domingo, 7 de agosto de 2011

Nietzsche e Seu Século

por Oswald Spengler

Voltando os olhos para o século XIX e deixando seus grandes homens passarem diante dos olhos de nossa mente, nós podemos observar uma coisa incrível sobre a figura de Friedrich Nietzsche, algo que dificilmente foi perceptível em seu próprio tempo. Todos os outros personagens fantásticos, incluindo Wagner, Strindberg e Tolstói, refletem em certa medida a cor e forma daqueles anos. Cada um deles estava de alguma forma amarrado com o otimismo superficial dos progressistas, com sua ética social e utilitarismo, sua filosofia da matéria e da energia, pragmatismo e "adaptação"; cada um deles fez sacrifícios após sacrifícios ao espírito do tempo. Apenas uma pessoa representa uma separação radical desse padrão. Se a palavra "extemporâneo", que ele mesmo criou, é aplicável a alguém, então é a Nietzsche. Busca-se em vão através de toda sua vida e todo seu pensamento por alguma indicação de que ele possa ter sucumbido internamente a algum modismo.

Nesse sentido ele é a antítese de, e ainda assim em algumas maneiras profundamente relacionado a, um segundo alemão dos tempos modernos cuja vida foi um grande símbolo: Goethe. Esses são os dois únicos alemães notáveis cuja existência possui significância profunda à parte de e em adição a suas obras. Porque amobs estavam conscientes disso desde o início e continuamente deram expressão a essa consciência, sua existência tornou-se um tesouro para nossa nação e uma parte integral de sua história espiritual.

Foi a boa sorte de Goethe ter nascido no ápice da cultura ocidental, em um tempo de intelectualidade rica e madura que ele mesmo eventualmente veio a representar. Ele tinha apenas que tornar-se o epítome de seu próprio tempo de modo a alcançar a grandeza disciplinada implicada por aqueles que posteriormente chamaram-no o "Olímpico". Nietzsche viveu um século depois, e no meio tempo uma grande mudança ocorreu, uma que apenas agora nós somos capazes de compreender. Foi seu destino vir ao mundo após o período rococó, e estar em meio as décadas completamente aculturais de 1860 e 1870. Considere as ruas e casas nas quais ele teve que viver, as modas, os móveis, e os costumes sociais que ele tinha que observar. Considere o modo como as pessoas moviam-se em círculo sociais em sua época, o modo como pensavam, escreviam, e sentiam. Goethe viveu em uma época plena com respeito pelas formas; Nietzsche almejava desesperadamente por formas que haviam sido destruídas e abandonadas. Goethe precisava apenas afirmar o que ele viu e experimentou ao seu redor; Nietzsche não tinha recurso senão protestar apaixonadamente contra tudo contemporâneo, se ele devia resgatar alguma coisa que seus antepassados haviam transmitido-lhe como herança cultural. Ambos estes homens lutaram durante toda sua vida por uma  forma e disciplina interiores rígidas. Mas o século XIX estava em si mesmo "em forma". Possui o tipo mais elevado de sociedade que a Europa Ocidental jamais conheceu. O século XIX não tinham nem uma sociedade distinguida ou qualquer outro tipo de atributos formais. À parte dos costumes incidentais da classe alta urbana ele possuía apenas os restos espalhados, preservados com grande dificuldade, da tradição aristocrática e da classe média. Goethe foi capaz de compreender e solucionar os grandes problemas de seu tempo como um membro reconhecido de sua sociedade, como nós aprendemos em Wilhelm Meister e Afinidades Eletivas; Nietzsche podia permanecer verdadeiro a sua tarefa apenas virando as costas para a sociedade. Sua solidão assombrosa permanece como um símbolo acima e contra a alegre gregariedade de Goethe. Um desses grandes homens deu forma às coisas existentes; o outro ruminou sobre coisas inexistentes. Um deles trabalhou por uma forma prevalecente; o outro contra uma prevalecente ausência de forma.

