terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Técnica, Devoradora de Homens

por Ernst Niekisch

I

A eclosão do individualismo e o aperfeiçoamento da técnica conformam dois fenômenos paralelos. Em um princípio, de uma forma apenas perceptível, tímida, o homem corre- ingenuamente - o véu que cobria os segredos sem que isso custe-lhe a vida. E descobre coisas impensáveis. Aquilo que era misterioso passa a ser de ordem natural e explicável. Não teve respeito pelo desconhecido e essa fata de respeito deu frutos. Os êxitos obtidos espoliaram-no a seguir. Seu olhar escrutador dirigia-se ao fundo das coisas. Completa experimentos e investigações. Porém todo conhecimento novo constitui uma nova servidão imposta à natureza. O aperfeiçoamento acrescenta o rendimento geral. O aumento de bens de consumo e o atrativo das limitadas possibilidades que isso conleva exigem uma mudança de organização econômica. A um determinado estágio do desenvolvimento técnico corresponde sempre uma forma particular de estrutura econômica. O indivíduo queima etapas. A sensação de superioridade e a segurança em suas próprias forças consolidam-se. Põe em discussão as relações tradicionais e chega à conclusão de que, dado o avançado de seus conhecimentos, aquelas que carecem de justificação. Revolve-se, vence finalmente a partida e transforma os vínculos sociais.

A tendência ao rechaço de todo limite assinala, em suma, esta evolução. A técnica está já à altura de todas as manifestações humanas. A produção industrial excita um desmesurado crescimento. O indivíduo sente-se livre. Por princípio, já não reconhece barreira alguma. Regras, ordem e harmonia não surgem das coisas. Na medida em que ainda respeitam-se as fronteiras, isso aceita-se desde um mero ponto de vista externo; isto é, desde o ponto de vista da pura conveniência. A técnica volta seu olhar parao utro objetivo quando sua atividade resulta infecunda. Tem necessidade de capitais postos a sua disposição com a esperança de obter os lucros correspondentes. A produção de bens está regulada desde a perspectiva do proveito. Quando existem oportunidades de benefício, os capitais afluem. Quanto mais trabalha o capital, mais expande-se o reino dos homens sobre o que rodeia-lhes. Em geral, o indivíduo utiliza sua liberdade na medida em que obtem frutos. Tanto mais "libre" enquanto é possuidor de um capital, que é "rico."

A final de contas, a intensidade do processo de desenvolvimento econômico e técnico mostra-se-nos como uma simples função do benefício do capital previamente destinado ao investimento. Ademais, a importância social do indivíduo não será outra que o indicador de benefícios que seja capaz de conseguir; isto é, sua renda. Como consequência disso, o dinheiro passará a converter-se na medida de tudo. O moderno reino do dinheiro é a forma constitucional da política de pder que corresponde à idade da técnica. O sistema de provisão de bens de consumo graças à sociedade do indivíduo, baseia-se na economia capitalista. O individualismo é a expressão de seu desenvolvimento moral e mental.

A técnica, ao remover por toda parte as barreiras impostas à capacidade humana que reprimem as fontes de sua energia natural, abre as portas para transformações de grande calado. Encurta distâncias, aproxima-nos ao distante e torna acessível a terra. Nesta atmosfera florescem metrópoles, impérios, produções em série, monopólios econômicos, e organizações multinacionais. O indivíduo, que começa a sentir-se como em sua própria casa, entre suas obras e construções, entre suas máquinas, seus instrumentos e suas ondas invisíveis, acaba por pensar com mentalidade continental, e a longo prazo, em termos de universo.

II

Quando já não ficam enigmas por desvelar, por explicar, já não há lugar nem mesmo para o respeito. A veneração pelos santos cristaliza, convertendo-se em uma simples convenção. Ainda que o indivíduo persigne-se como hábito, acreditar no sagrado converteu-se em uma forma de enganar a si mesmo. O sentido de hierarquia e da distância social extinguem-se. O indivíduo converte-se em um ser democrático que situa-se a um mesmo nível com todos os que rodeiam-no. Estende-se as mãos a forças capazes de fazer saltar o universo. E beira-se essas forças todos os dias. As crianças jogam com os astros. Conhece-se e sabe-se tudo. Nada inspira já reverência. Tudo é situado diante dos focos dos projetores mais aperfeiçoados.

