quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ao Princípio Foi Nietzsche

por Marcello Veneziani

O século XX nasceu com a morte de Nietzsche e terminou com o renascimento de Nietzsche; um destino circular, como o Eterno Retorno cantado por Zaratustra. Já advertiu-o o próprio Friedrich: "Falar-se-á de mim no século XX, compreeder-me-ão depois do século XX"... Nietzsche dizia sentir-se em casa no século XXI...ele, o renegado do século XIX, o pai do século XX.

Ernst Jünger, parafraseando o Super-Homem de Nietzsche, definiu o século XX como a era dos titãs. Quiçá o XXI seja o século da conquista do Super-Homem, ou quiçá não, porque o "novo homem" não é senão um subproduto prometéico dos sonhos da ideologia e da tecnologia, os dois grandes atributos popularmente atribuídos ao "Übermensch" nietzscheano, o Super-Homem no sentido de Titã, aquele que galvaniza a Vontade de Poder (mal traduzida às vezes como "vontade de potência"), o Ultra-Homem, em tudo distante e contraposto a esse Último Homem de nossa virada do milênio.


O século XXI anuncia-se por isso como o século da guerra civil nietzscheana, pois já vislumbram-se sobre o horizonte novos renascimentos do filósofo. O Super-Homem espreita em cada encruzilhada, e a ditadura que sobre ele exercem os "últimos homens" ("Den letzten Menschen", "homens envelhecidos prematuramente pelo niilismo", saciados de tudo e de nada, conformistas em sua vida carente de sentido) resulta-lhe intolerável.

A centúria passada foi a das interpretações de Nietzsche, dos sucessivos "renascimentos" cíclicos de periodicidade mais ou menos duodecimal. Ernst Nolte foi o último em ressuscitar o filósofo de sua tumba em Sils Maria. Sua obra Nietzsche e o Nietzscheanismo deveria, em propriedade, entitular-se Nietzsche Contra Marx, pois suas pretensões não são outras senão opor o fascismo ao comunismo, tal como Nolte entende ambos conceitos: vulgarizados ao máximo. Os dois filósofos do martelo são vistos por Nolte como os ideólogos mais importantes daquela gigantesca guerra civil que caracterizou a história do século XX e materializou-se em dois conflitos mundiais de características apocalípticas...ou quiçá, mais exatamente, "ragnarokicas", próprias de um crepúsculo dos deuses.

Nesta radical antítese, Nolte não deixa de descobrir analogias subterrâneas, em verdade um tanto frágeis: por exemplo, as referências comuns à Grécia clássica, que no economista são muito mais imprecisas e infrequentes que no filólogo (normal, por outra parte: Nolte esquece - pressupomos que não ignora - que Nietzsche ganhava a vida como professor de grego clássico). O helenismo marxiano seria acusado pelo apóstolo do politeísmo dionisíaco como "monoteísta" e "apolíneo". Ao contrário, a influência que exerceu em ambos a crítica de Feuerbach às religiões aparece marginal em Nietzsche frente à centralidade que assume em Marx. A nós resulta-nos mais curioso, e muito mais significativo, que nas bibliotecas públicas alemãs do início do século XX os livros do aristocrático Nietzsche eram trinta vezes mais lidos pelos operários que as obras de Marx (mostrou-o um estudo sobre as fichas de saída nas bibliotecas municipais de Berlim e Hamburgo), ou que na Rússia nas vésperas da revolução bolchevique as edições em russo de Assim Falou Zaratustra alcançavam já o número 18 frente à solitária tradução cirílica de "O Capital". A única conclusão possível é que a leitura nacionalista, ou de direita, de Nietzsche foi, quando menos, precedida pela apropriação anárquica de muitos exegetas que converteram-o em um novo Stirner.