À parte isso, porém, forma era algo muito diferente para cada um deles. De todos os grandes intelectuais alemães, Nietzsche foi o único músico nato. Todos os outros - pensadores, poetas, e pintores - haviam sido ou moldadores de material ou separadores de material. Nietzsche vivia, sentia, e pensava pelo ouvido. Ele era, afinal, dificilmente apto com os olhos. Sua prosa não é "escrita", ela é ouvida - poder-se-ia até mesmo dizer cantada. As vogais e cadências são mais importantes do que as símiles e metáforas. O que ele sentia conforme ele vasculhava as eras era sua melodia, sua métrica. Ele descobriu os acordes musicais de culturas estrangeiras. Antes dele, ninguém havia sabido o tempo da história. Muitos de seus conceitos - o Dionisíaco, o Pathos da Distância, o Eterno Retorno - devem ser compreendidos bastante musicalmente. Ele sentiu o ritmo do que é chamado nobreza, ética, heroísmo, distinção, e moralidade-mestra. Ele foi o primeiro a experimentar como sinfonia a imagem da história que havia sido criada por pesquisa acadêmica a partir de dados e números - a sequência rítmica de eras, costumes, e atitudes.

Ele mesmo tinha música, conforme ele andava, falava, vestia, experimentava outras pessoas, constatava problemas, e tirava conclusões. O que Bildung havia sido para Goethe, para Nietzsche tato no sentido mais amplo: tato social, moral, histórico, e linguístico, um sentimento para a sequência apropriada das coisas, tornada mais aguçada por seu sofrimento em uma era que tinha muito pouco desse sofrimento. Como Zaratustra, o Tasso de Goethe nasceu do sofrimento, mas Tasso sucumbiu a um sentimento de fraqueza quando confrontado por um mundo contemporâneo que ele amava e que ele considerava superior a si mesmo. Zaratustra abominava o mundo contemporâneo, e fugiu dele para mundos distantes do passado e do futuro.

A inabilidade de sentir-se "em casa" no próprio tempo - esta é a maldição alemã. Por causa da culpa de nosso passado nós viemos a florescer tarde demais e rápido demais. Começando com Klopstock e Lessing, nós tivemos que cobrir em oitenta anos uma distância para a qual outras nações tiveram séculos. Por essa razão nós nunca desenvolvemos uma tradição formal interior ou uma sociedade distinta que pudesse agir como guardiã de tal tradição. Nós pegamos emprestadas formas, motivos, problemas, e soluções de todos os lados e lutamos com elas, onde outros cresceram com elas e nelas. Nosso fim estava implícito em nosso começo. Heinrich von Kleist descobriu - ele foi o primeiro a fazê-lo - a problemática de Ibsen ao mesmo tempo em que ele lutou para emular Shakespeare. Esse estado trágico produziu na Alemanha uma série de personalidades artísticas impressionantes em um tempo em que Inglaterra e França já haviam partido para produzir literati - arte e pensamento como profissão ao invés de como um destino. Mas isso também causou a fragmentação e frustração expressada em muito de nossa arte, o impedimento de objetivos finais profundidade artística.

Hoje nós usamos os termpos "Clássico" e "Romântico" para denotar a antítese que apareceu por volta de 1800 em todo lugar na Europa Ocidental, inclusive na Petersburgo literária. Goethe era um Clássico na mesma medida em que Nietzsche era um Romântico, mas estas palavras meramente designam as tonalidades predominantes em suas naturezas essenciais. Cada um deles também possuía a outra potencialmente, a qual em tempos impelia para a frente. Goethe, cujos monólogos de Fausto e Westöstlicher Diwan são os pontos altos da sensibilidade romântica, lutou em todos os momentos para confinar esse impulso pela distância e ausência de fronteiras dentro de formas tradicionais claras e estritas. Similarmente, Nietzsche usualmente suprimia sua inclinação adquirida pelo Clássico e pelo racional, que tinham uma fascinação dupla para ele por razão de temperamento e profissão filológica, pelo que ele denominou Dionisíaco, ao menos quando ele estava avaliando. Ambos homens eram casos fronteiriços. Assim como Goethe foi o último dos Clássicos, Nietzsche foi, junto a Wagner, o último dos Românticos. Por suas vidas e suas criações eles exauriram as possibilidades desses dois movimentos. Após eles, não era mais possível representar o sentido das eras nas mesmas palavras e imagens - os imitadores do drama clássico e os Zaratustras-dos-últimos-dias provaram isso. Ademais, é impossível inventar um novo método de ver e dizer como o deles. A Alemanha pode muito bem parir mentes formativas impressionantes no futuro; porém, felizmente para nós, eles vão não obstante ser ocorrências isoladas, pois nós chegamos ao fim do grande desenvolvimento. E eles sempre serão sobrepujados pelas duas grandes figuras de Goethe e Nietzsche.

