórica é a dimensão humana por excelência.

À simples noção do homem fabricante de objetos úteis, difundida sobre todos os trabalhos de Darwin sobre a seleção natural e a luta pela vida, opõe-se à idéia do homem "cronofatorizante". A arqueologia deixa de ser assim uma "mania de colecionadores" para tornar-se uma ciência auxiliar da etnosociologia.

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