A história das interpretações de Nietzsche poderia fabulisticamente entitular-se como A História de Friedrich e os Sete Anões Nietzscheanos. A primeira das exegeses popularizadas de Nietzsche, que arrancando com Bandres e continuando com Stefan George acaba em D'Annunzio, é de tipo estética e estetizante. O aristocratismo de Nietzsche aparece aqui fundado sobre a superioridade da arte e do artista, em uma espécie de redenção da vida através da beleza. A esta leitura estética seguiu imediatamente a leitura política, porém, curiosamente, oposta àquela leitura nacionalista estetizante de um Barrés ou um Corradini, por exemplo. O primeiro intérprete em chave política de Nietzsche, desde a esquerda, foi o jovem socialista Benito Mussolini, em uma memorável obra datada de 1918 e entitulada em italiano Filosofia della Forza, onde a idéia do Super-Homem aparece ligada ao impulso ateu, revolucionário, subversivo, filtrado pelas lentes de Sorel e Pareto. O dito poderá ser embaraçoso para muitos, porém não deixa de ser constatável.

O terceiro Nietzche foi o pangermano; é o Nietzsche prologado por sua própria irmã Elizabeth Föster Nietzsche e legitimado por Baeumler entre a música de fundo dos corais wagnerianos. É a este Nietzsche a quem refere-se o mais insano dos vulgarizadores de Marx, Lukacs, como o "portavoz do capitalismo em sua fase mais agressiva".

Depois chegou o Nietzsche filósofo-puro (uma definição que teria tirado do sério o próprio Friedrich); desvinculado de toda estética e política; este é o Nietzsche presente nas obras de Heidegger, para quem o Assim Falou Zaratustra deveria ser lído do mesmo modo rigoroso que um Tratado sobre a Moral de Aristóteles. Com Heidegger, Nietzsche deixa de ser o profeta do Super-Homem para tornar-se o filósofo do Ultra-Homem. E é através desta chave como chega-se à leitura "libertária", "ecologista", "pós-moderna" de Nietzsche, acima de tudo através dos pós-marxistas italianos, com Vattimo à cabeça, que inclusive tem suas representações cinematográficas na diretora francesa Liliana Cavan.

Pela outra parte não faltaram as tentativas de conjugar Nietzsche com o tradicionalismo, seja em negativo, como testemunho do niilismo, seja em positivo, como o profeta da fé no antimodernismo e no anti-igualitarismo. Tal foi a muito lúcida leitura de Julius Evola e de seu sucessor Adriano Romualdi, ou, por outras veredas, a de Rudolf Steiner. Tampouco faltaram os que situam Nietzsche no contexto de uma crítica interior da tradição cristã, desde Jaspers até Max Scheler, para quem a luta de Nietzsche contra o cristianismo é produto de sua "cristandade", de seus impulsos radicais cristãos que evidenciar-se-iam no: a) convencimento de que o homem tem conhecimento da história humana na totalidade de seu processo; b) a idéia da moral e a espiritualidade como bases da ciência; c) a idéia de que o homem é "algo essencialmente falido" (ainda que a essa leitura cristã pode objetar-se que o "mal" em Nietzsche entende-se em seu sentido grego de "ausência", nunca como "corrupção" ou "pecado original"). Jaspers definiu a Nietzsche como "um homem de Deus que nunca chegou a compreender-se", comentando a famosa citação de Heidegger segundo a qual "Nietzsche foi o único crente do século XIX".

Löwith protestará ante essa leitura, reafirmando "o ateísmo radical de Nietzsche, no qual não cabe dúvida". Também protestou Alain de Benoist, destacando antes de tudo o paganismo de Nietzsche e sustentando que a peculiaridade de seu pensamento reside em sua "historicidade", enquanto que suas referências metafísicas seriam uma sombra contraditória que alarga-se desproporcionada e indevidamente.

Dois filósofos católicos como Roberto Sciacca e Augusto del Noce viram em Nietzsche o ponto mais alto ao qual pode chegar o niilismo em sua crítica à modernidade e em sua busca desesperada de sentido, um ponto tal que somente pode esperar reencontrar a Deus.