Uma característica essencial do Classicismo Ocidental foi sua preocupação intensa com o mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que buscava controlar impulsos humanos que tendiam em direções opostas, ele tentava fazer com que passado e futuro coalescessem na situação contemporânea. O ditado de Goethe sobre as "Demandas do Dia", seu "presente alegre", implicam afinal que ele invocou vários tipos de figuras e eventos passados - seus Gregos, sua Renascença, Götz von Berlichingen, Fausto, e Egmont - de modo a infundi-los com o Espírito de seu tempo. O resultado é que lendo tais obras como Tasso ou Ifigênia nós não estamos de modo algum conscientes de precedentes históricos. Exatamente o oposto é o caso com os Românticos; seu domínio próprio eram lugares e tempos remotos. Eles almejavam ela fuga do presente para reinos distantes e estranhos, para o passado e para o futuro da história. Nenhum deles jamais teve um relacionamento profundo com as coisas que cercavam-nos.

O Romântico é enfeitiçado por tudo que é estranho a sua natureza, o Clássico pelo que é próprio a sua natureza. Nobres sonhadores por um lado, nobres mestres dos sonhos por outro lado. Um tipo adorava os conquistadores, os rebeldes, e os criminosos do passado, ou os Estados ideais e super-homens do futuro; o outro tipo construiu o estadismo em termos práticos e metódicos ou, como Goethe e Humboldt, até mesmo praticaram-no. Uma das obras-primas de Goethe é o diálogo entre Egmont e Guilherme de Orange. Ele amava Napoleão, pois ele foi testemunha de seus feitos em seu próprio tempo e localidade. Ele nunca foi capaz de recriar artisticamente as personalidades violentas do passado; seu Caesar permaneceu não-escrito. Mas esta é precisamente o tipo de personalidade que Nietzsche adorava - à distância. De perto, como com Bismarck, ele sentia-se repelido. Napoleão também teria repelido-o. Ele teria parecido-lhe rude, superficial, e acéfalo, como os tipos napoleônicos que rodeavam-no - os grandes políticos europeus e os comerciantes pragmáticos que ele nunca viu, nem mesmo compreendeu. Ele precisava de uma vasta distância entre o Então e o Agora de modo a ter um relacionamento genuíno com uma dada realidade. Assim ele criou seu Super-Homem e, quase tão arbitrariamente, a figura de Cesare Bórgia.

Essas duas tendências estão tragicamente presentes na mais recente história alemã. Bismarck era um Clássico da política. Ele baseava seus cálculos inteiramente em coisas que existiam, coisas que ele podia ver e manipular. Os patriotas fanáticos nem amavam-no ou compreendiam-no até que sua obra criativa aparecesse como produto finalizado, até que ele pudesse ser romanticamente transfigurado como um personagem mítico: "O Velho das Florestas Saxãs". Por outro lado, Ludwig II da Bavária, que pereceu como um Romântico e que nunca criou ou mesmo poderia ter criado qualquer coisa de valor duradouro, efetivamente recebeu esse tipo de amor (sem retorná-lo) não apenas do povo em grande medida, mas também de artistas e pensadores que deveriam ter olhado mais de perto. Kleist é considerado na Alemanha com, no máximo, uma admiração relutante que é quase equivalente à rejeição, particularmente naquelas instâncias em que ele foi bem-sucedido em superar sua própria natureza Romântica. Ele é interiormente muito remoto da maioria dos alemães, diferentemente de Nietzsche, cuja natureza e destino foram em muitas maneiras similares à do rei bávaro, e que é instintivamente honrado até mesmo por aqueles que nunca leram-no.