Não sentir respeito, ser atrevido, significa não conhecer limites. Porém quem não conhece limites ignora o que é responsabilidade. Gira o mundo e o homem abandona à própria sorte aquilo que era-lhe próprio, a galáxia de suas origens, os lugares da infância: suceda o que suceda. Vai mais além do consentido e todo passo converte-se em um ato de profanação e destruição. Mudando as fronteiras, fere tudo aquilo que desenvolveu-se de forma orgânica, pela simples razão de que o orgânico é limitado. Os limites são o cárcere da vida. Demolindo-os, pretende recuperar substância viva. Porém a técnica viola a natureza, ainda que isso careça em princípio de importância. O progresso técnico desgarra a natureza, que tem suas próprias leis, um palmo de terra após o outro. O que para a técnica é um triunfo, para a natureza é saque e violência. A técnica ao remover pouco a pouco os limites fixados pela natureza, acaba por destruir a vida. A máquina suplanta ao organismo, que sim possui um sentido. A função da máquina consiste em dar um rendimento calculável. O sentido do orgânico requer, por outro lado, a realização em uma existência. A técnica abusa sempre do respeito pela vida. Devora aos homens e tudo aquilo que é humano. Aquela aquece-se com os corpos e o sangue é seu líquido refrigerador. Em consequência, na era da técnica, a guerra assume a forma de uma mortífera carnificina. O indivíduo, conquistado para o espírito da técnica, preso e ávido de recordes, possui as mais aperfeiçoadas armas de aniquilação. Lança sem pestanejar bombas de gás tóxico e não produz-lhe escrúpulos asfixiar a milhares de mulheres e crianças na retaguarda inimiga. A concepção da guerra moderna mostra-se-nos de uma maneira tão formidável como terrível no gênio mortífero da técnica. Em seu apogeu, sua capacidade de destruição é tal que, em um determinado momento, poderá exterminar rápida e radicalmente qualquer ser vivo lá onde encontre-se.

III

Naturalmente, esta terrível revelação mostra-se somente ao final. O espírito da técnica revela sua própria natureza com uma violência tal quando já penetrou toda existência e submetido toda resistência. Antes de poder estender as dobras tóxicas de seu furor homicida sobre tudo que vive, é mister que supere várias etapas em sua propagação.

No âmbito mais íntimo, na mais pequena célula, em cada indivíduo, o espírito da técnica inicia seu próprio labor, secreto e subterrâneo, de destruição da substância viva. A perda de dita substância conduz à proletarização, cuja consequência final não é outra que o operário especializado. Em poucas horas, este aprende o manejo rudimentar das máquinas e, graças a isso, pode ser utilizado e mudado de posto, sem quase qualquer preparação, em qualquer ramo da produção. O proletariado não tem uma esfera de trabalho bem definida, não precisa de uma atitude particular que diferencie-o e dê um sentido a sua vida. Não é nada em si e para si. É um ser anônimo, móvel e intercambiável. É uma função da máquina, uma pequena quantidade de energia no seio do vasto processo da produção. Entre ele e o bem produzido há exclusivamente uma relação de causa-efeito. Entre ele e as coisas não cria-se em absoluto uma união psicológica, cuja profundidade e abundância constitui a riqueza da alma humana. Ele tão somente vende seu potencial laboral. Próximo está o tempo em que não haverá mais que sua força-trabalho. Esta carência de relações psicológicas conleva uma falta de responsabilidade. O proletário sentes-se pouco responsável do sentido de seu trabalho na medida em que o patrão não faz-se cargo da sorte de seus empregados.

A produção artesanal foi a primeira a cair sob o domínio da técnica. O declive do artesanato foi a consequência inevitável. O artesão acabou por converter-se em um trabalhador. Os mestres artesãos combateram de modo desesperado e vão contra esta decadência.

Assim mesmo, somos cativos de todo um processo de mecanização da agricultura. O drama vívido pelo artesanado repete-se no mundo agrário. É verdade que a intervenção da maquinaria agrícola que apresta-se a segar a independência do camponês europeu aparece já em 1833. Porém até agora não havia sido utilizada contra o agricultor. Os animais de tiro não davam-lhe opção. Em relativamente poucos anos o instrumento de tração que era-lhe necessário, o "trator", foi construído. De agora em diante, teve começo a transformação total da agricultura. Na América do Norte e do Sul, na Austrália, já usa-se a maquinaria agrícola. O custo de produção do grão baixou em mais da metade. O farmer suplantou o camponês, tal e como sucedeu com o trabalhador em relação ao artesão. O farmer é um camponês proletarizado. As estruturas da agricultura mudam. O camponês retrocede. As bases de sua existência livre sofreram um grande abalo. Submete-se. A técnica caçou-o em seu próprio terreno. O campo passa a ser um sonho romântico como o templo para o artesão. Nenhuma política aduaneira pode freiar este processo. O Crédito Financeiro Internacional, fundado em 3 de março de 1931 em Basiléia, fará tarde ou cedo seu labor contra os campesinos, como um anjo exterminador. Não será senão a ponta de lança do espírito da técnica no âmbito de nossa agricultura alemã. O camponês autônomo está a ponto de desaparecer.

