domingo, 21 de agosto de 2011

Alberto Buela - O que é a Metapolítica?

por Alberto Buela

Arte por Alexey Gintovt.

Há exatamente setenta anos, na Escola Superior Alemã de Política, o filósofo Max Scheler, a mente mais fértil daquele tempo, ao falar de Ortega y Gasset, sustentava em sua conferência entitulada O homem na etapa da nivelação que: "E ainda que demasiado restrita à crítica da cultura, esteja madura para a realidade da vida, de maneira que seja capaz também de aparecer no espírito de nossa política, a fim de suplantar aos governantes e mantenedores da presente condução alemã."

A idéia que desprende-se desta citação é que o trabalho intensivo na ordem cultural é condição prévia e necessária para a tomada do poder político. Eis aqui a primeira acepção de metapolítica, como mera atividade cultural, porém que precede necessariamente à ação política.

Poucos são os que sabem que este é o antecedente mais distante da noção de metapolítica que começou a manejar-se em fins dos anos sessenta por um grupo cultural francês conhecido como nouvelle droite.

Seu animador principal vai atribuir, não a Scheler senão ao marxista italiano Antonio Gramsci, a paternidade da idéia ao sustentar explícitamente que: "Gramsci mostrou que a conquista do poder político passa pela do poder cultural."

Assim pois, a metapolítica em uma primeira acepção significa a tarefa de desmitificação da cultura dominante cuja consequência natural é retirar sustentação ao poder político, para finalmente substituí-lo, e para esse fim último há que fazer política.

E aqui surge o paradoxo da nouvelle droite, desde este ponto de vista, e é que adotando esta primeira acepção quis desenvolver metapolítica sem política. Assim afirma-o enfáticamente seu fundador quando sustenta: "Onde nós sempre situamos nossa ação é sobre um plano metapolítico ou transpolítico, ao mesmo tempo cultural e teórico, e é esta uma vocação que não saberíamos mudar." Sobre este tema, o politólogo Marco Tarchi observa que a nouvelle droite não leva a cabo nenhuma ação política partidária, pois considera que os partidos políticos foram superados em poder e iniciativa pelos mega-aparatos da mídia de massa e que, é ali onde esta corrente de pensamento tenta levar adiante a disputa.

Não obstante esta acertada observação, o fato de autolimitar-se e limitar a metapolítica a uma tarefa cultural sem projeção política, tende a reduzir esta corrente au ma espécie de torre de cristal cartesiana onde a competência por sutilezas teóricas substitui, muitas vezes, ao compromisso com a realidade política por parte de seus cultores.

Uma segunda significação do conceito de metapolítica encontramo-a na convergência, sobre este tema específico, das correntes hermenêuticas e analíticas. A filosofia hermenêutica, ao ter a preocupação pela história dos conceitos que leva a cabo através da reflexão sobre a linguagem com o resgate do "contexto" dos conceitos políticos enquanto condição indispensável para compreender, converge com a crítica analítica dos conceitos, com a diferença de uqe esta última tende à adoção de uma linguagem conceitual unívoca como o das ciências duras.

Manfred Ridel, discípulo e continuador de Leo Strauss, afirma esta coincidência explícitamente ao sustentar que: "A metapolítica exige uma analítica dos conceitos no sentido de uma reflexão hermenêutica e analítica das atuais opiniões políticas pré-concebidas, que é a que há de abrir o acesso a uma política sem metafísica política."

Vemos pois, claramente, como a intenção desta linha interpretativa consiste em tentar a dissecação das opiniões políticas pré-concebidas através da análise da linguagem política porém sem predicação de existência, pressuposto metafísico da filosofia analítica. Isto é, uma filosofia sem metafísica.

Observa-se nesta segunda acepção de metapolítica um paradoxo irresoluto, pois enquanto que hermenêutica sabe que toda interpretação pressupõe uma valoração, e enquanto que analítica, autolimita-se ao terreno exclusivamente neutro-descritivo, com o agravante da suspensão do juízo de valor, como consequÊncia da não predicação de existência.

Esta concepção da metapolítica tendente a eliminar toda metafísica política da política, não devém em outra coisa que na justificação do status quo reinante.

Uma terceira acepção da metapolítica está dada pelo que denomina-se tradicionalismo, corrente filosófica que ocupa-se do estudo de um suposto saber primordial comum a todas as civilizações. Cabe distinguir este tradicionalismo que por definição é ahistórico, da tradição de um povo particular como história de valores a conservar.

O máximo representante desta corrente, neste tema, é o italiano Silvano Panunzio que em sua obra Metapolítica: A Roma Eterna e a nova Jerusalém ocupa-se detalhadamente dos fundamentos da metapolítica e sua funcionalidade em nosso tempo.

