segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Perigo Wagneriano

por Julius Evola

Acontece quase sempre que não possa-se professar um antiwagnerismo, sem que pense-se em seguida em uma aversão pela música de Wagner em nome de tradições artísticas anteriores, ou de música italiana, ou de música sinfônica clássica. Por nossa conta, não consentiremos nunca entrar em tal domínio, posto que, a nosso parecer, tudo reduz-se a preferências em grande medida pessoais e sentimentais. Existe em efeito um "caso Wagner" que hoje em dia encontra-se muito longe de ter perdido sua atualidade: porém em um plano diferente e portanto não em relação com o significado que tem a arte de Wagner em si mesma, senão com respeito a grande parte do material e das tradições das quals ele reuniu, tal como deve-se dizer, sua inspiração.

Dizer algo a tal respeito é útil desde um ponto de vista que não é simplesmente abstrato e doutrinário. Richard Wagner, com a poderosa influência exercida em seus contemporâneos e ainda não apagada hoje em dia, encontra-se entre os maiores responsáeis por equívocos muitas vezes graves, os quais determinaram mais de uma antítese superficial. Se por exemplo, entre nós Macanorda, com muitos outros, formulou no referente ao antigo mundo nórdico, a brincadeira de mal gosto da "floresta" em contraposição com o "templo", isso não teria sido possível sem a deformação e a romantização daquele mundo, devida em grande medida justamente a Wagner. Sem dúvida, nisto Wagner não foi um caso isolado: já existia na Alemanha um ambiente em grande medida preparado para acolher seu ponto de vista e, a tal respeito, sua influência, por assim dizer "avançou por conta própria". Se também hoje em dia examinamos as concepções dos "neopagãos" mais fascínoras, daqueles que gostariam de lançar tudo no mar, não só a Roma católica, senão o próprio mundo imperial guibelino e voltar às origens puras, ao mito nórdico puro e à lenda heróica germânica pura, seria fácil reconhecer, em tais construções, não algo verdadeiramente originário, senão um romantismo fantasioso, que não conduz muito mais além das idéias e das interpretações difundidas por Wagner, revelando-se assim como um produto totalmente recente e "moderno", que tem como princípio não uma realidade, senão um "mito".

Aqui não pode tratar-se de uma análise ainda sumária do mundo wagneriano, senão somente do que refere-se às relações que estabelecem-se entre arte e Tradição. Em um mundo marcado pela Tradição - quer dizer, segundo o sentido que nós sempre damos a este termo, por um sentido de conhecimentos, de princípios e de símbolos de origem e validade não simplesmente "humanos" - em um tal mundo a arte não pode ter senão uma função subordinada, e as pretensões de uma "arte pura", com o fim em si mesma, não podem não parecer senão heréticas e absurdas: aqui, a arte está destinada a conferir, com os meios específicos próprios, vida e evidência a um conteúdo tradicional, sem alterá-lo de modo algum, dando-lhe tão somente uma expressão e sensibilização especiais, de modo tal a convertê-lo em acessível também àqueles que são incapazes de uma expressão intelectual direta. Por isso, nos tempos mais antigos o artista teve sempre algo de "oráculo": solicitava-se a ele não tanto a função de "criar" ou de "inventar" sobre a base de uma originalidade, senão a de elevar-se até um determinado conhecimento suprarracional, ao qual sua genialidade e humanidade de artista devia logo permanecer estritamente fiel.

Justamente o contrário é o que aconteceu no mundo moderno, o qual portanto pode ser chamado de forma indiferenciada como "antitradicional" como "humanista". Acima de tudo, tal como é sabido, a arte, do mesmo modo que o resto, emancipa-se e humaniza-se. Até aqui pouco é ruim: é pouco ruim ainda que a arte reduza-se a criar fantasmas subjetivos, a suscitar "estados de ânimo", mais ou menos elevados e líricos, a ser o mediador complacente da sentimentalidade humana. O verdadeiro mal começa ali onde a arte modern, logo de haver-se emancipado e humanizado dessa forma, lança mão das formas tradicionais, utilizando-as como novos "temas" e novas fontes de inspiração. Em uma tal conjuntura toda relação normal resulta invertida, e como resultado tem-se uma profanação, no sentido mais rigoroso do termo: aquilo que não é "humano" - a Tradição - converte-se em instrumento e meio para o que é humano, quer dizer, para a criação artística; no centro encontra-se a "personalidade do artista", o demais encontra-se-lhe subordinado, não adquire vida senão em função da mesma, quer dizer, em função de algo puramente subjetivo. Ali onde a arte tradicional ou "sagrada" ("sagrada" não obstante não em sentido simplesmente religiosos e eclesiástico: epopeias, mitologias, símbolos, etc, entra em tal idéia mais vasta do "sagrado") espiritualizava ao humano, a arte, da qual falamos aqui, vem ao contrário a humanizar e a deformar inclusive o espiritual.

