quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Giorgio Locchi - A Essência do Fascismo como Fenômeno Europeu

por Giorgio Locchi


Sou um homem de escrita, não um orador. Falar em público é para mim uma tarefa temível e sempre desagradável. Esta tarefa é hoje, em meu caso, mais desagradável que o habitual, porque, estando entre os últimos em tomar a palavra, sei que direi coisas que alguns não compartilham. Ademais, tenho a convicção de possuir, em relação aos oradores e autores das intervenções que me precederam, um singular privilégio ao comemorar e ilustrar a obra de Adriano Romualdi; e ter privilégio é algo que não me agrada. Este singular privilégio meu é o seguinte. Todos os que falaram até aqui de Adriano Romualdi conheceram-no pessoalmente, ao menos tiveram ocasião de vê-lo, de encontrar-se com ele, de falar-lhe uma ou duas vezes. Tendo-o conhecido vivo, conheceram sua morte: e hoje sabem que morreu e, inevitavelmente, falam dele como morto, como alguém que já não está, ainda quando quiçá continue de algum obscuro modo presente. Eu vivo há vinte e seis anos na França, longe dos assuntos italianos, e não conheci nunca pessoalmente a Adriano Romualdi. E mais: confesso que ignorei totalmente sua existência até há quatro ou cinco anos quando apresentaram-me sua obra um grupo de jovensi talianos que havia vindo a Paris buscando idéias que evidentemente não existiam. Então, pouco a pouco, descobri a obra de Adriano Romualdi e descobri-a, para mim, mais viva que muitos seres vivos, atualíssima. Adriano Romualdi é um pensamento que não cessa de falar-me e ao qual eu respondo. Celebrando a Adriano Romualdi, celebro uma presença viva em meu tempo e, deste tempo, parte integrante.

Alguém, ontem, recomendou "não embalsamar Adriano Romualdi". É uma idéia que, precisamente, nunca poderia vir-me à mente, porque para mim Adriano Romualdi está vivo; e não embalsama-se aos vivos. E deixem-me dizer-lhes, cruamente, que, a meus olhos, o rechaço a "embalsamar" Romualdi resulta uma idéia extremamente suspeita. Não querer embalsamar algo que tem-se por um cadáver significa, em efeito, querer que este cadáver decomponha-se, feda, e que as pessoas distanciem-se dele. Significa pretender que a obra de Romualdi teve seu tempo, que está superada e seria por conseguinte um erro grave sacralizá-la, impedindo os vivos de superá-la, ir mais além. Por trás deste modo de pensar e sentir não há somente, malignamente ativo, esse cego preconceito progressista que para nós, penso, deveria ser estranho. Existe também, e acima de tudo, um plano para relegar a um passado definitivamente morto uma obra e um exemplo de ação que, ontem como hoje, não cessam de incomodar profundamente e de incomodar, em particular, a certos jovens, ou que pretendem-se tais, que fizeram uma religião do êxito e do êxito na sociedade de hoje tal qual é.  Não por nada, um destes jovens há pouco encontrava, candidamente, uma razão para condenar o fascismo justamente no fato de que este não havia tido êxito, de que havia perdido. E o belo do caso é que este jovem sem dúvida também queria assumir valores trágicos e heróicos ao mesmo tempo...