O desejo de Nietzsche pelo remoto também explica seu gosto aristocrático, que era aquele de um completo solitário e de uma personalidade visionária. Como o Romantismo ao estilo de Ossian que originou-se na Escócia, o primeiro Classicismo do século XIX começou no Tâmisa e foi posteriormente levado para o Continente. É impossível considerá-lo à parte do Racionalismo do mesmo período. Os classicistas engajavam em um ato de criatividade conscientemente e deliberadamente; eles substituíam imaginação livre com conhecimento, às vezes até mesmo com erudição acadêmico. Eles entendiam os gregos, a Renascença, e inevitavelmente também o mundo das questões contemporâneas ativas. Esses classicistas ingleses, todos eles de alto nível social, ajudaram a criar o liberalismo como uma filosofia de vida como era entendido por Frederico o Grande e seu século: a ignorância deliberada das distinções que eram sabidas existirem na vida prática mas que eram em todo caso não consideradas como obstáculos; a preocupação racional com questões de opinião pública das quais não poderia-se nem livrar-se ou apagar, mas que de algum modo tinham que ser tornadas inofensivas. Esse classicismo de classe alta deu origem à democracia inglesa - uma forma superior de tática, não um programa político codificado. Ele era baseado na longa e intensiva experiência de um estrato social que habitualmente lidava com possibilidades reais e práticas, e que nunca esteve sob risco de perder sua congenialidade essencial.

Goethe, que também era consciente de seu nível social, jamais foi um aristocrata no sentido apaixonado e teórico - diferentemente de Nietzsche, que carecia da habitualidade de uma experiência prática regular. Nietzsche jamais tornou-se familiarizado com a democracia de seu tempo em toda sua força e fraqueza. Certamente, ele rebelou-se contra o instinto de rebanho com a fúria de sua alma extremamente sensível, mas a causa principal de sua ira deve ser encontrada em algum lugar do passado histórico. Ele era indubitavelmente o primeiro a demonstrar de modo tão radical como em todas as culturas e épocas do passado as massas não contam para nada, que elas sofrem da história mas não criam-na, que eles estão em todos os momentos peões e vítimas da vontade pessoal de indivíduos e classes nascidas para governar. Pessoas já haviam sentido isso muitas vezes antes, mas Nietzsche foi o primeiro a destruir a imagem tradicional da "humanidade" como progresso na direção da solução de problemas ideais através da agência de seus líderes. Aqui está a imensa diferença entre a historiografia de um Niebuhr ou de um Ranke, que como idéia eram similarmente de origem romântico, e o método de visão histórica de Nietzsche. Seu modo de olhar dentro da alma de épocas e povos passados superou a mera estrutura pragmática de fatos e eventos.

Porém tal técnica necessitava de distância. O classicismo inglês, que produziu o primeiro historiador moderno da Grécia em George Grote - um comercianete e político prático - era algo exclusivo da alta sociedade. Ele enobrecia os gregos considerando-os como pares, apresentando-os no mais verdadeiro sentido da palavra como seres humanos distintos, cultivados, intelectualmente refinados que em todo momento agiam "com bom gosto" - mesmo Píndaro, poeta que a escola inglesa de filologia clássica foi a primeira a preferir acima de Horácio e Virgílio. Dos círculos mais altos da sociedade inglesa, esse classicismo entrou nos únicos círculos correspondentes na Alemanha, as cortes dos pequenos principados, onde os tutores e sacerdotes agiam como intermediários. A atmosfera cortesã de Weimar era o mundo no qual a vida de Goethe tornou-se o símbolo da convivalidade alegre e da atividade propositada. Weimar era o centro da Alemanha intelectual, um lugar que oferecia satisfação calma em um grau desconhecido por qualquer outro escritor alemão, uma oportunidade para crescimento harmonioso, amadurecimento, e envelhecimento que era clássico em um sentido especificamente alemão.

Próxima a essa carreira há outra, que também terminou em Weimar. Ela começou na reclusão da casa de um pastor protestante, o berço de muitas senão da maioria das grandes mentes alemãs, e alcançou seu ápice na solidão ensolarada de Engadin. Nenhum outro alemão jamais viveu uma existência privada tão apaixonada, completamente distante de toda sociedade e publicidade - apesar de todos os alemães, mesmo se eles são personalidades "públicas", possuem um desejo por essa solidão. Seu desejo intenso por amizada foi em última análise simplesmente sua inabilidade de liderar uma vida social genuína, e assim era mais uma forma espiritual de solidão. Ao invés da amistosa "casa de Goethe" em Weimar, nós vemos as tristes e pequenas casas-de-campo em Sils-Maria, a solidão das montanhas e do mar, e finalmente um colapso solitário em Turim - foi a carreira mais profundamente romântica que o século XIX já ofereceu.