Com a desagregação dos ofícios, todas as formas tradicionais de vida estão transformando-se. Na medida em que o homem cessa de ser ou representar algo por si mesmo, converte-se em um ser público, que encontrará sua comodidade em todas as partes e em lugar nenhum. Ao final, esta metamorfose consolidará os fundamentos do Estado. Perde este seu caráter orgânico, seguindo suas próprias leis. Converte-se em parte integrante de um espaço econômico mais amplo, cujos ramos de produção são racionalizados segundo as normas impostas pelas últimas conquistas da própria técnica.

O homem partiu para a conquista da natureza. Não percebe que pisoteando a natureza destrói-se na medida em que forma parte da mesma. No clima frio da técnica, as últimas reservas biológicas fossilizam-se. A energia natural de reprodução e de crescimento esgota-se. E assim é como a natureza vinga-se: castiga o estupro que a técnica cometeu induzindo-a ao suicídio. A técnica festejará sua vitória sobre montanhas de cadáveres até o dia em que sucumba sob seu peso.

IV

As doutrinas e teorias, os programas e dogmas, dos quais serve-se o movimento histórico para dar-se a conhecer no planeta, não são nem importantes nem decisivos em si. Ainda que não conheça-se o conteúdo, isso não significa que não captemos sua essência, seu sentido e sua verdadeira missão histórica. Somente quem é capaz de observar, mais além da letra da teoria, os movimentos subterrâneos que aspiram a transformações substanciais, é capaz de apreender as mudanças radicais do mundo.

O marxismo é algo mais que uma bandeira vermelha, um movimento que permite arrastar às massas, incultas e pouco exigentes, fazendo-as entrar em uma sorte de agitação cega. O marxismo é o pressentimento das coisas que sucedem. Certamente, não é-o no sentido de poder mostrar o que será à luz de sua realidade futura. Porém, em certo sentido, sim conforma uma sorte de idealização do futuro. Marx foi um profeta que transformou um destino cruel e uma necessidade opressora em uma religião salvadora. Sem dúvida alguma, alberga em si o espírito da técnica. Foi o pioneiro e anunciou a mecanização da vida. Acelerou dito processo dando esperança aos destinados a ser vítimas. Converteu em fé uma maldição. Assim, esperava-se com impaciência o paraíso que estava destinado, em realidade, a converter-se em seu inferno. Esta loucura autodestrutiva foi provocada com a ajuda do pensamento do filósofo alemão Hegel. O dinamismo dialético foi a fórmula mágica do grande bruxo. Sob sua luz sobrenatural produziu-se a transvaloração da via impiedosa do progresso técnico em um caminho de graça para a salvação. Era necessário acelerar ao máximo a mecanização, a racionalização, a concentração e a proletarização. Era o único modo para chegar à "expropriação dos expropriadores". No seio da sociedade capitalista sente-se o cheiro da maturação do fruto da bem-aventurança socialista. A força persuasiva da dinâmica dialética devia-se ao fato de que a idéia parecia ser qualquer coisa ademais de um divertido jogo que fazia-se reconhecível como a imagem fiel de uma realidade futura. Os muros e as engrenagens do matadouro brilhavam à distância, porém, entre brumas sanguinolentas, como uma aurora. Seu perfil parece-se ao de um castelo encantado. Irresistivelmente atrai a suas vítimas, que ademais tem pressa por chegar a seu objetivo.

O antimarxismo não é, em absoluto, uma força que freie, que oferece soluções. Trata-se, antes ao contrário, de um protesto dos que, aproveitando a mecanização do mundo, temem por seus privilégios quando alguma voz contestatória eleva-se. Dito de outro modo: o antimarxismo não é o medo às consequências, senão o medo a que sejam explicadas com clareza. O marxismo forja ilusões e provoca entusiasmos em lugar de criar receios. O antimarxismo, ao contrário, é hipócrita. Lança acusações enquanto aproveita-se claramente da situação e favorece-a entre os bastidores. Porém pela força de seu desenvolvimento, a humanidade deixa-se levar pela corrente. O vento da história leva em su vórtices distantes. A sombra dos despojos ameaçadores desenha-se no horizonte. O marxismo saúda-os desde sua posição afortunada, enquanto o antimarxismo trata de ancorar-se e pôr-se de resguardo; trata de assegurar-se exclusivamente. Em consequência, emprega todos os meios para que a humanidade, arrastada pela corrente, trate de resguardar-se. O marxismo aproveita o sentido da história e acelera com fúria. A doutrina marxista, não obstante, é ingênua. Glorifica o progresso que saciará seus adeptos. E o antimarxismo é pura hipocrisia: louva os velhos templos enquanto saqueia-os e aproveita os tempos modernos em seu exclusivo proveito.