Nesta contabilidade de interpretações todavia escapa-se um Nietzsche emboscado, voluntariamente eclipsado, um Nietzsche em tudo contraposto a sua imagem negativa que hoje prevalece, por cima dos grupos folclóricos ou marginais, tipo skinheads, que fazem do Super-Homem sua paródia, porém também acima dessa imagem tão grata aos banqueiros, os anarcocapitalistas e os novos burgueses boêmios, que fazem do niilismo uma espécie de egoísmo sagrado para os abastados. O Nietzsche do Super-Homem, da vontade de poder, do darwinismo social, está bemp resente hoje nas vulgarizações de Superman, de Rambo, dos senhoras da bolsa e do poder sem escrúpulos dissimulado sob o traje hipócrita da boa consciência ética, liberal e democrática. O Nietzsche do populacho é a perfeita representação daquilo que Lukacs descreve em A Destruição da Razão como a expressão mais forte da vontade de poder do capitalismo. Este não é Nietzsche, nem se quer um dos sete anões nietzscheanos, senão um primo invejoso que fez fortuna e que podemos encontrar, por exemplo, nos escritos de um tal Achad Haam, líder sionista do início do século XX que desde títulos como De Sils Maria a Jerusalém, encontra em Nietzsche motivos suficientes para legitimar um futuro Estado hebreu na Palestina, identificado o Super-Homem com o "povo eleito", os "Senhoras da Terra". Em Nietzsche, as célebres afirmações antissemitas encontram-se com outras menos célebres, ainda que igualmente veementes, críticas ao antissemitismo.

Em uma de suas cartas a Bandrés, em 1888, Nietzsche afirma que "não há melhor fórmula para a aniquilação do cristianismo que delegar o poder no internacionalismo hebreu". Este é um Nietzsche menor, porém não deixar de ser Nietzsche. Por outra parte não há que rechaçar completamente a tese do encontro com Marx, não na tese nolteana do combate entre o comunismo e o fascismo, senão ao contrário, no rechaço de toda religião, também das seculares, em nome de uma humanidade autorredenta. Para ambos, a religião não é senão um "substrato oriental" do qual há que livrar-se, pois o Ocidente é a terra prometida da secularização, onde o homem cultiva-se a si mesmo. É em Humano, Demasiado Humano onde Nietzsche louva a contribuição do hebraísmo à "progressiva ocidentalização do Ocidente". O Nietzsche antissemita convive, ao menos "ex aequo", com o Nietzsche filossionista, por simples razões de vontade de poder.

Porém o Nietzsche futuro, aquele que há de compreender-se somente depois do século XX, não é simplesmente o Nietzsche "profundo", pois Nietzsche é acima de tudo o filósofo das palavras claras, inimigo declarado das profundidades, para bem e para mal muito mais direto do que pensam seus "profundos" exegetas. Compreender Nietzsche é compreender o sentido de sua "superficial profundidade", à margem de sua beleza literária e autobiográfica: "Nós, os ricos de espírito, vivemos nossa atualidade porque estamos escravizados à época e a suas pequenas e grandes misérias...faremos o que sempre temos feito: disfarçamos de profundidade, para assim cavalgar a onda dos tempos e surgir novamente limpos, porque somente a verdade sobrevive à profundidade".

O Nietzsche futuro, ao qual teremos que prestar contas, é o juiz do niilismo e da superação do niilismo, o ponto mais alto ao que pode aceder o pensamento imanentista. Referimo-nos, certamente, ao pensamento sincero, consciente, não aos diversos modos de "pensamento débil", tranquilos e felizes, refugiados entre seu niilismo técnico, prático e funcional. O Nietzsche por vir será o grande juiz que guardas as portas do céu na convicção de que Deus morreu, sim, porém somente para voltar a naser...porque assim há de ser, porque assim foi sempre no eterno retorno dos tempos, porque em realidade Deus não nasce e morre em si, senão em nós. Sua morte, como seu renascimento, é coisa nossa, não dele.

Somente nestes anos de mudança de milênio percebe-se, a nível de civilização, a nível popular, o sentido radical daquela experiência que estremeceu Nietzsche nos fins do século XIX; somente ao fim do XX o niilismo fez-se enfermidade congênita e comum, niilismo prático para consumo das massas, não pensamento abissal para poucos. A grande guerra do século XXI já perfila-se no horizonte: Nietzsche contra Nietzsche.

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