Não obstante, sua necessidade de comunicar-se era mais forte do que ele mesmo acreditava, muito mais forte em qualquer medida do que a de Goethe, que era um dos homens mais taciturnos apesar da vida social que cercava-o. As Afinidades Eletivas de Goethe é um livro secreto, para não falar em Os Anos de Viagem de Wilhelm Meister e Fausto II. Seus poemas mais profundos são monólogos. Os aforismas de Nietzsche jamais são monólogos; nem e Canção da Noite e os Ditirambos de Dionísio completamente monólogos. Uma testemunha invisível está sempre presente, sempre observando. É por isso que ele permanecem em todos os momentos um Protestante. Todos os românticos viveram em escolas e círculos sociais, e Nietzsche inventou algo do tipo imaginando que seus amigos eram, como ouvintes, seus pares intelectuais. Ou novamente, ele criou no passado remoto e no futuro um círculo de íntimos, apenas para reclamar com eles, como Novalis e Hölderlin, de sua solidão. Toda sua vida foi preenchida com a tortura e prazer da renúncia, do desejo de render-se e de forçar sua natureza interior, de amarrar-se de alguma maneira a alguma coisa que sempre provou-se ser estranha a ele. Porém foi assim que ele desenvolveu um entendimento da alma das épocas e culturas que jamais revelariam seus segredos a mentes clássicas e seguras.

Esse pessimismo orgânico de seu ser explica as obras e a sequência na qual elas apareceram. Nós que não fomos capazes de experimentar o grande florescimento do materialismo em meados do século XIX jamais deveríamos cessar de ficarmos assombrados com a audácia que foi posta na escrita, em tão tenra idade e contrariamente às opiniões do academicismo filológico contemporâneo, de O Nascimento da Tragédia. A famosa antítese de Apolo e Dionísio contém muito mais do que até mesmo o leitor médio de hoje pode compreender. A coisa mais significativa sobre aquele ensaio não foi que seu autor descobriu um conflito interior na Grécia "Clássica", a Grécia que havia sido a manifestação mais pura da "humanidade" para todos os outros exceto talvez Bachofen e Burckhardt. Mais importante ainda foi que mesmo naquela idade ele possuía a visão superior que permitia-lhe perscrutar dentro do coração de culturas inteiras como se elas fossem indivíduos vivos, orgânicos. Nós precisamos apenas ler Mommsen e Curtius para notar a tremenda diferença. Os outros consideravam a Grécia simplesmente como a soma das condições e eventos ocorrendo dentro de um certo período do tempo e do espaço. Nosso método presente de olhar para a história deve sua origem, mas não sua profundidade, ao Romantismo. Nos dias de Nietzsche, a história, no que concernia Grécia e Roma, era pouco mais do que filologia aplicada, e em relação aos povos ocidentais concernia pouco mais do que pesquisa arquivológica aplicada. Ela inventou a idéia de que a história começou com os registros escritos.

A liberação dessa perspectiva veio do espírito da música. Nietzsche o músico inventou a arte de sentir o próprio caminho no estilo e no ritmo das culturas estrangeiras, à parte de e muitas vezes em contradição com os documentos escritos. Mas que importavam mesmo os documentos escritos? Com a palavra "Dionísio" Nietzsche descobriu aquilo que os arqueólogos eventualmente trouxeram à luz trinta anos depois - o submundo e o inconsciente da Cultura Clássica, e ultimamente a força espiritual que subjaz toda a história. A descrição histórica tornou-se a psicologia da história. O século XIX e o classicismo, incluindo Goethe, acreditavam em "cultura" - uma única, verdadeira, mental e moral cultura como a tarefa de uma humanidade unificada. Desde o início Nietzsche falou bem naturalmente de "culturas" como fenômenos naturais que simplesmente começavam em um certo tempo e lugar, sem razão ou objetivo ou o que seja que uma interpretação demasiado humana pudesse fazer daquilo. "Em um certo tempo" - o ponto foi tornado claro desde o início no livro de Nietzsche de que todas essas culturas, verdades, artes, e atitudes são peculiares a um modo de existência que faz seu aparecimento em u mcerto tempo e então desaparece para sempre. A idéia de que cada fato histórico é a expressão de um estímulo espiritual, que culturas, épocas, estados e raças possuem uma alma como aquela dos indivíduos - esse foi um passo tão grande na análise de profundidade histórica que até mesmo o próprio autor não estava consciente na época de suas verdadeiras implicações.