Sim, Romualdi incomoda e não deixa de incomodar por duas razões fundamentais. A primeira razão consiste em que ele é, na ação e no pensamento, um exemplo raro e quase único de coragem. Empenhado em uma carreira universitária, comprometido politicamente, teve a coragem de não entrincheirar-se astutamente por trás de uma máscara, de não ter querido sair, com palavras ou com fatos, do chamado túnel do fascismo. Ele, ao contrário, proclamou-se abertamente fascista e reconheceu-se precisamente dentro da forma do fascismo mais comprometida aos olhos do mundo de hoje e do sistema no qual vivemos. Porém os exemplos vivos de coragem, pelo demais, são a coisa mais incômoda e mais irritante para quem não tem. Romualdi molesta portanto por outra razão não menos importante: por causa de sua honestidade intelectual, também ela exemplar. Certos adversários do fascismo e inclusive alguns amigos afirmaram que o pensamento de Romualdi teria sido configurado pelo "complexo dos vencidos". Porém Romualdi não era e não é um vencido, porque não reconheceu-se e não reconhece-se vencido e sempre continuou, e continua com sua obra, combatendo por seus ideais. Vencido é aquele ao qual a derrota obriga a pensar e a atuar de outra maneira. Adriano Romualdi não pensou de outra maneira. Simplesmente, constatou uma evidência: a derrota de 1945 havia mudado radicalmente a situação na qual o fascismo devia atuar se todavia queria existir. Precisamente por isto seu pensamento permanece como essencial, e não superado: soube refletir, em sua qualidade de fascista, sobre a nova realidade desenhada em 1945, uma realidade que é, invariavelmente, a realidade de hoje. Romualdi perguntou-se sobre o que deve e pode fazer um fascista em um mundo e em uma sociedade que colocou o fascismo fora da lei. E posto que já os vencedores, convertidos em amos absolutos da palavra, ofereciam uma imagem falsa e deformada do fascismo, ele quis acima de tudo tornar manifesto o quê é o fascismo, de onde vem, o quê significa ser fascista. Ali onde outros, fincando intelectualmente os joelhos, afanavam-se grotescamente em justificar o fascismo segundo as formas morais dos vencedores de 1945, Romualdi teve a honestidade intelectual de dizer e de afirmar claramente que o fascismo é revolta contra o mundo e contra a sociedade em que vivemos, e sua moral é totalmente outra, que é algo portanto que o mundo e a sociedade de hoje não podem aceitar. Quem quer estar de algum modo de acordo com o mundo de hoje e descer ao compromisso e ao diálogo com o sistema, não tem direito a identificar-se com Adriano Romualdi.

Alguém perguntou-se ingenuamente sobre o quê faria hoje Adriano Romualdi, no atual contexto político e cultural, se por ventura estivesse ainda vivo em carne e ossos. A pergunta sugeria retoricamente que Romualdi teria quiçá sofrido uma evolução, mudado de parecer. E sugeria-o partindo do pressuposto, considerado evidente, de que nestes dez anos a situação teria mudado radicalmente e que por conseguinte a reflexão histórica de Romualdi sobre a realidade teria mudado igualmente. Eu considero que a situação é essencialmente a mesma que aquela que a obra de Romualdi afronta. Porém, ainda quando a situação política tivesse mudado, somente mudaria o modo de fazer-se, não já aquele princípio no qual a ação deve inspirar-se. Por outra parte, quando eu falo da obra de Adriano Romualdi e de sua presença viva, refiro-me antes de tudo a sua obra de historiador, a seus estudos sobre o fascismo como fenêomeno europeu.

O fascismo é o que é. Como tudo o que é, pode morrer e sair da história. Porém, historicamente morto ou vivo, permanece para sempre sendo o que é: fascismo. Agora, sobre o fascismo, Romualdi disse verdades essenciais, que permitem adquirir uma consciência mais profunda sobre o que o fascismo é, e que, também, permitem aos fascistas adquirir uma consciência mais profunda sobre o que eles são. É precisamente este aspecto essencial da obra de Romualdi o que eu gostaria de recordar, também porque parece-me que muitos prefeririam esquecê-lo e ignorá-lo. Falar disso resulta fácil para mim, dado que minha concepção e minha visão do fascismo são essencialmente idênticas às dele. Minha afinidade eletiva por Romualdi abarca também os tempos fundamentais de sua investigação e de sua reflexão: o caráter europeu do fenômeno fascista, a origem nietzscheana do sistema de valores do fascismo, a Revolução Conservadora na Alemanha e fora da Alemanha, o redescobrimento dos indoeuropeus e sua função de mito orignário na imaginação fascista.

O primeiro ensinamento fundamental de Adriano Romualdi é que, mais além de diferenças específicas, todos os movimentos fascistas e todas as variadas expressões da Revolução Conservadora (entendida aqui como corrente espiritual) tem uma essência comum. Afirmar a europeidade do fenômeno fascista comporta um imediato aspecto político concernente ao porvir: aos olhos de Romualdi é precisamente na essência do fascismo onde todavia hoje reside a única e exclusiva possibilidade de restitur à Europa um destino histórico.