E tal é de modo característico, também o caso de Wagner. Diz-se que ele revelou a seus contemporâneos o antigo e esquecido mundo nórdico do Edda, dos Nibelungos, do Graal. O contrário é a verdade: ele prejudicou toda a compreensão efetiva de um tal mundo com sua interpretação romântica, nebulosamente "heróica", místico-erotiante e ininterruptamente "humanista", em suma, com um espírito, longe como o céu da terra, do que é próprio do tema, e portanto levado a assumir, nas diferentes tradições, somente os aspectos mais condicionados, e tradicionalmente insignificantes. E naturalmente, a música, entre as diferentes artes, é a que mais poderia prestar-se para propiciar um tal desvio.

Para mostrar as divergências que os mesmos temas possuem na ópera wagneriana por um lado, nas tradições originárias por outro, ou bem o que na primeira encontra-se como arbitrariamente agregado ou inventado, não terminar-se-ia mais, e nós já dissemos que não é este o lugar para entrar em detalhes. Faremos tão somente menção a que acima de tudo no relativo ao antigo mundo nórdico (Ciclo dos Nibelungos, Parsifal, Lohengrin) a ópera de Wagner tem, desde o ponto de vista no qual nós situamo-nos, as características de uma verdadeira e própria adulteração. Tudo é levado exatamente ao nível de um cenário operístico, o elemento humano e passional suplanta violentamente todo elemento simbólico e metafísico, tudo converte-se em escuro, inestável, fatalista, turvamente "heróico" por um lado, levemente "místico" por outro, não somente nas circunstâncias dos seres mortais, senão inclusive na dos celestes; fala-se romanticamente de "Crepúsculo dos Deuses", ali onde por sua vez trata-se simplesmente do "cumprimento de um ciclo" em conformidade com leis cíclicas, que qualquer Tradição conheceu: escurecimento temporal do dividno que retomará a vida olímpica em outra era. Leva-se a história do Graal desde o plano do mistério "solar" e imperial da "pedra de luz" ao de uma historieta místico-cristã moralizada pelo complexo obrigado culpa-amor-redenção. A verdadeira missão de Lohengrin desaparece em puras divagações infectadas de erotismo. O qual naturalmente submerge tudo em outra lenda, o conteúdo mais profundo da qual subtrai-se grandemente ao olho inexperiente, a de Tristão e Isolda, e projeta-se no místico epílogo de estilo happy end americano, privado de qualquer vínculo com a lenda do Bosque Fantasma. E assim poder-se-ia facilmente continuar.

Porém aqui objetar-se-á que uma coisa é fazer arte, e outra dar-se a especulações metafísias e a exegeses tradicionais; e que não pretender-se-á que um teatro ou uma sala de concertos transformem-se em uma escola superior. Isso é certo. Não obstante há que saber então o que é que verdadeiramente quer-se. Enquanto existisse com a devida autoridade uma elite em posse do justo conhecimento, desenvolvimentos arbitrários de tal tipo não seriam tão perigosos, todos saberiam que trata-se tão somente de "arte" e com o gozo estético qual hoje concebe-se, tudo concluiria. Não é o mesmo em um mundo que efetivamente parece ter perdido totalmente suas erdadeiras tradições e que demonstra-o, crendo aproximar-se através de interpretações, como por exemplo as wagnerianas. E não viu-se por acaso a Shucré e a Steinar chegarem até ao limite de declarar Wagner como um "iniciado"? Em tal circunstância a arte mostra-se tanto mais um instrumento de perversão, enquanto mais alta, supraestética, é a missão reveladora que a mesma supõe desenvolver. Não repetiremos o que revelamos ao começo, quer dizer que justamente a influências de tal tipo deve-se boa parte do desvio ideológico de certos ambientes alemães contemporâneos, tal como o de Chamberlain e de sua interpretação do germanismo. Insistiremos mais bem em dizer que de tudo isto está formando-se um "mito" (identificado com uma suposta tradição nórdica) o qua, de acordo ao que costuma acontecer em cada procedimento hipnótico, termina convertendo-se em verdadeiro. A um mito então contrapõe-se outro, à história da "floresta" a do "templo", ao mundo nibelúngico, outro mundo igualmente fantástico, "construído", inexistente e, em seu caráter puramente polêmico, igualmente distante daquela atmosfera de clareza, de visão controlada e de universalidade, da qual, em cada povo, antes de adaptar-se às condições específicas próprias do mesmo, reúne sua origem toda forma verdadeiramente tradicional.

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