Porém, uma das coisas que o romântico deseja é escapar de si mesmo. Esse desejo, junto com o grande azar de ter nascido naquele período particular da história, fizeram com que Nietzsche tornasse-se o arauto da mais banal forma de realismo em seu segundo livro, Humano, Demasiado Humano. Esses foram os anos nos quais o Racionalismo Ocidental, após abandonar seus primórdios gloriosos com Rousseau, Voltaire, e Lessing, terminou como farsa. As teorias de Darwin, junto com a nova fé na matéria e na energia, tornaram-se a religião das grandes cidades; a alma foi considerada como um processo químico envolvendo proteínas, e o sentido do universo resumiu-se à ética social de filisteus iluminados. Nem uma única fibra do ser de Nietzsche era parte desses desenvolvimentos. Ele já havia dado vazão a seu desprezo na primeira de suas "Considerações Intempestivas", mas o acadêmico nele invejava Chamfort e Vauvenargues e sua leveza e às vezes cínica maneira de tratar tópicos sérios no estilo do grand monde. O artista e o entusiasta nele estavam perplexos pela sobriedade massiva de um Eugen Dühring, que ele confundiu com verdadeira grandeza. Caráter sacerdotal que ele era, ele precedeu a desmascarar a religião como um pré-conceito. Agora o objetivo da vida era o conhecimento, e o objetivo da história tornou-se para ele o desenvolvimento da inteligência. Ele disse isso em um tom de ridículo que servia para aguçar sua própria paixão, precisamente porque era doloroso fazê-lo, e porque ele sofria do desejo insatisfeito de criar em meio a seu próprio tempo uma imagem sedutora do futuro que contrastasse com tudo em que ele nasceu.
Enquanto o utilitarismo extático da escola darwinista era extremamente remoto em relação ao seu modo de pensar, ele tomou dela certas revelações secretas com as quais nenhum darwinista jamais sonou. Em Aurora e A Gaia Ciência apareceram, em adição a uma maneira de olhar para as coisas que pretendia ser prosaica e mesmo desdenhosa, outra técnica de examinar o mundo - uma atitude restrita, quieta, e admiradora que penetrou mais profundamente do que qualquer mero realista poderia esperar alcançar. Que, antes de Nietzsche, jamais havia falado da mesma maneira da alma de uma era, de um estado, uma profissão, do sacerdote e do herói, ou do homem e da mulher? Quem jamais foi capaz de resumir a psicologia de séculos inteiros em uma fórmula quase metafísica? Quem jamais havia postulado em história, ao invés de fatos e "verdades eternas", os tipos da vida heróica, sofredora, visionária, forte, e doentia como a substância atual dos eventos como eles ocorrem?

Esse era um tipo completamente novo de formas vivas, e somente poderia ter sido descoberto por um músico nato com um sentimento para ritmo e melodia. Seguindo essa apresentação da fisionomia das eras da história, uma ciência da qual ele foi e sempre será o criador, ele alcançou os limites exteriores de sua visão para descrever os símbolos de um futuro, seu futuro, que ele precisava de modo a ser limpo do resíduo da história contemporânea. Em um momento sublime ele conjurou a imagem do Eterno Retorno, como ela havia sido vagamente apresentada por místicos alemães na Idade Média - um círculo sem fim no vácuo eterno, na noite das eras incomensuráveis, um modo de perder a própria alma completamente nas profundezas misteriosas do cosmo, independentemente de tais coisas serem cientificamente justificáveis ou não. No meio dessa visão ele posicionou o Super-Homem e seu profeta, Zaratustra, representando o sentido incarnado da história humana, em toda sua brevidade, no planeta que era seu lar. Todas essas três criações eram completamente distantes, impossíveis de relacionar com condições contemporâneas. Por essa própria razão elas exerceram uma curiosa atração sobre cada alma alemã. Pois em cada alma alemã há um lugar no qual sonhos são sonhados de ideais sociais e de um futuro melhor para a humanidade. Goethe carecia de tal canto em sua alma, e é por isso que ele nunca tornou-se um personagem realmente popular. O povo sentia essa carência, e assim eles chamavam-no de arredio e frívolo. Nós jamais superaremos esse nosso devaneio; ele representa dentro de nós a porção não vivida de um grande passado.