Adriano Romualdi demonstrou claramente que os movimentos fascistas da primeira metade do século e as distintas correntes filosóficas, artísticas, literárias da chamada Revolução Conservadora tem a mesma essência comum, obedecem a um mesmo sistema de valores, tem uma idêntica concepção do mundo, do homem, da história. Hoje, não obstante, uma nova intelligentsia de direita gostaria de colocar em contradição Fascismo e Revolução Conservadora, da mesma maneria que, por outra parte, a fim de legitimar-se, de certo, no seio do mundo democrático, coloca em paralelo stalinismo e nacional-socialismo, regimes comunistas e regimes fascistas, metendo-os grotescamente no mesmo saco de um mal-definido totalitarismo. O Fascismo, diz esta gente, teria em qualquer caso explorado idéias da Revolução Conservadora, porém desnaturalizando-as e falsificando-as. É pois necessário, justamente no marco desta celebração do pensamento de Adriano Romualdi, reafirmar com força a comum essência do fascismo e da Revolução Conservadora e, a tal objeto, ilustras esta essência e, a sua vez, precisar seu conteúdo.

Romualdi intuiu que a origem do fenômeno fascista era antes de tudo de ordem espiritual, enraizado em um filão específico da cultura européia. E o mais importante: soube reencontrar esta origem na obra de Nietzsche ou, mais exatamente, no sistema de valores propugnado por Nietzsche (e, logo também, em segundo termo, em certos aspectos do romantismo, que anunciam e preparam a obra de Nietzsche). Seu fim prematuro e trágico não permitiram a Adriano Romualdi enquadrar seu pensamento em uma completa visão filosófica da história e definir, assim, de modo exaustivo e preciso a relação genética que media entre a obra de Nietzsche, a Reolução Conservadora e o Fascismo. Há que reconhecer que pôr em evidência esta relação não é tarefa fácil. E não é por uma simples razão, por causa da natureza particular da obra de Nietzsche, que não é uma obra puramente filosófica, quer dizer: de reflexão e sistematização do saber, senão que é também, e acima de tudo, obra poética, sugestiva, criadora, que expressa e dá historicamente vida a um sentimento novo do mundo, do homem e da história. A relação entre comunismo, socialismo e filosofia marxista, teoria marxista, é clara e tangível. Socialistas e comunistas são e dizem-se marxistas, ainda quando depois, fatalmente, cada um deles interprete Marx do seu modo. Contrariamente, no que respeita aos movimentos fascistas, um reclamo explícito a Nietzsche não existe. Em alguns casos, estes reclamam a Nietzsche como a uma fonte entre tantas outras, como um precursor entre outros tantos. Porém também dá-se o caso de movimentos fascistas que ignoram a Nietzsche ou que, desconhecendo-o, creem seu dever rechaçá-lo, em todo ou em parte. Os movimentos fascistas da primeira metade do século são a expressão política, imediata e instintiva, de um novo sentimento do mundo que circula pela Europa a partir já da segunda metade do século XIX. Tem o sentimento de viver um momento de trágica emergência e precipitam-se à ação obedecendo a este sentimento; mobilizam-se politicamente porém, ao contrário que outros partidos e movimentos, não fazem referência a alguma filosofia ou teoria política concretas e assumem mais bem quase sempre um comportamento anti-intelectualista. Os movimentos fascistas coagulam-se por instinto em torno a um programa de ação inspirado por um sistema de valores que opõe-se drásticamente ao sistema de valores igualitarista, que encontra-se na base do democraticismo, liberalismo, socialismo, comunismo. Por outro lado, resulta fácil constatar que, no seio do próprio movimento fascista, personalidades de primeiro nível expressam e defendem filosofias e teorias bastante diferentes, às vezes pouco conciliáveis entre elas e inclusive opostas. A filosofia de um Gentile nada tem em comum com a de Evola; Baumler e Krieck, filósofos e catedráticos, eram nacional-socialistas e nietzscheanos, porém o nacional-socialistas Rosenberg, por sua vez, criticava duramente aspectos destacados do pensamento de Nietzsche. Isto é um fato inegável sobre o qual apoiaram-se e apoiam-se adversários do fascismo para afirmar com intenção denegritória que as referências filosóficas do fascismo, quando existiram, teriam sido grotescamente arbitrárias, ademais de contraditórias, e que por outra parte os movimentos fascistas careceriam de qualquer conteúdo positivo comum desde o ponto de vista filosófico ou teórico. Este é também, como sabe-se, o ponto de vista de um Renzo de Felice, e portanto um ponto de vista que permanece tanto mais atual no presente debate italiano. A argumentação é especiosa, já que para negar uma unidade de essência contrapõem-se filosofias ali onde a unidade está originariamente fundada por um idêntico sentimento-do-mundo. O fascismo pertence a um campo, oposto a outro campo, o igualitarista, ao qual pertencem a democracia, o liberalismo, o socialismo, o comunismo. É este conceito de campo o que permite captar a essência do Fascismo, do mesmo modo que permite captar a essência de todas as expressões do igualitarismo. Isto, Romualdi, havia-o visto perfeitamente, havia afirmado-o de modo bastante claro. Concluindo o breve ensaio prévio a sua antologia de fragmentos nietzscheanos, deixou escrito: "Frente a Nietzsche, separam-se os campos. Para os outros sua intolerável pretensiosidade social e humanitária, a utopia de progresso de uma humanidade de zeros. Para nós a consciência, que Nietzsche deu-nos, sobre aquilo que fatalmente virá: o niilismo! Neste breve fragmento tudo ou quase tudo o essencial fica dito. E fica dito, do modo mais pleno, aquilo que os movimentos fascistas e a Revolução Conservadora devem a Nietzsche: uma consciência historicamente nova, a consciência da chegada fatídica do niilismo, isto é, para dizê-lo com terminologia mais moderna, da iminência do fim da história.

