domingo, 21 de agosto de 2011

Knut Hamsun

por Alain de Benoist


Knut Hamsun é um mistério. Enquanto quase todos os seus trabalhos foram traduzidos para o Francês; enquanto houve algumas adaptações para o cinema e televisão; enquanto – diferentemente de tantos outros –, seus livros não são “nem antiquados, nem obsoletos” (Hubert Nyssen), ele ainda é ignorado pelo público francês.

O Laureado pelo premio Nobel de literatura em 1920, muitas vezes comparado a Dickens, Ibsen ou Gorky, Knut Hamsun não foi, contudo, meramente o renovador da linguagem Norueguesa e o grande escritor Norueguês do século 20 – o que já é muito. Em seu Prefácio à edição Americana de Fome, Issac Bashevis Singer (que traduziu Victoria para o Yiddish), escreveu que “toda a literatura moderna deste século encontra sua fonte aqui”.

É por este motivo que ele foi saudado e admirado por autores tão diferentes, como Thomas Mann, Henry Miller, Octave Mirbeau, André Gide, John Galsworthy, André Breton, H. G. Wells, Bertold Brecht, Franz Kafka, Robert Musil, D. H. Lawrence, ou Jean Paulhan.

Knut Hamsun, é verdade, foi um inimigo do mundo moderno. Uma das grandes constantes de seu trabalho é a profunda aversão pelo burguês. Desde o começo, seu realismo lírico foi dirigido contra a sociedade industrial, a modernidade urbana e capitalista e o reino do dinheiro. Mas, estaria errado aquele que vê nele um novelista “populista”, ou um simples enaltecedor da terra “que não mente”.

Para ele, a natureza é um recurso concedido. Mas é uma natureza selvagem, tão selvagem quanto podem ser as bestas e o homem. Seu estilo narrativo, herdeiro das tradições orais, é um na qual a natureza, a paisagem e os próprios objetos inanimados, longe de interpretarem um papel decorativo, interagem com comportamentos, sentimentos e idéias. Pode-se ver isso claramente em Pan, esta grande história de amor que exalta a união íntima do coração e a natureza, por fazê-las duas expressões da mesma realidade.

“Eu sou realista no mais alto senso do termo”, disse Knut Hamsun, “isto é, eu mostro as profundezas do coração humano”. De fato, ele queria retratar “a vida inconsciente da alma inteira”; e é por isto que, desde o começo, ele retrata a vida interior com uma extraordinária riqueza e complexidade. Sem dúvidas, este foco é o mais alheio ao mundo contemporâneo, onde os seres são motivados apenas por razões externas. Ele mesmo esteve em milhares de locais representantes do narcisismo atual. Inconformista, indiferente às honras, ele fugiu de sua casa em seu aniversário para escapar da curiosidade do público. Seu gosto o atraiu para as pequenas comunidades rurais, tais como aquelas das ilhas Lofoten, tão queridas à sua infância. É por isso que Henry Miller o descreveu como um “marginal, um vagabundo, um rejeitado, um rebelde irredutível, um inimigo implacável do estabilishment... um aristocrata do espírito”.

Seus personagens dificilmente são movidos pela indignação social ou o engajamento, mas por uma tensão interior, uma exigente complexidade que se deve à sua própria natureza de exceções. Eles não são homens comuns e também não são heróis. Longe de serem apenas parte de um elenco, nesta precisa extensão eles (sem reconhecer o fato) pertencem a uma modernidade que gerou mais ansiedades do que liberdades; eles são seres despedaçados, comumente solitários, cheios de dissonâncias e contradições. Sua natureza é inicialmente honesta e orgulhosa, mas eles beiram o abismo e as dificuldades nas quais se encontram são, algumas vezes, intransponíveis.

O próprio Knut Hamsun, aos 15 anos, embarcou em uma vida difícil e aventurosa, “temperada pelo infortúnio” (Octave Merbeau), cheia de sofrimento e depravações, que o levaram a uma America desapontadora, onde ele pode tomar uma medida completa do novo mundo que foi prometido.

Pode-se, certamente, falar de uma “visão negra” no oeuvre [obra] de Hamsun. Mas seria muito apressado explicar isso como um tipo de pessimismo Escandinavo, produto dos Fiordes perolados Nórdicos e as noites sem sono do verão boreal. Nas novelas de Hamsun, o amor e a sensualidade estão sempre presentes. Hamsun ama tudo aquilo que o cerca, tudo o que tenha significância; tanto que não é exagerado dizer que o amor é o verdadeiro coração de sua escrita.

Mas este amor é inseparável de uma visão trágica, pois seus personagens sempre se deparam não somente contra seus próprios limites, mas também contra as mentiras e a inautenticidade. Como em Victoria, onde os amantes são pervertidos por uma sociedade na qual as carícias destroem seus corpos ou, como em Benoni e Rosa, onde o amor é uma força cruel, sob cujo poder os corações raramente estão em acordo.

O amor, além disso, é inseparável do ódio, assim como a alegria e a vontade não podem ser separadas da consciência clara e da finitude humana. Em Hamsun, os sentimentos opostos estão baseados um no outro, sem nunca se solidificarem, no sentido que as eras da vida seguem-se uma à outra com o ritmo das estações. A Complementaridade dos opostos.

Nascido em 1859, Knut Hamsun morreu em 1952. Um Germanófilo desde os tempos de Bismarck, que permaneceu assim durante toda a sua vida. Isto foi o suficiente, em 1945, aos 86 anos, para merecer um destino comparável ao de Ezra Pound: condenado a pagar ao estado uma multa que o reduziu à pobreza, ele foi internado em um hospital psiquiátrico por ter “colaborado”.

Até hoje, nem uma rua, nem um prédio publico tem o seu nome na Noruega, onde ele nunca foi o motivo de um selo comemorativo.

Hamsun, contudo, não foi um político, mas um músico das palavras. “A linguagem”, ele disse, “deve cobrir toda a gama da música”; o escritor está sempre em busca da “palavra que vibra”, o termo exato “que pode render meu coração até que eu soluce, por sua precisão”. É por isso que ele não escrevia de “ânimo leve”, mas, ao contrário, com dificuldade, com dor. Para ele, a escrita era uma forma de permanecer vivo.
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Notas:

[1] Editorial da edição da revista Nouvelle Ecole (2006) dedicada a Knut Hamsun.

[2] Este ensaio foi publicado em 2006. Em 2009, no 150º aniversário de seu aniversário, Knut Hamsun foi honrado, na Noruega, com um selo comemorativo. Vários espaços públicos e edifícios foram, também, nomeados em sua honra.

Fonte: Counter-Currents Publishing

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