Uma  vez tendo chegado a seu ápice, Nietzsche apresentou a questão sobre o valor do mundo, uma questão que acompanhava-o desde a infância. Fazendo-o ele pôs fim ao período da filosofia ocidental que havia considerado os tipos do conhecimento como seu problema central. Essa nova questão similarmente tinha duas respostas: uma resposta clássica e uma romântica ou, para colocá-lo nos termos do tempo, uma resposta social e uma aristocrática. "A vida possui valor na mesma medida em que serve a totalidade" - essa era a resposta dos ingleses educados que haviam aprendido em Oxford a distinguir entre o que uma pessoa afirmava como sua opinião e o que a mesma pessoa fazia em momentos decisivos como um político ou comerciante. "A vida é mais valiosa, quanto mais fortes forem seus instintos" - essa foi a resposta dada por Nietzsche, cuja própria vida era delicada e facilmente afetada. Seja como for, pela mesma razão que ele era remoto da vida ativa ele era capaz de compreender seus mistérios. Sua compreensão última da história real era que a Vontade de Poder é mais forte do que todas as doutrinas e princípios, e que ela sempre fez e sempre fará a história, não importa o que outros possam provar ou pregar contra isso. Ele não preocupava-se com a análise conceitual de "vontade"; para ele a coisa mais importante era a imagem da Vontade ativa, criativa, destrutiva na história. O "conceito" de vontade dava lugar ao "aspecto" de vontade. Ele não ensinava, ele simplesmente apontava as coisas: "Assim foi, e assim será." Mesmo que indivíduos teóricos e sacerdotais queiram mil vezes diferentemente, os instintos primordiais da vida ainda assim emergerão vitoriosos.

Que diferença entre a visão de mundo de Schopenhauer e esta! E entre os contemporâneos de Nietzsche, com seus planos sentimentais para melhorar o mundo, e esta demonstração de fatos! Tal realização coloca este último pensador romântico no próprio pináculo do seu século. Nisso nós somos todos seus pupilos, quer queiramos ser ou não, quer saibamos disso ou não. Sua visão já conquistou imperceptivelmente o mundo. Ninguém escreve história mais sem buscar ver as coisas sob sua luz.

Ele assumiu para si avaliar a vida usando fatos como o único critério, e os fatos ensinaram que a vontade mais forte ou mais fraca de vencer determinam se a vida é valiosa ou indigna, que bondade e sucesso são quase mutuamente exclusivas. Sua imagem do mundo alcançou sua culminação com uma magnífica crítica da moralidade na qual, ao invés de pregar moralidade, ele avaliou as moralidades que surgiram na história - não segundo qualquer sistema moral "verdadeiro" mas segundo seu sucesso. Isso foi de fato uma "transvaloração de todos os valores", e ainda que nós saibamos agora que ele declarou inexatamente a antítese entre moralidade cristã e moralidade-mestra como resultado de seu sofrimento pessoal durante a década de 1880, não obstante a antítese última da existência humana encontra-se por trás dessa afirmação; ele buscou-a, e sentiu-a, e acreditou que havia capturado-a com sua fórmula.
Se ao invés de "moralidade mestra" nós disséssemos a pratica instintiva de homens que estão determinados a agir, e ao invés de "moralidade cristã" os modos teóricos nos quais pessoas contemplativas avaliam, então nós teríamos diante de nós a natureza trágica de toda a humanidade, cujos tipos dominantes sempre não entenderão, combaterão, e sofrerão um com o outro. Ação e pensamento, realidade e ideal, sucesso e redenção, força e bondade - essas são as forças que jamais virão a termos uma com a outra. Porém na realidade histórica não é o ideal, a bondade, ou a moralidade que prevalecem - seu reino não é desse mundo - mas sim a decisividade, a energia, a presença mental, o talento prático. Esse fato não pode ser descartado com lamentações e condenações morais. O homem é assim, a vida é assim, a história é assim.