Cristianismo, enquanto projeto mundano, democracia, liberalismo, socialismo, comunismo, pertencem todos ao campo do igualitarismo, do chamado humanismo. Suas filosofias e suas ideologias diferem, porém todas obedecem a um mesmo sistema de valores, todas tem uma mesma concepção do mundo e do homem, todas consciente ou inconscientemente projetam um fim da história e são, por conseguinte, desde um ponto de vista nietzscheano, niilistas negativas. O fascismo é o outro campo, que eu chamei supra-humanista como referência ao movimento espiritual que gerou-o e conforma-o. Romualdi soube pôr de manifesto, com base em seus estudos nietzscheanos, o sistema de valores do campo supra-humanista e fascista. Romualdi é um historiador e interessa-se em um fenômeno político: desde o ponto de vista da política, que é aquele que precisamente interessa-lhe, individualiza e põe de relevo o princípio da ação, e o fim comum a todos os movimentos fascistas. Ele situou o princípio da ação, repito, no sistema de valores propugnado por Nietzsche, e o fim comum no homem novo, isto é na fundação de um novo começo da história, mais além do inevitável fim da história ao qual condenam-nos dois mil anos de cristianismo e de igualitarismo. Tudo isto diz-nos de onde vem o fascismo, o quê quis e o quê quer, qual foi no fundo seu método implícito de ação (que, dito seja entre parênteses, não é outro que o niilismo positivo, que quer fazer tábua rasa para construir, sobre as ruínas e com as ruínas, um mundo novo). Não diz-se, porém, que coisa seja o fascismo, que coisa seja o supra-humanismo que gera-o, sustenta-o e orienta-o. Em uma palavra: não diz-se qual é a essência do fascismo, ainda ressaltando e afirmando que tal essência existe. Romualdi é um historiador, não um filósofo da história. Agora bem, o que seja a essência do fascismo somente a filosofia da história pode dizê-lo, em virtude de uma reflexão sobre a história do fascismo, da mesma maneira que o próprio Romualdi soube, junto a poucos outros, colocá-lo sob a luz.

Eu tentei explicar o que possa ser a essência do fascismo em dois ensaios publicados nos últimos anos: um entitula-se precisamente A essência do fascismo; o outro, mais amplo, está dedicado a Wagner, Nietzsche e o mito supra-humanista. (...) Limito-me a resumir do modo mais simples possível o resultado de meus estudos, que podem considerar-se uma continuação e um aprofundamento dos de Adriano Romualdi. A essência do supra-humanismo, como de modo geral, a de toda tendência histórica, há que ser buscada em sua fundamental concepção do mundo, do homem e da história. Esta concepção, que antes de ser tal nasce como imediato sentimento e imediata intuição, está intimamente ligada ao sentimento e à concepção do tempo da história. O tempo da história é um argumento que a primeira vista pode parecer extremamente árduo, porém de fato é uma noção que todos possuem, inclusive sem dar-se conta disso. O mundo antigo tinha uma concepção cíclica do tempo da história, considerava que todo momento da história estivesse destinado a repetir-se. O tempo mesmo da história era representado como um círculo, tinha natureza linear. Com o cristianismo nasce um novo sentimento do mundo, do homem, do tempo da história. Este tempo da história permanece linear; porém já não é circular, senão mais bem segmentário, mais exatamente parabólico. A história tem um início, um apogeu, e um fim. E não repete-se. Por outra parte, à história atribui-se um valor negativo: provocada pelo pecado original, a história é atravessada por um vale de lágrimas. A vinda do Messias, apogeu da história, põe em marcha a redenção, isto é, a liberação do homem do destino histórico, o apocalipse, a chegada final de um eterno reino celestial. Esta concepção da história, mítica no cristianismo, será posteriormente ideologizada e, enfim, teorizada pelo marxismo; porém segue sendo em seus traços essenciais a mesma: no lugar do pecado original, encontramos em Marx a invenção da exploração da natureza e do homem por parte do próprio homem; a luta de classes e a alienação que constituem a travessia do vale de lágrimas, a vinda do Messias faz-se mundana na vinda do proletariado organizado do partido comunista e socialista; o Reino dos Céus devém reino da liberdade, no qual é abolida a luta de classes e, por sua vez, a própria história (que Marx chama pré-história).