Não obstante, é seu continuador o agudo pensador ítalo-chileno Primo Siena, quem melhor define esta significação de metapolítica quando sustenta: "Transcendência e metapolítica são conceitos correlativos, por ser a metapolítica veraz expressão de uma ciência não profana e sim sagrada; ciência que portanto eleva-se à altura de arte régia e profética que penetra no mistério escatológico da história entendido como projeto providencial que abarca a vida dos homens e das nações. Por conseguinte, a metapolítica expressa um projeto que - pela mediação dos Céus - os homens retos esforçam-se de realizar na terra, opondo-se às forças infernais que tentam resistir-lhes."

Desprende-se da longa citação precedente que para esta interpretação a metapolítica é o fundamento último da política e por sua vez estabelece o paradigma em função do qual a política deve atuar. Em definitivo, para esta linha interpretativa, a metapolítica é a metafísica da política.

Temos visto três claras acepções da noção de metapolítica, em primeiro lugar, aquela da nouvelle droite que pretende fazer metapolítica a seca; isto é, sem política. Em segundo termo, temos a postura analítico-hermenêutica que aspira a realizar metapolítica sem metafísica política. E por último, temos a posição do tradicionalismo esotérico que tenta fazer metapolítica como metafísica política.

Ante este quadro, forçosamente sucinto, da polêmica em torno ao medular conceito de metapolítica, cabe perguntar-se se as posturas são contraditórias, complementares ou se, em todo caso, existe a possibilidade de oferecer outra acepção.

Existe uma certa coincidência entre as duas primeiras correntes enquanto a metapolítica ser uma reflexão crítica acerca dos preconceitos da política. Enquanto que a diferença entre ambas encontra-se na relação entre metapolítica e política. Assim, enquanto a nouvelle droite nega toda relação, a analítica-hermenêutica afirma que "abre o acesso à política". Dá-se nesta comparação uma coincidência metodológica e uma dissidência de caráter funcional.

Se comparamos agora, estas duas correntes com a terceira, não existe nem mesmo uma coincidência de caráter metodológico, dado que o tradicionalismo não propõe-se um acesso metódico ao saber metapolítico, senão limita-se a propor um paradigma metapolítico - a cidade primigênia como cidade espiritual ou civitas Dei - à atividade política. E se bem há uma certa coincidência com a corrente analítico-hermenêutica enquanto que as duas outorgam funcionalidade política à metapolítica, ambas entram em flagrante contradição posto que uma propõe uma política sem metafísica enquanto que o tradicionalismo alenta uma metafísica política.

Conclusão

Sem pretender esgotar o tema e ao mesmo tempo evitar cair em um sincretismo acomodador nós propomos a seguinte acepção de metapolítica.

Como seu nome indica-o em grego thá methá politiká, a metapolítica é a disciplina que vai mais além da política, que transcende-a, no sentido de que busca sua razão última de ser, o fundamento não-político da política. É uma disciplina que tem uma dupla face, é filosófica e política ao mesmo tempo.

É filosófica enquanto que estuda em suas razões últimas as categorias que condicionam a ação política dos governos em turno, pois, "entende a política desde as grandes idéias, a cultura dos povos, os mitos mobilizadores da história."

E é política, enquanto busca com seu saber criar as condições "para suplantar aos governantes e mantenedores da presente condução", segundo palavras de Max Scheler.

Como disciplina filosófica exige um método e este poder ser o fenomenológico-hermenêutico, realizando a epoché (suspensão) das opiniões pretéritas, pré-conceituais ou ideológicas, para tentar uma descrição eidética (dos traços essenciais) o mais objetiva possível dos "fatos mesmos". Para, em um segundo momento, passar à interpretação da linguagem política.

Até aqui coincidiríamos em parte com a segunda corrente, porém a metapolítica, para nós a contrario sensu que esta, não pode ficar em um mero juízo descritivo, senão que por seu duplo caráter de filosófica e política está obrigada a emitir juízos de valor tentados. E isto último, a emissão de juízos de valor na crítica cultural, não conformista e contra-corrente ao discurso da mídia de massa do establishment é o mérito mais significativo da nouvelle droite.

Enquanto à terceira acepção, a tradicionalismo, acreditamos que a mesma vincula-se muito mais estreitamente, tanto por seu saber iniciático e esotérico como por sua proposta paradigmática, a uma teologia política do que a uma disciplina reflexiva e exotérica como a metapolítica.

Ademais, a metapolítica enquanto disciplina bivalente não é um pensamento simplesmente teórico senão que exige abrir-se à ação política como produtora de sentido dentro do marco de pertencimento ou ecúmene cultural onde situa-se o metapolítico.

Resumindo nossa proposta, temos uma disciplina cujo objetvo é duplo. É filosófico (ocupa-se dos fundamentos não-políticos da política) e políticos (ocupa-se da projeção político-social de ditos fundamentos). Que pode utilizar com proveito o método fenomenológico-hermenêutico, porém que por seu caráter de bivalente está obrigada a emitir juízos de valor (práticos) e não somente juízos descritivos (teóricos). Ao tempo que por sua própria índole exige o acesso à política.

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