Precisamente porque toda ação era estranha a ele, porque ele sabia apenas como pensar, Nietzsche compreendeu a essência fundamental da vida ativa mehor do que qualquer grande personalidade ativa do mundo. Mas quanto mais ele compreendeu, mais timidamente ele recolheu-se de contato com a ação. Nesse modo seu destino romântico alcançou sua realização. Sob a força dessas últimas compreensões, a fase final de sua carreira tomou forma no contraste estrito àquela de Goethe, que não esta estranho à açãom as que considerava sua verdadeira vocação como sendo a poesia, e assim restringiu alegremente suas ações.

Goethe, o Conselheiro Privado e Ministro, o celebrado ponto focal do intelecto europeu, foi capaz de confessar durante seu último ano de vida, no ato final de seu Fausto, que ele olhava para sua vida como tendo alcançado realização plena. "Espere agora, tu és tão bela" - essa é uma frase expressiva da mais prazeirosa saciedade, falada no momento em que o trabalho físico ativo está completo sob o comando de Fausto, para perdurar agorar e para sempre. Foi o grande e último símbolo do Classicismo para o qual essa vida havia sido dedicada, e que levou da educação cultural controlada do século XVIII para o exercício controlado do talento pessoal do século XIX. 

Porém, não pode-se criar distância, apenas pode-se proclamá-la. Tanto quanto a morte de Fausto trouxe uma carreira clássica a um fim, a mente do mais solitários dos vagantes desapareceu com uma maldição sobre sua idade durante aqueles misteriosos dias em Turim, quando ele testemunhou as últimas névoas desaparecem de sua imagem do mundo e dos picos mais altos clarearem em suas vistas. Esse episódio final enigmático de sua vida é a própria razão pela qual a existência de Nietzsche tem tido uma forte influência sobre o mundo desde então. A vida de Goethe foi uma vida plena, e isso quer dizer que ela trouxe algo à completude. Incontáveis alemães honrarão Goethe, viverão com ele, e buscarão seu apoio; mas ele não pode jamais transformá-los. O efeito de Nietzsche é uma transformação, pois a melodia de sua visão não terminou com sua morte. A atitude romantica é eterna; ainda que sua forma possa às vezes estar unificada e completa, seu pensamento nunca é. Ele sempre conquistará novas áreas, ou destruindo-as ou mudando-as radicalmente. O tipo de visão de Nietzsche passará tanto a amigos como a inimigos, e estes por sua vez transmitir-lhe-ão a outros seguidores e adversários. Mesmo que algum dia ninguém mais leia suas obras, sua visão perdurará e será criativa.

Sua obra não é parte de nosso passado para ser aproveitada; é uma tarefa que faz de nós todos servos. Como uma tarefa ela é independente de seus livros e seu tema, e assim um problema do destino alemão. Em uma era que não tolera ideais outromundistas e vinga-se de seus autores, quando a única coisa de valor reconhecível é o tipo de ação impiedosa que Nietzsche batizou com o nome de Cesare Borgia, quando a moralidade dos ideólogos e dos melhoradores do mundo é limitada cada vez mais radicalmente do que nunca a escritos e discursos supérfluos e inócuos - em tal era, a não ser que aprendamos a agir conforme a história real quer que ajamos, nós cessaremos de existir como povo. Nós não podemos viver sem uma forma de sabedoria que não console meramente em situações difíceis, mas ajude a escapar delas. Esse tipo de sabedoria dura faz seu primeiro aparecimento no pensamento alemão com Nietzsche, apesar do fato de que estava mascarado em pensamentos e impressões que ele havia reunido de outras fontes. Para o povo mais esfomeado de história em todo o mundo, ele mostrou a história como ela realmente é. Sua herança é a obrigação de viver a história da mesma maneira.

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