A concepção supra-humanista do tempo não é já linear, senão que afirma a tridimensionalidade do tempo da história, tempo indissoluvelmente ligado a aquele espaço unidimensional que é a consciência mesma de toda pessoa humana. Cada consciência humana é o lugar de um presente; este presente é tridimensional e suas três dimensões, dadas todas simultaneamente como são dadas simultaneamente as três dimensões do espaço físico, são a atualidade, o devindo, o porvir. Isto pode parecer abstruso, porém somente porque há dois mil anos estamos habituados a outra linguagem. De fato, a descoberta da tridimensionalidade do tempo, uma vez produzida, revela-se como uma espécie de ovo de Colombo. Em efeito, o que é a consciência humana, enquanto lugar de um tempo imediatamente dado a cada um de nós? É, sobre a dimensão pessoal do acontecido, memória, quer dizer, presença do passado; é, sobre a dimensão da atualidade, presença de espírito para a ação; é, sobre a dimensão do porvir, presença do projeto e do fim perseguido, projeto e fim que, memorizados e presentes no espírito, determinam a ação em curso.

Esta concepção tridimensional do tempo é a única que pode logicamente afirmar a liberdade do homem, a liberdade histórica do homem.

Na visão cristã, a história do homem está predeterminada pelo plano divino, pela chamada providência; na marxista, pela lei materialista da economia, da qual os homens podem somente tomar consciência. Nestas concepções da história e do homem, a liberdade humana converte-se em realidade em um flatus vocis, no qual o porvir está sempre determinado pelo passado. O sentimento tridimensional do tempo revela que o homem é historicamente livre: o passado não determina-o já, não pode determiná-lo. O que nós chamamos até aqui passado, passado histórico, não existe de fato mais que a condição de ser de algum modo presente e presente na consciência. Em si, enquanto passado, é insignificante ou, mais exatamente, ambíguo: pode significar coisas opostas, revestir valores opostos; e é cada um de nós, desde seu pessoal presente, que decide o que deve ele significar com relação ao porvir projetado. O denominado passado histórico é matéria retornada ao estado bruto, matéria bruta oferecida a cada um de nós para construir sua própria história. Esta ambiguidade do passado oferece-se sempre de modo tanto mais concreto a nossa decisiva significação. Assim, por exemplo, nós somos herdeiros de um mundo europeu, que por sua vez pode ser considerado herdeiro do mundo pagão e daquele semítico-judaico. Sim, desde o presente que é nosso, estas duas heranças revelam-se irreconciliáveis, está em nós decidir qual é nossa verdadeira origem. Adriano Romualdi, digamo-lo como inciso, soube também aqui escolher e decidir clara, serenamente: em favor da origem indoeuropéia, com uma decisão proveniente de seu projeto de porvir europeu.

Poetas, pensadores, artistas, filósofos conservadores-revolucionários e fascistas souberam costumeiramente dar expressão a este instintivo sentimento do tempo tridimensional, ilustrando-o com a imagem da esfera (e não já, repito, com a do círculo).