V

A fundamentação individualista está na base do desenvolvimento técnico que expressa-se obviamente no fato de que a direção de todos os organismos, racionalmente estruturados, interdependentes uns dos outros, encontra-se em mãos de um reduzido grupo de pessoas. Esta minoria, que não conhece outros interesses fora de si, ignora todo tipo de responsabilidades de ordem metafísica e pensa exclusivamente em termos de conveniência. Seus componentes conformam a função técnica do sistema econômico, enquanto que as massas conformam a função técnica das máquinas que manipulam. Em Des Tieres Fall (Georg Müller), a genial visão técnica do futuro de Reck-Malleczewen, o personagem Grant é um formidável símbolo destes "senhores do mundo" que a técnica levou ao poder. Subjugado pelo ritmo e pela força da máquina que inventou, obcecado pela técnica ao mesmo tempo em que rechaça a vida, converteu-se em um grande construtuor e em um miserável. Hecatombe de corpos humanos. Quantidades ingentes de substância biológica derramada. Comunidade orgânica que volatiliza-se. A fraternidade humana leva-se a cabo sob a forma de um imenso rebanho de proletários em cuja frente encontram-se uns chefes com coração de gelo.

Será este o porvir do mundo americano-europeu, do mundo ocidental? O homem ocidental, armado de técnicas para submeter a ordem natural, deverá expiar seu crime submetendo-se às leis da técnica, capazes de triturar todo vislumbre de vida.

Não é possível parar a rota vitoriosa da técnica. Os povos "atrasados" situam-se em uma posição de dependência, de tal modo que caem no jogo das nações "industrialmente mais avançadas". Nestes últimos anos, alguns destes povos, até hoje "subdesenvolvidos", posicionaram-se frente a tal estado de coisas. Os primeiros em dar-se conta do perigo foram os russos, aos quais seguiram-se turcos e chineses.

Dado o caráter particular de tais povos, a situação mudou completamente, produzindo-se formas de desenvolvimento autônomas. Estes povos - Rússia à cabeça - não limitam-se em imitar o Ocidente. Não assimilaram nem sua mentalidade nem sua maneira de ser, fazendo abstração de si mesmos.

Rússia, como China e Turquia, nações relativamente jovens, entraram em contato com a técnica. Porém o resultado foi surpreendente. O povo russo pode ainda opor ao constrangimento da mecanização seu próprio peso e uma grande força plástica e orgânica. Não usou sua própria substância viva sacrificando-a ao aperfeiçoamento do aparato técnico. Subordinou-se à técnica em lugar de fazer o contrário. O poder da matéria orgânica reina sobre o processo de mecanização, mostrando o caminho e a meta, avançando ao mesmo tempo que seguiam-se as próprias normas. Era um poder impregnado da instintiva sabedoria da substância biológica do povo russo. Esta potência orgânica foi valorizada pelo Estado russo e pela autoridade que exerce. Com muita energia, mão firme e sem titubeios, fizeram-se somente as concessões inevitáveis ao espírito da técnica. Isso trouxe consequências concretas, de forma corajosa e imperturbável, sabendo rechaçar outros aspectos negativos. O coletivismo levou-se à agricultura, antes que nada, como o sacrifício que era necessário assumir, considerando os efeitos revolucionários que derivavam-se da mecanização. Este ato arbitrário, que eliminava todo raciocínio ilusório, permite hoje uma autoridade sobre quaisquer decisões futuras.

Situando um poder organizativo vivo sobre toda tendência mecânica da técnica, a mecanização de Rússia pode levar-se a termo sob as regras do coletivismo. O impulso individualista do espírito técnico foi freado e feito em cacos. Nada fica ao arbítrio de uma minoria anônima. O Estado navega de vento em popa. O princípio individualista da técnica está, pois, em absoluta contradição com a forma coletivista da vida na Rússia. O arriscado trabalho dos engenheiros é um bom testemunho dessa oposição. O coletivismo é a forma social que a vontade orgânica deve adotar se quer afirmar-se frente à influência mortífera da técnica e limitá-la a sua mínima expressão. A Rússia conservará esta forma de vida coletivista até que tenha suficientes reservas de forças vitais capazes de por freio às perigosas tendências da técnica. O ódio que a América e Europa dispensam à Rússia é o protesto do espírito técnico-individualista que choca contra as barreiras de autodefesa orgânicas que impedem completar seu labor de destruição biológica. O mundo ocidental, em sua irresponsabilidade individualista, sente-se afrontado e provocado pela existência de um povo que impôs-se através da severa disciplina da responsabilidade. O demônio da técnica sente-se defraudado: tivesse gostado que a humanidade inteira imolara-se aos pés de seu altar. Retorce-se de raiva porque os povos do Leste não puseram-se a seu serviço, obedecendo a seu gênio particular. Os sacerdotes católicos, os pastores protestantes e os apóstolos da civilização fazem de coro aos horríveis grunhidos deste demônio.

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