segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Um Estilo

por Juan Pablo Vitali

Muitas vezes vemos perder-se a nossos camaradas, em especulações intermináveis. Muitas vezes, durante essas especulações, vemos neles a mesma forma que criticam. Vemos a falta de estilo, de atitude, de cultura, de amplitude de pensamento, de liberdade de espírito.

Digam se não é verdade, se muitas vezes, aprofundando uma conversa com um camarada, que teoricamente é um companheiro de rota, não terminamos falando com um estranho, com alguém cujas atitudes, seu estilo e sua cultura, nos resulta "bizarro" com dizem agora. Os amigos costumam ser amigos enquanto nosso pensamento é uma cópia do deles, enquanto é fácil compreender e compartilhar duas ou três coisas que às vezes resultam elementais.

Muitas vezes, recordo aos homens de um tempo não muito distante. Recordo sua estética, seus modos, sua forma de conduzir-se, e então sinto-me mais próximo de muitos deles, que não compartilhavam de meu pensamento político por exemplo, porque apesar disso, compartilhávamos muitas outras coisas, que já não posso compartilhar com alguns dos que dizem ser próprios.

Falamos muito da idade escura, porém esta também alcança-nos. Já não há respeito, nem estilo, nem forma, nem atitude, há sectarismo. Há também um grande fracionamento, um infinito fracionamento.

Enquanto o inimigo submete-nos, avançando sempre com sua forma de ameba progressista/consumista, nós estamos estudando o camarada de soslaio, tentando saber qual é sua espiritualidade, para julgá-lo traidor a Deus, ou inimigos dos deuses. Tantamos saber o que opina de tudo, para julgá-lo equivocado ou traidor.

Enquanto isso, perdemos estilo, convertemo-nos em cibernautas compulsivos, ou em bizarros manifestantes das ruas, vamos da todo-poderosa militância na rede, à histérica violência urbana, ou à atitude inquisitorial diante de cada suposta heresia, se somos cristãos, ou culpamos Cristo de toda a decadência, se não somos.

Os que não querem-nos, compartilham isso que chamam antifascismo, que é algo tão difuso como politicamente efetivo, para unir a todos aqueles que não querem-nos. E é muito fácil para eles fazer antifascismo, porque cada grupo fechado do que denominam genericamente fascista, está muito ocupado odiando ao que está do lado.

A incapacidade de um estilo, de uma forma, de um respeito mútuo, é parte da decadência. Isso vê-se claramente na impossibilidade de apreciação, de criação, na repetição até o cansaço de fórmulas que desgastam-se, nessa impossibilidade de transcender o módico pensamento dialético da modernidade. Esse pensamento que opera contra nós mesmos, sendo completamente inoperante contra os demais.

As coisas que dizem-se, o nível de desenvolvimento que alcançam nossas discussões, ou muitas vezes as discussões que não queremos ter, aferrados a certas fórmulas infalíveis, é algo "bizarro".

Os meados complicados da rede, difunde, porém também confunde. Todos são parte e iguais, e logra-se perder as hierarquias intelectuais, políticas ou artísticas, todos tem acesso a tudo e todos fazem tudo, sem que exista um modo "humano" de hierarquização e de ordem. Nossa cultura converte-se então em "bizarra", inumana, instantânea, volátil, igualitária.

Não basta acreditar que se é melhor, e criar uma página virtual que difunda-o. Do jeito que vão as coisas, serão dentro de pouco tempo somente alguns, que conservem um grau aceitável de consciência e de cultura. Serão aqueles que sobreponham-se à última etapa do que não possui forma, nem estilo, nem cultura. Eles serão o núcleo do núcleo, a elite da elite. Aqueles que quiçá devam voltar, não somente aos livros que cada vez circulam menos, senão mais atrás, à primeira forma oral e mágica de Homero e dos Bardos.

Alguém disse-me há pouco tempo: jamas tinham que ter abandonado nossos antepassados a tradição oral. Tinha razão, porque desse modo, a palavra era deles, exerciam-na os sacerdotes, os poetas e os magos, e escutavam-na os agricultores e os guerreiros junto ao fogo. Eles não sabiam, nem podiam saber, o que significa ser bizarro.

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