Este sentimento, ainda quando é quase sempre inconsciente, sustenta o pensamento político e os juízos históricos dos movimentos fascistas e reflete-se de forma imediata em seus vocabulários, junto a uma nova concepção paralela do espaço da história, isto é da sociedade humana. A racionalidade do discurso fascista não pode ser explicada mais que com relação ao princípio que rege-o: e este princípio por outra parte não é senão a tridimensionalidade do tempo da história. Quando o fascismo fala em termos de linguagem recebida, afirma-se conservador (ou reacionário) e simultaneamente revolucionário (ou progressista), precisamente porque estes termos não descrevem já direções opostas do devir no seio de um tempo tridimensional. No fascismo, o reclamo a um passado mítico, escolhido entre outros passados possíveis, coincide com a escolha mesma do projeto do porvir: a escolha do devindo não é outra coisa, por assim dizer, que a memória mesma do porvir projetado e, por sua vez, a atualidade que nele revive, vive e sempre apresta-se a viver. Aqui está também a razão da complicada relação que os próprios pensadores e homens políticos fascistas mantem com a denominada tradição, quando não adquiriram ainda clara consciência do sentimento do tempo que não obstante anima-os. Pois resulta que eles seguem pensando a tradição à qual referem-se como se esta existisse e tivesse significado independentemente da escolha que realizaram. Todo movimento fascista reclamou-se sempre pertencente a uma origem, e com ela, de uma tradição: romanidade no fascismo mussoliniano, germanidade no nacional-socialismo, realeza católica de um catolicismo que é aquele imagináario do deus loiro das catedrais no fascismo maurrasiano, e daí em diante. Se a relação de certos fascistas com a tradição resulta complicada, não é mais, repito, porque não dão-se conta do que entendem por tradição. 

Por outra parte, é fácil constatar que os movimentos fascistas reclamam-se sempre de uma tradição perdida ou quando menos sufocada e em perigo mortal. Isto, pensando-o bem, significa que os movimentos fascistas preferiam de fato, diante de uma tradição afirmada predominante no seio de uma sociedade dada, uma tradição morta ou, em seu defeito, reprimida e condenada a viver subterraneamente, viva somente em um restrito círculo de iniciados. O reclamo fascista da tradição é assim de fato escolha contra a tradição afirmada nas instituições sociais e nos costumes das massas, e é escolha de uma tradição perdida, de uma tradição que em realidade deixou de sê-lo. Precisamente porque a origem escolhida não é já o socialmente afirmado, os movimentos fascistas quando chegam ao poder tornam-se notavelmente pedagógicos com a pretensão de forjar um homem novo de uma tradição vindoura que todavia não é. Adversários do fascismo tem falado a este respeito, cito Hans Mayer, de "detestável confusão do passado e futuro, de nostalgia das origens e utopia do futuro". Porém o que para os adversários do fascismo aparece como detestável desde um ponto de vista ético e desde o ponto de vista da racionalidade, é precisamente a essência do fascismo, é a concepção nova do tempo da história, de um tempo tridimensional no qual passado e futuro, origem e fim histórico, não contradizem-se e opõem-se, senão que ao contrário harmoniosamente juntos constituem, com a atualidade, o presente mesmo da consciência história nova alcançada pelo homem novo fascista.

A concepção supra-humanista do tempo, dizia, torna manifesta a liberdade histórica do homem. Esta liberdade histórica do homem leva ao enfrentamento e à luta no quadro de um destino heróico e trágico ao mesmo tempo. Toda ação histórica em vista de um fim histórico é livre, não depende de outra coisa que de si mesma e de seu êxito, não está escrita, por conseguinte, em nenhuma fatalidade. A história mesma da humanidade é livre, não prédeterminada, porque deriva-se da liberdade histórica do homem.

A história é sempre, em todo seu presente, escolha entre possibilidades opostas. O fim mesmo da história é uma possibilidade, justamente porque o homem é livre em todo momento para escolher contra a própria liberdade, livre para abolir a própria historicidade, livre para pôr fim à história. Esta é a escolha niilista da qual falava Adriano Romualdi na conclusão de seu ensaio sobre Nietzsche, a escolha realizada consciente ou inconscientemente pelo campo igualitarista. A outra escolha é a escolha da própria historicidade humana, escolha, como dizia Martin Heidegger, de uma nova "origem mais originária", que é também uma nova origem da história. Escolher esta possibilidade significa escolher os míticos antepassaos que escolheram em favor da história, e ao mesmo tempo significa querer converter-se nos antepassados de uma humanidade nova, regenerada.

As últimas palavras do ensaio de Adriano Romualdi sobre Nietzsche são uma citação de alguns versos de Gottfried Benn, poeta particularmente estimado por ele. Gostaria, em seu nome, de recordá-las hoje:

"E ao final é preciso calar e atuar
Sabendo que o mundo desmorona
Porém ter empunhada a espada
Para a última hora..."

Calar: porque nosso discurso, fora de nossas catacumbas, é discurso fora da lei. Porém ainda calando atuar em obediência àquele princípio e àqueles ideais que, desde sempre são os nossos.

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